Bolívia: o incrível San Andres dos mortos

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Ao pé dos Andes, num sincretismo quéchua-cristão singular, comunidades desenterram seus defuntos, para celebrar almas e espantar os medos

Por Marília Arantes, de Colquechaca | Imagens: Marília Arantes e Julien Dockx

A percepção cíclica do tempo e o culto à natureza permanecem no cerne das culturas andinas. Descendentes dos Incas, campesinos quéchua da província de Chayanta, ao norte do departamento Potosi (a mais alta e segunda mais pobre do país) acreditam; se a alma é imortal, muitas devem estar perambulando por entre os vivos.

As festividades do dia de San Andrés coincidem com o início da época das chuvas, em novembro. Ao longo de três dias, campesinos misturam os rituais mais ancestrais aos católicos. Possivelmente, acreditam, exista uma relação entre almas contentes e o sucesso da próxima safra. Por respeito e medo, tal compromisso é crucial para quem fica.

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“Toda alma merece sua missa, ou causará um estrago. É um conceito geral; precisam demonstrar ao morto que não o esqueceram”, explica Julien Dockx. Antropólogo, em Louvain-la-Neuve (Bélgica), ele estuda há anos as concepções de morte para os Quéchua.

“É claro que celebram os mortos por carinho. Mas celebrar até os que, em vida, não eram ‘muy amigos’, indica que o impulso maior para o ritual é encontrar uma solução para seu próprio medo. Eu já vi uma família celebrando a ‘Missa de alma’ do assassino de sua filha. Conforme creem, uma alma perdida não será aceita”, explica Dockx.

Logo, é de se esperar o revide. Entretanto, como particularidade da sub-região Guadalupe, Norte Potosi – área do município de Colquechaca, incrustada nas cordilheiras bolivianas –, cerca de cinco comunidades mantêm uma versão do ritual que chega a ser macabra. Nela, desenterram-se cadáveres para que participem da “Missa de almas”. Eles tocam, brincam, comparam, beijam caveiras. E alguns, mais (ou menos) corajosos, comem um pedacinho, geralmente do cérebro, para afastar as almas penadas – ou, pelo menos, o medo que se sente delas.

“Não entendo por que desenterram mortos de três anos. Coincidência ou não, acreditam também que as bruxarias demoram três anos para vingar”, comentou o padre Andrés Verheylewegen. Belga de Wallonia, ele chegou a Colquechaca, em 1978, vinculado ao projeto socialista IPTK – Instituto Politécnico Tomas Katari. Hoje avesso à política, Andrés atende a corpos e almas enquanto padre e médico, sua primeira formação. Celebra missas em quéchua (língua única da maioria, 80%), ainda caminha por horas entre estradas e abismos, com fôlego de menino.

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O telefone celular do padre não pára de tocar. No dia 30 de novembro, após celebrar a missa na cidade, seguida de quermesse para ampliação da igreja, ele saiu para visitar três comunidades no campo. Chegou à primeira, no fim da tarde.

Ao cemitério, os Thaqoni aguardavam a celebração, vestidos para festa, velando túmulos enfeitados com flores e oferendas. Aparentemente, campesinos não são tão formalistas assim. “As condições de existência não permitiriam uma inflexibilidade da parte deles. A paróquia de Andrés envolve cerca de 120 comunidades, é uma região do tamanho de Luxemburgo”, reiterou Dockx, que vem há três meses acompanhando o padre.

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Nesses dias, trabalha-se apenas para manter a festa viva. Mulheres e homens têm funções especificas. Eles dançam, mascam folhas de coca, bebem chicha (bebida fermentada de milho com cerca de 3% de álcool, o “puro” – um álcool de 96% – e o Singani (70%), mais ameno, destilado de uva. Aliás, costumam ficar bêbados até nem conseguirem dançar.

“Quanto mais beberem e ch’allarem ao espírito do morto, acreditam, melhor ele ficará”. Ao longo das festas, a “ch’alla” (joga-se parte da bebida ao chão, à Pachamama) tem que vir dos visitantes. E sorte sua se a chicha for boa. Após os primeiros tragos, pode-se notar a qualidade à distância, pela cor ou espuma. Mas fugir da chicha é impossível. Anfitriões pretendem angariar o máximo de ch’allas aos seus espíritos.

“A ch’alla tem sentido, mas a bebedeira não. Pode ser que, como a folha de coca, ofereça um nexo com os deuses. Mas, acho que bebem mais porque são pobres e se entendiam. O alcoolismo é um problema cotidiano”, aponta Dockx.

Porém, nas comunidades, não se vê miséria. Além disso, o “sacrifício financeiro” é valioso para a bendição. Todo ano, um passante paga pelas regalias da celebração; comida, bebida e inclusão dos nomes de falecidos nas listas que serão abençoadas pelo padre. Dependendo da paróquia, os custos diferem.

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De acordo com Sofia Ortuste, braço direito do padre Andrés, “paga-se 20 bolivianos (R$ 7 reais) por família para poderem colocar nomes. As listas distinguem-se em “Mundo almas”, “Mundo angelitos” (crianças), e “Almas olvidadas” (esquecidas), ou seja, de quem não se sabe do corpo, além dos não-batizados.

Nem sempre são próximos; Che Guevara, Simon Bolívar, Max Fernandez (falecido líder sindicalista mineiro), “Almas do Chaco”, tantos outros aparecem. “Já mencionei, por exemplo, ‘Médicos ancestrais sacerdotes’, mas não tenho ideia do que isso possa significar”, reiterou Andrés, a caminho da festa na comunidade Q’araqochi, no primeiro de dezembro.

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Segundo um campesino, o dia mais esperado da celebração é o 30. Porém, Q’araqochi é uma comunidade Guadalupe. No segundo dia, música e dança embalavam o transe coletivo. O padre chegou igualmente, no fim do dia. No cemitério, cerca de dez crânios aguardavam na coleção de ossos. Um apenas foi desenterrado no ano mesmo. “Segundo o alcaide (um diplomata da comunidade), eles buscavam o cadáver mais velho. Porém, talvez por preguiça, retiraram o mais recente, pois se recordavam aonde ele estava enterrado”, contou Dockx.

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No entanto, durante a cerimônia, ninguém comeu o morto. Pascal Calcida dividiu, “consegui vencer meu medo dessa forma. Há pouco tempo, precisei enterrar um sobrinho meu. Ao cavar, meio bêbado, encontrei um cadáver recente e comi um pedacinho. Hoje caminho à noite por horas, nunca mais me atormentei”, garantiu.

“Apenas cinco comunidades ainda retiram crânios e ossos para o ritual, mas o fato de comerem é ainda mais raro. Os mais ‘locos’ (ousados), comem. O Pascal comeu, e não foi no San Andrés. É uma crença, pode acontecer em qualquer data. Todavia, é uma boa ocasião já que os crânios estão ali, disponíveis”, observou Dockx.

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Contudo, nem sempre a magia funciona. “Um mineiro de Colquechaca me disse que comeu um pedacinho e continua sentindo medo. Já o Pascal, deixou de sentir. Para mim, medo é auto-sugestão, uma construção psicológica. É pura mente!”, acredita o antropólogo. “Quanto menos se conhece, mais se teme. Não necessariamente o castigo, ele temem o que não conhecem.”

Também, pesquisar o tema é desafiador, analisa Dockx. “Poucos falam castelhano. Não existem livros, são mantidas tradições orais. Sabemos que superstições originam-se de uma ‘mentalidade inca’, essas crenças tomam o lugar de algo preexistente. Pode ser que os mortos influenciem a chuva; ao preservarem os rituais, evitam uma colheita ruim. Quanto menos compreendem clara ou cientificamente os ciclos da natureza, mais responsabilizam os deuses.”

Para o padre Andrés, “todos temem o castigo de deus. Mas fazem a festa para pedirem proteção também. Quando eu cheguei aqui, o índice de mortalidade infantil era de 70%. Por influência espanhola, não há salvação fora do batismo.” Nesse sentido, benzer, ch’allar e até comer um pedacinho dos cadáveres serviria para aproximá-los do além. Conforme acreditam, sobretudo nas datas marcadas, as almas estão presentes.

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Porém, a era da informação vem transformando o modo de vida desses povos. “Cada vez mais os jovens das comunidades vão para as cidades, trabalhar em mineração ou construção. Eles voltam para participar das festividades, já com uma mentalidade distinta”, relata Dockx. Acredita-se que o êxodo rural deva mudá-los completamente, talvez em menos de dez anos. Entretanto, “A eleição de Evo Morales modificou bastante um preconceito que havia contra os habitantes do campo, pelos da cidade”, pontua.

Questiona-se porque a tradição se manteve em algumas comunidades e outras não. Talvez o isolamento seja uma explicação convincente. Ou mesmo, o termo “evolução cultural” ou “flexibilidade”, explica Dockx, pois, “um dia, a mesma coisa pode ter sido feita de outra forma. Algumas tradições se perdem, em outros pontos permanecem, simples assim.”

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“É um ritual muito antigo e só se manteve no campo. Embora não se faça mais nos povoados, quem faz não sofre preconceito dos demais”, assegurou Sofia. Além disso, “para elegerem o morto a retirar, é preciso consultar familiares se estão de acordo.” Muitos não gostam. Em contrapartida, ele será benzido todos os anos, junto aos demais.

O hábito não foi reprimido pelo sincretismo católico. Apesar de frequentar mais os confins Norte Potosi do que padres anteriores, “Andrés deve ter influenciado a cultura local com o cristianismo, mas nunca tentou impedir as tradições mais antigas; nem mesmo o Tinku, que é muito violento”, colocou Dockx.

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Outro costume peculiar, também remanescente da mentalidade Inca, diz respeito aos cachorros. “Comenta-se aqui que latem muito quando sentem a presença de almas. Geralmente, eles tem cães “de guarda” para afastá-las. E quando alguém morre, matam também um cachorro para que acompanhe sua alma”, dividiu.

Muito festivos, os campesinos andinos vivenciam seus rituais em um tempo cíclico. Segundo o padre, depois de San Andrés, começa o período das “Missas virgens”. “Essas sim, são dedicadas totalmente à Pachamama, (mãe natureza), e vão até o dia seis de janeiro.” Seria por coincidência com o dia dos Reis Magos? Possivelmente eles estejam relacionados, num extraordinário sincretismo.

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Alcaide.thagoni

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