México: nova rebeldia nas barbas do Império

Num país militarizado e empobrecido, cujas elites submeteram-se a Washington, um candidato popular à Presidência desafia o “establishment”. O cerco a ele começou…

Por Mark Weisbrot | Tradução: Inês Castilho

Em pouco mais de três meses (em 1º de julho), o México terá eleições presidenciais descritas por grande parte dos comentaristas da mídia dos EUA e internacional como um evnto perigoso. Para alguns, é peça de uma “tempestade perfeita”, que poderia causar danos à economia mexicana (junto com a reforma tributária de Trump e ameaças ao NAFTA). Para a mídia de negócios, é uma ameaça aos investimentos estrangeiros, especialmente na indústria petrolífera estatal, que tem tido abertura sem precedentes a tais investimentos desde 2013; para outros observadores, ameaça a “segurança” – quer dizer, a política externa – dos Estados Unidos.

O problema, segundo especialistas do governo Trump, é que o candidato de esquerda Andrés Manuel López Obrador (conhecido por suas iniciais, AMLO) tem uma liderança considerável nas pesquisas, e bem poderá tornar-se o próximo presidente mexicano. Mas será que sua possível eleição significa realmente a ameaça que dizem ser?

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Embora Lópes Obrador tenha se deslocado para o centro durante a campanha, seu partido, o Morena — Movimento de Renovação Nacional — tem uma base de esquerda que se assemelha a alguns dos movimentos e governos a que Washington tem se oposto, desde que começaram a se espalhar pela América Latina nos primeiros anos do século 21. Lópes Obrador foi um prefeito popular da Cidade do México de 2000 a 2005; concorreu à presidência em 2006 e 2012 pelo centro-esquerdista Partido da Revolução Democrática (PRD). Em 2014, quando criou o Morena, levou consigo grande parte do apoiadores do PRD.

O proclamado propósito do Morena era criar uma alternativa aos partidos políticos existentes, de modo a reformar não somente a governança do México, mas também sua política econômica. O objetivo era deslocar a economia mexicana em direção a um modelo mais desenvolvimentista – de mercado interno mais robusto, por meio da política industrial e investimentos e planejamento públicos – e prover algo como um estado de bem-estar social, levando o México a uma direção mais social-democrata.

Como Bernie Sanders nas eleições presidenciais dos EUA de 2016, López Obrador está concorrendo como um outsider, contra o que ele chama de elite corrupta, representada por todos os partidos mainstream que não conseguem prover segurança nem econômica nem física para os cidadãos do país. Ele promete “acabar com a corrupção no governo de alto a baixo, como se limpam as escadas”. E propõe a realocação de cerca de 4% do PIB do México para programas sociais e de infra-estrutura, inclusive uma renda básica universal. Uma política semelhante para os moradores da Cidade do México, quando era prefeito, foi uma de suas realizações mais populares e influentes.

Os outros partidos parecem estar reforçando o que Obrador diz sobre eles, já que se misturam cada vez mais, a despeito das diferenças ideológicas. Os restos do PRD, antes apoiado pela esquerda, estão se aliando ao Partido de Ação Nacional (PAN), um partido de direita ligado à Igreja Católica. O PAN rompeu o controle de mais de setenta anos de governo do Partido Revolucionário Institucional (PRI) em 2000, com a eleição do presidente Vicente Fox. Mas o governo de Fox não conseguiu melhorar o padrão de vida da maioria dos mexicanos, e a “guerra contra as drogas” patrocinada pelos EUA não conseguiu conter a crescente onda de violência. Em 2012, o PRI ganhou novamente a presidência com a eleição de Enrique Peña Nieto.

Líder nas pesquisas, Lopez Obrador denuncia conluio dos adversários. Eles parecem lhe dar razão…

Mas este revelou-se o presidente menos popular das últimas décadas, graças ao continuado fracasso econômico e a uma série de escândalos de corrupção, assim como o fracasso de seu governo em controlar os níveis epidêmicos de violência. Em janeiro, dados preliminares do governo mostraram que, em 2017, o México sofreu o maior número de assassinatos jamais registrado. O encontro de Peña Nieto com o então candidato Donald Trump, em 2016, mostrou-se também desastroso, somando ofensas aos vários danos sofridos pelo presidente mexicano quando Trump afirmou que não havia discussão sobre quem pagaria o muro proposto por ele, enquanto Peña Nieto sustentava ter afirmado que o México não pagaria por isso.

O candidato do PRI nessas eleições, José Antonio Meade, está, portanto, debilitado, com um distante terceiro lugar nas pesquisas (ele também é amplamente visto como um candidato sem brilho). Fala-se que o PRI jogará seu peso sobre o candidato do PAN, Ricardo Anaya, reforçando assim a visão de uma massa indiferenciada de políticos, como López Obrador e seus apoiadores os rotularam.

Muita gente acreditou que o México começava uma transição para a democracia em 2000, quando o PRI perdeu a presidência. Mas isso revelou-se uma espécie de mito. A promessa de transição nunca se materializou, e o México tornou-se um narco-estado cada vez mais violento e ainda mais profundamente corrupto. As fracassadas reformas econômicas neoliberais que o PRI começou a fazer, no início dos anos 1980, foram consolidadas com o acordo do NAFTA, que ajudou a tornar o México econômica e politicamente mais próximo dos EUA.

Primeiro, a economia. De 1960 a 1980, sob o velho regime do PRI, a renda média dos mexicanos praticamente dobrou. Se a economia continuasse crescendo nesse passo, os mexicanos teriam hoje um padrão de vida comparável ao da Europa. Só podemos especular se, à medida em que se desenvolvia, o México teria se tornado mais democrático; foi o que aconteceu com a maioria dos países, embora em ritmo variado.

Presença do Exército nas ruas e violência policial (foto) fizeram do país laboratório para o que se pratica agora no Brasil e Argentina

Ao contrário, os anos 1980 foram uma “década perdida”, com crescimento negativo da renda per capita, à medida em que o México – sob pressão de credores externos, inclusive o FMI – transformava sua economia com reformas neoliberais, liberalizando o comércio internacional e o fluxo de capitais, privatizando empresas estatais e abandonando políticas industriais e de desenvolvimento. O NAFTA institucionalizou a maioria dessas mudanças prejudiciais sob a forma de um tratado internacional, em parte a pedido de Washington, para torná-las permanentes.

Os 23 anos que se passaram desde o NAFTA foram um fracasso econômico, a partir de qualquer comparação histórica ou internacional. A taxa de pobreza do país é hoje mais alta do que era em 1994, e os salários reais (ajustados pela inflação) mal subiram. Nesse período, o México ficou em décimo-quinto lugar entre os vinte países latino-americanos no crescimento do PIB per capita. Quase cinco milhões de agricultores perderam seu meio de subsistência, incapazes de competir com o milho subsidiado dos EUA. Embora tenham sido criados alguns empregos nas novas indústrias de agroexportação, o deslocamento contribuiu para uma onda de emigração para os EUA, de 1994 a 2000.

Que espécie de democracia desenvolveu-se a partir desse experimento econômico continuamente fracassado? Pode-se esperar que os governos tivessem de encontrar outros caminhos para permanecer no poder, já que não cumpriam suas promessas. De fato. O The New York Times conta que o governo mexicano gastou, nos cinco últimos anos, a incrível quantia de aproximadamente 2 bilhões de dólares para comprar a mídia – em parte pagando publicidade, sob a condição de receber cobertura favorável.

Além disso, de acordo com o jornal, pelo menos 104 jornalistas foram assassinados desde 2000, e outros 25 desapareceram. Em 2017, o México foi o segundo país mais perigoso do mundo, depois da Síria, para praticar jornalismo. Embora muita gente tenha a impressão de que os cartéis de drogas são os principais responsáveis pela violência e clima de pavor, o New YorkTimes informa que “segundo os dados do governo, servidores públicos tais como prefeitos e policiais vêm ameaçando jornalistas mais frequentemente que cartéis de drogas, criminosos menores ou qualquer outra pessoa”.

