Monthly Archives: junho 2018

Aos empresários do açúcar, candidatos à Presidência não falam sobre obesidade

Agrotóxico, condição de trabalho dos cortadores de cana e concentração de terras tampouco foram abordados por Alckmin, Bolsonaro, Ciro e Marina

Por José Antonio Leite, especial para o Joio

O escritor franco-argelino Albert Camus dizia que a vida é a soma de nossas escolhas. Sejam elas corriqueiras ou fundamentais. Todos os dias, milhões de brasileiros se perguntam se os produtos que compram no supermercado possuem índices elevados de açúcar, sal ou gorduras saturadas que os levarão à obesidade. A mesma incerteza envolve quem decide engolir uma verdura sem saber se traz junto uma bomba de agrotóxico. Embalagens às vezes enganam. O mesmo ocorre com alguns candidatos em época de eleição.

Este ano, em especial, a disputa presidencial parece saturada pelo veneno de uma desconfiança que faz com que os eleitores torçam o nariz quanto à honestidade dos postulantes. Mas uma coisa parece certa: o combate aos malefícios à saúde causados pelos alimentos é um tema descartado dos discursos de campanha.

Pelo menos foi o que demonstraram os convidados pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), entidade que representa os empresários do agronegócio no setor de açúcar e bioetanol, para falar sobre seus planos de governo.

Por omissão, desconhecimento ou medo de perder votos e apoio, a obesidade sumiu dos discursos perante o setor. O controle de agrotóxicos e a concentração de terras, dois dos problemas relacionados ao cultivo de cana, tampouco foram abordados.

O fórum realizado em 18 de junho em São Paulo reuniu oito candidatos às eleições presidenciais. Há boa chance de que saia dessa lista o próximo chefe do Palácio do Planalto: Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede), Aldo Rebelo (Solidariedade), Henrique Meirelles (MDB), Paulo Rabello (PSC) e João Amoedo (Novo).

Todos mediados pelo jornalista William Waack, demitido ano passado da Globo ao ser flagrado em um comentário racista.

Cada um dos principais postulantes, com maior ou menor entusiasmo, se empenhou em parecer confiável ao voto dos usineiros. A começar pelo apoio ao RenovaBio, programa lançado pelo Ministério de Minas e Energia em dezembro de 2016, e que segundo o setor expandiria a produção de biocombustíveis baseada na “previsibilidade, na sustentabilidade ambiental, econômica e social, e compatível com o crescimento do mercado”.

O tom monocórdio dos candidatos marcou igualmente promessas de apoio à agricultura, aos investimentos em tecnologia e ao repúdio à mudança da política de preços dos combustíveis ensaiada na recente greve dos caminhoneiros.

O agronegócio ligado ao açúcar é um setor tão poderoso quanto antigo. Desde o século 16 a cana-de-açúcar se confunde com a história econômica, política e social do Brasil, onde se tornou fonte de riqueza e poder para os portugueses que se estabeleceram primeiramente na Vila de São Vicente, no estado de São Paulo.

Falta de locais para alimentação e dormitório, jornadas exaustivas e problemas de saúde marcam trabalho no setor (Foto: Rodrigo Paiva. MPT)

Daí para frente, quando o plantio da cana mostrou-se um negócio e tanto, os engenhos no Nordeste se multiplicaram às centenas para atender ao apetite dos usineiros e à demanda cada vez maior do mercado europeu. Socialmente, a atividade inaugurou no Brasil a escravidão africana, cujas mazelas se perpetuam até hoje nas mais variadas formas. E tornou paixão nacional o consumo abundante de açúcar, agravado desde o século passado por formulações industriais com teores para lá de elevados.

O setor sucroalcooleiro se enriquece mesmo durante as crises cíclicas da economia. Na safra 2017/2018 as usinas produziram 630 milhões de toneladas de cana de açúcar, o que levou aos cofres dos donos do setor R$ 85 bilhões. No que diz respeito às exportações, segundo o Ministério da Agricultura o negócio do açúcar somou US$ 636 milhões – 7% do total em vendas do agronegócio, cujas exportações totais somaram US$ 96,01 bilhões em 2017, registrando aumento de 13% em relação ao ano anterior.

A Unica mantém uma campanha chamada “Doce equilíbrio”, que contesta os estudos científicos sobre os malefícios do açúcar e apoia-se em alguns nutricionistas para quem a limitação de ingredientes poderia gerar problemas alimentares. O consumo em excesso de produtos com açúcar pode ocasionar obesidade e três dos maiores fatores de mortalidade no mundo ligados a ela: diabetes, doenças do coração e câncer, que podem também estar associadas a outros elementos.

No Fórum Unica, porém, o assunto ficou de escanteio. Candidatos e debatedores se esmeraram em falar sobre logística, subsídios, projetos públicos.

Deixa comigo

Puxando o bloco mais alinhado ao agronegócio, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin prometeu entrar de sola na implementação das impopulares reformas iniciadas por Michel Temer: “Minha proposta é: em 1º de janeiro todas as reformas no Congresso Nacional. Com voto distrital misto e diminuição do número de partidos. E temos que recuperar o Estado planejador, regulador, fiscalizador, com agências reguladoras despartidarizadas para trazer segurança jurídica. Um bom marco regulatório. E a gente poder ter bons investimentos.”

Para demonstrar sua preferência pelo setor, o candidato do PSDB, nascido na cidade paulista de Pindamonhangaba, onde possui uma propriedade rural, classificou o agronegócio como “estratégico” pela suposta importância social e econômica de alimentos e combustíveis, eletricidade e potência ambiental na descarbonização.

“Lá na Fiesp nós fomos os primeiros a assinar o RenovaBio. Vai ser um reconhecedor da importância do setor para a gente poder dobrar a produção de etanol e ajudar o Brasil na questão do petróleo”, afirmou o tucano.

Alckmin provou ser sincero em seu propósito de aliviar o bolso dos empresários: “Fizemos por lei a redução do ICMS, alíquota para o etanol de 12% – isso deu grande estímulo ao motor flex-bio e, em São Paulo, passamos a ter praticamente como combustível o nosso etanol.”

O governo de Alckmin esteve no centro de acusações sobre desonerações fiscais que fizeram com que o estado de São Paulo deixasse de arrecadar em 2015 cerca de R$ 1,2 bilhão. Em meio a dificuldades orçamentárias, a Secretaria Estadual da Agricultura teria perdido recursos para custear assistência técnica rural para as pequenas propriedades e assentamentos. Por conta dos problemas de caixa foram apontados sucateamentos dos institutos de pesquisa agropecuária, muitos com terrenos incluídos em lista de alienação.

A palavra “agrotóxico” não foi pronunciada pelo candidato, que, ao sair do governo para disputar a Presidência, deixou a Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento com apenas 75 servidores para monitorar o cumprimento da legislação do setor. Enquanto não se abre edital para concurso público, estima-se que apenas um fiscal terá de acompanhar o cadastramento de agrotóxicos usados em todo o território paulista.

Pendência histórica, como definiu a professora de filosofia da Unesp Isabel Loureiro em sua obra Agronegócio, resistência e pragmatismo: as transformações do MST, a questão agrária, na qual o setor sucroalcooleiro se insere, é fruto da legalização do latifúndio. “Como sabemos, primeiro com as sesmarias, depois com a Lei de Terras de 1850, foi instaurado no Brasil o regime de concentração fundiária que, aliado à concentração do poder político, caracteriza o país desde a colônia.”

Em 1964, a criação do Estatuto da Terra pela ditadura acaba por manter intacta a estrutura fundiária. “Os militares implantam um modelo econômico de desenvolvimento agropecuário no setor agrícola para acelerar a modernização da agricultura baseada na grande propriedade”, afirma Isabel. Em seguida a isso vem o Programa Nacional do Álcool, o Pró-Álcool, que torna o setor sucroalcooleiro ainda mais poderoso.

Ordem unida

Jair Bolsonaro pode assustar os segmentos mais progressistas da sociedade ao arrastar, como um fantasma, correntes esquecidas no DOI-CODI paulista comandado pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Seu discurso, centrado em machismo, homofobia e belicismo, o faz parecer um Donald Trump dos trópicos.

Ao ritmo de ordem unida, o discurso desse ex-capitão do Exército deliciou boa parte da plateia de usineiros: “Quase tudo está errado no Brasil. Ele precisa de ordem e progresso”, afirmou Bolsonaro antes de ser interrompido por palmas. “É quase aquele paciente que precisamos deixar o dedo e amputar o corpo”, concluiu.

A marcha do candidato prosseguiu serpenteando e atirando para todos os lados. Jurou fidelidade a Deus e à Constituição, e lamentou que os produtores rurais sejam “tratados como bandidos”. Em seguida prometeu acabar com o “terrorismo” do MST e a corrupção: “Tudo é resolvido nos porões do Palácio do Jaburu. Cada um pega isso ou aquilo para satisfazer os seus”.

Bolsonaro falou do céu e das estrelas, e prometeu moralizar o governo colocando militares nos ministérios – entre eles Paulo Pontes (o astronauta brasileiro) no Ministério da Ciência e da Tecnologia.

De volta à Terra, fez uma pausa e olhou a plateia: “Já que aqui o assunto vai ser voltado ao agronegócio, energia, nós não podemos abrir mão de nossa segurança alimentar.” Comida saudável? Nem cheiro. “Todo mundo se preocupa o que os filhos vão comer daqui a pouco. Não podemos vender as nossas terras, o nosso capital de fora, para que nós sabemos que o objetivo é para si, não é para nós. Por exemplo, a China, com 1,4 bilhão de habitantes […] comprando o Brasil. Cadê a nossa inteligência estratégica? Não temos”, disse

Mas ordem e segurança são o pão nosso dos eleitores de Bolsonaro. E ele não os deixa à mingua: mistura pólvora, propriedade privada e açúcar: “A arma defende a liberdade de uma nação. Meu propósito não é armar todo o mundo, mas vamos expandir a posse da arma de fogo”.

Genérica

Associada ao nome de Chico Mendes – ícone da luta dos seringueiros – no início de sua militância, Marina Silva esteve por muitos anos ligada às lutas sociais dos povos da floresta, no Acre, e à criação da CUT e do PT. Assumiu o Ministério do Meio Ambiente em 2003, durante o governo Lula.

Deixou o PT e foi candidata a presidente pelo PV, em 2010. Derrotada nas eleições de 2014, em chapa com o PSB, Marina desgastou-se politicamente com a esquerda ao defender Aécio Neves (PSDB) no segundo turno.

“Gosto da ideia de um Brasil para todos e para cada um. É necessário que tenhamos um ecossistema saudável, onde cada um possa realizar seus sonhos como empreendedor, agente público, como profissional liberal, homem, mulher, jovem”, afirmou.

Sem deixar claro qualquer alinhamento liberal ou estatizante, Marina defendeu um Estado que dê “suporte mobilizador das nossas melhores energias” e pregou “um país economicamente próspero, socialmente justo, politicamente democrático, culturalmente diverso, e ambientalmente sustentável”.

Questionada sobre sua avaliação do RenovaBio, Marina elogiou o programa que, segundo ela, dá conta das questões ambientais e sociais “sem que isso signifique prejudicar o setor”.

Sergio Schlesinger, economista e consultor da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), garante, na obra Biocombustíveis: energia que não mata a fome, que essa produção em monocultivo vem levando à perda de biodiversidade e de áreas de cultivos alimentares.

O estudo também questiona os biocombustíveis como energias limpas, já que os impactos sociais e ambientais da prática da monocultura com uso de agrotóxicos não costumam entrar nessa conta. Também fica de fora a contaminação das águas pela vinhaça, utilizada como fertilizante na produção de cana – para cada litro de etanol produzido são gerados de 10 a 15 litros de vinhaça.

