Dossiê: a preparação de um golpe no Paraguai

Está em marcha tentativa de derrubar Lugo no Congresso (Elementos para pesquisa e preparação de matéria)

Talvez um dos grandes desafios da blogosfera seja examinar, produzir e difundir informações sobre os fatos que a mídia convencional não quer investigar. Este post sugere um esforço comum para apurar em detalhes o que está ocorrendo no Paraguai — onde há sinais nítidos de um golpe de estado em preparação. Como os planos atuais são de aplicá-lo em silêncio — no Legislativo, e sob aparência de legalidade –, faz parte da lógica evitar que a opinião pública internacional compreenda, em detalhes, o que se passa.

Por isso, alguns fatos são ainda obscuros e precisam ser melhor investigados. O país viveu ontem (5/5) mais um dia de crise entre os poderes da República. Congresso e Judiciário estão em conflito devido à suspensão de três juízes da Suprema Corte — que o Legislativo exige e a Suprema Corte rejeita. Houve manifestações populares diante das sedes das duas instituições. Nosso dossiê (disponível aqui) reproduz matérias, imprecisas, a respeito.

O mais revelador é: líderes da oposição ao presidente Fernando Lugo afirmaram que, por trás dos atritos, está uma manobra do chefe de Estado para criar um precedente jurídico que afaste a possibilidade de seu próprio “impeachment”. Ao fazê-lo, tornaram ainda mais claros seus objetivos. Embora um pedido de destituição do presidente não tenha, ainda, sido formalizado, a proposta foi ventilada, no final do ano passado, pelo senador Alfredo Luís Jaeggli, do Partido Liberal. Dias depois, o próprio vice de Lugo, Frederico Franco, declarou-se pronto a assumir. Também estas informações constam do dossiê.

Uma interessante explicação para a trama está em entrevista que dois dirigentes políticos paraguaios ( Najeeb Amado secretário-geral do Partido Comunista e Ernesto Benítez, líder de agricultores) concederam em 17 de dezembro ao jornal argentino Página 12. Eles relatam basicamente o seguinte:

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> A sustentação parlamentar ao presidente está declinando de modo acelerado. A ampla coalizão que o apoiou se desfez. Permanecem leais a Lugo apenas uma pequena minoria de congressistas, tanto na Câmara quanto no Senado;

> O presidente, empossado há pouco mais de um ano (e depois de décadas de controle total do poder pelas oligarquias) enfrenta, desde o início, um bloqueio quase absoluto à execução de seu programa. Propôs a reforma agrária, mas mesmo o esforço do Estado para identificar os donos das propriedades rurais é considerado medida “subversiva” e não pôde avançar. Até o momento, não conseguiu pôr em prática quase nada do que propunha;

> Estas dificuldades acabaram desencadeando divisões também à esquerda, onde há impaciência e gestos sectários. Há alguns meses, começou a atuar um auto-denominado “Exército do Povo Paraguaio”, que promove sequestros de empresários e exige resgates. A mídia usa aparição do agrupamento para tentar desgastar ainda mais o presidente. Afirma que tudo é resultado do “esquerdismo” de Lugo.

> Ainda que as mudanças tardem, há uma forte sensação de empoderamento, por parte das maiorias. Elas enxergam a eleição do presidente com um sinal de mudança nas relações de poder, de possíveis avanços futuros. O processo de organização dos “de baixo”, resultado desta sensação, é o que hoje incomoda a elite paraguaia, e a leva a conspirar contra o presidente.

> Na agenda política imediata, são fatos relevantes: a) o surgimento do grupo que promove sequestros, e tem sua ação multiplicada pela mídia; b) o início (muito tímido) da distribuição de terras, que motivou denúncia de suposto favorecimento de Lugo a uma associação de agricultores. Este seria o pretexto mais provável para o impeachment; c) os diversos de paternidade do presidente, igualmente transformados em escândalo pelos jornais.

Para concluir, um sinal de esperança. Um artigo do correspondente internacional Pablo Stefanoni (ver dossiê) aponta que, cercado pelas oligarquias, o presidente Lugo reuniu, no final de dezembro, movimentos sociais e um amplo arco de forças de esquerda para articular a resistência ao golpe. Este movimento teria refreado, por algum tempo, as tentativas de afastá-lo do governo.

Outras Palavras sugere um mutirão para apurar em detalhes o que se passa no Paraguai.

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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras