México: o enigmático caminho de Lopez Obrador

Novo presidente assume em dezembro. Sua campanha foi claramente à esquerda; sua vitória um feito histórico. Mas por que ele fala tão pouco em integração latino-americana?

Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Inês Castilho

Em 1º de julho de 2018, Andrés Manuel López Obrador, conhecido como AMLO por causa de suas iniciais, foi eleito presidente do México por uma margem expressiva. Recebeu 53% dos votos. Seus oponentes mais próximos foram Ricardo Anaya (do PAN), com 22%, e José Antonio Meade (do PRI), com 16%. Além do mais, sua aliança partidária, Morena, conquistou a maioria das cadeiras do legislativo.

Sua vitória foi comparada à de Lula no Brasil e à de Jeremy Corbyn, como líder trabalhista na Grã Bretanha. Mas Lula não chegou nem perto de ter a maioria dos votos, e sua ampla aliança partidária incluía grupos reacionários. Corbyn ainda está lutando para manter o controle do Partido Trabalhista britânico e, mesmo que tenha sucesso, enfrenta uma eleição difícil.

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Ao contrário, AMLO tem provavelmente a vitória com maior margem jamais alcançada por qualquer candidato numa eleição multipartidária relativamente honesta. Ele não terá problemas em permanecer no poder no único período de seis anos permitido pela constituição mexicana.

Então, por que apenas dois vivas? Uma olhada na história do México irá esclarecer minha reserva. A chamada Revolução Mexicana de 1910 derrubou um regime opressivo e muito antidemocrático, razão pela qual é vista como o início do Estado moderno no México. Contudo, não resultou em paz e estabilidade relativas. Muito pelo contrário! As duas décadas que se seguiram a ela assistiram a lutas constantes e violentas entre várias milícias armadas, nenhuma das quais foi capaz de prevalecer.

No entanto, em seguida ao assassinato do principal candidato à presidência, um arranjo de facto foi capaz de trazer certo grau de estabilidade e uma grande redução da violência. O partido que garantiu essa relativa estabilidade passou por mudanças de nome e a certa altura tornou-se o Partido Revolucionário Institucional, ou PRI.

O sistema desenvolvido pelo PRI baseou-se na exigência constitucional de uma eleição, em 1º de julho, a cada seis anos. O presidente em exercício poderia ter apenas um mandato. Seu sucessor era escolhido por uma negociação de bastidores entre os líderes do PRI. A eleição era, na verdade, uma formalidade. Com exceção de um período politicamente radical, de 1936 a 1942, o sistema PRI de eleições arranjadas resultou em governos com elites altamente corruptas e que tinham pouco a oferecer ao terço ou metade da população na base da pirâmide.

O sistema PRI levou a um grande descontentamento popular. Isso gerou o surgimento, no final do século vinte, de um grande desafiante, o Partido Acción Nacional (PAN). O PAN foi construído numa base católica, que reagia ao programa fortemente anticlerical do PRI e do México.

O PAN venceu as eleições de 2000, pondo assim um ponto final ao monopólio do PRI na presidência. Além do PRI e do PAN surgiu também um partido social-democrata denominado Partido de la Revolución Democrática (PRD). O México havia se tornado, agora, um país de eleições competitivas. Que diferença fez isso? Não muita.

AMLO concorreu como candidato do PRD em 2012, mas perdeu a maioria por fraude. Ele lutou duramente contra o “falso” vencedor, mas com pouco apoio do PRD. Agora, AMLO construiu sua luta pelo poder rejeitando os três partidos principais.

Por que não foi igualmente trapaceado em 2018? O governo PRI de 2012-2018 usou de extrema violência contra a oposição. Mataram estudantes que protestavam. Isto levou a revoltas generalizadas da população, o que tornou impossível fraudar os resultados mais uma vez.

AMLO lançou um programa verdadeiramente de esquerda. Sua plataforma previa um aumento significativo na distribuição de renda para grandes massas de pobres. Defendeu o fim das chamadas pensiones, pelas quais enormes somas eram pagas aos ex-presidentes. Ao contrário, AMLO advogava pensiones para os pobres. Nesse sentido, seu programa era semelhante ao de Lula, com seu Bolsa Família e seu Fome Zero. A diferença é que AMLO não pode ser expulso do poder, como Lula foi.

AMLO chama sua proposta de nini (nem nem), para aqueles que não são nem estudantes nem trabalhadores, e que constituem um grupo muito amplo de jovens. Propõe pagamentos para eles sobreviverem enquanto forem capacitados, em programas governamentais, e se tornem aptos a conseguir um emprego.

A esquerda latino-americana aclamou a eleição de AMLO, vendo em sua vitória uma possibilidade de reavivar a chamada maré rosa na América Latina, que sofreu muitos reveses na última década. Os Estados Unidos estão claramente preocupados e infelizes. Trump já está tentando cooptar AMLO.

Eu também saúdo a vitória de AMLO. Mas me preocupo com o fato de que, ao contrário de Lula, ele mostrou pouco interesse em tornar-se um líder latino-americano, e não somente mexicano. Neste momento ele ocupa uma posição muito forte no México, mas ninguém é impermeável a contrapressões. Ele não pode, realmente, dar conta disso sozinho. Precisa da esquerda latino-americana, exatamente como esta precisa dele. Vamos ver como navegará nas negociações sobre o Nafta.

Finalmente, como todos os líderes populares que lutaram muito e obtiveram sucesso ao alcançar o poder, eu me pergunto o quanto ele reflete sobre as limitações de ser uma figura carismática. Muita autoconfiança tem sido a razão da queda de muitos líderes populistas de esquerda. AMLO também não mostrou, no passado, muita tolerância com aqueles que questionam a prudência de algumas coisas que ele faz.

Então, dois vivas sim – altos, com esperanças pelo melhor.

 

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Immanuel Wallerstein

Um dos intelectuais de maior projeção internacional na atualidade. Seus estudos e análises abrangem temas sociólogicos, históricos, políticos, econômicos e das relações internacionais. É professor na Universidade de Yale e autor de dezenas de livros. Mantém um site onde publica seus textos (http://www.iwallerstein.com/).