Perante os representantes da Unica, Marina não se inibiu em defender a reforma trabalhista, que, entre outros pontos, passou a desconsiderar o tempo de deslocamento como jornada de trabalho, prejudicando os cortadores de cana e ajudando os usineiros.

“Eu não tenho nenhum problema em fazer uma reforma trabalhista que nos assegure que aqueles que estão hoje na informalidade, que são milhões, possam também ser integrados ao mercado regular de trabalho. O que se pode dizer é que aquilo que não é de obrigação de lei ficará a critério do empregado e do empregador. Não é razoável que se diga que uma mulher grávida tenha que trabalhar em situação de risco”, afirmou.

Duas canoas

Ciro Gomes (PDT) manteve a postura do candidato cujo principal desafio é mostrar-se confiante ao empresariado e acenar a uma parte da esquerda como suposta saída eleitoral caso Lula não possa concorrer ou não consiga transferir seu capital político a um nome do PT.

O pedetista fez um convite ao agronegócio a se juntar a ele num projeto desenvolvimentista que reindustrialize o país e beneficie a todos. “Não conseguiremos isso sem que a iniciativa privada entenda que terá não poderá reverter tendências e assimetrias competitivas sem parceria com o Estado.”

A exemplo de Marina, o candidato do PDT não deixou de acenar com promessas de luz ao programa RenovaBio. Foi o único candidato que, mesmo de forma indireta, apontou uma relação entre meio ambiente e alimentação. “E nessa vantagem eu destaco a bioenergia. O Brasil pode ter um protagonismo global em biocombustível e até em bioeletricidade neste setor. A primeira grande questão é zoneamento econômico ecológico para não rivalizarmos energia com alimentos, que no passado deslegitimou nossa eco-opinião-publica brasileira, o setor sucroalcooleiro de nosso país”, afirmou Ciro.

Quem sabe por conta da desconfiança do agronegócio em relação ao seu perfil, Ciro preferiu flertar com o setor ao se colocar contra intervenções do Estado na política de preços do combustível. “Criamos a Petrobras para dar ao Brasil condições de previsibilidade e estabilidade ante os picos naturais de preços da indústria do petróleo. A demanda dos senhores, legítima como é, é uma política de preços do combustível fóssil que seja a mais alta possível de maneira a incrementar a sua margem. Perdemos 20% da capacidade de usinagem brasileira com essa brincadeira. Eu me proponho a que a Petrobras seja administrada com base em parâmetros profissionais sem roubalheira”, disse.

Como forma de garantir tal parceria, Ciro disse possuir uma estratégia nacional que prestigia muito a bioenergia. “Eu gosto muito de coletivos. Então, eu tenho que ter uma câmara em que a UNICA sente e fique administrando a busca de pontos de equilíbrio que garanta a progressão do setor de biocombustíveis”, afirmou o candidato.

Sai que é suuuuuuua, Anvisa

Equilíbrio entre ataque e defesa é fundamental no debate sobre a colocação de alertas nos rótulos de alimentos. Mas há quem jogue na base do chutão

Pelas barbas do profeta! Acostumada a jogar no ataque, a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia) armou a retranca, apresentou dados imprecisos e caiu em contradição no debate sobre a colocação de advertências nos rótulos. Pode isso, Arnaldo? A regra é clara. Não pode ficar fazendo cera porque atrapalha o espetáculo. O juiz precisa coibir.

O sarceiro se armou depois que a Anvisa manifestou a intenção de adotar alertas para o excesso de açúcar, sal e gorduras saturadas, nos moldes do que faz o Chile desde 2016. De outro lado, as empresas insistem na adoção de um semáforo que já se provou ineficaz.

“O departamento econômico da Abia fez um estudo para estimar o impacto da implementação de um modelo de rotulagem nutricional com alertas, similar ao adotado no Chile”, foi a resposta que a assessoria de imprensa nos enviou. “Esse estudo, de caráter preliminar, demonstrou que a medida poderia resultar em uma perda de aproximadamente 200 mil empregos no Brasil. O cálculo foi desenvolvido com base nas estimativas enviadas por associados da entidade.”

Abrem-se as cortinas. Começa o espetáculo

Pedimos à Abia informações detalhadas sobre o número apresentado inicialmente em reportagem do Correio Braziliense em 8 de junho. A associação não quis ir além da resposta enviada acima, o que repete a estratégia utilizada no Chile, onde não se permitiu acesso às estimativas sobre impactos econômicos da implementação das advertências.

Lá, durante o processo de discussão da medida, também o viés econômico respondeu por boa parte dos argumentos mobilizados. Como o Chile é o único país até aqui que adotou esse padrão obrigatório de rotulagem, gastamos os últimos dias analisando as informações disponíveis para saber se os dados mostrados pela Abia têm procedência.

O exagero nos números em debates regulatórios é uma tática tão comum do setor privado que está documentada em pesquisas. Assim como a indústria do cigarro, as fabricantes de alimentos costumam carregar nas tintas sobre o impacto de medidas adotadas pelo Estado.

A estimativa apresentada publicamente contradiz a própria projeção da entidade em documento encaminhado à Anvisa. Protocolado em 15 de maio, ou seja, menos de um mês antes da reportagem do Correio, e também com base em “estudos preliminares”, indica a perda de 145 mil postos de trabalho – 55 mil a menos. A queda do faturamento anual ficaria em R$ 77 bilhões, ou 12,5%, acompanhada por uma redução de R$ 2,4 bilhões nas exportações. A Abia não explicou ao órgão regulador como chegou a esses números.

Olha a confusão na cozinha!

O Ministério do Trabalho do Chile nos disse que não tem estudos específicos sobre os efeitos da lei, implementada há dois anos. A ABChile, equivalente à Abia, tampouco apresenta dados concretos.

Fomos, então, buscar informações nos relatórios anuais das empresas. Esses documentos são direcionados a acionistas. E, se tem uma coisa que você não pode fazer com acionistas, é mentir. Dá até para enfatizar um dado ou outro, pintar um cenário melhor que o real. Mas não pode ir na base do chutão.

Quem é que sobe?

Comecemos pela campeã. A Coca-Cola tem duas engarrafadoras no Chile.

“Sou grato em afirmar que 2016 se tratou de um bom ano em matéria de crescimento do faturamento”, escreveu o presidente da Coca-Cola Embonor. O volume de vendas avançou no ano de implementação da medida, puxado por bebidas sem gás, em especial sucos, e água.

A empresa foi ligeiríssima em reformular produtos. Em 2016, 70% do portfólio já era de bebidas com pouca ou nenhuma caloria. Em 2017, 79% das vendas foram desses produtos. Sim, o uso de adoçantes cresceu bastante. E é por isso que organizações como o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) defendem que a Anvisa adote uma advertência também para a presença de edulcorantes, substâncias desde sempre envoltas em controvérsia. Isso é assunto para outra hora.

Na Coca-Cola Andina, em 2014, quando os debates ainda estavam em curso, 56% do portfólio receberia selos de advertência, contra apenas 7% atualmente. Isso reforça a capacidade de reinvenção dessas empresas e, portanto, de manter os índices de faturamento e de emprego.

Empresas como Coca-Cola e Ambev estão reforçando as vendas de sucos, chás, água e energéticos, produtos com menos rejeição que os refrigerantes. Isso independe da colocação de selos.

Tanto na Embonor como na Andina, o número de trabalhadores se manteve. Isso em um cenário de recessão e baixo crescimento nos últimos anos no Chile.

Desandou a maionese

O Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil registra 1,8 milhão de postos de trabalho na indústria de alimentos e bebidas. Ou seja, se os cálculos da Abia estiverem certos, estamos falando de uma tragédia, com o corte de mais de 10% das vagas hoje existentes.

Acontece que, como mostram a lógica e o Chile, as pessoas continuam comendo. Elas não morrem! Talvez a gente deva ouvir um especialista para ter certeza, mas parece que o que acontece é que os hábitos de consumo se direcionam a outros alimentos. Ah, vá.

Por outro lado, é evidente que é preciso reduzir o índice de consumo de certos produtos e certos nutrientes. Não dá para as pessoas engordarem pelo resto dos tempos, de modo que em algum momento certas empresas terão de reduzir as margens de lucro. Isso também já vem ocorrendo, na verdade, com ou sem advertências.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) jogou contra o patrimônio e apresentou à Anvisa um estudo da Euromonitor sobre o impacto da lei chilena. A venda de chocolates caiu de 37 milhões de toneladas em 2015 para 32 milhões em 2016. Golaço. O consumo de bolachas doces encerrou uma longa trajetória de crescimento. Dois a zero. Ih, amigo, lá vêm eles de novo. Geleias e néctares, forte queda. Aí é pedir pra tomar. Houve uma troca de margarinas por manteiga. Haja coração!

Tudo é muito recente, de modo que faltam estudos científicos para dimensionar alguns aspectos da mudança. Mas já se sabe que a maior parte da população alterou hábitos alimentares. Há dois tipos de readequação. Uma, para fora do mundo da comida-tranqueira: mais alimentos frescos e pouco processados. Outra, para produtos com menos selos, mas ainda com foco nas prateleiras do supermercado.

Olha o que ele fez, olha o que ele fez, olha o que ele fez

O que é fora de questão é que as empresas de alimentos saudáveis se beneficiaram. A Nita, que vende frutas embaladas e snacks mais saudáveis, registrava uma procura dez vezes maior às vésperas da implementação dos alertas. Isso significa… Empregos.

No Brasil é de se esperar que as pessoas continuem demandando praticidade, o que abre espaço a empresas como a Nita. Também é possível que as feiras e os sacolões vendam mais e demandem mais gente.

Outra tendência clara é a reformulação de produtos. Isso obriga à contratação de mais engenheiros de alimentos.

“A partir de julho, entrada em vigência da lei, a Soprole pôde comprovar um reconhecimento na preferência dos consumidores pelos produtos sem selos, fator que resulta fundamental para explicar o significativo aumento do faturamento no segundo semestre”, registrou uma das principais fabricante de iogurtes do Chile. Essas empresas têm muito sal, açúcar e gordura para cortar, de modo que por alguns anos os engenheiros de alimentos terão diversão garantida.

Deixou o zagueiro no chão

Uma das maiores empregadoras do setor de alimentos no Brasil é a Nestlé, que diz contar com 20 mil funcionários. Tentamos saber o que se deu com essa empresa no Chile, mas não há relatórios financeiros publicados pela filial.

Observamos então o comportamento da Carozzi, também com um portfólio bem diversificado de comida-tranqueira e líder em vários segmentos. O presidente da empresa começa o relatório de 2016 dizendo que a lei “desorienta” o consumidor e “demoniza” a indústria, mas reconhece que o faturamento avançou 7,4%. Em cereais, as vendas avançaram 25%. Em compotas de frutas, 12%. No ano passado, o número de trabalhadores aumentou. Vamos repetir para não haver dúvidas: aumentou.

Que que eu vou dizer lá em casa?

A reportagem do Correio Braziliense traz a palavra da diretora-executiva da Associação Brasileira de Embalagem (Abre), Luciana Pellegrino, que afirmou que as mudanças demandariam tempo e levariam cinco anos.

No Chile, foram doze meses. E dá. Como? Criando empregos. “Em alguns casos, as empresas tiveram de aumentar os turnos na área de pré-prensa e inclusive trazer pessoal adicional aos finais de semana”, registra a Associação de Industriais Gráficos do Chile.

Durante a tramitação e às vésperas da implementação, o setor enfrentou uma maré difícil porque as empresas de alimentos estavam esgotando os estoques de embalagens antigas. Mas, depois, a retomada veio com tudo.

“A resposta que pudemos dar à forte demanda que se gerou depois deste impacto nos permitiu normalizar nosso nível de entrega e inclusive ampliar nossa cota de mercado na segunda metade do ano. A margem de lucro se recuperou de maneira importante”, registra em 2016 a Edelpa Envases del Pacífico, uma das maiores empresas de embalagens do país. No ano passado, igualou o melhor desempenho de sua história.

As empresas de alimentos vivem mudando os rótulos. Sim, uma mudança de todas ao mesmo tempo tem um impacto grande nos órgãos públicos e na indústria gráfica. Mas até nisso os alertas são vantajosos, porque usam menos cores que o semáforo defendido pela Abia e, portanto, têm um custo de implementação baixo.

Agora é fechar o caixão e beijar a viúva

“O louco sistema chileno”, disse o vice-presidente da Abia, Antonio Candido Prataviera Calcagnotto, durante um evento recente na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). “Sou professor universitário. Não vejo nenhum aprendizado naquilo.”

Durante toda a discussão na Anvisa, até a aprovação do relatório, a indústria se manteve em uníssono na tarefa de desacreditar o sistema de advertências.

Agora, perante a possibilidade de derrota, admite que funciona. E muito bem, a ponto de supostamente colocar em risco mais de 10% dos empregos no setor.

Iiiiiiiiiihh! Tá armado o bororó. O presidente da Abia diz que o consumo se reduziu em 20% no Chile, sem redução da obesidade. Calma, amigo. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Obesidade não é que nem treinador de futebol, que cai da noite pro dia.

Os alarmantes índices de obesidade da América Latina começaram a subir na década de 1970, justamente quando produtos ultraprocessados foram se tornando abundantes e cada vez mais baratos. Esses níveis chegaram ao ápice ao longo desse século, quando nos tornamos campeões dos torneios de consumo de salgadinhos, biscoitos e refrigerantes.

A ciência e o conhecimento popular mostram que perder peso é mais difícil que ganhar, como já advertia Roberto Carlos. Não o lateral-esquerdo.

“Amo você assim e não sei por que tanto sacrifício

Ginástica, dieta, não sei pra quê tanto exercício

Olha, eu não me incomodo, um quilinho a mais não é antiestético

Pode até me beijar, pode me lamber que eu sou dietético”

Provavelmente não é a rotulagem, sozinha, que resolverá o problema. Mas nós temos de nos perguntar quantas doenças estão sendo evitadas quando cinco toneladas de chocolate deixam de ser vendidas de um ano para o outro. Independente dos índices de obesidade. Dados futuros irão nos dizer quantas. Enquanto isso, convém manter a bola no chão e valorizar o futebol-arte. Sem chutão.

Pode passar a régua, seu juiz.

No Senado, Receita desmente dados da indústria de refrigerantes

CCJ deve votar nessa quarta projetos que restabelecem incentivos para Coca e Ambev. Números do órgão federal confirmam reportagem publicada no ano passado pelo Joio

A Receita Federal desmentiu dados apresentados pela indústria de refrigerantes em audiência pública no Senado. O subsecretário de Fiscalização, Iágaro Jung Martins, contrapôs as informações sobre empregos criados, concentração de mercado e insegurança jurídica em meio ao debate sobre incentivos a esse setor.

A Comissão de Constituição e Justiça realizou nessa terça-feira (19) audiência pública sobre dois projetos que tentam sustar o Decreto nº 9.394, de 30 de maio de 2018. A medida retira parte dos incentivos dados às empresas que compram concentrados de refrigerantes produzidos na Zona Franca de Manaus.

Na prática, a medida do governo Michel Temer zera a cobrança de créditos em cima de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) ao igualar as alíquotas do concentrado e do refrigerante. O decreto integra o pacote formulado pela equipe econômica para atender às reivindicações da greve dos caminhoneiros.

A Constituição prevê que se possa cobrar créditos em cima de impostos pagos na etapa anterior da industrialização. É uma maneira de evitar que os tributos se acumulem todos sobre o produto final. No caso da Zona Franca, não há cobrança de impostos, mas as empresas de refrigerantes não se intimidam em cobrar os créditos, numa operação há longa data contestada pela Receita. Há ainda suspeitas de superfaturamento.

Os projetos de derrubada do decreto, apresentados por parlamentares com financiamento pelas fabricantes de refrigerantes, serão votados já nessa quarta-feira.

O debate seguiu rumo previsível. Toda a bancada do Amazonas se posicionou contra o decreto, evocando argumentos sobre a importância da Zona Franca para a criação de empregos e a preservação da floresta.

A única convidada a debater o tema do ponto de vista da saúde foi Ana Paula Bortoletto, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável.

Ela recordou a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) de elevar o preço de bebidas adoçadas como uma das medidas para conter a epidemia de obesidade e doenças crônicas. “Apenas informação não garante que as pessoas consigam fazer escolhas alimentares mais saudáveis. É preciso implementar políticas públicas que favoreçam essas escolhas.”

A Receita reforçou argumentos que já haviam sido apresentados em audiência pública em novembro do ano passado na Câmara. Dessa vez, porém, o órgão aduaneiro foi além ao levantar contradições da indústria de refrigerantes.

O subsecretário recordou que o setor chega a dar prejuízo de arrecadação para o governo – em 2016, R$ 767 milhões negativos no IPI. A carga tributária total de uma empresa de refrigerantes que compra concentrados da Zona Franca fica em 4,77%.

No total, o setor tem incentivos de R$ 3,8 bilhões anuais. O valor é praticamente igual ao cálculo apresentado aqui no Joio em reportagem publicada em outubro.

O representante da Receita foi interpelado de maneira exaltada e interrompido algumas vezes pelos senadores do Amazonas, que bateram boca também com colegas de outros estados.

“Eu não aceito essa posição da Receita Federal porque ela não fala em nome dela. Fala em nome do povo brasileiro. E o povo brasileiro não mudou a Constituição”, disse Eduardo Braga (MDB-AM), autor de um dos projetos. Para se eleger, Braga recebeu R$ 140 mil da Arosuco, fabricante de concentrados da Pepsi, e R$ 75 mil da antiga Schincariol, enquanto o diretório estadual angariou outros R$ 50 mil da Recofarma, que fabrica os xaropes da Coca-Cola.

“Não vamos contar uma mentira para o povo brasileiro. Vamos contar uma verdade. Porque a Amazônia merece respeito. O Amazonas merece respeito. E os brasileiros que lá vivem não podem ser tratados como cidadãos de segunda classe.”

A senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) se elegeu em 2010 com R$ 70 mil da Arosuco e o comitê financeiro do partido recebeu outros R$ 150 mil da Recofarma. Ela é autora de outro dos projetos que tentam sustar o decreto presidencial. Durante a audiência, a parlamentar evocou o desenvolvimento da Zona Franca. “Ajuda a resolver o problema tributário do Brasil? Não. Porque é um dinheiro que será retirado da Zona Franca de Manaus para ser repassado às importadoras de diesel.”

O senador Omar Aziz (PSD-AM), com R$ 300 mil da Recofarma na campanha de 2014, afirmou que o governo retirou os incentivos da Zona Franca para resolver uma “crisezinha” e acusou a colega Ana Amélia (PP-RS), responsável pela convocação da audiência pública, de se valer de mentiras. “Agora, o discurso simples, apequenado, de que a saúde vai perder dinheiro, de que a segurança vai perder dinheiro, isso é discurso pequeno”, afirmou.

“Essa discussão aqui não vai mudar a cabeça de senador nenhum. Eu fico preocupado porque se abriu um precedente muito grande. O governo federal não teve uma conduta correta com o povo amazonense. E quando uma pessoa não tem uma conduta correta não pode ter o nosso respeito.”

Alexandre Kruel Jobim, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Refrigerantes e Bebidas Não Alcoólicas, afirmou que os incentivos à Zona Franca são uma política de Estado, e não de governo. E buscou mostrar o decreto do Executivo como uma afronta ao Legislativo.

A exibição dele repetiu a que havia sido feita no ano passado, na linha de dizer que se trata de uma política de desenvolvimento regional, com a criação de empregos locais, e de que são muitas as fabricantes de refrigerantes beneficiadas. A Abir menciona 14 mil postos de trabalho, entre agricultores e funcionários no polo industrial de Manaus.

A Receita fala em 798 empregos diretos, frente a um faturamento de R$ 8,7 bilhões. E contesta os dados sobre a grande quantidade de insumos, como açúcar e guaraná, comprados na região: R$ 215 milhões foram gastos no ano passado. Dividindo pelo número de produtores envolvidos, chega-se a R$ 1.300 por mês, caso se considere que todos os recursos são igualmente distribuídos.

O órgão federal também adotou tom inédito quanto ao número de empresas beneficiadas. A Abir se vale da informação de que são 31 fabricantes instaladas na Zona Franca e que 144 empresas compram o concentrado na região. A Receita informou que 21 estão operando e que, dessas, apenas três concentram 83% das vendas – Recofarma, Arosuco e Brasil Kirin (ex-Schincariol).

“É o primeiro passo para acabar com o pacto que o Estado fez em defender a Amazônia Ocidental”, disse Alexandre Jobim.

Para Iágaro Martins, não faz sentido falar que a mudança promovida pelo decreto coloca em risco todo o modelo da Zona Franca. Ele recordou que apenas a indústria de refrigerantes consegue cobrar créditos em cima de impostos que nunca foram pagos, numa operação contestada pelo órgão desde a década de 1990, como mostramos. “A preocupação com o precedente para os demais setores não tem como ocorrer. É logicamente impossível.”

Foto em destaque: Edilson Rodrigues/Agência Senado.

Anvisa não encontra culpado por vazamento de relatório sobre advertências

Diretor-presidente da agência cobrou investigação depois que a Folha antecipou o teor do documento sobre alertas para excesso de sal, açúcar e gorduras

A Corregedoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não conseguiu determinar o culpado pelo vazamento do relatório do diretor-presidente, Jarbas Barbosa, favorável à adoção de alertas em rótulos de alimentos. A investigação foi aberta a pedido do próprio Barbosa, ao final de maio.

O jornal Folha de S. Paulo revelou o teor do documento dois dias antes da reunião da diretoria colegiada que decidiu pela aprovação.

Na época, associações da indústria de alimentos haviam manifestado insatisfação com o vazamento. E utilizaram o caso para dizer que o processo de discussão estava manchado. As empresas são contra a adoção de advertências sobre o excesso de sal, açúcar e gorduras saturadas.

Procurada, a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia) não se manifestou.

“O julgador entendeu pelo arquivamento do presente feito, por inexistência de autoria cabalmente demonstrada”, diz a resposta da Anvisa, obtida pelo Joio com base na Lei de Acesso à Informação. O comunicado afirma ainda não ser possível saber “da motivação que ensejou esse vazamento”.

Ana Paula Bortoletto, líder do Programa de Alimentação Saudável do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), considera que é importante garantir o “controle e a segurança” da Anvisa sobre o processo. Membro da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, ela recorda que a discussão foi iniciada em 2014 com a formação de um grupo de trabalho que reuniu evidências científicas em torno do assunto.

O relatório apresentado em maio está em fase de tomada pública de subsídios. A Anvisa espera receber contribuições até o começo de julho.

Depois disso, a área técnica da agência deve fazer a primeira versão do texto de resolução a ser aprovado pela diretoria colegiada. Abre-se, então, uma nova fase para ouvir a opinião da sociedade e das empresas. Apenas ao final desse processo o texto final é encaminhado aos diretores, e aprovado ou rejeitado.

A expectativa da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, que reúne organizações não governamentais e pesquisadores, é de contar com um modelo de rotulagem frontal ainda este ano. O grupo apoia o sistema apresentado pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), de triângulos pretos com alertas para o excesso de nutrientes.

O Idec defende que, além de sal, açúcar e gorduras saturadas, existam advertências para o excesso de gorduras e para a presença de gorduras trans e de adoçantes. Esse é o modelo que a Organização Panamericana de Saúde (Opas) considera mais adequado para garantir a proteção das pessoas e desestimular o consumo de produtos ultraprocessados.

No mundo, o Chile foi o primeiro país a adotar um sistema de advertências, em 2016. Na última semana, o Peru publicou um decreto no qual adota os octógonos chilenos, com previsão de implementação em seis meses. O Canadá deve fechar ainda este ano um modelo próprio com o mesmo objetivo. E o Uruguai tem um decreto pronto, mas que ainda não foi publicado.

Peru também terá alertas em rótulos de alimentos

País se soma ao vizinho Chile. Mercosul aprova declaração de ministros da Saúde favorável a advertências

O Peru oficializou a decisão de colocar alertas em rótulos de alimentos. O decreto publicado no último sábado no diário oficial prevê a adoção de advertências para o excesso de açúcar, sal e gorduras saturadas, além de acusar a presença de gorduras trans.

“Essas advertências proporcionam informação simples e de fácil compreensão sobre o conteúdo de nutrientes críticos”, resume o texto, que informa ainda que a decisão foi tomada com base em pesquisas científicas que mostraram o melhor funcionamento desse modelo.

Além do alerta, as empresas terão de exibir a legenda “Evite seu consumo excessivo”, no caso de açúcar, sal e gorduras saturadas, e “Evite seu consumo”, no caso das gorduras trans.

Com isso, o Peru se soma ao Chile, que desde 2016 conta com um modelo próprio. São os únicos países, até aqui, a preverem um sistema de rotulagem frontal obrigatório, embora Brasil, Uruguai e Canadá também estejam no mesmo caminho. Essa medida é uma das que vêm sendo adotadas pelos Estados na tentativa de conter a epidemia de obesidade e doenças crônicas não transmissíveis (diabetes, hipertensão, câncer). A ideia é desestimular o consumo de comida-tranqueira e, por isso, há forte resistência da indústria de ultraprocessados.

O governo de Martín Alberto Vizcarra optou por um modelo igual ao dos chilenos, com a colocação de octógonos pretos na parte superior direita das embalagens. Cada nutriente em excesso receberá um octógono separado.

As empresas terão seis meses para começar a cumprir a medida. Mas, num primeiro momento, os critérios adotados para definir um alimento “Alto em” são flexíveis. Só a partir do segundo semestre de 2021 entram em vigor limites mais estritos.

Para que se tenha uma ideia, pelos critérios iniciais até mesmo alguns macarrões instantâneos e pratos congelados escaparão do selo de excesso de sal. Algumas marcas de biscoito recheado também conseguirão ficar livres do alerta sobre açúcar.

O decreto prevê ainda restrições à publicidade desses produtos. No Chile, uma medida assinada no ano passado pela então presidente Michelle Bachelet proibiu a exibição de anúncios em televisão de qualquer alimento que receba selos. No caso do Peru, não haverá, por ora, essa restrição, mas os fabricantes estão obrigados a informar sobre quais advertências o produto recebe, tanto na TV como na internet e no rádio.

A Organização Panamericana de Saúde (Opas) parabenizou o governo peruano pela medida, vista como “um grande passo adiante na proteção e na promoção da saúde”, que, “sem dúvida, servirá de guia a outros países da região”.

Outros países

O Canadá já encerrou a consulta pública sobre a colocação de alertas nos rótulos. A expectativa é de que a medida seja publicada nos próximos meses.

O Uruguai tem um decreto pronto desde o ano passado, mas pressões da indústria e dos países vizinhos freiam a decisão do presidente Tabaré Vázquez. A alegação é de que os selos poderiam representar uma barreira ao comércio regional.

Porém, uma decisão tomada na última semana pode destravar a decisão do governo uruguaio. Os ministros da Saúde dos países do Mercosul assinaram declaração conjunta prevendo a adoção de modelos de rotulagem frontal. Segundo o Ministério da Saúde brasileiro, a ideia é que os sistemas “alertem” a população sobre o excesso de açúcar, sódio, gorduras totais, saturadas e trans.

No Brasil, a Anvisa já se posicionou a favor das advertências, mas não fechou posição por um modelo específico. A expectativa é de que isso ocorra após a tomada pública de subsídios que está aberta pelo site da agência. Ao longo do segundo semestre, o órgão regulador deve definir um layout dos alertas e os limites de nutrientes para que um alimento seja considerado “Alto em”. A proposta de resolução precisará ser submetida a novas fase de consulta pública antes da votação pela diretoria colegiada.

Obesidade: o ‘empate’ além da Copa do Mundo entre Brasil e Suíça

Philippe Coutinho e Zuber definiram o placar do 1 x 1 na Copa da Rússia; megaempresas de junk food atacam a saúde de ambos os países   

Brasil e Suíça têm pontos surpreendentemente comuns além de um gol para cada lado no empate de domingo (18), por 1 x 1, pela fase de grupos da Copa do Mundo da Rússia. Em termos de problemas alimentares, o país da feijoada tem convergências com o do chocolate mais famoso do globo.

Quando o papo é quem põe grana no jogo e os patrocínios esportivos bilionários por megaempresas que fazem mal à saúde de milhões de pessoas, sejam brasileiros ou suíços, as coincidências são razoáveis. A começar do próprio torneio, as camisas amarela e a vermelha estão sob a égide de marcas como a Coca-Cola e o McDonald’s. As duas companhias de junk food são patrocinadoras da competição há tempos.

A megacorporação de refrigerantes é parceira oficial da Copa da Fifa desde 1978,  mas começou a marcar presença no Mundial em 1950, com anúncios estampados nos estádios da primeira edição disputada no Brasil.

Já o McDonald’s, maior rede de lanchonetes de comida-porcaria do mundo – no Brasil, são 935 unidades das 35 mil espalhadas pelo planeta – financia e lucra com o megaevento desde 1994, pontapé inicial dado na edição sediada pelos Estados Unidos. Patrocinadora do evento esportivo no minimo até 2022, a dona do palhaço Ronald faz as vezes de “restaurante oficial” da Copa, tendo direito a ações promocionais, como selecionar as 22 crianças que entram em campo junto com os jogadores a cada partida.

Eventos como a Copa historicamente engordam os lucros de muitos bolsos: dos mais corruptos diretores da Fifa, como os ex-presidentes da organização João Havelange e Joseph  Blatter, curiosamente, um brasileiro e um suíço, aos da indústria de alimentos ultraprocessados e de junk food que financiam a cccorrupção faz muito tempo. As empresas que bancam a Copa da Fifa gastarão em torno de 1,5 bilhão de dólares só para a realização do torneio na Rússia do homofóbico governo de Vladmir Putin.

Locais e globais     

Em território brasileiro, onde o refrigerante ocupa o sexto lugar na lista dos 20 alimentos mais consumidos por adolescentes, à frente de hortaliças e frutas, jogadores que vestem a camisa da CBF são garotos-propaganda do Guaraná Antártica, da Ambev, companhia de bebidas fundada pelo bilionário brasileiro Jorge Paulo Lemann.

O Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes, divulgado em 2016 pelo Ministério da Saúde em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta 17,1% dos adolescentes brasileiros de 12 a 17 anos com sobrepeso, enquanto 8,4% estão identificados como obesos, com meninos em maior porcentagem: 10,8%. Entre as meninas, o índice de obesidade é de 7,6%.

O estudo mostrou, também, que 56,6% dos adolescentes fazem refeições sempre ou quase sempre em frente à televisão, número maior entre alunos de escolas públicas, fator significativamente associado ao menor consumo de frutas e verduras e ao maior consumo de salgadinhos, doces e bebidas de elevado teor de açúcar.

Apesar desse cenário preocupante, as empresas de comida-porcaria comemoram estatísticas de venda como se fossem gols. Dentro da estimativa de que 3,5 bilhões de pessoas no mundo assistam a pelo menos um dos 64 jogos da Copa da Rússia, o momento é de alegria para o mercado de bebidas no Brasil.

Em 2014, no Mundial disputado por aqui, só o volume vendido pela Ambev subiu 1,4 bilhão de litros em comparação com o torneio de 2010, na África do Sul. Para este ano, a companhia planejou a maior campanha da história em todos os 73 países onde está presente.

“É um momento de consumo que só existe em ano de Copa”, diz Pedro Adamy, diretor de marketing de um dos setores da Ambev.

Por falar em bebidas, entre as marcas identificadas pelos brasileiros como financiadoras da  Copa, a Coca-Cola é a mais citada, com 41% das lembranças, de acordo com dados do Ibope Conecta.

Sempre no ataque 

As corporações atacam as estrelas da seleção sem titubear. Neymar, fã confesso do McDonald’s, que colocou o próprio filho, de seis anos de idade, para fazer propaganda da rede de sanduíches, é a grande aposta das empresas de alimentos ultraprocessados. Ele fechou uma série de contratos publicitários milionários antes da competição, com destaque, óbvio, para a rede de lanches.

“Não adianta apenas patrocinar o evento. É uma guerra para ocupar o espaço relacionado à Copa na cabeça do consumidor”, diz Roberto Gnypek, vice-presidente de marketing do McDonald’s Brasil.

Em 2002, a rede lançou sanduíches temáticos em homenagem a seleções específicas, com duvidosas referências à gastronomia dos países, prática que persiste até hoje.

“Até agora, os resultados estão acima das expectativas. Estamos preocupados que eles (os lanches) acabem dias antes do fim da Copa. Fizemos um planejamento adicional, com a área de suprimentos, para não termos desabastecimento”, afirma um orgulhoso e feliz Gnypek.

Em microbolhas (não que todos não estejamos em alguma bolha hoje em dia), os atletas canarinho parecem não pensar no quanto contribuem à epidemia de obesidade e enfermidades correlatas, como diabetes, hipertensão, problemas cardíacos e até câncer, que causam, numa população de 206 milhões de habitantes, 928 mil mortes anuais por doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), o que soma significativos 73% dos óbitos ocorridos anualmente no país, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Além disso, a situação traz o risco de morte prematura, que é considerado alto: 17%.

Sem festa dos dois lados 

O gol do suíço Zuber não é o único ponto que garante um “empate” da Suíça com o Brasil. O site Swiss Info noticia que uma pesquisa realizada pela Secretaria Federal de Saúde e o Serviço Federal de Veterinária e Segurança Alimentar da Suíça, revelou que 44% dos pesquisados foram considerados com excesso de peso. O estudo, feito em 2016 e chamado de menuCh, mostra que 90% dos entrevistados comem apenas uma fruta ou legume por dia. Dois mil adultos entre 18 e 64 anos participaram das entrevistas.

Os custos com saúde na Suíça são estimados atualmente em 54,3 bilhões de dólares por ano, o equivalente a mais de 150 bilhões de reais. Alimentos considerados muito doces e gordurosos são acusados por pesquisadores do país de causar obesidade, diabetes e câncer, além de doenças cardiovasculares.

Um relatório publicado na pesquisa “Nutrição e Movimento na Suíça”, realizada pelo Observatório Nacional da Saúde, revelou que quase um em cada cinco crianças estava com sobrepeso ou obesidade. A Suíça está entre os 73 países em que o número de pessoas obesas mais do que duplicou nos últimos 35 anos.

Protesto 

Uma campanha divulgada na última semana por uma coalizão de organizações não governamentais indica como a indústria alimentar de ultraprocessados, principalmente a Coca-Cola, patrocina eventos esportivos vendendo a fantasia marqueteira de que é responsável pelo financiamento de atividades físicas, como, aliás, faz sistematicamente em cenários muito menos visíveis do que a Copa do Mundo.

Uma petição para cobrar que a Fifa retire o patrocínio dessas empresas é apoiada no Brasil pela Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, e conta com duas mil adesões.

Anna Glayzer, uma das lideranças da campanha, observa que o uso de jogadores de futebol mira sempre em aliviar a imagem de alimentos com índices elevados de sal, açúcar e gordura, dando a falsa impressão de que os produtos não são prejudiciais à saúde.

Ela enfatiza que o principal impacto negativo ocorre em crianças e adolescentes, normalmente já mais vulneráveis à publicidade, o que piora quando às mensagens saem da boca de ídolos do futebol.

“Quando eles (as crianças e adolescentes) veem os jogadores favoritos publicizando uma bebida altamente açucarada,  associam esse produto com o esporte, com a potência física e até com a saúde“, argumenta.

A campanha tem publicado recomendações e protestos dirigidos a líderes mundiais para reivindicar a proibição ou limitação dos patrocínios de eventos esportivos internacionais pelas companhias e marcas associadas com comida-lixo.

No caso dos mexicanos, estima-se que mais de 70% do açúcar presente na dieta saia de bebidas açucaradas e fast -food, especialmente de refrigerantes. No entanto, depois da criação de um imposto específico sobre esses produtos em 2013, houve uma queda substancial no consumo, essencialmente entre a população mais pobre, que é a parcela mais afetada pela obesidade e doenças crônicas não transmissíveis no país.

Foto em destaque: Agência Brasil   

Saia do sofá, mas não largue o refri, diz a indústria

Trump quer mamar, mesmo que os bebês desmamem

Em assembleia da Organização Mundial da Saúde, governo de Donald Trump ataca em nome das corporações de leite industrializado e desfavorece aleitamento materno       

Junho é cruel com as crianças. O clima seco e frio é uma ameaça constante à saúde dos pequenos. Garganta e ouvidos irritados. Febre. Resultado: pronto-socorro. Em um espaço com dez camas no atendimento de urgência infantil do Hospital e Maternidade Albert Sabin, em Atibaia (SP), todos os leitos estão ocupados. Meninas e meninos de várias idades. Um deles, miudinho, parece não passar de 1 ano. Sentada ao lado da cama, a mãe, olhos cansados, tem uma mochila amarela grande no colo. Também leva uma bolsa preta, menor, pendurada no ombro, na qual enfia a mão esquerda várias vezes e tenta pegar algo, sem sucesso. Ofereço ajuda para segurar a mochila. Ela aceita. Claudia ainda não sabe, mas, além do problema de saúde do filho, ela, de alguma forma, é confrontada por Donald Trump e interesses internacionais peso-pesado.

Enquanto a mulher revira os pertences, reparo em uma lata nada discreta que salta do bolso da frente da mochila do bebê. Em verde e branco, com um verde mais escuro adornando o nome, a embalagem contém 800 gramas de Nestogeno Fórmula Infantil 2, fabricado pela megaempresa suíça Nestlé, uma das marcas mais consumidas no Brasil no segmento “substitutos ao leite materno”.

A mochila não chega a ser um teste para os músculos, mas está estufada. Quem tem filho pequeno sabe que é comum caminhar pra lá e pra cá com roupinhas, fraldas, lencinhos umedecidos – remédios, se necessário – e as famigeradas mamadeiras. É, nestas últimas, que o pó das fórmulas infantis é despejado, compondo uma dupla ruim de bola com o bico de silicone.

Claudia agita um celular azul. Triunfante, encontra o objeto perdido em meio à preocupação com o filho. Ela não disca número algum. Só se certifica de que o telefone está ali. Entre sair do trabalho na correria para pegar Gabriel na creche com febre de 39,5 até o atendimento hospitalar, o tempo passou a mil. E a cabeça está na mesma aceleração.

Continuo com a mala – e a lata – no ombro esquerdo. Começamos uma conversa, que teria tudo para ser o papo típico daqueles que passam com crianças por pronto-socorro. Típico, não fosse o Nestogeno, a minha curiosidade e o governo de Donald Trump.

O garoto se chama Gabriel. Quase acertei a idade. Tem 11 meses.

– Ele ainda mama no peito?

– Não. Só até os quatro meses, infelizmente.

Claudia e Gabriel entraram para a estatística de “bebê com fome, baixa produção de leite, cansaço, fissuras nos mamilos, leite fraco, leite que secou”, algumas das desculpas dadas por profissionais de saúde estimulados pelo agressivo marketing das empresas do ramo para indicar a complementação da alimentação dos lactentes com fórmulas ou até a substituição do leite materno pelo pó enlatado, a exemplo do que ocorreu no caso que testemunho.

“Eu estava com alguma dificuldade para amamentar e voltei a trabalhar, com o fim da licença-maternidade. Sentia muito cansaço, mas queria continuar exclusivamente no peito. Só que o pediatra falou que, cansada do jeito que eu estava, não dava, que tinha que introduzir a fórmula, porque o Gabriel iria dormir melhor, de barriga cheia”, conta Claudia.

A primeira fórmula utilizada pela família foi o Enfamil Premium 1, da corporação estadunidense Mead Johnson, mas, depois de um mês, a função intestinal do menino desregulou e ele chegava a ficar quatro dias sem evacuar. Claudia ainda tinha leite. O pediatra, porém, optou apenas por trocar de fórmula.

Com cinco meses, Gabriel já partia para a segunda mistura: o Nestogeno, uma maçaroca com tantos ingredientes de nomes estranhos, de maltodextrina a ácido-N-pleroil-L-glutâmico, que não tem rótulo que elucide.

“Ele não aceitou muito bem. Mamava cuspindo e largava metade da mamadeira. O médico disse que era assim mesmo, que era questão de hábito, que tinha de insistir. No fim, ele acostumou, meio na marra, né?”, explica a mãe, que se arrepende. Ela sente que devia ter insistido com o peito. Conhecedora dos benefícios do leite materno, tem a consciência pesada. Mas o cansaço se somou à falta de estímulo do pediatra e dos parentes. “Ninguém me apoiou devidamente”, diz.

A mãe nem tinha dificuldade real para a produção do leite, mas, ainda que tivesse, o que é mais raro, poderia recorrer a um banco de aleitamento, onde outras mães fazem doações.

Essa é uma entre as opções para não usar complementações ou substituições artificiais. Inclusive, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) possui um banco de dados dedicado a localizar pontos que recolhem, armazenam e doam leite humano.

Bancos de leite são opções para não recorrer a fórmulas da indústria

É 6 de junho de 2018 e Claudia não imagina que uma situação estrutural, sistêmica e até geopolítica compõe a base do problema que ela e Gabriel enfrentam. Eles e outros milhões – talvez bilhões – de pessoas.

Trump quer mamar

Última semana de maio em Genebra, Suíça, onde ocorre a Assembleia Mundial da Saúde, da Organização Mundial da Saúde (OMS), que teve a nutrição como eixo neste ano. Nela, previa-se uma discussão não controversa sobre o aleitamento materno. Puro engano. O debate foi substituído por pressão e bullying: um “oferecimento” do governo chiliquento de Donald Trump, que prefere garantir a alegria dos amiguinhos do playground e ignorar o interesse público.

Desde o dia 25 de maio, a delegação dos Estados Unidos vinha sendo acusada de tentar impedir que uma resolução garantisse a ampliação do direito de bebês e crianças à alimentação saudável. A serviço da indústria de itens comestíveis ultraprocessados, os agentes trumpistas cerraram fileiras para diluir os instrumentos referentes à regulamentação do marketing agressivo de substitutos do leite materno.

Representantes de delegações e ativistas da América Latina, de países como Brasil e Equador, não esconderam o espanto e a revolta com o tamanho da influência que o setor privado ainda exerce nessa questão, apesar das evidências científicas de longa data que mostram o aleitamento materno exclusivo como opção muito superior à alimentação que inclui os pretensos substitutos do leite. Integrantes de comitivas dos continentes africano e asiático também sentiram os ataques.

O primeiro rascunho do texto, que teve a redação liderada pelo Equador, foi imediatamente apoiado por Camboja, Nepal, Serra Leoa e Sri Lanka, trazendo referências ao Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno, que delimita os “níveis aceitáveis de marketing” para proteger a saúde de crianças e bebês.

A luz de alerta, então, piscou. A oposição da delegação dos EUA veio raivosa. Os países signatários foram ameaçados. Retaliações comerciais seriam as armas de Trump e companhia se a resolução fosse apresentada como estava. Acuados, os representantes equatorianos desistiram de bancá-la.

“Ouvimos relatos diversos de que os países foram pressionados pelos Estados Unidos”, disse Patti Rundall, diretora da Ibfan (Rede Internacional Pelo Direito de Amamentar). “Ficamos incomodados, porque os processos democráticos que deveriam vigorar estavam ausentes. Todos os Estados-membro deveriam ter voz. Os EUA não podem ter opinião mais importante.”

Pesquisadores e ativistas em nutrição reagiram nas redes sociais, principalmente no Twitter, para tornar pública a situação e inverter o cenário de pressão. A diretora-executiva da organização de defesa de Direitos Humanos 1000 Days, Lucy Martinez Sullivan, tuitou: “Uma batalha contra o aleitamento materno está se formando esta semana na sede da OMS. É essencial que os países mantenham a proteção da resolução pela amamentação na Assembléia Mundial da Saúde.”

Paralelamente, os defensores do aleitamento exclusivo buscavam consenso na assembleia. Um evento-satélite foi palco de uma costura política para que a resolução fosse aprovada. Nesse cenário, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, ressaltou a relevância do aleitamento para prevenir a desnutrição, mas destacou que poucos países têm medidas de proteção, promoção e apoio. “Isso é inaceitável”, concluiu.

Um relatório  divulgado conjuntamente pela OMS e Unicef também solicitou aos países a adoção de regras para implementar o Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno.

Com esse alinhamento, surgiu o elemento-surpresa:  a Rússia entrou na área e se propôs a apresentar uma resolução. Foram quatro reuniões e dez horas gastas para construir um texto comum. Nem todas as recomendações do rascunho encabeçado pelo Equador foram mantidas, mas houve avanços se comparado à versão desnutrida que o governo de Trump queria impor.

Finalmente, no dia 27 de maio, a Rússia apresentou o documento, acompanhada por 14 outros países: Botsuana, Canadá, Gâmbia, Gana, Geórgia, Moçambique, Nepal, Panamá, Paquistão, Senegal, Serra Leoa, Tailândia e Zâmbia, e com  apoio de outros Estados, além de organizações não governamentais.

Ainda naquele dia, os EUA tentaram mais uma movimentação. Os representantes de Trump escreveram uma “decisão alternativa” sobre o estímulo ao aleitamento materno exclusivo.

Escrito em uma página solitária, o texto só fazia espuma. Não mencionava o Código Internacional ou a necessidade de restrições de marketing e salvaguardas que previnam e exponham conflitos de interesse no financiamento de pesquisas científicas, no ambiente acadêmico e para profissionais de saúde na relação com a indústria alimentar. Era só mais um ataque, buscando, dessa vez, neutralizar o documento apresentado pelos russos.

Nessa troca de golpes, saiu a resolução final, que enfatiza o aleitamento exclusivo e serve de guia para os países sobre como incentivá-lo. No entanto, o texto não cita qualquer ação a respeito do lobby do setor privado, especialmente contra o marketing agressivo das fabricantes dos supostos substitutos do leite materno.

Só uma menção ao Código Internacional de Comercialização de Substitutos do Leite Materno permaneceu. A versão também removeu a possibilidade de que os países solicitassem ao diretor-geral da OMS apoio técnico para “implementação, mobilização de recursos financeiros, monitoramento e avaliação do código” e para “fazer cumprir as leis nacionais e medidas regulatórias”.