Multidão comparece a comício de AMLO na Cidade do México. Para elites, candidato é “populista” favorecido por Moscou…

Não somente jornalistas, mas cidadãos e ativistas podem ser assassinados por suas atividades protegidas constitucionalmente. O desaparecimento e massacre em 2014 de 43 estudantes em Iguala, no estado de Guerrero, chamou a atenção do mundo para a violenta repressão no México, por causa da escala do crime e do envolvimento documentado de forças e agentes de segurança do governo.

A falta de uma mídia independente, o quase-monopólio por duas redes partidárias sobre a televisão aberta, a compra generalizada de voto, e o uso de recursos estatais pelo governo em campanhas eleitorais tornam a democracia eleitoral no México especialmente fraca. Além disso, há o próprio processo de votação. Em uma eleição presidencial disputadíssima, em 2006, Lopez Obrador perdeu por menos que 0,6% do voto popular. Mas houve um problema a mais: embora em cada seção eleitoral o número de células votadas mais o número de células em branco deva corresponder ao número inicial de células em branco, não foi o que ocorreu em quase metade dos locais.

A despeito dos relatos de trapaças e fraudes eleitorais — e centenas de milhares de pessoas nas ruas exigindo a recontagem dos votos –, o governo Bush imediatamente jogou seu peso numa campanha para declarar legítima a eleição de Felipe Calderón do PAN. (Uma recontagem parcial, cujos resultados não foram revelados enquanto a apuração se processava, levantou sérias questões sobre a lisura do processo).

Muitos mexicanos estão novamente apreensivos com a perspectiva de fraude nas eleições de julho. Mas funcionários do governo Trump, incluindo o Chefe de Gabinete da Casa Branca, John Kelly, ex-chefe do Comando Sul dos EUA, manifestaram outras preocupações. Temem que López Obrador vença. De forma previsível, funcionários dos EUA alegaram que haverá interferência russa nas eleições. Seguiu-se uma enxurrada de artigos tolos, sem dados concretos, e as alegações viralizaram no México, como se pretendia. López Obrador respondeu expondo a difamação ao ridículo. Denominou-se “Andrés Manuelovich” e declarou-se ansioso para ver um submarino russo emergir com seu ouro. (Nas eleições de 2006, a televisão foi inundada por falsas alegações de que López Obrador tinha vínculos com o governo chavista da Venezuela; essa campanha de difamação também ressurgiu.)

Curiosamente, a despeito de toda a fanfarronice de Trump sobre a construção de um muro e a renegociação do NAFTA, combinada a seus insultos e ameaças comerciais, e a animosidade daí resultante, a cooperação do México com a nefasta política exterior de Washington para região mantém-se forte. Praticamente ninguém acreditou no resultado das eleições de 26 de novembro em Honduras; até mesmo a Organização dos Estados Americanos (OEA), amiga de Washington, pediu que fossem feitas novas eleições. Mas o México foi um dos primeiros a emitir forte declaração em apoio ao “vencedor”, o presidente em exercício – e aliado dos EUA – Juan Orlando Hernández, cujo partido assumiu o poder com a ajuda  dos EUA após o golpe militar de 2009.

A agência Reuters informou em dezembro que a declaração oficial do México “foi negociada com a coordenação dos Estados Unidos”. Num movimento suave, no dia seguinte um funcionário sênior do Departamento de Estado dos EUA citou a declaração do México como argumento para rejeitar pedidos de novas eleições em Honduras. Esse é o tipo exato de coordenação de que os EUA gostam – e que o governo Trump deve temer que desapareça com um presidente mexicano menos submisso.

É difíciI dizer o quanto López Obrador poderá ou irá fazer se eleito, dadas as diversas forças contra ele, tanto as internas quanto as vindas do Norte. Mas se há um candidato e um partido reformista na disputa, eles são López Obrador e seu partido Morena.

Em julho, os mexicanos irão decidir se conseguem fazer mais, por uma nação melhor e mais independente – se são capazes de defender seu direito a eleições livres e justas.

 

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Mark Weisbrot

Mark Weisbrot é um economista norte-americano, colunista e co-diretor do Centro de Pesquisa sobre Economia e Política (CEPR, em inglês) em Washington. É também comentarista do New York Times, The Guardian e da Folha de São Paulo.