Monthly Archives: março 2018

EUA começam a frear políticas da América Latina contra a obesidade

Governo Trump quer impor cláusula que evite a adoção de advertências em rótulos de alimentos com altos níveis de sal, gordura e açúcar, atingindo também os interesses do Canadá

– Eu acredito… que eu diria, deputado, que para nós…há mais nuances do que isso – titubeou o embaixador Robert Lighthizer, representante de Comércio dos Estados Unidos. Durante os três ou quatro minutos em que foi interpelado, ele raramente levantou a cabeça, gaguejou várias vezes, coçou a cabeça.

– Apenas responda. Essa medida está sendo levada adiante pelo governo Estados Unidos? – interrompeu Lloyd Doggett, do Partido Democrata do Texas, durante uma audiência na última semana na Câmara de Representantes.

– A ideia de colocar limites na habilidade de países de colocar advertências ou símbolos nos produtos… é algo com que estamos preocupados.

– Então é correto que essa medida está sendo levada adiante por nossos negociadores?

– Eu não… quero dizer… não posso comentar em termos precisos. Eu não tenho o artigo frente a mim, mas o tema me preocupa. O outro lado… Seu ponto de vista é excelente e eu concordo. Por outro lado, há exemplos de vários países que estão usando essa brecha basicamente para criar um ambiente protecionista – finalizou Lighthizer.

Demorou, mas finalmente se conseguiu avistar a unha afiada da águia sobrevoando as políticas da América Latina que tentam colocar um freio na epidemia de obesidade. Agora, é esperar pelo ataque.

Uma coalizão de ONGs mexicanas alertou sobre uma cláusula que os Estados Unidos tentam impor na renegociação do tratado de livre comércio com México e Canadá, o Nafta. Uma denúncia comprovada por documentos. Não satisfeito em desmontar as políticas nacionais que buscam uma saída para os problemas causados pela obesidade, o governo Donald Trump quer agora garantir que os vizinhos sejam impedidos de colocar sinais de advertência nos rótulos de alimentos ultraprocessados com altos teores de sal, gordura e açúcar.

Os países latino-americanos estão à frente de uma agenda criativa que tenta desencorajar o consumo de produtos associados à obesidade e às doenças crônicas não transmissíveis (diabetes, hipertensão, câncer), uma das maiores causas de mortes no século 21.

O México adotou um imposto especial sobre o açúcar, medida que cruzou a fronteira e vem sendo adotada por estados e cidades dos Estados Unidos. O Chile colocou, em 2016, octógonos pretos nos rótulos que alertam os cidadãos sobre o excesso de calorias, sal, gordura e açúcar. O Peru e o Uruguai têm tudo para serem os próximos na lista. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda avalia qual modelo adotar, e o sistema chileno é uma das possibilidades.

O sistema do país sul-americano é inédito tanto por trabalhar com advertências, numa expressão clara do que deve ser evitado, como por ser de adoção obrigatória pelas empresas. De lá para cá, a indústria de alimentos mundo afora trabalha para desacreditar os sinais de alerta.

No México, deu certo, e o governo acabou adotando um sistema chamado GDA, que é o sonho dos fabricantes: todas as evidências científicas mostram que as pessoas não entendem de que se trata. Nos últimos meses, setores da sociedade têm conseguido aumentar a pressão para que a medida seja revista e que se adote o modelo chileno.

Mas é aí que o governo Trump quer matar dois coelhos numa paulada só. A tentativa de usar o Nafta para proibir a adoção de advertências mira também ao vizinho do Norte. O Ministério da Saúde do Canadá começou a discussão alguns passos adiante: partiu do pressuposto de que o modelo chileno é o que melhor funciona. Recentemente foi aberta uma consulta pública, e a expectativa é de que o design do símbolo de alerta seja definido ainda este ano. Se os emissários de Trump deixarem.

Foi o sinal mais forte de interferência direta do governo dos Estados Unidos na política regulatória contra a obesidade. “Espero que você esteja firme na proteção dos interesses dos investidores americanos, mas não de um mecanismo que os permita invadir a soberania, como você corretamente notou, e subverter e minar a saúde”, lamentou Lloyd Doggett na conversa com o representante de Comércio.

Anteriormente, havia sinais de interferência das corporações dos Estados Unidos no Uruguai e no Chile. A Coca-Cola avisou a Montevidéu que o levará à Organização Mundial de Comércio (OMC) caso siga adiante na intenção de copiar o modelo de Santiago. A indústria de refrigerantes tampouco poupa esforços para desacreditar a aplicação de impostos especiais.

Julios Salazar, assessor jurídico da ONG mexicana El Poder del Consumidor, que denunciou as negociações via Nafta, alertou que os esforços dos Estados Unidos violam os tratados internacionais. “Os acordos comerciais reconhecem a supremacia dos direitos humanos e da saúde sobre os interesses e os direitos comerciais”, afirmou, em comunicado divulgado pela organização.

A alegação do governo Trump de que os sinais de advertência têm sido usados de forma protecionista não resiste a um exame da realidade comercial. O Chile não tem grandes fabricantes capazes de tirar proveito de uma mudança, a exemplo da maior parte dos países do mundo, que simplesmente comem o que é fabricado por corporações dos Estados Unidos e da Europa.

A associação que representa os fabricantes de ultraprocessados nos EUA afirmou trabalhar por um sistema de rotulagem que não seja “enganoso”. Ao jornal The New York Times, a Grocery Manufacturers Association afirmou querer uma decisão que esteja “fundamentada na ciência, minimize barreiras desnecessárias ao comércio e beneficie os consumidores nos três países”.

Se os países fossem rotulados com os octógonos chilenos, os Estados Unidos receberiam a inscrição “Alto em lobby”.

¿Con quién andas, dulzura?

Las corporaciones de refrescos se establecieron en la Amazonia de Brasil mediante asociaciones de colaboración que producen daños ambientales y dominación cultural

Desde Manaos, estado del Amazonas, y tras un viaje de 107 kilómetros por la carretera BR-174, llegamos hasta el municipio amazónico de Presidente Figueiredo. A pesar de contar con solo 29.000 habitantes, si hay algo que no falta por esta zona es tierra. Se trata de un territorio integrado por unos vastos 25.400 km2, un área mayor que la de algunos países europeos. Dentro de este espacio, la sucroalcoholera Jayoro posee 59.000 hectáreas de terreno, de las cuales 4.500 están destinadas a plantaciones de caña de azúcar y 410 a pedúnculos de guaraná.

Instalada en la región desde 1984, la azucarera provoca inmediatamente una amplia deforestación. Surgida a partir de Proálcool, un proyecto para incentivar la producción de combustible impulsado por la dictadura militar (1964-1985), con el apoyo de la Superintendencia de Desarrollo de la Amazonia (SUDAM), impone el monocultivo de caña en detrimento de varias especies vegetales nativas y produce materia prima para el alcohol que abastece los vehículos. Los espíritus de la Amazonia lanzan su maldición y el plan sale mal: en la década de 1990, la empresa tropieza y se convierte en una pequeña productora de cachaça que utiliza solamente 300 hectáreas de cañaverales. Sin embargo, la empresa también es resistente. Y llega la salvación. En 1995, el negocio entra en el punto de mira de varios “inversores salvadores”. Entre ellos, Coca-Cola.

Con el apoyo del gigante de los refrescos aumenta el poder económico de Jayoro y, por consiguiente, crece la fuerza política, lo que facilita que la empresa pueda ampliar las plantaciones, pese a encontrarse en un espacio rodeado de zonas protegidas y bajo la acusación de haber invadido tierras públicas cuando llegó al Amazonas de la mano de la familia paulista Magid.

Ya en la década de 1990, la azucarera vuelve a destruir la selva. Se arrasan aproximadamente 10.000 hectáreas para retomar el ritmo de plantación de caña de azúcar. Esta vez la motivación es el suministro de azúcar, necesario para la producción del concentrado de los refrescos, el famoso sirope, que sirve de base para dar cuerpo a las bebidas azucaradas y gasificadas que llenan los vasos y engordan los cuerpos de millones de brasileños y otros pueblos latinoamericanos, y dispara los índices de obesidad, relacionados directamente con la diabetes y hasta 13 tipos de cáncer, de acuerdo con un dictamen reciente del Instituto Nacional de Cáncer (INCA) brasileño.

Desde Presidente Figueiredo, el azúcar se envía a la Zona Franca de Manaos, donde es utilizado por Recofarma Indústria do Amazonas LTDA, fabricante de sirope de Coca-Cola en Brasil. La empresa ya apareció en O joio e o trigo en un reportaje sobre los polémicos incentivos fiscales que recibe el sector de las bebidas azucaradas. El trío Coca-Cola-Jayoro-Recofarma abastece a todas las embotelladoras de Brasil, así como de Argentina, Colombia, Paraguay, Venezuela, Uruguay y Bolivia.

Por si no bastara con los daños ambientales causados por el hecho de incentivar un monocultivo que garantice suficiente azúcar para la producción del sirope, el dueto Coca-Cola/Jayoro también se beneficia de la plantación tradicional de guaraná en la Región Amazónica. La mayor sucroalcoholera del Amazonas, Agropecuária Jayoro LTDA, es el origen de gran parte del azúcar utilizado por Recofarma. De Jayoro también procede todo el extracto de guaraná que se utiliza en el refresco Kuat, otro producto de la corporación de la marca roja y blanca.

Con la asociación de colaboración suscrita en 1995 surgieron dos problemas más: en primer lugar, el uso de agrotóxicos. En segundo lugar, la vinaza, el residuo final del proceso de fabricación del azúcar o de la destilación de la cual se obtiene el alcohol, así como el aguardiente de caña, y que, si no se trata adecuadamente, contamina el agua. Cuando se deposita en lagunas y cursos de agua es un contaminante potente.

Se presentan denuncias. Principalmente, a inicios de la década de 2000. Según el técnico agropecuario Paulo Sérgio Ribeiro, empleado de Jayoro durante 18 años que fue entrevistado por el equipo de Repórter Brasil, se aplicaban varios tipos de insecticidas en los cañaverales con tractores y avionetas.

El investigador y filósofo Egydio Schwade, uno de los fundadores del Consejo Indígena Misionario (CIMI), con residencia actualmente en Presidente Figueiredo, hace tiempo que denunció la situación. “El proyecto de Coca-Cola/Jayoro ya empezó aniquilando cerca de 3.000 especies vegetales nativas para la implantación de la caña de azúcar. Después de este desastre ecológico, llevado a cabo con motosierras y tractores, desencadenó un desastre químico en toda la región, con el rociado de sustancias venenosas. Ninguna especie de planta o animal nativo sobrevivió en ese desierto”, subraya.

Schwade destaca, además, “los efectos nocivos para la tierra y las personas”, las consecuencias de la explotación del territorio y el envenenamiento de los empleados de los cañaverales por agrotóxicos. “Aquí me encuentro con empleados intoxicados por sustancias venenosas procedentes de Jayoro. Hay gente que va en silla de ruedas, muchos van tosiendo por las calles por ‘causas desconocidas’”, afirma.

¿Un modelo para quién?