A primeira proposta, muito mais frontal, assertiva e completa, tinha, ainda, o objetivo de expandir a informação sobre as novas diretrizes operacionais de alimentação infantil em emergências e conscientizar os Estados-membros quanto à Iniciativa Hospitalar Amigo da Criança, que oferece orientação sobre a amamentação como opção prática.

O que mais mexeu com os interesses de Trump e das megacorporações de alimentos ultraprocessados, contudo, foi o trecho que propôs combater a promoção inadequada de alimentos para bebês e crianças.

Detalhe: em 2016, isso já era uma recomendação da OMS, sendo vista como apoio para fortalecer os esforços de defesa de direitos em todo o mundo. Transformá-la em resolução seria um passo importante.

Organizações da sociedade civil, como a Save the Children, classificaram a redação final como “significativamente fraca” e se mostraram “chocadas com o fato de o comitê de redação não poder reafirmar o compromisso de implementar as diretrizes e políticas da OMS que são vitais para salvar vidas de crianças e mães”.

Embora a resolução não seja obrigatória para nenhum país, declarações desse tipo são historicamente significativas, essencialmente para nações de baixa renda que não têm recursos para desenvolver pesquisas sozinhas.

Não é de agora

No mínimo desde janeiro deste ano, o governo de Donald Trump recebe visitas de representantes das empresas para confabular a respeito da desregulamentação máxima do setor privado, incluindo aí, sem dúvida, os interesses econômicos da indústria alimentar.

Mais especificamente, autoridades dos EUA realizaram “sessões de audição para as partes interessadas” nas discussões da OMS. Por “partes interessadas”, entenda-se as megaempresas fabricantes de fórmulas infantis, que expressaram “objeção ao caminho para o qual a resolução seguia”. Até mesmo as redes de hipermercados do país, como o Walmart, foram ouvidas e se manifestaram contra qualquer regulação para os substitutos de leite materno.

Sobre o consumo de bebidas lácteas nos EUA, não custa lembrar o grau de desconhecimento da população local. Para que se tenha uma ideia, vale visitar um estudo feito no ano passado, em que 10% dos estadunidenses afirmaram acreditar que o leite achocolatado vem direto, prontinho, de vacas marrons.

Em comunicado oficial por e-mail após a insatisfação declarada por delegações diversas, um funcionário do Departamento de Estado dos EUA disse que o país compartilha “um objetivo comum com outras nações, de promover o aleitamento materno, bem como a alimentação complementar adequada e oportuna”.

O remetente oficial de Trump finalizou dizendo que os substitutos são usados ​​adequadamente quando necessário, com base em informações e por meio de marketing e distribuição apropriados.

Lições passadas e presentes: e o futuro?    

Lucy Martinez Sullivan, diretora da 1000 Days, não titubeia ao duvidar que a resolução extraída neste ano seja útil.

“O verdadeiro argumento é que há muita oposição a coisas que não devem ser controversas e que vêm da administração Trump”, argumenta.

Vem de Trump porque é típico de Trump.

“Avaliamos que é liderado pela indústria e os laços estreitos que eles têm com a administração de Trump. Ativistas e consumidores precisam estar atentos ao que aconteceu a portas fechadas. Essa é a lição”, aponta Lucy

De novo, vem de Trump porque é de Trump. Um homem hétero, branco, machista, que pensa como no século 19.

Aliás, é no século 19 que o aleitamento materno passa a “perder prestígio” entre a burguesia. Considerada uma prática de mulheres pobres, declina nas primeiras décadas do século 20. É quando a indústria, que não perde tempo jamais, começa a comercializar o leite em pó adaptado para bebês.

“Na época, isso era considerado um avanço científico, a salvação para bebês que não podiam ser amamentados por morte ou doença da mãe. Mas à medida que as vendas avançavam, a ganância da indústria aumenta: ela percebe que o grande lucro virá quando todas as crianças usarem as fórmulas, não apenas as que precisavam por algum motivo. E começa a construção da cultura do leite em pó: disseminando a ideia de que o leite materno é fraco, ruim, insuficiente para um bebê realmente forte e saudável”, explica o pediatra Daniel Becker, um dos médicos e estudiosos brasileiros mais críticos à cultura da alimentação de bebês e crianças pela via da substituição ao leite materno.

Ele conta que, após a Segunda Guerra Mundial, as vendas explodiram e que a geração então nascida nos EUA pouco conheceu o leite materno.

“Nos anos 60, mais de 70% dos bebês americanos recebiam fórmulas, graças a agressivas campanhas de distribuição de leite em pó nas maternidades e ao contínuo esforço de propaganda para desacreditar o leite materno. A maioria das mulheres dessa geração acreditava completa e acriticamente que o leite em pó era melhor que o materno”, comenta.

No Brasil, como nos EUA, as embalagens de fórmulas infantis (para bebês até seis meses só em casos de necessidade nutricional comprovada) e de seguimento (utilizadas para lactentes sadios a partir do sexto mês de vida até 12 meses incompletos e para crianças de primeira infância sadias), estão lado a lado nas prateleiras e são muito parecidas. A propaganda de uma delas pode influenciar a venda da outra. Os que trabalham contra isso alertam que alguns anúncios não evidenciam qual dos dois produtos é promovido.

Pesquisas feitas em supermercados e drogarias brasileiras constataram que as embalagens trazem recorrentemente a indicação de “zero a seis meses” e “para lactentes” em muitas embalagens que motivam a adoção de misturas ultraprocessadas, o que induz quem compra ao erro de acreditar que o produto é equivalente ou próximo do leite materno.

As expressões não estão colocadas sem motivo. São formas da indústria manipular o consumo, independentemente de a fórmula ser usada sozinha ou “como complemento” ao leite materno (nessa caso, a tendência é de que o bebê abandone o peito da mãe, seja pela maior palatabilidade do produto industrializado, seja pela falsa sensação de saciedade).

E o raio de influência vai além das famílias. Profissionais de saúde, principalmente pediatras, são alvos preferenciais do marketing. Ainda que pesquisas indiquem que a maioria da população brasileira é favorável ao leite materno, com recomendações de amamentação exclusiva até os 6 meses, congressos, simpósios e cursos médicos trazem uma carga recente da presença de transnacionais que fabricam e introduzem as fórmulas infantis na rotina de quem trabalha na área.

Nessa estratégia, a Nestlé, líder mundial de mercado que vende fórmulas infantis para lactentes desde o nascimento, é a megaempresa mais agressiva.

Até hoje, ela estampa o apoio na capa do site da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Está lá: “Nestlé faz bem”. Sem contar as tantas atividades da entidade que a corporação patrocinou ao longo dos últimos anos, muitas dando ênfase aos “melhores substitutos do leite materno”, preterindo o aleitamento da mãe.

Latas sem fronteiras    

Em investigação de fevereiro deste ano do jornal britânico The Guardian em parceria com a Save the Children nas Filipinas, na Ásia, descobriu-se que a Nestlé oferecia a médicos, parteiras e profissionais de saúde viagens gratuitas para conferências, refeições, ingressos para shows e cinema, e até jogos de azar, violando a lei local que rege a relação entre trabalhadores das categorias e empresas privadas.

Representantes da Nestlé, Abbott, Mead Johnson e Wyeth (que é propriedade da Nestlé agora) foram descritos como “uma presença constante em hospitais nas Filipinas, onde apenas 34% das mães amamentam exclusivamente nos primeiros seis meses”.

A apuração informa que funcionários de hospitais recomendam marcas específicas de fórmulas nas listas de “compras essenciais” entregues às novas mães, publicidade patrocinada abertamente direcionada no Facebook e parcerias com influenciadores digitais, fundamentalmente blogueiras.

Como se vê, Claudia e Gabriel podem encontrar “as leis de Trump” muito além do município onde moram.

Foto em  destaque: Greg Skidmore/Flickr Donald Trump

Foto 1: Campanha da Semana Mundial de Aleitamento Materno 

EUA começam a frear políticas da América Latina contra a obesidade

 

 

 

A Batalha de São Paulo da Guerra dos Ultraprocessados

Como uma briga que poderia ser mera egolatria sintetiza uma disputa de terreno entre sistemas alimentares conflitantes

Eles não querem engolir sapos. E têm medo de pagar o pato. Nada melhor do que recorrer à sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) para montar trincheiras. Afinal, aqueles 16 andares especializados em instabilidade política e mascotes de gosto duvidoso devem servir de guarida a quem se sente atacado.

Começa agora a Batalha de São Paulo da Guerra dos Ultraprocessados.

Foi em 30 de maio que Mike Gibney, do Instituto de Alimentos e Saúde da Universidade de Dublin, na Irlanda, lançou do alto da Paulista novos torpedos contra a Faculdade de Saúde Pública da USP, localizada na vizinha avenida Doutor Arnaldo. O alvo era Carlos Monteiro, professor e coordenador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens). E os fornecedores da posição estratégica foram o Instituto Tecnológico de Alimentos (Ital) e a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia).

Não deixa de ser corajoso viajar até a cidade do adversário para dar sequência a uma guerra que parece particular. Poderia ser apenas mais uma disputa de egos, dessas que florescem aos montes no ambiente acadêmico. Mas a disputa entre Gibney e Monteiro simboliza uma guerra entre sistemas alimentares.

Uma guerra que começou décadas atrás de forma avassaladora, com os exércitos da indústria avançando rapidamente sobre nossas dietas e ganhando o terreno dos alimentos frescos ou minimamente processados (feijão, arroz). Mas que nos últimos anos ficou mais dura, à medida em que os corpos das pessoas pediram uma reação e tentaram retomar o terreno perdido.

É aí que as quatro horas seguidas de ataques a Monteiro ganham um significado especial. O professor da Faculdade de Saúde Pública entrou no foco depois que propôs uma classificação dos alimentos de acordo com o grau de processamento, no final da década passada.

A classificação NOVA passou a servir de base para políticas públicas, pesquisas e recomendações oficiais de que se evite os ultraprocessados, ou seja, formulações repletas de ingredientes estranhos e via de regra marcadas pelo excesso de açúcar, sal ou gordura. O exemplo mais claro é o Guia Alimentar para a População Brasileira, de 2014.

Essa tentativa de defender os padrões de alimentação mais saudáveis provocou uma reação. Forte. Como já dissemos aqui no Joio, o paradigma anterior se baseava em macro e micronutrientes. Um carboidrato pode ser mandioca, ou macarrão instantâneo carregado de sal. É difícil de entender. E ainda mais difícil de saber o que está dando errado quando um terço da humanidade se torna obesa ou apresenta sobrepeso.

Então, quando surge alguém que aponte o dedo, rola um bafafá. Um dos símbolos disso é Mike Gibney. No ano passado, o professor entrou nos holofotes ao assinar um artigo que atacava especificamente a classificação NOVA.

O grupo de Monteiro respondeu acusando o irlandês de ignorar evidências científicas que mostram a associação entre doenças e ultraprocessados. E os colegas de Gibney de ocultar a colaboração com empresas de alimentos. O próprio Gibney é consultor da Nestlé e de uma entidade que reúne os fabricantes de cereais matinais.

Já que falamos de café da manhã… Gibney deu uma descrição minuciosa de seus hábitos ao despertar. “Eu coloco duas colheres de aveia, quatro medidas de leite, ponho no micro-ondas, depois ponho iogurte e mel. Compro iogurte desnatado com sacarina e baunilha. É ultraprocessado. Meu café da manhã é totalmente ultraprocessado, mas eu considero extremamente saudável e não tenho a menor intenção de mudar isso.”

