A nova volta do parafuso cubano

Cena de “Numa escola em Havana”, de Ernesto Daranas

Combater ganhos irregulares, “por la izquierda”. Regulamentar a economia após o hiper-estatismo. Resolver o problema habitacional. Manter Havana limpa. O país saberá superar-se?

Por Felix Contreras, em Crônicas Cubanas

Em Cuba a corrupção tem um jeito muito “especial”, está espalhada nos fundos. É muito mencionada nas esferas de governo (nas críticas, opiniões, reuniões do governo), nos negócios estatais (restautantes, mercados, lojas, shoppings etc.) – mas não na mídia. Só aparece nas publicações digitais, na web privada, embora seja o debate mais relevante dos últimos tempos no país.

Mas nestes días Havana ficou muito surpresa com a aparição nos jornais, pela primeira vez, de nomes e fotos de corruptos, além de informações sobre o que está acontecendo.

Salvador Morães, um dos inteletuais que mais combate a corrupção no país, bateu palmas pela publicação, mas pede prisão para eles.

TEXTO-MEIO

Semana passada, o jornalista da televisão Boris Fuentes entrou no grande mercado estatal da rua Carlos Terceiro e ficou gelado, olhando os funcionários falsificando o peso e o preço nas sacolas de frango. Depois foi para outro mercado, e os funcionários não permitiram que ele entrasse com sua máquina fotográfica. “Por que não deixam a imprensa bater fotos nos mercados?”, perguntou o jornalista na tevé. “Há muita corrupção…”

Sim, há renovação e mudanças em Cuba, iniciadas na administração de Raúl Castro. Mas há também burocratas com preconceitos ideológicos que freiam o avanço das reformas econômicas, que põem pedras burocráticas no caminho para deter o crescimento da pequena e média empresa e dos investimentos estrangeiros, que não deixam avançar a economia cubana.

Ontem, o povo na rua ficou contente com a ordem do novo presidente, Miguel Díaz Canel, de que funcionários, ministros e dirigentes têm de ir à televisão prestar contas, explicar ao povo o andamento de seu trabalho.

Mercado imobiliário

Na gíria havaneira, “arroz com manga” quer dizer problema, briga ou mistura estranha de grandes proporções. O plano da economia cubana e fatos que acontecem na ilha têm esse ar de “arroz com manga”. E há ainda o que se faz “por la izquierda”, ou seja, tudo o que é fora da legalidade – esses frangos que o cara do restaurante estatal rouba e vende por fora, por exemplo, é dinheiro ganho “por la izquierda”. É um eufemismo de crime, de corrupção, que neste momento o governo cubano tem como grande problema diante de si. (Embora os economistas recomendem um aumento dos salários, tão baixos, da população, o que se vê são ouvidos surdos: nada).

Aproveitando a liberalização do mercado imobiliário de 2011, muitos cidadãos compraram ou construíram casas ou apartamentos com dinheiro recebido de famílias que moram nos Estados Unidos — dinheiro pela esquerda — para alugar aos turistas.

Porém, o breque de Trump no turismo de estadunidenses a Cuba e a suspensão de novas licenças para imóveis de aluguel está desinflando a bolha imobiliária privada, que tomou impulso principalmente com a ampliação de licenças de viagem à Ilha promovida por Barack Obama no final de seu governo.

Em 2016, 285 mil estadunidenses visitaram Cuba, 74% a mais que o número de turistas daquele país em 2015. O mesmo número de norte-americanos esteve na ilha de janeiro a maio de 2017, antecipando-se às medidas de Trump, que entraram em vigor em novembro passado. Muitos hospedaram-se em quartos de aluguel, que somam mais de 22 mil em todo o país.

O efeito dessas medidas, juntamente com o congelamento das licenças, explica a queda na compra e venda de casas no país, depois de um período muito dinâmico. Os avisos de “Vende-se” se multiplicaram. Mas desde abril, com o novo presidente, renovaram-se as esperanças de que as licenças serão reabertas, e as vendas parecem dar sinal de alguma recuperação.