Jayoro fue considerada públicamente como la “azucarera modelo” por José Mauro de Moraes, alto ejecutivo de Coca-Cola Brasil. El Ministerio Público Federal en el Amazonas, no obstante, no está de acuerdo con ese calificativo. Atento observador de las actividades de la empresa, el MPF ya investigó en 2008 la contaminación (por uso de agroquímicos) de los cursos de agua en la región de Presidente Figueiredo.

Sin embargo, el Instituto de Protección Ambiental del Amazonas (IPAAM), organismo que investiga las cuestiones relacionadas con el medio ambiente en el estado, confirmó que la sucroalcoholera cumplía la legislación. Fue entonces cuando el MPF solicitó al Instituto los informes técnicos del análisis de las aguas. La conclusión no fue satisfactoria; solo se declaró que la licencia de la agropecuaria estaba en proceso de evaluación, por lo que entraba en contradicción con la primera respuesta.

Después de un nuevo intento del Ministerio Público, todavía en 2008, el organismo estatal no tuvo escapatoria: un dictamen del IPAAM dio lugar a la no renovación de la licencia ambiental del socio de Coca-Cola. Extrañamente, el año siguiente, 2009, la empresa funcionaba a pleno rendimiento, sin la renovación anual de la licencia ambiental.

Anteriormente, en 2007 y 2008, la licencia para los trabajos de Jayoro solo había podido renovarse mediante la firma de un Acuerdo de Ajuste de Conducta (TAC, por sus siglas en portugués) con el IPAAM, bajo 13 condiciones. Entre ellas, la corrección del uso de métodos agresivos con el medio ambiente y la población del entorno, por ejemplo, la quema de paja de caña de azúcar, práctica que contamina el aire y produce múltiples enfermedades respiratorias.

Tampoco faltan los datos contradictorios en relación con la agropecuaria propiedad de Coca-Cola. Como única azucarera amazónica registrada en la Agencia Nacional de Petróleo, Gas Natural y Biocombustibles (ANP), Jayoro declara estar en posesión de 4.500 hectáreas dedicadas a la caña de azúcar. No obstante, una investigación del Ministerio de Medio Ambiente (MMA) realizada en 2008 ya demostró que el cultivo amenazaba una zona prioritaria para la biodiversidad. La Zona de Protección Ambiental de la orilla izquierda del Río Negro, que consta en el Mapa de Zonas Prioritarias para la Biodiversidad como “de extrema importancia”, se estaba viendo afectada por las plantaciones de caña de azúcar de la azucarera, localizadas sobre el manantial del río Apuaú, según el MMA.

Jayoro, a través de sus gestores, emitió un comunicado oficial en el que afirmaba que “dejó de quemar paja en 2010” y que creó “voluntariamente” un plan de mecanización de la fase de corte de la planta. Los representantes de la empresa se defendieron en cuanto al monocultivo y la aplicación de agroquímicos: aseguraron que, actualmente, la linaza es el fertilizante aplicado en el suelo y que no utilizan insecticidas. Asimismo, garantizan que no plantan caña cerca de los cursos de agua. En relación con la acción promovida por el Ministerio Público Federal en el Amazonas, el discurso es que la denuncia se basa en “hechos falsos” y que no existe constancia de enfermedades respiratorias o de cualquier otro tipo que tengan como causante la quema de paja de caña de azúcar.

Además, los gerentes de la empresa rechazaron la tesis según la cual los incendios habrían provocado la muerte de animales, pero uno de ellos, Camillo Pachikoski, en 2013, llegó a admitir públicamente que “en caso de que hubiera riesgo, los animales tendrían oportunidad de huir”.

En cuanto a Coca-Cola, que se enorgullece de incentivar programas de protección del medio ambiente y posee una página oficial en Internet para “desmentir rumores falsos”, solamente menciona a Jayoro en el sitio de la empresa en Brasil en un texto sobre sistemas agroforestales.

Padre secuestrado

Además de las rojas y blancas, las “marcas verdes” también tienen poderosos tentáculos, que envuelven la Amazonia en un abrazo que puede llegar a estrangular. Las megaempresas de refrescos son de las pocas ultraprivilegiadas incluidas en la producción de bienes cuya materia prima está en el Amazonas. Allí es donde la tribu sateré-mawé, los indígenas conocidos como “los hijos del guaraná”, descubrió la Paullinia Cupana (la fruta del guaraná) como producto alimentario y medicinal.

Según un artículo de los investigadores de la Universidad Federal del Amazonas (UFAM) Arenilton Monteiro Serrão, Manuel de Jesus Masulo da Cruz y Luis Fernando Belém da Costa, esta herencia cultural fue transformada en bebida con fines comerciales por primera vez en el siglo XIX, por comerciantes que obsequiaban a los indígenas con “espejos, peines y otros enseres superfluos” a cambio de la fruta, para negociar después con los compradores europeos. Con el avance de la tecnología, todas las esferas social, política y económica existentes hasta entonces fueron desmanteladas, según apunta el trabajo.

Guaraná Antárctica, que, históricamente, utiliza publicidad con mensajes que muestran que este cultivo amazónico constituye la base de la bebida azucarada, tiene un papel fundamental en ese desmantelamiento. El orgulloso discurso del marketing empresarial habla del “refresco original de Brasil”. No obstante, la cruda realidad revela que la compra voraz de fruta, iniciada hace más de 50 años por la entonces empresa paulista Antárctica, se apropió de la cultura de los sateré-mawé y dañó así las relaciones productivas colectivas, las cuales, actualmente, según los investigadores del UFAM, son “monopolizadoras”.

Tras la fusión de Antárctica y Brahma, que dio lugar a AmBev en 1999 y a la transnacional belgobrasileña de bebidas Anheuser-Busch InBev, la apropiación y la monopolización han aumentado agresivamente. El 21 de octubre de ese año, los ejecutivos de AmBev y PepsiCo Inc. suscribieron un acuerdo que preveía el compromiso de distribuir guaraná a más de 175 países, con el fin de convertirlo en un producto mundial. El acuerdo fue aceptado en audiencia con el entonces presidente de la República, Fernando Henrique Cardoso.

Ese período, según el estudio, también marca el inicio de la decadencia productiva del Amazonas, en especial del municipio de Maués, a 253 kilómetros de Manaos y tierra del pueblo sateré-mawé. Incluso el estado perdió el puesto como mayor productor de guaraná frente a Bahía, principalmente por factores relacionados con las investigaciones agrónomas, la renovación de las plantaciones de guaraná y la producción a gran escala.

“El guaraná ha dejado de ser un producto genuino de los sateré-mawé y se ha convertido en una marca conocida mundialmente, en la que el marketing principal gira en torno a la alusión a la indicación geográfica, como parte integrante de una cultura indígena secular amazónica, y la venta de dicha imagen es un factor preponderante en la acumulación de capital sobre esa cultura”, concluyen los investigadores Arenilton Monteiro Serrão, Manuel de Jesus Masulo da Cruz y Luis Fernando Belém da Costa.

Estudio pone en jaque la política de transparencia de Coca-Cola

Cruzando datos, revela que la empresa ocultó la mayor parte de las pesquisas científicas financiadas y fortalece la percepción de que la actividad física es tema preferencial para desviar la atención publica

Un estudio que acaba de ser publicado pone en jaque la política de transparencia de Coca-Cola sobre el financiamiento de estudios científicos. El articulo divulgado esta semana en Public Health Nutrition revela que Coca-Cola excluyó de las listas publicadas por ellos, desde Setiembre de 2015, a la mayoria de los investigadores financiados.

Paulo Serôdio, del Departamento de Sociología de la Universidad de Oxford, Martin McKee, de la London School of Hygiene and Tropical Medicine, y David Stuckler, de la Universidad de Bocconi, en Italia, encontraron 471 autores y 128 estudios que no han sido divulgados por la corporación de refrescos. El cruzamiento fue hecho desde bases de datos científicas.

Coca-Cola está en el centro de las atenciones desde 2015, cuando la prensa de Estados Unidos reveló una serie de cuestiones obscuras sobre la Red Global de Balance Energético, una iniciativa “científica” de Coca-Cola para poner énfasis en actividad física. El caso ayudó a esclarecer como la empresa se vale del sedentarismo para desviar el foco sobre el rol de sus productos en la epidemia global de obesidad.

Confrontada, Coca-Cola decidió divulgar una lista con 115 profesionales de salud y 43 proyectos financiados. Embotelladoras de la empresa en Reino Unido, Francia, Alemania, Nueva Zelanda y España siguieron esa actitud.

En el Brasil, sin embargo, la empresa se rehusa a divulgar información. Revelamos como Coca-Cola realiza encuentros con comunicadoras en los cuales expertos en actividad física niegan la responsabilidad del azúcar como causa de la obesidad.

Lo que el nuevo estudio revela es que hay una diferencia grande entre lo que Coca divulga y lo que de hecho sucede. “Demostramos que aunque  Coca-Cola dio un importante paso adelante en transparencia, aun sabemos muy poco sobre la real escala de sus esfuerzos de financiamiento”, concluyen los autores.

El universo de “investigadores” financiados por Coca-Cola, sin embargo, puede ser mucho más grande. Para poder hacer una comparación fiel a las listas divulgadas por la corporación, el estudio tomó en cuenta solamente trabajos financiados entre 2010 y 2015 en los países que adoptaron la política de transparencia. Cuando se suman todos los “investigadores” encontrados, 907 de acuerdo al trabajo citado, se concluye que la Coca-Cola divulgó una parte muy pequeña.

Los autores postulan si es no es tiempo para que esa industria sufra las mismas restricciones impuestas a los fabricantes de cigarrillos. “Nuestros hallazgos sugieren ausencia de transparencia en una industria que alegó ser totalmente transparente y contribuyen a establecer un clima de desconfianza. Eso puede asegurar el comienzo de una conversación sobre restricciones similares como resultado de las investigaciones financiadas por las industrias del azúcar y asociadas.”

A comienzos de marzo, el mismo grupo de investigadores se ocupó de los mensajes internos de la corporación en los que se discutía sobre la Red Global de Balance Energético. Los correos revelan que la empresa veía la iniciativa como un “arma” para “cambiar la conversación” sobre obesidad en la “guerra” contra la salud pública. La expectativa era promover iniciativas que fueran a un solo tiempo buenas para las políticas públicas y para las ganancias.

En febrero, investigadores de la Escuela de Salud Pública de Harvard publicaron una revisión de las evidencias científicas sobre los efectos negativos del consumo de bebidas azucaradas. Al evaluar la literatura producida entre 2007 e 2017, encontraron “evidencias fuertes” de asociación con sobrepeso y caries. Hay todavía evidencia “creciente” de relación con resistencia a la insulina y los efectos negativos de la cafeína, especialmente en el caso de las bebidas energéticas.

En América Latina, el Estudio Internacional de Obesidad, Estilo de Vida y Ambiente en la Niñez, conocido como ISCOLE, fue financiado por Coca-Cola como parte de la Red Global. Entre 2010 y 2014, el programa recibió nada menos que 6,4 millones de dólares.