My friend, não leve a mal, mas isso está um tanto quanto sem graça. Espero que você tenha levado do Brasil um pouco de polvilho, de farinha de mandioca. Experimenta fazer um pão de queijo, uma tapioca. Nós temos banana e mamão. Cuscuz. Ovo. Tanta coisa boa… Por que repetiríamos todos os dias o mesmo desjejum monocromático?

“Para mim, ouvir alguém dizer que queremos que você evite cereais matinais ultraprocessados e o pão produzido em massa é totalmente inaceitável para nós, irlandeses, por causa da relevância em nossa dieta.”

A coisa começa a ficar mais interessante do ponto de vista psicológico. Há um sentimento de desterro entre os defensores dos ultraprocessados: como a maior inovação tecnológica da história da indústria de alimentos pode estar errada? Em muitos países do Norte, esses produtos respondem por mais da metade da ingestão calórica diária. No Brasil, apesar de um crescimento vertiginoso ao longo deste século, ainda cozinhamos de verdade. Comemos alimentos de verdade. E isso é algo que Gibney desconsidera.

Assim como desconsidera qualquer aspecto que não diga respeito ao paradigma dos nutrientes. O professor chegou a fazer troça do Guia Alimentar para a População Brasileira. O documento do Ministério da Saúde inovou ao considerar aspectos ambientais, econômicos e sociais da produção de alimentos. O texto inicial foi elaborado pelo grupo de Monteiro, após rodadas de conversas, e por fim submetido a consulta pública.

“Isso não é meu negócio. É o negócio de alguma outra pessoa. Mas é importante saber que isso está nas recomendações oficiais do Brasil”, disse o irlandês. Mas esse é o “negócio” de cada vez mais pessoas. Elas querem saber como o alimento chegou até a mesa. É importante tomar pé de como a vaca foi criada, se os vegetais são orgânicos ou não, quais as condições laborais dos funcionários de uma empresa.

Gibney também entende ser bobagem a leitura de que a fabricação de ultraprocessados é um fenômeno do último quarto do século passado. Para isso, apresentou produtos do século 19 que já usavam alto grau de processamento. Sim, o processamento de alimentos é algo bem mais antigo. Mas é fácil de entender que o que ocorreu foi uma explosão na fabricação de formulações com altos índices de sal, gordura, açúcar e aditivos.

A gente sabe que não é o “negócio” de Gibney, mas um dedinho de História é sempre bom. Após a 2ª Guerra Mundial, assistimos à Revolução Verde, que promoveu monocultivos com alto uso de agrotóxicos. Mas o que fazer com tanto milho e tanta soja? Uma parte foi parar na barriga de vaquinhas, porquinhos e franguinhos, que nem queriam comer esses grãos.

E a outra parte virou amidos, óleos, xaropes, líquores que se transformam em salgadinhos, biscoitos recheados, iogurtes e uma penca de coisas que você encontra nos supermercados (dá uma olhada no rótulo).

Se você pegar os índices brasileiros de obesidade e de um monte de outros países, é aí que começa um crescimento vertiginoso.

“A gente ficar combatendo a indústria da alimentação, combater os alimentos processados, ficar combatendo isso me parece que é estar, como humanidade, dando um tiro no pé. Mas é um tiro que não se sente agora. A dor vai se sentir lá na frente”, afirmou João Dornellas, presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia).

Ouvimos isso tantas vezes de pessoas ligadas à indústria que talvez seja verdade que elas se sintam entrincheiradas. Que sintam que vão pagar o pato. Mas o fato é que também estão admitindo a necessidade de mudar. E, na maioria dos casos, quem decidiu alterar o padrão de alimentação não está contra as empresas, mas a favor de evitar certos produtos.

Crédito: Fiesp

Olhando para o evento sediado pela Fiesp, é impossível deixar de enxergar alguns simbolismos. O fato de um pesquisador ser recebido numa entidade industrial e não numa faculdade, é autoexplicativo. Na plateia, estavam integrantes de outras organizações de pesquisa ligados à indústria, como a Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban) e o International Life Sciences Institute (ILSI) – também já falamos um bocado sobre ambas.

Na mesa estava o Instituto Tecnológico de Alimentos, que, apesar de ser uma estatal paulista, tem como motivo existencial a prestação de serviço às empresas. E a Associação Latino-americana e do Caribe de Ciência e Tecnologia de Alimentos, cujos representantes têm rodado o continente na tentativa de frear leis e decretos que possam prejudicar os lucros das empresas.

Há críticas à classificação NOVA por parte de pesquisadores sem laços com as empresas. Engenheiros de alimentos entendem que qualquer processamento é igual e, portanto, não faz sentido falar em ultraprocessamento. O que poderia ser corrigido são os ingredientes usados em certos produtos para reduzir a presença de nutrientes e substâncias que fazem ou podem fazer mal à saúde. Mas, no geral, esses cientistas não gastam tanto tempo tentando desconstruir o trabalho de Monteiro.

Suzana Lannes, professora da USP e presidente da Sociedade Brasileira de Ciência e Tecnologia de Alimentos, estava na plateia. E apresentou uma ponderação. “A despeito de toda essa coisa em cima do ultraprocessado, se pode ou não pode, teve um ponto muito positivo que é o esclarecimento ao público, a melhoria de produtos e processos. E ainda tem muita coisa a ser discutida a partir dos agroquímicos. Acho que a indústria está se saindo muito bem nisso tudo. Todo esse esclarecimento vem só a ajudar a população.”

Desde que Gibney se lançou à cruzada contra a classificação por grau de processamento, porém, virou uma espécie de farol para pesquisadores ligados à indústria. O encontro em São Paulo forneceu munição argumentativa para quem quer atacar Monteiro.

No geral, o que vimos é que Gibney pinça no trabalho alheio elementos que sirvam para fortalecer o próprio ponto de vista. Ele escolheu algumas pesquisas que comprovariam que os ultraprocessados não estão associados a obesidade e doenças crônicas, embora os autores desses estudos tenham interpretação contrária.

“A cenoura também é um alimento não balanceado. Se você comer só cenoura, você vai ficar doente. Tirando o leite materno, nenhum alimento é balanceado. Por isso, diversificamos”, concluiu o irlandês.

Precisa caprichar para ganhar peso comendo cenoura, né, não? E é difícil imaginar alguém no mundo que coma apenas cenoura. Há uma questão matemática muito simples: se você consome alimentos com baixos índices de sal, açúcar e gordura, e bem diversificados, tem baixa chance de se tornar obeso.

É aqui que a dieta defendida por Gibney vira um problema. Refeições congeladas têm níveis altíssimos de sódio. O mesmo vale para molhos prontos e para os pães industrializados de que ele tanto gosta. Os cereais da organização que patrocina o trabalho do irlandês têm níveis elevados de açúcar, assim como os iogurtes da empresa que o tem como consultor.

Esses itens representam um baixo percentual de tudo o que a indústria de alimentos produz? No todo, sim. Mas qualquer pesquisa científica sobre publicidade mostra que são os mais propagandeados.

Assim como todas as dietas convencionadas como saudáveis os excluem. E são ricas em alimentos frescos ou minimamente processados. Independentemente de nomenclatura, a conclusão a que se chega ao analisar padrões alimentares completos e saudáveis é a mesma: evite formulações alimentares com excesso de sal, açúcar, gordura.

“De acordo com a definição de ultraprocessados, o pão produzido em massa é ultraprocessado e o pão produzido não em massa não é. Eu não sei o que isso significa. A não ser que seja artesanal é ultraprocessado? Para mim, pão é pão. Não importa quem fabrica”, diz Gibney.

Para comprovar a tese, o professor testou a resposta insulínica com quatro tipos de pão. E não encontrou diferenças significativas. Mas isso é apenas um dos aspectos e, certamente, insuficiente para dizer se a classificação NOVA funciona ou não.

Gibney pinçou uma frase de Monteiro em uma entrevista recente ao The Guardian,na qual o pesquisador brasileiro diz que, por não sabermos ainda o que os aditivos podem provocar ao corpo, o melhor é não consumi-los. “A resposta honesta é que não sabemos ainda o que está acontecendo”, afirmou.

Para revolta do irlandês. “Isso é nonsense. É irresponsável.” Para ele, também é um erro falar que esses aditivos provocam hiperpalatabilidade, ou seja, que criem sabores voltados a desarmar os mecanismos de saciedade do cérebro. Gibney entende que não há comprovação científica dessa hipótese.

Ainda que tomássemos isso como verdade, altos executivos da indústria revelam a realização de caras pesquisas voltadas a entender e a driblar o cérebro. Uma vasta compilação de confissões está no livro Sal, Açúcar, Gordura, de Michael Moss. As empresas não pouparam recursos para entender por que as pessoas têm diferentes pontos de saturação para o açúcar e como isso poderia ser usado para criar novos limites (sempre para cima).

Recentemente, Gibney afirmou a um jornal de seu país que não se pode associar alimentação e câncer, doença provocada principalmente por “má sorte” e fatores genéticos. Na visão dele, “lunáticos” estão espalhando mentiras.

Gente um bocadinho mais habilitada a falar sobre câncer tem uma visão diferente. O World Cancer Research Fund acaba de publicar uma extensa revisão das evidências existentes. Há um gráfico que mostra os fatores que “provavelmente aumentam” e “certamente aumentam” o risco de câncer. A maioria está relacionada a alimentação: gordura corporal, ganho de peso, carnes processadas, bebidas adoçadas e dieta ocidental.

Você pode decidir se quer chamar tudo isso de ultraprocessados ou não, mas não tem como chamar de alucinação. Nem de má sorte.

Na outra ponta, a dos hábitos que ajudam a prevenir o câncer, estão grãos integrais, alimentos ricos em fibras, frutas, dieta mediterrânea, padrões dietéticos saudáveis. Não, o café da manhã de Gibney não está ajudando a evitar câncer.

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) considera que um terço dos casos ocorridos no Brasil seriam evitáveis. A maior parte com boa dieta e atividade física, ou seja, sem contar com a sorte. A soma de alimentação, álcool e sedentarismo é o principal fator de risco. O Inca recomenda claramente que se evite a ingestão de ultraprocessados.

Gibney entende que remover essas formulações da dieta demandaria uma mudança social “inaceitável” – e, de novo, o olhar é apenas para a realidade europeia. No Brasil, não é difícil encontrar alimentos frescos, embora já tenha sido mais fácil. “Então, a reformulação de produtos é o caminho.” Mais ou menos como o pato da Fiesp, que virou sapo. Mas sem perder a essência.

Parlamentares do Amazonas tentam manter privilégios da indústria de refrigerantes

Deputados, senadores e governador se mobilizam para derrubar decreto de Temer que dá fim a créditos sobre impostos que nunca foram pagos

A decisão do governo federal de retirar parte dos subsídios à indústria de refrigerantes provocou reações previsíveis em Brasília. Parlamentares do Amazonas unem forças para tentar derrubar o decreto de Michel Temer que reduz de 20% para 4% o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) cobrado sobre o concentrado de bebidas adoçadas comprado na Zona Franca de Manaus.

A medida atinge especialmente Coca-Coca e Ambev, cujas engarrafadoras obtinham um crédito ao adquirir esse xarope fabricado na área de livre comércio. As empresas que fabricam na região são suspeitas de superfaturamento de notas fiscais e, como mostramos aqui no Joio, recebem incentivos anuais de ao menos R$ 7 bilhões, entre tributos estaduais e federais. Em outras ocasiões o governo federal também tentou mudar o quadro, mas voltou atrás por pressão das empresas de refrigerantes e por parlamentares ligados a elas. 

