Santiago, a capital que não se repete

Na primeira parada da viagem por outra América, uma cidade marcada por manifestações sociais e pela descoberta da bicicleta

Por Elaine Santana

Rodrigo e eu escolhemos a capital do Chile, como nosso primeiro destino na viagem pela América do Sul, por diferentes razões. Precisávamos comprar roupas para os meses frios que enfrentaríamos em alguns países e achamos que ali encontraríamos um preço mais razoável. Ambos já tinhamos ido a Santiago, uma cidade com a qual simpatizei desde a primeira visita. Pensamos que seria ótimo começar por um lugar confortavelmente conhecido. E há os queridos amigos que por lá vivem.

Na saída do aeroporto, uma surpresa: Yuyo, uma amiga chilena e nossa anja da guarda” em Santiago, pegou um carro emprestado, pediu licença no trabalho e foi nos encontrar e  levar ao albergue onde ficaríamos hospedados na primeira semana (nas semanas seguintes nos hospedamos na casa de amigos).

Na manhã seguinte, acordei com um email da Yuyo, que em visita a São Paulo, tinha definido uma manifestação no centro da cidade como “muy pequeña” (eu havia dito que era grande): “Quer ver uma manifestação com mais de 50.000 pessoas?”

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Perdidos pelas ruas do centro, nos atrasamos e só chegamos quando os manifestantes já estavam no ato final na Estación Mapocho: discursos de protesto, música, malabares. Era a Manifestação Nacional pela Educação. Entre emocionada e impressionada, fotografei os cerca de 100.000 manifestantes em sua luta pelo direito à educação de qualidade e de graça, um movimento popular que vem arrebatando diferentes setores da sociedade chilena, nos últimos dois anos, em luta conjunta por melhores condições nas escolas e universidades.

No sábado, quando falamos das roupas que íamos comprar, Yuyo entrou em ação novamente: nos levou ao Bío-Bío, o pitoresco mercado de pulgas. Yuyo pechinchou e compramos roupas novas e usadas por cerca de um terço do valor que pagaríamos em lojas.

Na segunda semana fomos hospedados por Nely e sua mãe, Rosemary. Nely dormiu a semana toda no sofá para que ficássemos confortáveis na sua cama. Foi na mesa de jantar da casa dela que o roteiro pelo Chile começou a formar-se. Sentados, canetas em punho, mapas e papel, fomos anotando o que havia de interessante em cada lugar. Nely viajou extensivamente pelo Chile e nos falou de cada lugar com uma paixão convidativa. Foi na mesa da casa dela também que começaram as cobranças para eu me empenhar mais para falar espanhol. Nely e eu discordamos terminantemente sobre a melhor forma de aprender. Ela dizendo que eu tinha que me forçar a falar e eu dizendo que aprenderia com o tempo, naturalmente e sem atropelos.

Na quinta-feira, mais um presente da Yuyo nos esperava: ingressos para assistir ao jogo da Universidad de Chile contra o Libertad de Paraguay, nas eliminatórias da copa Libertadores. Ela é torcedora fanática da “U de Chile”. O jogo foi disputado e bonito e ela cantava os hinos com emoção e paixão. Não sou grande fã de futebol, mas adoro ir ao estádio ver as pessoas torcendo: os hinos, os gritos, os palavrões, os momentos de concentração e tensão. Existe no Chile um amor por futebol semelhante ao dos brasileiros e saí do estádio me sentindo em casa.

Num ritmo lento, íamos visitando lugares conhecidos e desconhecidos, e eu ia, também lentamente, me adaptando à nova vida e rotina. Confesso que tive momentos de grande ansiedade e semi-pânico, pensando no que tinha deixado para trás em São Paulo: segurança, conforto, trabalhos. E ainda recebi duas ofertas de trabalho e sofri para dizer “não, não estou mais morando em São Paulo, estou viajando por tempo indeterminado”.

Fomos a Valparaíso, Cajón del Maipo, parques, cemitérios e alguns dos lugares mais marcantes de Santiago: mercado central, cerro Santa Lucía, cerro Blanco e bairro Patronato. E nos perdemos pelas ruas e edifícios históricos da cidade que, no outono, solta suas folhas amareladas pelas calçadas. Num domingo chuvoso (uma raridade na seca Santiago), nos atrasamos para encontrar amigos quando vimos, quase por acaso, uma feira de bairro. Tão parecida com as de São Paulo e tão, tão fotogênica. Os feirantes se aproximavam para ver as fotos e dizer coisas que, na época, eu não conseguia entender. Pelo jeito que alguns falavam, talvez tenha sido melhor assim…

Visitei Santiago pela primeira vez em 2004, com 24 anos; depois em 2010, fotografando logo depois do terremoto que derrubou e danificou casas; por fim, agora em 2012. Cada vez encontrei uma cidade diferente, que não tinha percebido da vez anterior. Fiquei intrigada com minha própria mudança de opinião sobre a rua Bella Vista no bairro de mesmo nome, o mais boêmio de Santiago. Em 2004, não cansava de voltar aos restaurantes dali. Agora, achei-a turística e demasiadamente cara. As ruas, restaurantes e cafés mais próximos ao bairro de Patronato, ainda em Bella Vista, me pareceram mais atraentes e autênticos.

Não pude deixar de notar o vertiginoso aumento de ciclistas nas ruas desde 2010. Locomover-se pela cidade de bicicleta, definitivamente, passou a fazer parte da cultura local. Em matéria sobre o assunto, o canal chileno 13 garante que a venda de bicicletas aumentou em 145% só no último ano e que a cidade está agora entre as 6 melhores do mundo para o cicloturismo. Os ciclistas, no entanto, fazem reclamações muito semelhantes às dos ciclistas paulistas: desrespeito às bicicletas, falta de sinalização e educação dos motoristas.

Santiago sofre com o crescimento desordenado desde o início do século XX. A poluição atmosférica atinge níveis perigosos durante os meses de inverno, e uma nuvem de fumaça cobre a cidade quase todos dias. O sistema de transporte público não dá conta da demanda e as diversas medidas para distribuir melhor o intenso fluxo de pessoas nos transportes públicos e de carros pelas ruas da cidade tem se mostrado ineficientes.

Em nossa última semana, ficamos hospedados na casa de Fede e Eileen. Nós, que em nosso apartamento em São Paulo, fomos criando gosto por cultivar hortaliças e plantas e nos orgulhamos dos tomateiros que cresceram por acaso em dois vasos na varanda, ficamos maravilhados com o jardim da casa deles: limoeiro, laranjeira, abacateiro, pimenteiro, tomateiro e hortaliças. Eileen tem o que os brasileiros chamam de dedo verde e os chilenos de mão verde e, com ela, dividimos copos de suco de laranjas retiradas frescas do pé. Ela também se debruçou sobre um mapa e nos mostrou lugares preciosos. Fede pacientemente nos explicou sobre o movimento dos estudantes e outras questões políticas do Chile.

Por fim, Yuyo apareceu numa tarde para o baião de dois vegetariano que preparamos e nos ajudou a finalizar o roteiro, indicando mais lugares no recém-comprado mapa do Chile. O sol se pôs enquanto dividíamos vinho e fazíamos planos no jardim da casa de Fede e Eileen. Estávamos prontos para seguir viagem por outras paisagens. Estavámos prontos para partir.


Elaine Santana é fotógrafa e documentarista. Participa desde 2010 da Escola Livre de Comunicação Compartilhada de Outras Palavras. Sua viagem está sendo relatada, desde maio, em breves posts (e muitas fotos) publicadas em seu blog:http://blog.elainesantana.com.br. Escreve, especialmente para o siteuma coluna quinzenal em que reflete sobre estas andanças e seu sentido.

Edições anteriores da coluna:

Outra América: uma viagem
Nova coluna: fotógrafa brasileira conta como decidiu, aos 32, suspender carreira e vida urbana, para conhecer continente a fundo
(28/7/2012)

TEXTO-FIM

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Elaine Santana é fotógrafa e documentarista. Participa desde 2010 da Escola Livre de Comunicação Compartilhada de Outras Palavras. Sua viagem está sendo relatada, desde maio, em posts e fotos publicadas em seu blog:http://blog.elainesantana.com.br. Escreve, especialmente para o site, uma coluna quinzenal em que reflete sobre estas andanças e seu sentido. Leia aqui todas as edições anteriores.