Después de los escándalos, la empresa decidió financiar el Estudio Latinoamericano de Nutrición y Salud (ELANS), conducido por “investigadores” del International Life Sciences Institute (ILSI), creado hace 40 años por Coca-Cola y hoy financiado por las grandes fabricantes de comida chatarra. La corporación no quiso revelar informaciones sobre el ELANS, que también pone énfasis en el sedentarismo como culpable por la obesidad.

Al analizar la temática de las investigaciones financiadas por Coca-Cola, queda clara la preferencia por la actividad física como factor principal de obesidad. El American College of Sports Medicine, principal organización global de estudios sobre actividad física, fue el socio preferencial de Coca-Cola para publicaciones de este tipo. Y Steven Blair, ex-presidente de la institución, recibió 5,4 millones de dólares para proyectos.

Estudo coloca em xeque política de transparência da Coca-Cola

Cruzamento de dados revela que empresa ocultou a maior parte das pesquisas científicas financiadas e reforça interesse prioritário por atividade física como forma de desviar o foco dos danos provocados pelos refrigerantes

Um estudo que acaba de ser divulgado coloca em xeque a política de transparência da Coca-Cola em relação ao financiamento de estudos científicos. Artigo publicado esta semana pela revista Public Health Nutrition mostra que a maior parte dos pesquisadores com trabalhos financiados pela empresa ficou de fora das listas divulgadas desde setembro de 2015.

Paulo Serôdio, do Departamento de Sociologia da Universidade de Oxford, Martin McKee, da London School of Hygiene and Tropical Medicine, e David Stuckler, da Universidade de Bocconi, na Itália, encontraram 471 autores e 128 estudos que não foram divulgados pela empresa. O levantamento foi feito a partir de bases de dados científicas.

A corporação dos refrigerantes ficou no centro das atenções desde 2015, quando a mídia dos Estados Unidos revelou uma série de questões obscuras envolvendo a Rede Global de Balanço Energético, uma iniciativa científica financiada pela Coca para jogar luzes sobre a atividade física. O caso ajudou a elucidar como a empresa se vale da atividade física para desviar o foco sobre o papel de produtos que fabrica na epidemia global de obesidade.

Frente a isso, a Coca-Cola decidiu divulgar uma lista com 115 profissionais de saúde e 43 projetos de pesquisa por ela financiados. Engarrafadoras da empresa no Reino Unido, na França, na Alemanha, na Nova Zelândia e na Espanha seguiram essa atitude. No Brasil, como mostramos aqui no Joio, a empresa se recusa a adotar a mesma medida. Revelamos também como a empresa realiza encontros com influenciadores digitais nos quais cientistas tentam atenuar o papel dessas bebidas como causadora da obesidade.

O que o novo estudo revela é que há uma diferença muito grande entre o que a Coca divulga e o que de fato ocorre. “Demonstramos que mesmo depois de um importante passo adiante em transparência adotado pela empresa, ainda sabemos muito pouco sobre a real escala dos esforços de financiamento da Coca”, concluem os autores.

O universo de pesquisadores financiados pode ser muito maior. Isso porque, para poder fazer uma comparação fidedigna com as listas divulgadas pela corporação, o estudo levou em conta apenas trabalhos financiados entre 2010 e 2015, e nos países que adotaram a política de transparência. Quando se toma em conta todos os pesquisadores encontrados, 907, chega-se à conclusão de que a Coca divulgou uma parcela ínfima.

Os autores entendem que é hora de pensar se a indústria do açúcar e dos refrigerantes não deveria sofrer restrições similares à dos fabricantes de cigarros. “Nossas descobertas sugerindo uma falta de transparência numa indústria que divulgou ser totalmente transparente contribuem para um clima de desconfiança. Isso pode garantir o início de uma conversa sobre restrições similares na pesquisa financiada pelas indústrias do açúcar e correlatas.”

No começo de março, o mesmo grupo de pesquisadores passou a limpo e-mails internos da corporação nos quais se tratava da Rede de Balanço Energético. As mensagens revelam que a empresa via a iniciativa como uma “arma” para “mudar a conversação” sobre obesidade na “guerra” da saúde pública. A ideia era promover iniciativas que fossem ao mesmo tempo boas para as políticas públicas e para o lucro da corporação.

Em fevereiro, pesquisadoras da Escola de Saúde Pública de Harvard publicaram uma revisão das evidências científicas sobre os efeitos negativos do consumo desses produtos. Ao repassar a literatura acumulada entre 2007 e 2017, elas encontraram “evidências fortes” de associação com sobrepeso e cáries. E há ainda uma evidência crescente de relação com resistência à insulina e com os efeitos negativos da cafeína, em especial no caso de bebidas energéticas.

Mostramos aqui no Joio como, na América Latina, a Coca-Cola financiou o Estudo Internacional de Obesidade, Estilo de Vida e Ambiente na Infância, conhecido como Iscole. Entre 2010 e 2014, o programa recebeu US$ 6,4 milhões, o que inclui o Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (Celafiscs), comandado por Victor Matsudo, criador do Agita São Paulo.

Depois disso, a empresa decidiu bancar o Estudo Latino-americano de Nutrição e Saúde (Elans), conduzido por pesquisadores do International Life Sciences Institute (ILSI), organização criada há 40 anos pela corporação e que hoje é financiada pelas grandes fabricantes de ultraprocessados. A Coca não quis revelar ao Joio informações sobre o Elans, que, mais uma vez, coloca ênfase no sedentarismo como causador da obesidade.

Ao analisar a temática dos estudos financiados pela Coca, o trabalho que acaba de ser divulgado reforçou uma predileção da empresa por atividade física. O American College of Sports Medicine, principal organização global de pesquisa nessa área, foi um parceiro preferencial nas pesquisas. Steven Blair, ex-presidente da instituição, recebeu US$ 5,4 milhões para pesquisas, maior montante.

Já falamos aqui no Joio sobre as relações entre o American College of Sports Medicine e Victor Matsudo. E sobre como a organização tentou desacreditar estudos que mostravam efeitos negativos de isotônicos com teores elevados de açúcar, bebidas importantes tanto para a Coca como para a Pepsi.

O Gatorade não é um oásis

Saia do sofá, mas não largue o refri, diz a indústria

Coca-Cola financia pesquisadores para convencer de que a culpa pela obesidade é do “sedentário” e não da alimentação ruim; América Latina é alvo preferencial

Saiba por que a imagem original dessa reportagem teve de ser retirada.

Mexa-se. Faça exercícios físicos. Corra ou caminhe. Se não puder, suba escadas ou varra a casa. Caso falte tempo, não tem problema. Meia hora está de bom tamanho. Mais notícia boa? Pronto: você pode dividir os 30 minutos em três. Isso mesmo. Três sessões de 10 minutos vão te colocar em forma e deixar sua saúde nos trinques. É a fórmula da “felicidade”. Nem podia ser diferente. Esse é o plano de atividades físicas que a sempre feliz Coca-Cola tenta espalhar pelo mundo. Para tanto, a transnacional de refrigerantes conta com profissionais de saúde e pesquisadores posicionados estrategicamente com o objetivo de influenciar políticas publicas e o comportamento individual.

A segunda década do século 21 é o período em que a maior fabricante de bebidas doces do planeta tenta fugir da responsabilidade por aumentar as taxas de obesidade em todos os continentes. Não falamos do ontem. Vivemos isso agora, neste momento. Situação de consenso entre profissionais de atividade física e nutrição, e pesquisadores de alimentos, certo?

Nem tanto. Muitos criticam, embasados cientificamente, o consumo de bebidas açucaradas. Outros, entretanto, ainda sugerem um refrigerante como deleite, principalmente após a realização de exercícios.

Fevereiro de 2012 nos Estados Unidos. Vários “especialistas” escrevem posts para o Mês do Coração Americano (American Heart Month). Todos indicam uma mini-lata de Coca-Cola ou outro refrigerante como lanche. Os textos, que aparecem em blogs de nutrição e atividade física, inclusive nos dos principais jornais estadunidenses, escancaram o resultado de um poderoso esquema de bastidores montado para mostrar produtos da marca de forma positiva.

Ben Sheidler, porta-voz da megaempresa nos EUA, não titubeia e classifica as postagens como “acordos de colocação de produtos que uma empresa pode ter com programas de TV”. Diz mais: “Temos uma rede de nutricionistas com quem trabalhamos”. No entanto, recusa-se a dizer quanto a Coca pagou aos contratados. “Toda grande marca trabalha com blogueiros ou paga talentos”, conclui.

A estratégia de relações públicas com profissionais de saúde aborda o tema “Saúde do Coração”, uma referência a fevereiro de 1963, período em que mais da metade das mortes nos EUA foram causadas por doenças cardiovasculares.

Postagens repetitivas se referem a uma “opção de bebida refrescante após a atividade física, como uma mini-lata de Coca-Cola”. Outros sugerem: “Versões controladas em porções de seus alimentos favoritos, como mini-latas de Coca-Cola.”

O foco nas latas menores não é à toa. As bebidas açucaradas recebem críticas há tempos pelo aumento das taxas de obesidade e doenças relacionadas, como diabetes, hipertensão, problemas cardíacos, demência e câncer. Empurrar as mini-embalagens como maneira de “livrar da culpa” quem bebe refrigerantes é a solução pensada.

A divulgação, portanto, não pode ser feita por “qualquer um”, segundo representes da megaempresa. Em um comunicado, a Coca afirma que apenas deseja “ajudar as pessoas a tomar decisões certas” e que “opta por especialistas em saúde para ajudar a contextualizar os fatos e levar aos consumidores a ciência mais recente sobre nossos produtos e ingredientes”. A maioria dos textos aponta os autores como “consultores para empresas de alimentos”.

Felicidade é o lema, lembra? Por isso, tal “bondade” com a população. É “tanta” a preocupação com a saúde pública que talvez não caiba na mini-embalagem, que pesa 7,5 gramas. Do que se tem certeza, na prática, é de que cabem 106 calorias na latinha de apenas 150 ml.

Nutricionista, a estadunidense Robyn Flipse é uma das que têm artigo patrocinado pela Coca-Cola, um texto publicado por mais de mil veículos de informação dos EUA naquele fevereiro de 2012. Ela jura que sugeriria as mini-latas “mesmo que não fosse paga”. No entanto, admite não beber refrigerantes.

O contrato com a profissional começa com uma agência de relações públicas a serviço da Coca, sugerindo a produção de um artigo sobre saúde do coração. Depois disso, Robyn se torna colaboradora da corporação e da Associação Americana de Bebidas (American Beverage Association) durante anos. Cumpre tarefa cotidiana: produção de conteúdo para mídias sociais, geralmente no intuito de refutar que as bebidas açucaradas são responsáveis ​​pela obesidade. Se pesquisadores da saúde criticam os refrigerantes, lá está ela, perguntando à agência se deve rebater publicamente.

Robyn Flipse: de um artigo escrito em 2012 a colaboradora da Coca por anos

Em contraposição, o grupo Dietistas pela Integridade Profissional (Dietitians for Professional Integrity) reivindica que sejam traçadas linhas mais nítidas entre dietistas e empresas. Fundador da organização, Andy Bellatti assegura que “as empresas contratam nutricionistas e profissionais da atividade física porque eles validam as mensagens corporativas”.