No caso do IPI, a Constituição prevê que se possa cobrar um ressarcimento entre uma etapa e outra de industrialização de forma que o tributo não se acumule sobre o preço final. No caso da Zona Franca, mesmo sem pagar impostos, as empresas cobravam os créditos, numa operação há anos contestada pela Receita Federal. Na década de 1990 a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional afirmou que o esquema configurava enriquecimento ilícito da Coca.

A decisão do governo foi parte das medidas adotadas para compensar as perdas de arrecadação provocadas pela greve dos caminhoneiros. E suscitou a mesma reação que se deu em outras vezes em que a equipe econômica tentou mexer nos privilégios da indústria de refrigerantes.

Ontem, parlamentares do Amazonas e o governador Amazonino Mendes se reuniram na residência oficial do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), para discutir uma alternativa. O ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, e o secretário da Receita Federal, Jorge Rachid, participaram do encontro.

“Não é só uma questão pontual em relação a um segmento, porque isso abre um precedente perigoso para outros setores e é inconstitucional, afinal de contas, a Zona Franca é um modelo baseado na Constituição e, ao mexer nos incentivos, você mexe indiretamente com a Constituição Federal”, afirmou a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB).

A parlamentar apresentou um projeto de decreto legislativo para sustar a decisão do Planalto. Na campanha eleitoral de 2010, ela recebeu R$ 70 mil da Arosuco, fabricante dos concentrados da Pepsi, e o comitê financeiro do PCdoB ganhou outros R$ 150 mil da Recofarma, que faz os concentrados da Coca.

O também senador Eduardo Braga (MDB) falou em “intocabilidade” dos benefícios da Zona Franca e disse que o ministro da Fazenda vai consultar a Procuradoria da Fazenda Nacional sobre a constitucionalidade do decreto. “Caso seja positiva, avançamos. Caso negativo, vamos tentar via Supremo Tribunal Federal ou por meio de decreto legislativo para resgatar o direito da ZFM e a segurança jurídica dos investimentos do setor.” Em 2010, ele recebeu R$ 140 mil da Arosuco e R$ 75 mil da Schincariol, enquanto o diretório estadual angariou outros R$ 50 mil da Recofarma.

Deputados e senadores do Amazonas costumam defender a importância da indústria de refrigerantes para a criação de empregos na Zona Franca. Mostramos aqui no Joio que, apesar de ter um dos maiores faturamentos da área de livre comércio, o setor emprega poucas pessoas.

Levantamento da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) registrava 2.660 funcionários nesse segmento em 2016, contra 29 mil de eletroeletrônicos, 13 mil de duas rodas e 6.700 de termoplástico. A Recofarma tem 175 funcionários, segundo o levantamento mais recente oferecido pela Suframa. A Arosuco, 142.

A Associação Brasileira da Indústria de Refrigerantes e Bebidas Não Alcoólicas (Abir) se defende dizendo que é o único segmento que cria postos de trabalho na área rural. Seriam 14 mil empregos no total. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) feito a pedido da Abir fala em oito mil famílias só na produção de guaraná. Cruzando com os dados do IBGE sobre produção agrícola na região, temos uma média de R$ 2.000 ao ano por família, ou seja, menos de um quarto de salário mínimo por mês.

O deputado Pauderney Avelino (DEM-AM), que já havia se mobilizado outras vezes em defesa da indústria de refrigerantes, afirma que a expectativa é de que medidas alternativas sejam tomadas sem a necessidade de edição de um decreto legislativo. “Antes disso, vamos encontrar uma solução. É isso que vai ser feito, alguma medida compensatória”, garantiu. Em 2014 ele recebeu R$ 340 mil da Companhia Paraense de Refrigerantes, integrante do Grupo Simões, da Coca, e R$ 60 mil da Recofarma. “Nós não podemos ser pegos de surpresa com imprevisibilidade. A empresa está lá, de repente o governo edita um decreto, na calada da noite, e no dia seguinte está no Diário Oficial elevando os custos dessa empresa.”

Também o governador Amazonino Mendes se saiu com a leitura de que o decreto é inconstitucional. “Não se pode tentar resolver um problema nacional [subsídio do óleo diesel] colocando em xeque uma instituição tão importante para o desenvolvimento do país”.

Já a Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, que reúne ONGs e pesquisadores, foi no sentido contrário. Em carta endereçada ao Planalto, a organização recordou a necessidade de desincentivar o consumo de refrigerantes, associado a obesidade, diabetes e câncer. “Há diversos incentivos tributários federais para produtos não saudáveis que o governo poderia reexaminar com mais atenção, antes de praticar cortes que atingem setores mais vulneráveis da população. Contudo, esperamos que a experiência do setor de bebidas ultraprocessadas encoraje um aprofundamento estratégico de novas medidas reguladoras para setores relacionados.”

Com informações da Agência Brasil.

Deputados tentam despejar o Pacote do Veneno no seu prato

Na comissão especial da Câmara, o equilíbrio manda lembranças: de 26 membros, 20 são ruralistas

Dizer que o Pacote do Veneno – Projeto de Lei (PL) 6299/02, que objetiva revogar a atual Lei de Agrotóxicos (7.802/1989) – é debatido democraticamente na Câmara dos Deputados é força de expressão apenas. Na comissão especial da qual pode sair a votação que decidirá se o projeto vai ou não ao Plenário, o equilíbrio manda lembranças: o colegiado é composto por 26 membros, sendo que 20 parlamentares são ruralistas, todos muito ligados ao lobby da indústria de agrotóxicos.

Engavetada por 14 anos, a proposta foi ressuscitada sob o comando de Blairo Maggi, titular do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, megaempresário ruralista e autor original do PL, quando era senador, em 2002. O eixo central do projeto abre espaço para a regulamentação de novos venenos nocivos à saúde humana e ao meio ambiente.

O Ministério da Saúde, a Anvisa e o Ibama são contrários às alterações, que incluem modificar o termo agrotóxicos, presente na legislação desde 1989, para “defensivos fitossanitários”. O Ministério Público Federal já declarou inconstitucionalidade do projeto e instituições como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Instituto Nacional do Câncer (Inca), além de centenas de  organizações da sociedade civil, se posicionam na linha de frente do combate ao Pacote do Veneno.

Em linhas gerais, as organizações que se opõem ao PL avaliam que a intenção do texto é “levar o consumidor na conversa”. Ou seja, fazer uma jogada de marketing para trocar um termo que dá verdadeiro sentido ao produto por outro que “alivie a barra”, tirando o peso da nomenclatura e distanciando do perigo representado pelos altos graus de toxicidade.

Mata muitos

No ano passado, dois especialistas em direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) pediram um novo tratado global para regulamentar e eliminar gradualmente o uso de agrotóxicos perigosos na agricultura e avançar em práticas agrícolas livres de veneno, como a agroecologia.

A relatora especial da ONU sobre o direito à alimentação, Hilal Elver, e o especialista das Nações Unidas para os direitos humanos e substâncias e resíduos perigosos, Baskut Tuncak, afirmaram que os agrotóxicos são responsáveis por 200 mil mortes por intoxicação aguda a cada ano no planeta.

90% dessas mortes ocorreram em países em desenvolvimento, justamente onde as regulamentações de saúde, segurança e proteção ao meio ambiente são mais frágeis. O Brasil está incluído nesse conjunto.

“O uso excessivo de pesticidas é muito perigoso para a saúde humana e para o meio ambiente, e é enganoso afirmar que eles são vitais para garantir a segurança alimentar”, afirmaram os relatores, em pronunciamento oficial.

Entre as doenças causadas pela exposição aos agrotóxicos, eles enfatizaram câncer, Mal de Alzheimer e e Mal Parkinson, além de distúrbios hormonais, de desenvolvimento e esterilidade. Agricultores, comunidades que vivem próximas a plantações, comunidades indígenas, mulheres grávidas e crianças foram apontadas como particularmente vulneráveis à exposição aos venenos.

É veneno, sim

Em 1977, o professor Adilson Paschoal cunhava o termo agrotóxico. Pesquisador no Centro Acadêmico Luiz de Queiroz e na Empresa Brasileira de Promoção da Agricultura (Embrapa), ele é defensor de que veneno seja chamado pelo nome que deixe evidente os riscos à vida.

“A contaminação dos alimentos e do ambiente por resíduos tóxicos de produtos químicos usados na agricultura, assim como o envenenamento dos agricultores ao aplicarem esses produtos, muito se dá pelo desconhecimento daquilo com que lidam, pois esses venenos ficam escondidos nas falsas e tendenciosas terminologias de ‘remédios’ e de ‘defensivos'”, argumenta Paschoal.

Ele explica por que palavras como praguicida, pesticida e – menos ainda – “defensivo fitossanitário” não devem ser usadas em substituição a agrotóxicos.

Até meados dos anos 1970, seis terminologias eram usadas para identificar os produtos químicos usados na agricultura para o controle de pragas, doenças e ervas invasoras. Agricultores usavam expressões entre “remédio” e “veneno”. Técnicos cravavam ora “pesticida”, ora “praguicida”. Por vezes, surgia, aqui e ali, “defensivo agrícola”. Ambientalistas falavam em “biocidas”.

Por que, então, agrotóxicos? Segundo o professor, a denominação engloba todas as substâncias tóxicas, sintéticas ou naturais, de origem química ou biológica, usadas para o manejo de pragas, patógenos e ervas invasoras de culturas agrícolas, hortícolas, silvícolas e pastoris.

“Defensivo é o termo mais incorreto, ambíguo, utópico, vago e tendencioso de todos. Significa ‘próprio para a defesa’, mas não indica defesa de que ou de quem; se defensivo agrícola, não especificando tratar-se de substância tóxica”, ressalta Paschoal.

Armas de guerra

A indústria de agrotóxicos, maior interessada em disfarçar os efeitos do Pacote do Veneno, é historicamente envolvida com mortes em larga escala. Até mesmo do desenvolvimento de armas químicas e biológicas, as megacorporações do setor participaram. Uma delas chegou a comandar um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

A IG Farben (Interessen-Gemeinschaft Farbenindustrie AG), fundada em 1925, da Alemanha, foi a única companhia à frente de um campo de concentração, onde morreram ao menos 30 mil pessoas nas câmaras de gás. A empresa construiu uma fábrica em Auschwitz, a mais conhecida área de tortura e mortes do regime liderado por Adolf Hitler, com o trabalho de aproximadamente 300 mil escravos. O agrotóxico Zyklon B, do qual a fábrica detinha a patente, era usado nas câmaras de gás para os assassinatos em massa

Depois da guerra, a IG Farben foi dividida. Das partes, as mais conhecidas atualmente são a Basf e a Bayer.

A primeira é a maior empresa química do mundo e detém uma carteira recheada de produtos tóxicos para animais e seres humanos. No Brasil, a empresa provocou, em 2001, um vazamento de 11 mil litros de Mollescal, no litoral do Rio Grande do Sul, um corrosivo destinado ao curtimento de couro. Depois do acidente, a Basf forneceu informações falsas ao serviço de emergência sobre o grau de toxicidade da substância, colocando em risco os profissionais envolvidos no atendimento à população. Em 2000, a empresa adquiriu uma fábrica de agrotóxicos da Shell em Paulínia, no interior de São Paulo, ciente de que havia mais de mil trabalhadores intoxicados e 180 famílias que tiveram de deixar o local, que teve o solo e a água contaminados.

Já a Bayer foi a desenvolvedora da substância diacetilmorfina, uma droga aditiva, vendida originalmente como tratamento para a tosse, que depois passou a se chamar heroína. Também é atribuída a ela a criação de armas químicas, a exemplo do gás mostarda (arma química) e tabun (gás nervoso). Neste ano, a megacorporação adquiriu a Monsanto, uma das empresas mais denunciadas mundialmente por contaminação com agrotóxicos, o que causou a criação do Dia Mundial Contra a Monsanto.