Em 2014, mais de 40% das 3 milhões de moradias do fundo habitacional cubano estavam em mau estado. O maior número em Havana. Até o final de 2016, o déficit habitacional era de 800 mil moradias no país. Como a política habitacional não avança, o estoque não cresce.

Os quase 500 anos da história de Havana deixaram marcas da segregação socioespacial na cidade. Casas próximas a parques, avenidas, sistema de transporte têm mais valor. As construídas antes de 1959 também valem mais. Um processo de gentrificação se insinua. Nas regiões mais centrais, de maior interesse para o turismo, como certas áreas de Havana Velha, a maioria das casas é adaptada a um comércio qualquer: bares, restaurantes, cafés, ajojamentos, serviços digitais, galerías de arte, mercadinos de antiguidades e suvenires.

A partir da abertura desses pequenos negócios, triplicou a quantidade de remessas financeiras do exterior, de uma emigração que parece ligar-se aos projetos privados na ilha. Especialistas defendem a canalização do fluxo de remessas enviadas aos cerca de 1 milhão de receptores existentes no país – uma nova classe média com mais demandas de consumo.

Os 500 anos de Havana

Um pouquinho mais e Havana terá cinco séculos. Foi fundada em 16 de novembro de 1519 com o nome de São Cristovão, e primeiro ficava na costa sul, mas, pelas nuvens de pernilongos e outros bichos teve um segundo nascimento no colo da baía, onde fica agasalhada com suas maravilhosas música e arquitetura, pérolas de sua identidade – mais o caráter aberto e brincalhão de sua população.

A Havana de hoje tem pela frente grandes desafios: pouca infraestrutura para atender multidões de turistas, que crescem a cada ano; uma emigração de jovens que cresce também; e o percentual de pessoas da terceira idade, que avança como pedra no sapato da demografia. Tudo isso com uma burocracia inexperiente, lutando para mostrar uma Havana inclusiva, chic e moderna, que deixe boas lembranças em quem a visita, junto com o verde de sua vegetação e azul do céu e do mar.

São muitos os problemas acumulados e ”guardados nas gavetas” de Havana, como s diz nas ruas. Não é por acaso que o novo presidente da república, olhando prédios e moradias muitos ruins na Havana Velha, falou à imprensa, nas primeiras horas de seu governo: “temos que reverter o estado construtivo das moradias”.

Mas nestes dias o destaque nas ruas do centro de Havana são os frangos mortos, bananas com cheiro podre, chouriços, charutos, pratos de arroz, xícaras de pó de café, pacotes de biscoitos e batatas deixados por mãos anônimas – e legiões de cães vadios depois do “jantar”.

Uma vizinha explica: “Foram os babalaôs (sacerdotes de Ifá, da religião afrocubana) que tiveram um congresso para conversar sobre práticas religiosas e trabalho ambiental em Cuba”…

Sim, há que limpar a capital. Porque, como acontece en todos os países, Havana é o rosto de Cuba.

TEXTO-FIM
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Felix Contreras
Felix Contreras é jornalista, escritor e poeta cubano. De família pobre, com 21 anos assistiu ao triunfo da Revolução e recebeu uma bolsa para estudar em Havana. Formado no jornalismo literário da revista Cuba Internacional, lida por intelectuais de esquerda de todo o mundo, integrou El Caimán (Jacaré) Barbudo, manifesto estético da literatura cubana do início dos anos 1960. Dirigiu o setor de imprensa da Casa das Américas. Aos quase 80 anos e velho amigo do Brasil, tem livros publicados em seu país, na Europa e América Latina. É um analista privilegiado da cultura política de seu país: à esquerda, por baixo e por dentro. Como gosta de dizer, é capaz de morrer pela revolução, mas quer estar vivo para mudá-la.
Felix Contreras

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