Isso tudo, em um país onde a taxa de obesidade dos adultos cresce regularmente desde 1999 (quando estava em 30,5%). Atualmente, o problema nos EUA já afeta 39,6% da população adulta, de acordo com relatório governamental publicado no ano passado, que também indica a relação do crescimento do número de pessoas obesas com o aumento significativo de enfermidades, a exemplo de doenças cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer.

Pelas entranhas; espalhada: da universidade às políticas públicas

Alice Lichtenstein, professora de ciência e política de nutrição da Tufts University, em Massachusetts (EUA),  e membro do comitê de nutrição da American Heart Association (Associação Americana do Coração), entidade extremamente ligada à Coca-Cola, recebedora de fartos financiamentos da transnacional há anos, defende as mini-latas. “Podem ser um movimento na direção certa para alguém que bebe refrigerante regularmente”, comenta.

Ela não está sozinha. Há outros acadêmicos defensores de argumentos dessa linha. O Centro de Pesquisas Biomédicas de Pennington (Pennington Biomedical Research Center ) que o diga. Ali, a Coca-Cola financiou uma pesquisa para “avançar” em estudos sobre excesso de peso. Conclusão? A mais óbvia. O trabalho dos “pesquisadores” é taxativo em garantir que o maior causador de obesidade infantil em todo o mundo é o sedentarismo.

“Sabemos que a dieta e o exercício têm um papel importante na saúde geral e no controle de peso, mas fiquei surpreso ao ver que a atividade física tem um impacto ainda maior no peso das crianças do que pensávamos anteriormente”, diz Peter Katzmarzyk, diretor-executivo em ciência populacional e saúde pública no centro de pesquisas.

“Foi um estudo-padrão financiado pela Coca-Cola, que produziu resultados favoráveis ​​aos interesses de marketing da Coca-Cola”

Pesquisadores que aceitam financiamento da indústria não devem esperar credibilidade pública, diz Marion Nestle

Críticos do trabalho argumentam que os resultados engordam a velha postura da corporação de bebidas para explicar a epidemia de obesidade.

“Foi um estudo-padrão financiado pela Coca-Cola, que produziu resultados favoráveis ​​aos interesses de marketing da Coca-Cola”, diz Marion Nestle, professora da Universidade de Nova York e autora do livro Food Politics. A esta altura, com evidências em larga quantidade ligando bebidas açucaradas à obesidade, diabetes tipo 2 e outras condições, Marion, uma das mais respeitadas pesquisadoras em nutrição da atualidade, ainda observa: “Pesquisadores podem aceitar financiamento do setor que quiserem, mas não devem esperar que alguém acredite neles.”

Susto

Quando foram anunciados os membros do Comitê Consultivo de Diretrizes de Atividade Física de 2018 nos EUA, que examina as evidências científicas sobre a relação entre atividade física e saúde, e apresenta recomendações de consultoria científica ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos (Department of Health and Human Services), órgão de governo estadunidense, a comunidade científica que pesquisa seriamente a relação entre alimentos ultraprocessados e obesidade se assustou. Com motivos.

As recomendações serão tomadas em conta, juntamente com as de agências públicas e federais, enquanto o departamento desenvolve a segunda edição das diretrizes de atividade física para os norte-americanos. O problema é que nove dos 17 membros do comitê são bolsistas do American College of Sports Medicine, que também recebe o financiamento da Coca-Cola, além de dinheiro da Gatorade, marca de outra gigante das bebidas açucaradas, a Pepsico. Além disso, ao menos dois pesquisadores foram financiados individualmente pela Coca.

O primeiro é Peter Katzmarzyk , que liderou o polêmico estudo de Pennington sobre obesidade infantil, e é o principal beneficiário de uma doação de US$ 6,5 milhões saída dos cofres da Coca-Cola.

Katzmarzyk faz parte do comitê de pediatria do programa Exercício é Medicina (Exercise is Medicine), bancado pela Coca para difundir – com o auxílio de cientistas e profissionais de nutrição e atividade física – a ideia de que o sedentarismo, ou melhor, o sedentário, é o culpado pela epidemia de obesidade e doenças crônicas.

Outro membro do comitê financiado pela Coca, Russell Pate é ex-presidente da primeira associação. É “o cara” quando a Coca precisa de espaço na mídia para contra-atacar os críticos. Pesquisador na Universidade da Carolina do Sul, instituição que acumula mais de US$ 7 milhões vindos da empresa desde 2010, ele foi membro da Rede Global de Balanço Energético (Global Energy Balance Network), extinto em 2015 após denúncias de conflitos de interesse. O grupo de pesquisadores ganhou (má) fama por “duvidar” da ligação entre alimentação e obesidade, e por ter sido, também, criado pela Coca.

O Exercício é Medicina, fundado em 2007, nos Estados Unidos, é um programa da transnacional de refrigerantes em parceria com o Colégio Americano de Medicina dos Esportes e a Associação Médica Americana (American Medical Association) .

Pelas bandas de cá

Em novembro de 2014, o Exercício é Medicina foi oficializado como programa de âmbito nacional na Argentina. Os líderes da ideia são o cardiologista e cientista do esporte Jorge Franchella, que comanda os projetos de atividade física e desportos do Hospital de Clinicas da Universidade de Buenos Aires (UBA), e Sandra Mahecha Matsudo, coordenadora do Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (Celafiscs) e assessora científica do “Agita São Paulo”, vinculado à Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. Ela é ex-esposa do médico ortopedista brasileiro Victor Matsudo, ambos com reconhecido envolvimento com a Coca. Victor, aliás, foi o responsável pela apresentação no Brasil do controverso estudo sobre obesidade infantil feito pelo Centro de Pesquisas Biomédicas de Pennington.

Sandra Mahecha Matsudo é a articuladora do Exercício é Medicina na América Latina e parceira de longa data da Coca-Cola

“Só na Argentina, estão instalados, fora o Exercício é Medicina, mais três programas voltados a incentivar a prática de atividade física”

“Exercitar-se regularmente pode aumentar em até dez anos a expectativa de vida, reduzindo em 50% a probabilidade de desenvolver doenças como câncer, diabetes e doenças cardiovasculares. O programa irá fornecer informações básicas para os médicos encorajarem os pacientes a mudar hábitos sedentários e incorporar o exercício na rotina”, disse Franchella, no evento de lançamento do programa.

A América Latina já tem representantes do Exercício é Medicina em todos os países, com aproximadamente 3 mil profissionais de saúde treinados desde 2011, segundo números do programa. Para se enraizar na região, os cursos teórico-práticos são ministrados a médicos gratuitamente.

E as investidas para culpar indivíduos por problemas de saúde claramente sistêmicos não param. A megacorporação trouxe outros programas para terras latino-americanas. Só na Argentina, estão instalados Copa Coca-Cola de Futebol, Baila Fanta e Sprite Urban Tour, todos voltados “a incentivar a prática regular de atividade física”.

Em material institucional, a gigante das bebidas gaseificadas garante que, com isso, “contribui para o desenvolvimento dos programas e com o compromisso de promover estilos de vida mais ativos e saudáveis, buscando ajudar as pessoas a incorporar o movimento diariamente”.

Obesidade relacionada a câncer, diabetes, doenças cardiovasculares. Se considerarmos somente os argentinos, o número de pessoas obesas teve expansão preocupante em 30 anos, com a duplicação do índice em período pesquisado  pela Organização das Nações Unidas (ONU). Deve ser só coincidência que o país tenha sido apontado por outra pequisa como o maior consumidor de refrigerantes per capita do mundo em 2013.

Mas, sossegue (ops, se exercite!), é tudo culpa do sedentarismo. Nada é responsabilidade das corporações que enfiam altas doses de açúcar em produtos digeríveis ultraprocessados. Para Jorge Franchella, Sandra Mahecha e Coca, o mundo parece mais feliz se você se exercitar e não falar em cortar o refri.

Foto em destaque: Propaganut

Foto 1: Twitter 

Foto 2: Dietitians on-line 

Foto 3: Flickr 

Fábrica da Coca-Cola: a felicidade te espera mesmo lá dentro?

Marion Nestle diz que advertência em ultraprocessados funciona melhor que modelos da indústria

Uma das maiores especialistas em nutrição no mundo considera que oposição do setor privado a sistemas em discussão na América Latina é a melhor evidência de que são efetivos

Marion Nestle, professora do Departamento de Nutrição e de Estudos da Alimentação da Universidade de Nova York, afirmou que os sinais de advertência em ultraprocessados são o melhor modelo de rotulagem frontal disponível. Em editorial para o American Journal of Public Health, uma das maiores pesquisadoras em nutrição do mundo saiu em defesa do modelo adotado em 2016 no Chile.

“Até o momento, a melhor evidência de quão bem os modelos de rotulagem frontal afetam as escolhas alimentares é a intensidade da oposição da indústria de alimentos”, comentou. Para ela, os sinais de advertência funcionam melhor que o NutriScore, modelo adotado pela França no final do ano passado.

Além de assinar o editorial, ela também integra a lista de 26 pesquisadores da área que apoiam a adoção desse sistema no Brasil, conforme documento divulgado na última semana pela Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável. Esses pesquisadores consideram haver “fortes evidências científicas” a embasar o modelo apresentado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

A expectativa dos sistemas de rotulagem frontal que estão sendo estudados e adotados em vários países do mundo é mudar o comportamento dos consumidores e garantir uma reformulação de produtos para garantir a redução nos níveis de sal, gordura e açúcar.

O sistema francês classifica os produtos de A a E de acordo com o cruzamento de uma série de informações nutricionais. A adesão é voluntária, o que significa que alguns fabricantes podem evitar adotar esse padrão em ultraprocessados cuja classificação seja muito ruim.

“As brigas em torno da rotulagem frontal devem ser entendidas como um exemplo do conflito entre os imperativos de marketing da indústria de alimentos e a saúde pública. Se nada mais, as iniciativas de rotulagem frontal – assim como os esforços de aprovar a taxação de refrigerantes – deixam claro que as empresas de alimentos não pouparão esforços para derrotar iniciativas de saúde pública capazes de reduzir as vendas de produtos não saudáveis, mas lucrativos”, resume Nestle.

A Anvisa deve concluir este ano a discussão sobre um padrão de rotulagem frontal. O órgão público até aqui não sinalizou publicamente a preferência por um modelo. A indústria defende que se adote um semáforo que mostraria as cores verde, amarelo e vermelho para os nutrientes-chave.

 

Já o modelo apresentado pelo Idec tem como base o sistema chileno de advertências. São triângulos pretos que alertam para excesso de sal, açúcar, gorduras e gorduras saturadas, além de acusar a presença de edulcorantes.

 

 

A Anvisa informou recentemente que também analisa o NutriScore, encampado por aqui pela Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), conhecida pela proximidade com a indústria. O modelo foi protocolado fora do prazo, durante uma reunião em fevereiro. Pedimos acesso aos documentos apresentados pela entidade, mas, como de costume, a agência reguladora ignorou nossos pedidos, assim como se negou a oferecer qualquer explicação a respeito.

Para Marion Nestle, não deve haver surpresa na oposição que a indústria faz aos modelos de rotulagem. Ela considera que o NutriScore é superior aos sistemas defendidos pelas empresas, mas inferior aos sinais de advertência. Além do Chile, o Uruguai e o Peru estão próximos de adotar esse padrão, e o Canadá partiu da ideia chilena para desenvolver os próprios alertas, também com previsão de implementação este ano.

O texto de Nestle foi escrito como comentário a um outro artigo, que narra as estratégias das fabricantes de ultraprocessados para tentar derrotar o NutriScore. Chantal Julia e Serge Hercberg, epidemiologistas que tiveram participação na elaboração do modelo francês, comparam as táticas da indústria de alimentação às utilizadas pelas corporações dos cigarros.

“Distorcer as evidências científicas, pressões políticas e econômicas, desestabilizar os opositores na ciência, postergar a decisão e oferecer substitutos à política proposta”, elencam. Os autores contam que se levou quatro anos no processo de discussão do NutriScore e destacam o papel negativo da Nestlé, que tentou comandar a implementação de um modelo similar ao agora defendido no Brasil.

“Exemplos de lobby intenso no campo da taxação (particularmente no caso da indústria de bebidas açucaradas) mostraram o tamanho da briga que a indústria de alimentos pode promover contra políticas públicas de saúde”, alertam. “O exemplo francês mostra o esforço intenso que qualquer política pública na área de nutrição pode ter de encarar para ser bem-sucedido, em um tempo no qual ações urgentes são necessárias para frear o aumento de doenças relacionadas à nutrição no mundo.”

A tóxica dieta Trump

As políticas do ultraconservador presidente dos EUA, fã ardoroso do McDonald’s e compulsivo por Coca-Cola, podem ampliar os males da obesidade nos EUA    

*Reportagem de João Peres e Moriti Neto

Quando falou em “fazer a América grande novamente”, Donald Trump não deixou claro que proferia mais uma piada de mau gosto. O presidente dos Estados Unidos parece disposto a distribuir uns quilos a mais para cada cidadão estadunidense. Uma série de medidas simbólicas e práticas tem como meta dar cabo de um esforço coordenado para frear ou ao menos atenuar os efeitos negativos da obesidade.

“Fazer as refeições escolares grandes novamente”, anunciou em tom sinistro o material de divulgação do Departamento de Agricultura. Foi uma paráfrase infeliz do slogan oficial da atual gestão, aplicada a um tema em que “grande” não é exatamente sinônimo de saúde. Foi assim que o secretário Sonny Purdue definiu a reversão de parte da política de merendas saudáveis da administração Barack Obama: “Se as crianças não estão comendo o alimento, e está terminando no lixo, elas não estão tendo nenhum benefício nutricional.” Fazendo eco aos “melhores” argumentos da bancada ruralista brasileira, ele disse que não tomaria nenhuma decisão “que fizesse mal a seus 14 netos”.

Entre outras coisas, foi adiado em três anos o prazo para que as escolas passassem a oferecer refeições com níveis adequados de sal. O pretexto de que é difícil obter grãos integrais em certas localidades foi suficiente para “flexibilizar” essa norma. E, por fim, os leites desnatados com chocolate, que haviam sido eliminados do cardápio em 2012, devem voltar sob o argumento de que as crianças não gostam do líquido se não tiver aquele açúcar amigo.

Segundo os estudos de um grupo da Universidade de Harvard, as mudanças na alimentação escolar eram uma das medidas mais efetivas no combate à obesidade no país, somada à eventual criação de um imposto sobre o consumo de ultraprocessados e à redução de subsídios a certos produtos comestíveis. Só as mudanças na alimentação escolar poderiam prevenir quase dois milhões de novos casos de obesidade infantil até 2025.

Mas qual a importância da obesidade diante de um cenário de tensão global, escalada da xenofobia e revogação de direitos? A obesidade afeta 36,5% da população, segundo os dados mais recentes do Centro para o Controle e a Prevenção de Doenças (CDC), principal formulador de estudos na área de saúde. Entre crianças e adolescentes de 10 a 17 anos, 31,2% estão obesos ou acima do peso. Os custos diretos com a obesidade no país chegaram a ser estimados em US$ 210 bilhões por ano – uma estimativa mais conservadora fala em US$ 150 bilhões, o equivalente a quase 10% do PIB brasileiro.

Sabe-se que o excesso de peso é uma das portas de entrada para as doenças crônicas não transmissíveis, que se transformaram nas grandes responsáveis por mortes em todo o mundo. O diabetes dobrou nos Estados Unidos em menos de 20 anos, chegando a quase 10% da população. O CDC estima que, se nada for feito, 33% dos norte-americanos adultos terão a doença em 2050.

Trump: gosto particular do presidente pode influenciar políticas públicas e piorar o que já é ruim nos EUA; o excesso de junk food

Pois o CDC foi o palco de uma das muitas polêmicas da gestão Trump. Em julho do ano passado, o jornal The New York Times revelou que a diretora nomeada para o órgão, Brenda Fitzgerald, considerava a Coca-Cola uma aliada na luta contra a obesidade. Quando encarregada de comandar ações na área de saúde no estado da Geórgia, sede da multinacional, ela não teve dúvidas em aceitar US$ 1 milhão para um programa de atividade física nas escolas.

É de longa data a relação entre a indústria de refrigerantes e o sedentarismo, usado para desviar o foco do papel central que o açúcar exerce no crescimento da obesidade. Isso inclui usar a atividade física para criar uma imagem positiva para as empresas.

A revelação não foi suficiente para que Brenda deixasse o cargo. Em dezembro, o Washington Post trouxe à tona a proibição imposta por ela ao uso de certas palavras dentro do órgão de pesquisas: vulnerável, diversidade, transgênero, feto, baseado em evidências, baseado em ciência, direitos.

Brenda só caiu em janeiro, quando se revelou que, logo após assumir, ela comprou dezenas de milhares de dólares em ações de corporações de tabaco, justamente um dos maiores problemas de saúde do país, além de papéis de dois grandes laboratórios farmacêuticos.

Vai um escândalo, vem outro. Em fevereiro, foi revelado que uma lobista do agronegócio havia sido contratada para assessorar a equipe que formula a próxima edição do guia alimentar dos EUA, com lançamento em 2020. Kaille Tkacz trabalhava numa entidade de lobby de algumas das maiores corporações do agronegócio, antes de ser integrada ao Departamento de Agricultura, em agosto de 2017.

Bolsa Família, a repetição

Com a ideia de acenar à classe média sempre irritada com os “privilégios” do andar de baixo, Trump, de cara, atacou o Programa Assistencial de Nutrição Complementar (Snap, em inglês), semelhante ao Bolsa Família, que concede um benefício mensal de US$ 100 a 700. Atualmente, 42 milhões de pessoas (13% da população) estão cadastradas, mas o presidente quer garantir um corte gradual nos gastos até uma soma de US$ 193 bilhões em dez anos – atualmente, custa em torno de US$ 80 bi ao ano. Em geral, os programas sociais correspondiam a dois terços das reduções orçamentárias previstas no início do mandato.

Em dezembro, o secretário de Agricultura, Purdue, afirmou que o Snap não pode se transformar num “estilo de vida permanente”. De novo, soa familiar. Ele disse que foram criadas “flexibilidades” para garantir a “autossuficiência” dos cidadãos. Assim como no Brasil, “fraudes” em âmbito municipal serviram de pretexto para encolher o orçamento. Dias antes, o próprio Trump havia dito que as pessoas ficavam com raiva de ver que o vizinho não quer trabalhar “de jeito nenhum”.

A decisão de forçar os estados a limitar o benefício a indivíduos sem filhos é outra polêmica. Nos cálculos do Center on Budget and Policy Priorities, a exigência de restringi-lo a áreas com mais de 10% de desemprego excluiria de automático um milhão de cidadãos. Outros dois milhões deixariam de receber com base em restrições a idosos e pessoas com deficiência.

No começo de 2018, o governo voltou à carga contra o Snap, passando a prever um corte de 30% no orçamento até 2029. Outra medida é a conversão de parte do benefício em uma cesta de alimentos nada saudáveis: manteiga de amendoim, doces, cereais açucarados, feijão e frutas enlatados.

Também no início do ano, a Food And Drug Administration, equivalente à Anvisa, decidiu postergar para janeiro de 2020 a entrada em vigor da nova rotulagem nutricional, inicialmente prevista para julho deste ano. O objetivo é tornar os rótulos mais claros quanto a calorias e tamanho das porções, além de obrigar à separação entre açúcares naturais (como os existentes nas frutas) e açúcares adicionados.

Outra “flexibilidade”, essa patrocinada pelos republicanos no Congresso, tenta mudar uma proposta feita por Obama na virada da década e que deveria entrar em vigor em maio, após sucessivos adiamentos. Cadeias de restaurantes e máquinas de venda de comida teriam de passar a apresentar informação nutricional no local de compra. As empresas se apegam a um projeto de lei em tramitação, dizendo que esse daria maior liberdade para que cada estabelecimento possa definir a melhor maneira de apresentar os dados. O texto já passou pela Câmara e agora aguarda votação no Senado.

O pior é que os Estados Unidos, sede maior de transnacionais de alimentos, costumam ter o incômodo objetivo de influenciar o comportamento da humanidade. E, além de estimular o consumismo como pilar das economias de outros países, não são afeitos a aceitar não como resposta.

Exemplo tóxico

Donald Trump diz que odeia “perder tempo”. Refeição longa, para ele, é sinônimo de “atraso”. Por isso, invariavelmente, almoça um Big Mac, acompanhado de uma das 12 latas de Coca-Cola que ingere diariamente. É apaixonado confesso por McDonalds e Wendy’s (cadeia norte-americana de fast food especializada em “hambúrgueres quadrados”). O bacon vem antes, já no café da manhã, e o Doritos é consumido rotineiramente. O presidente garante, no entanto, que tudo que toma de refrigerante é “em versão diet”. Grande coisa; como veremos a seguir.

Homem que se orgulha por “não medir palavras”, o republicano consome calorias ao mesmo ritmo em que metralha o besteirol. O livro Let Trump Be Trump: The Inside Story of His Rise to the Presidency, (‘Deixe Trump ser Trump, a história da ascensão à  Presidência’, ainda sem publicação em português), escrito por Corey Lewandowski e David Bossie, revela a obsessão do líder ultraconservador pelos ícones transnacionais de comida porcaria.

O que vier, ele manda para dentro: Trump vive à base de lanches

Os autores acompanharam a última campanha presidencial, em 2016. Eles registraram que um jantar típico de Trump é servido com duas unidades de Big Mac, dois sanduíches de peixe e um smoothie (“suco” com a consistência de um milk-shake) de chocolate. A refeição é igual a 2.672 calorias, quando o valor médio diário recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 2.000 a 2.500 calorias.

Obcecado também pelo Twitter, o homem de 71 anos acorda às 5h e verifica a conta da rede social sem sair da cama. Toma café da manhã vez ou outra. Se o faz, escolhe ovos e bacon. Quando não, só come pela primeira vez no almoço.

Autora do livro The Low-Fad Diet (um trocadilho com low-fat, uma dieta baixa em gorduras), a nutricionista inglesa Jo Travers, que faz parte da Associação Dietética Britânica, avaliou a alimentação de Trump para o jornal The Guardian. Ela concluiu que a dieta pode ter “impacto na capacidade do presidente norte-americano de raciocinar e tomar decisões”. Em resumo, Jo diz que o presidente não consome nenhuma fonte de ômega 3, “gordura boa” presente nas oleaginosas, em peixes e em sementes, fundamental ao funcionamento das células cerebrais. “O corpo substitui isso por outros tipos de gorduras, tornando mais difícil o trabalho dos neurotransmissores. Isso está muito ligado a distúrbios de humor”, explica.

A julgar só pelo consumo de Coca Diet por Trump, Jo Travers não está sozinha. A ingestão de bebidas com adoçantes artificiais aumenta o risco de Acidente Vascular Cerebral (AVC) e demência, de acordo com estudo publicado pela Universidade de Medicina de Boston (EUA) e revisado pela Associação do Coração do país em abril do ano passado.

Os pesquisadores avaliaram 2.888 pessoas acima de 45 anos (média de idade de 62) para o risco de um derrame e 1.484 pessoas acima de 60 (média de idade de 69) no caso de demência. Outros textos científicos reforçam que os refrigerantes com açúcar ou adoçados artificialmente aumentam a possibilidade de ataque cardíaco ou AVC.

Foto em destaque: Twitter/Donald Trump

Foto 1: Vamos falar de comida?

Foto 2: Take Out

 

(mais…)

Fábrica da Coca-Cola: a felicidade te espera mesmo lá dentro?

Visitas às fabricantes do refrigerante mostram um mundo de fantasia, numa ação de marketing que quer limpar a barra da corporação quando o assunto é obesidade  

Mãe de Maria Luiza, de 6 anos, e de Isabela, de 2, Aline Bahia Pinto Soares é pura aceleração. Soteropolitana de nascença, ela faz jus ao sobrenome: segue na capital baiana, Salvador. Profissionalmente, Lika, como prefere ser chamada, divide-se em duas frentes. Dentista, é servidora pública concursada do município, mas também trabalha em consultório particular. Corre para exercer os diversos papéis e faz milagres para que as muitas tarefas caibam nas 24 horas do dia. Entre as principais preocupações que carrega atualmente, uma das maiores é fazer com que Malu, a filha primogênita, coma de forma saudável. Essa foi uma das razões que a motivaram a criar o blog “Mamãe vai fazer”, em 2013, e compartilhar experiências com outras mulheres que vivem as ansiedades da contemporaneidade.

A dois mil quilômetros de distância, Victor Matsudo vive em São Caetano do Sul (SP). Ele é um médico reconhecido. Ortopedista e traumatologista especializado em medicina do esporte, acumula prêmios nacionais e internacionais. Viagens e cerimônias glamorosas fazem parte do cotidiano.

O que há em comum entre esses personagens? A pergunta é justa. E, a resposta, dura: quase nada, mas o pouco que existe é revelador de como operam as corporações alimentares do planeta para transformar a ciência em marketing a serviço de interesses privados.

Pé na tábua, mas de marcha a ré. Cenas do dia 25 de setembro. O destino geográfico de Lika Bahia e Victor Matsudo, é a cidade de Recife (PE). Nenhum deles desembolsa dinheiro para as passagens ou quaisquer outras despesas. Tudo está pago. Os recursos financeiros vêm das contas de uma “Fábrica da Felicidade”, onde certo líquido de cor café e abundante em espuma gaseificada é o maior responsável pelos lucros. A Coca-Cola banca tudo, como parte do programa “Viva Positivamente”, braço da corporação que reúne muito marketing e pouca ciência numa “pegada” de “qualidade de vida” e “atitudes otimistas” para “viver de forma sustentável”.

Lika é só uma das convidadas da megaempresa. Outras 19 mães blogueiras da região Nordeste do Brasil também respondem ao chamado. O programa inclui conhecer a fábrica (aquela, a da felicidade), instalada no Complexo Industrial de Suape, além de um almoço e uma palestra sobre “vida saudável”, proferida por um médico: Victor Matsudo.

A primeira atração apresentada às mamães blogueiras chega em forma de almoço. Nele, pratos feitos pelo chef pernambucano Armando Pugliesi – jurado do Masterchef Kids Brasil em 2016 – são servidos com legumes, grãos e carnes de peixes. Tudo aparentemente muito saudável. A não ser por um detalhe. Há um “toque” de Coca-Cola nas refeições. “Temperando” a comida, o refrigerante que leva altas doses de corante caramelo E150d, elemento que contém substâncias suspeitas de causar câncer; cafeína em grandes volumes, o pode aumentar a pressão arterial; ácido fosfórico, que inibe o uso de cálcio pelo corpo, levando à osteoporose; e os adoçantes artificiais aspartame e acessulfame de potássio (nos refrigerantes em versão diet), que podem se transformar em formaldeído (derivado do metanol, agente químico extremamente perigoso à saúde humana) em altas temperaturas.

Salada à moda da felicidade: o molho é de Coca-Cola no almoço “saudável”

O encontro entre Matsudo e Lika se dá logo após. As 20 mães formam a pequena plateia que ocupa um dos auditórios da fábrica para ouvir o médico bater na tecla de que “se mexer é tão importante quanto uma boa dieta para uma vida saudável”.

Médico referência nas ciências do esporte. Chef de cozinha pop. Falta a Lika Bahia somente aquela voltinha pela “Fábrica da Felicidade” da Coca-Cola para encerrar o espetáculo em Recife. As visitantes são “recebidas” pela guia virtual Wendy, uma espécie de holograma que faz o convite oficial “para uma viagem no tempo”, como enfatiza o release da megaempresa.

“O que a Coca-Cola quer com isso? Quer mostrar que também preza a vida saudável. É uma contradição, não?”

As blogueiras conhecem a história da corporação no Brasil, visualizam campanhas publicitárias antigas, assistem a um filme 3D sobre a “fórmula secreta”. No fim, a sala de degustação as espera para, claro, tomar refrigerantes à vontade.

“O que a Coca-Cola quer com isso? Quer mostrar que também preza a vida saudável. É uma contradição, não?”, diz Lika, transparecendo certa dúvida, em entrevista por telefone. Antes de encerrar a conversa, ela alerta: “Antes que todas as metralhadoras maternas se voltem contra mim: não, nunca ofereci Coca-Cola para as minhas filhas. Mas, sim, elas tomam, eventualmente, outros produtos da empresa, como os sucos Kapo. E eu bebo Coca-Cola. Ela sempre tem lugar na porta da minha geladeira. Da mesma forma que, eventualmente, como brigadeiro, acarajé… Ainda com relação ao refrigerante, me sinto hipócrita por beber e dizer para as meninas que é ruim, mas seguiremos assim até quando der”, conclui.

Voa, doutor, voa

Não apenas as mães nordestinas são alvos do marketing. No dia 18 de setembro de 2014, ou seja, uma semana antes da viagem de Lika, blogueiros ligados à cultura pop recebem convites da Coca para ir ao restaurante HotSpot, em Recife, na famosa praia de Boa Viagem. Em dia diferente, mas, no mesmo local, é a vez das blogueiras de “moda e estilo”. No dia 2 de outubro, elas conhecem o “Menu Inesquecível Coca-Cola”, que, de acordo uma das convidadas, serve “até caviar com Coca”.

Se o cardápio é variado em cada visita, as palestras, não. O tema, sempre o mesmo: a importância de se mexer no dia a dia. O nome por trás do discurso é o onipresente Matsudo, à disposição da corporação de refrigerantes no Nordeste do país.

A relação contraditória entre a empresa e a ciência representada por Matsudo vem de longe e se dá em diversos níveis. Ele e a Coca-Cola estão de braços dados por aí. É maio de 2013 e o evento Mães + Amigas, realizado no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, recebe 50 mães escolhidas a dedo para compartilhar “a felicidade de ser mãe”.

O público-alvo é composto por mulheres com filhos entre 5 e 19 anos, moradoras de Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Salvador e Brasília. Todas, óbvio, têm número expressivo de seguidores na Internet. Ou seja: capacidade e capilaridade para influenciar outras mães.

Uma das blogueiras convidadas, que prefere não se identificar, diz que foi contatada pela agência de Comunicação Mutato, de São Paulo. “Recebi, primeiro, perguntas”, diz. As questões giram em torno do mercado de refrigerantes. “Qual é seu refrigerante preferido? Quantas vezes por dia ou por semana você bebe Coca-Cola? Considerando não só a bebida, mas os valores defendidos pela marca, você acha que a Coca-Cola te representa?”, são as indagações.

Os questionamentos, segundo o pessoal da Mutato, são a base para o lançamento de uma plataforma direcionada pela corporação para mães, no Facebook. “No início, um grupo fechado para 50 mulheres que estamos selecionando a dedo: são donas de casa, professoras, jornalistas etc. etc. Mães que, por suas individualidades, são mais do que especiais. O objetivo desse grupo é proporcionar um ambiente para que essas mães se conheçam, se inspirem e se informem. A intenção é que a Coca-Cola dê uma ajuda para que elas mesmas encontrem suas próprias ideias de felicidade, inspiradas na verdade que cada uma tem dentro de si. Afinal, a gente sabe que pra ser uma boa mãe não precisamos (sic) seguir regras. É isso que a gente quer discutir bastante nesse grupo com vocês”, descreve a mensagem de e-mail.

Onde se lê “pra ser uma boa mãe, não precisamos seguir regras”, entenda “pode dar refrigerante ao seu filho desde que ele faça exercícios físicos e viva positivamente”. É flexão no braço, positividade no coração e Coca na veia.

A tal plataforma, um simples grupo de Facebook, é o motivo do evento no Rio e contrasta com o lançamento nada econômico. Em solo carioca, desembarcadas dos voos e trasladadas, as mulheres são recebidas no MAM com um farto cardápio “finamente servido”. Com investimentos em celebridades, quem conduz a cerimônia é a jornalista Lorena Calábria. A cantora Tiê é a atração musical.

Contudo nem só de glamour vivem as bolhas da Coca. Tem que ter “papo sério” também. E Victor Matsudo está na capital fluminense para dizer o que fazer: caminhar, subir escadas e varrer a casa são atitudes “mais eficazes” à saúde do que cortar a latinha de refrigerante.

“Crianças precisam de 13 mil passos por dia ou uma hora de atividades físicas e adultos necessitam de 10 mil passos por dia ou 30 minutos de atividades físicas diárias”. Nenhuma palavra sobre as calorias contidas numa garrafa de Coca-Cola e de quantos passos são necessários para queimá-las. “Nós, pais da era da tecnologia, temos que cuidar e estar muito atentos para que nossos filhos não fiquem navegando no computador e boiando na vida”. Crítica ao tempo dispensado pelos jovens à tecnologia: liberada. Abrir o jogo sobre o prejuízo de “boiar” em refrigerantes: nem pensar.

Além do Facebook,  a intenção é que o Youtube abrigue o grupo, com o intuito de reunir as “Mães + Amigas” virtualmente em sessões de vídeo que objetivam “tirar dúvidas” sobre como fazer os filhos se interessarem por atividades físicas e se hidratarem e alimentarem “bem”. A dupla de professores? Coca-Cola e Matsudo.

Vamos ao receituário:

Aos 15 minuto e 29 segundos, começa o módulo sobre queimar calorias em exercícios físicos. A partir da pergunta de uma mãe, Matsudo se apoia na tese do balanço energético (você tem que gastar o que acumula de calorias com exercícios) para defender que ritmos menos intensos fazem gastar gordura, o que, segundo ele, é o suficiente para quem “não gosta de correr” e pode resolver a vida caminhando. Carboidratos e açúcares, na visão do médico, só entram na “fogueira” em atividades intensas.

O balanço energético é criticado por parte significativa da comunidade científica mundial, tanto do ponto de vista dos resultados, como pelo conflitos de interesses existentes nas relações com a indústria de ultraprocessados. Um grupo chamado Global Energy Balance Network, liderado por pesquisadores defensores da teoria e criado pela Coca-Cola, teve as atividades encerradas em 2015 depois de meses de pressão de autoridades de saúde pública dos EUA.  A missão da equipe: minimizar o vínculo entre refrigerantes e obesidade, obviamente, recebendo fartos recursos da transnacional de bebidas açucaradas.

Aliás, Matsudo aparece na lista internacional de pesquisadores financiados pela Coca para “estudos sobre obesidade infantil”. Em entrevista à reportagem de O joio e o trigo, o médico confirma que teve conexões com a corporação e diz que quem hoje toca a relação com a megaempresa é Sandra Mahecha Matsudo, também médica da área esportiva e esposa de Victor.  (mais…)

Carta a uma jovem mulher que ainda não nasceu

Por Vanessa Anacleto, do Movimento Infância Livre de Consumismo, especial para O Joio e O Trigo

Rio, 8 de março de 2018.

Esta carta é endereçada a uma jovem mulher que ainda não nasceu.

Você nascerá, tenho certeza, mais dia, menos dia, ano, década. Você pertencerá a uma geração que só conhecerá violência de gênero pelos livros de história e achará tudo estranho. A você, jovem mulher, dona absoluta de seu corpo, de sua carreira, de sua vida, deixo meus votos de uma vida plena e doce, como a vida deve ser.

Eu sei que você, menina, nasceu por desejo livre de sua mãe e que a gestação foi acompanhada em um pré-natal decente. Não faço ideia se seus pais viveram sempre juntos ou se você é fruto de um amor que já passou. Não importa muito, já que tenho certeza que, desde o anúncio da gravidez, sua mãe foi respeitada e acolhida, porque é assim que deve ser. Sei que se, por acaso, em algum momento, sua mãe tiver ficado em dúvida sobre deixar você nascer, ela terá sido atendida por alguém capaz de orientá-la e apoiá-la na decisão.

De todo modo, você nasceu, menina, num parto lindo, do qual sua mãe jamais esqueceu. Você nasceu no tempo certo, sem data marcada por médico. “Violência obstétrica” é um termo que caiu em desuso, ficou trancado dentro de uma caixa empoeirada no fundo de um porão esquecido, caducou, letra morta.

Sua mãe te amamentou onde precisou e pelo tempo necessário, menina, sem nenhum constrangimento. E, sem constrangimento, você foi criada. Coisa de menina é tudo o que a menina gosta de fazer. Aventura, matemática, física, robótica, tudo é coisa de menina, falaram para você. Ninguém nunca mandou se endireitar por já ser uma mocinha, você não foi adultizada, fidelizada pelo marketing na infância nem treinada para ser submissa. Ser princesa para você era só mais uma brincadeira, não a única fantasia. Seu irmão foi ensinado a dividir as tarefas de casa com você e seus pais, igualmente, sem sexismo. Opa, desculpe por mais uma palavra ultrapassada.

Você estudou e escolheu sua carreira, se vê representada em todos os espaços que percorre e, ao mesmo tempo, encontrou um amor, dois amores, três, não sei ao certo. Não passou por julgamentos pelo seu comportamento, nem por suas roupas. Você nunca teve medo de andar sozinha, nem foi importunada. E, se alguma vez aconteceu de algum homem fazer menção de abusar, você recebeu todo o apoio que imaginava precisar.

Desde o dia em que deu a louca e você resolveu se casar (porque quis, e não porque ouviu que ia ficar para tia),  tem um companheiro que está ao seu lado para dividir tudo o que pesa, com respeito, do jeito que deve ser. Você sabe que, se um dia o amor acabar, ele não vai acreditar que é seu dono e senhor. Isso é agora uma triste história do passado, que as mais velhas contam às vezes e causa arrepios. Você e o seu companheiro vivem tempos em que os papéis podem ser trocados e repartidos sem crises e dores. Quando você quiser poderá ter seus filhos. Se não quiser, poderá não ter. Ninguém vai te cobrar pelos filhos não nascidos. E, quando você envelhecer, não precisará sentir vergonha de o tempo ter passado e deixado em você as marcas da idade. Você não é escrava. Você é livre.

Meus votos são de uma vida longa e plena, a mesma felicidade que toda mulher merece ter. A cada gozo de seus direitos, meu único pedido é que pare para lembrar cada uma das mulheres, conhecidas ou não,  que durante séculos lutaram e sofreram (muitas sucumbiram) para que você tivesse direito a tudo isso que eu narrei e, por enquanto, só posso chamar de utopia.

Feliz dia da mulher agora, que dia de mulher é todo dia. Saiba que esse dia foi aberto a unha.

Vanessa Anacleto

A imagem em destaque foi gentilmente cedida por Iris Pirajá, arquiteta, ilustradora e facilitadora de oficinas de ilustração em Salvador.

 

A Flor que é chef, feminista negra e o que mais ela quiser

Militante em várias frentes, a carioca Thallita Flor faz da alimentação saudável ativismo e profissão, e defende que a mulher deve ter espaço em todos os ambientes, inclusive na cozinha

Thallita Floripes Xavier Torres prefere ser chamada de Flor. O nome combina com o perfil da jovem. Ela atua. Faz graça. Espalha sabores. É atriz e palhaça. E esculpe pratos, porque é cozinheira, das boas. Nascida e criada em áreas suburbanas do Rio de Janeiro, hoje mora no município fluminense de Niterói, no Morro do Caramujo, onde é dona e chef de cozinha do Banana Buffet, estabelecimento que possui uma particularidade: serve comida vegana nos eventos de que participa. Muita informação em um parágrafo? Não nesse caso. Faltou falar do mais importante. A moça conta que é “feminista, negra e favelada”.

O buffet presta serviços para casamentos, festas de aniversários infantis e de 15 anos, chás de bebê e encontros de empresas. Também faz eventos em parceria com restaurantes, organizando almoços temáticos veganos.

“Meus pais sempre trabalharam com eventos. Meu pai é DJ e minha mãe é garçonete. Eu acompanhava, ajudava. Então, a área de eventos não é estranha para mim”, explica Thallita.

– Por que o buffet é vegano?, pergunto.

Resposta dada, descubro que o veganismo, primeiro, veio como posição pessoal. Os negócios, depois.

Ela conta que descobriu o movimento vegano quando estourou o caso do Instituto Royal, aquele que, em 2012, foi flagrado fazendo experiências com cachorros para as indústrias de cosméticos e de limpeza.

Quando as notícias foram divulgadas, várias pessoas do círculo social de Thallita Flor ficaram indignadas. Eram cachorros que estavam sendo explorados. Não que ela não tenha se indignado, mas também questionava: por que que as pessoas estavam tão revoltadas se comiam animais todos os dias? “Indignação seletiva”, pensava. Vacas, porcos e galinhas não mereciam a mesma compaixão.

“Procurei respostas e acabei encontrando informações sobre o veganismo. Depois de ter me tornado vegana, resolvi abrir meu próprio negócio de culinária. Aí, veio a vontade de abrir um buffet vegano, que não existia aqui no Rio de Janeiro, algo em que os veganos pudessem ter tranquilidade com a procedência e a qualidade dos alimentos, que tivesse tudo de que um vegano precisa”, lembra a chef.

O lado artístico, do qual brotou “a Flor” do nome, está em ciclo universitário desde 2014, quando passou no vestibular de artes cênicas, na Unirio. A paixão maior de Thallita é a arte. Talvez por isso é que o Banana Buffet esteja bem. A atriz da cozinha dá vazão à criatividade, que se materializa em pratos saborosos e belos.

 

Com criatividade e feminismo na veia, Thallita é a líder do pessoal do Banana Buffet

E o feminismo, cadê, repórter? A moça não sabe exatamente quando se deu conta de ser feminista, porém recorda precisamente de uma série de detalhes que a fizeram entender a necessidade da luta como mulher negra.

“Quando entendi a dor da mulher negra, entendi o meu lugar. Entendi quais eram as minhas dores. Foi, inclusive, quando encontrei o feminismo negro, é importante esse recorte. A ficha caiu quando percebi que sofria preconceito pelo meu cabelo, pela minha pele. Precisava me unir a outras mulheres negras. E, quando me dei conta, estava no rolê”, diz.

O resultado dessa combinação foi mais uma articulação. Flor é uma das fundadoras do Movimento Afrovegano (MAV), do Rio de Janeiro.

“Foi a união de duas necessidades, de duas lutas. É preciso mostrar que existem negros veganos, negros preocupados com uma alimentação saudável”, enfatiza.

Conta mais, Thallita. A voz é sua aqui em O joio e o trigo.

Feminismo e mulher na cozinha

“Há maneiras diferentes de olhar para isso. A cozinha pode ser um lugar muito empoderador para uma mulher. Mas a questão é: por que existe essa gourmetização da comida atualmente? Porque o homem começou a cozinhar. Homens foram consagrados como chefs de cozinha. Então, a mulher tem é que brigar pelo espaço de chefia na cozinha. Claro que estou falando do mundo capitalista em que vivemos, de uma visão comercializada, mas acredito que a gente não pode deixar de brigar por esse espaço”, reflete a cozinheira.

Sobre relacionamentos amorosos e afazeres domésticos, Thallita comenta, sem titubear: “Tem que dividir as tarefas, porque é saudável cada um fazer uma parte. É saudável estar junto na cozinha e cada um fazer uma parte do processo”.

No entanto, quando o “lado cozinheira” dela predomina, a moça revela que tem algumas manias. “Ah, aí, eu não quero ninguém na minha cozinha. Mas também não é difícil, né?. É só a outra parte fazer serviços diferentes na casa”, avisa.

“A gente tem de fugir do estereótipo de que é a mulher é quem faz todo o trabalho doméstico. Cozinhar é um deles”

Para a chef (que é a voz mais alta neste momento da conversa, dentre os papeis que Thallita exerce), cada família ou relação tem uma dinâmica. Se um quer cozinhar sozinho, o outro tira o lixo, arruma a sala, limpa o banheiro.

“Isso, quando a mulher realmente gosta de cozinhar. Porque a gente tem de fugir do estereótipo de que é a mulher é quem faz todo o trabalho doméstico. Cozinhar é um deles. Posso não gostar de passar o pano de chão na casa e o cara é quem faz a faxina. A partir do momento que se quebra esse estereótipo, a gente consegue aceitar a ideia de que o lugar da mulher é onde ela quiser, seja na cozinha ou longe dela”, ressalta.

Com tudo isso, Flor ainda toma alguns cuidados. Não sai pelo Morro do Caramujo agitando bandeiras. Ainda vê riscos em assumir escancaradamente que é feminista: “Para quem me pergunta se sou feminista ou se tenho de ajudar outra mulher, eu falo, mas não saio gritando por aí. O meu tato com o homem favelado é maior, pois ele tem muito mais contextos que o colocam perto do machismo do que um homem branco rico. Onde moro, falo com os caras, dou conselhos, tento analisar a situação como um todo, claro que não tirando a culpa dele, mas o contexto que é dado a um homem negro favelado é muito mais propício ao machismo do que a um não favelado”

Ato político

O lado ativista vegano da jovem desperta quando a questão ética e política de comer é tocada. Ela indaga: “É ético ser racista?”.

“O racismo deve ser repudiado. É certo que a gente ainda tem dificuldade com isso, pelo racismo institucionalizado, mas, de modo geral, muita gente percebe que não é ético. Por exemplo, matar uma pessoa porque ela é negra não é ético, mas matar um animal é visto com normalidade. Quando eu digo que não é ético comer animais, é nesse sentido, porque eles também são ‘raças’ de seres vivos”, defende.

Ela explica que muitos momentos construíram a visão política que tem da alimentação. E indica o documentário Engrenagem, um curta de pouco mais de 16 minutos, recheado de animações. Informações fortes, de um modo rápido. Um vídeo que traz perspectivas ambientais, animais e econômicas, e que, na opinião da ativista, deveria chegar a muita gente.

“Fiquei surpresa no veganismo, pois muitas pessoas que são veganas odeiam seres humanos. Isso é uma coisa conflitante”

Porém, a voz de Thallita ecoa mais longe, numa fala contundente, que remexe a gente por dentro, veganos ou não. Adianta optar por não comer carne sem estar bem com a própria espécie?

“Para que você se preocupe com os animais não humanos, no mínimo, você já tem que estar bem com a sua própria espécie. Não faz sentido você procurar libertar alguém diferente porque você teve empatia, mas você não tem empatia por quem é igual a você. O número de pessoas que lutam pela humanidade já deveria ser o mesmo de pessoas veganas,  mas ainda não é assim. Todos os veganos deveriam estar inseridos em lutas pela humanidade. Fiquei surpresa no veganismo, pois muitas pessoas que são veganas odeiam seres humanos. Isso é uma coisa conflitante”, aponta.

Fora de moda

A quase onipresença da indústria alimentar não é encarada de modo simplista por Thallita Flor. Para a chef, a alimentação de hoje praticamente não é mais vista como “ato de sobrevivência”. Ou seja, se alimentar para ter energia, para continuar de pé e viver um dia após o outro saiu de moda.

“A nossa alimentação foi para um rumo completamente diferente e isso se dá pelo fato de que o ser humano, até onde eu sei, o ser humano é o único animal que busca comida por prazer. A nossa alimentação não se restringe a comer alimentos que são necessários, também tem a ver com o que a gente gosta. E, por gostar de comer, por querer sabores diferentes, a gente começou um processo de ter que Inovar o tempo todo e nem sempre a inovação acelerada traz coisas boas. Nem sempre alimento novo vem para te fazer bem”, analisa.

Lembremos dos biscoitos cheios de açúcar e gordura. Ou dos refrigerantes. Tem sabor agradável? Para alguns, sim. Thallita vê mais à frente: “A gente discute se um alimento faz bem ou não, mas a pergunta também é: ele é útil para você? Um biscoito, um salgadinho, são úteis para o seu organismo?”

A indústria na perifa

Segundo a chef, quem sofre mais as consequências do que ela chama de “loucura alimentícia” é a periferia. Buscar coisas novas o tempo todo, o consumismo – não importa se vai fazer mal à saúde. Parcela significativa do pessoal da favela vai atrás do que está na moda.

“O pessoal da periferia acaba influenciado a ir atrás. Existe a discussão de que nos mercadinhos da favela os produtos industrializados são piores. Por exemplo, aqui, no Caramujo, é muito comum ver marcas de refrigerantes que você não vê em grandes mercados do centro. Você vê marcas regionais, um refrigerante de cola menos conhecido do que a Coca-Cola. Não sei dizer qual é pior em termos de nutrientes, mas vejo outra situação: a questão social, o fato do refrigerante não ser conhecido, o que faz com que o status dele diminua. Não é só uma questão de ser ruim, mas do que significa como status social. Isso é uma coisa muito forte na periferia. Sempre que a pessoa tem uma oportunidade de comprar alguma coisa de marca, ela compra, para poder se sentir melhor. Seja na forma como se veste ou com o que come, a pessoa quer mostrar que não está por fora”, acrescenta.

Boa parte das pessoas da comunidade do Caramujo sabe que a alimentação mais saudável não é necessariamente mais cara, de acordo com a cozinheira. A maioria tem ciência de que se alimentar de vegetais é mais barato. O assunto complica quando as pessoas não sabem o que é comida saudável.

“Sempre digo que a gente não deve subestimar a capacidade do pobre de pensar, o que falta é chegar mais informação sobre alimentação saudável”

Thallita tem mais a falar sobre a relação indústria/periferia. De acordo com ela, as corporações alimentares estão “se lixando para a alimentação e saúde”.

“Quem mora aqui não sabe que existem vegetais que têm os nutrientes necessários para a vida. Falta informação, no sentido de conhecer mais sobre a alimentaçao vegana. Tem gente que me pergunta, mas só isso que você come te sustenta?”, pontua.

Pelo pique de Thallita, é claro que sustenta. Vamos relembrar: chef de cozinha e atriz. Ativista triplamente: feminista, negra, vegana.

“O maior trabalho é desmistificar isso, de que não sustenta. Outra coisa a ser combatida é de que o preço é alto em qualquer circunstância. Quando eu vendia quentinhas vegetarianas aqui, vendia a R$ 10 cada, a um preço acessível”, garante.

O que a moça não concorda de jeito maneira é que subestimem a inteligência de quem mora na comunidade.

“Sempre digo que a gente não deve subestimar a capacidade do pobre de pensar. O pobre pode ter empatia por animais, parar de comer carne. O que é crucial é que a mídia, quem tem o poder de espalhar a informação, diga ao pobre que comer vegetais não é frescura, que é um caminho mais saudável. Que, se for comer industrializados, a pessoa escolha os que não contêm tanto sódio, que não contêm tanto açúcar”, sugere.

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Breves histórias

Está em falta

“A gente também come muita porcaria porque não tem tempo, a gente não tem tempo de cuidar da vida pessoal, da saúde. O pobre chega cansado, quer comer um miojo, tomar um banho e dormir. Isso vai consumindo a nossa vida. Precisaria mudar a relação de trabalho. Muita mudança seria necessária para a gente cuidar melhor da alimentação”, frisa.

Orgânicos: tabu?

Se o acesso a vegetais não é tão difícil do ponto de vista econômico, comprar ingredientes orgânicos ainda é caro, normalmente. Mesmo na rotina pessoal, a chef confessa que tem de buscar lugares com descontos, mas que, em geral, não compra esse tipo de produto, porque os preços são impeditivos.

“Arrisco dizer que pobre não consome produto orgânico, a não ser que tenha uma horta em casa. Fora disso, dificilmente um pobre tem condições de consumir orgânicos”, assegura.

Na favela, orgânicos são vistos como coisa de gente “fresca”, ela diz. A visão, em muito, se dá por um ciclo negativo. A minoria que pode comprar produtos orgânicos pagam preços altos pelos itens, o que a ativista enxerga como “elitização da comida saudável”.

Veganos modinha

Thallita diz que há muitas pessoas vendendo “alguma coisa vegana por aí”.

“Sou um pouco chata, mas pessoas que não têm nada a ver surgem com uma tara por vender coisas veganas e fico incomodada. Por um lado, é bom ver surgir negócios veganos, mas tem negócio vegano surgindo com pessoas que não queriam ter aquele negócio. Elas criam reputação, ganham dinheiro e depois abandonam a gente. Fora a qualidade do alimento, que nem sempre é boa”, adverte.

Todo mundo é nutricionista

Dizem que uma dieta vegetariana ou vegana não é completa. A artista acha graça nisso.

“É até engraçado. As pessoas, geralmente, não estão preocupadas com a alimentação, mas, quando o outro fala que é vegetariano, todo mundo vira nutricionista. Pessoas que têm mania de sanduíches do McDonald’s criticam a alimentação vegetariana ou vegana”, diverte-se.

O que viraliza

Ativa também no ambiente virtual, Thallita tem forte presença na internet, com o blog Sim, sou vegana e feminista preta! No Facebook, a página do projeto já possui mais de 5 mil seguidores (fora os quase 4 mil que a seguem na página do Banana Buffet). Além disso, ela usa muito o Instagram.
“O que viraliza mais, creio, são as coisas de conteúdo mais específico, temático, seja no Instagram, no Facebook ou no blog. O Instagram, eu dedico um pouquinho mais para coisas do dia a dia, mostro a minha comida no café da manhã, coisas assim. Mostro quem sou, “gente como a gente”, para as pessoas verem que não tem mistério em ser vegana, periférica e negra”, diz.

Uma das criações do Banana Buffet e parceiros é o sanduíche de hambúrguer de acarajé, sem itens de origem animal

Constrangimento na Globo

Em setembro do ano passado, Thallita recebeu um convite do programa matutino Encontro, da Rede Globo, apresentado por Fátima Bernardes. A pauta incluiria a discussão sobre o tema da redução do consumo de carnes e a ativista poderia explicar, também, as experiências como mulher negra e da periferia. Não foi o que aconteceu.

A produção havia combinado que ela falaria sobre veganismo e o movimento afrovegano. Quando o programa foi ar, ela se viu sozinha em meio a pessoas que ou eram “adoradoras” de carne ou consumiam “de vez em quando”. Para piorar, durante a exibição houve uma operação conjunta do Exército e da polícia na favela da Rocinha, o que interrompia constantemente a atração.

“As coisas mudaram, o assunto acabou ficando raso. Não conseguia me aprofundar no tema da alimentação, de ser periférica, negra. Quase não consegui falar. Meu microfone ficava muito tempo desligado e, quando abriam, tinha um monte de questões que os outros convidados tinham levantado e eu mal conseguia responder, pela falta de tempo. Algumas situações me deixaram constrangida. Por exemplo, quando eu ia falar, um dos debatedores dizia: “Ah, mas você é toda magrinha”. Como se isso fosse um problema causado pela minha alimentação. Sempre fui magra, nada a ver com ser vegana”, conclui a ativista.

Foto de capa: Sim, sou vegana e feminista preta! 

Foto 1: Banana Buffet

Foto 2: Banana Buffet