A Colômbia protesta em todo o mundo

Movimentos sociais denunciam, em trinta países, crimes cometidos contra camponeses e indígenas, com apoio do Estado. Reportagem sobre o protesto em Barcelona

Por Vitor Taveira

As águas transparentes das fontes da sede da empresa Endesa, em Barcelona, vão ganhando cor de sangue. A intenção dos manifestantes (na foto) ao jogar tinta vermelha nas fontes é denunciar as agressões sofridas pelos camponeses na região de Huila para a construção da hidrelétrica de Quimbo, no rio Magdalena, um dos mais importantes da Colômbia (veja vídeo abaixo).

O ato fez parte das jornadas de 6 de março, dia em que desde 2008, colombianos e estrangeiros denunciam, em mais de trinta países, os crimes cometidos com apoio do Estado neste país. Este ano, o tema central foi a aprovação da nova Lei de Vítimas e Restituição de Terras — que, no entender de organizações sociais como o Movimento de Vitimas dos Crimes de Estado na Colômbia (Movice), favorece a impunidade e não contribui para uma restituição integral das terras.

“Decidimos fazer o ato em frente a Endesa porque é uma das empresas transnacionais que vem se beneficiando do despojo das terras dos camponeses na Colômbia”, conta Jamileth Vargas Gonzalez, membra do Movice, sem deixar de destacar que muitas outras empresas — atuando em setores como ouro, petróleo e biodiesel — beneficiam-se das ações violentas de grupos paramilitares ou do próprio exército e polícia colombianos para explorar territórios historicamente ocupados por povos indígenas ou camponeses.

Por mais de uma hora, cerca de 50 manifestantes permaneceram frente à sede da empresa, denunciando os crimes ocorridos no país sul americano em benefício da ex-estatal espanhola — atualmente controlada majoritariamente pela empresa semi-pública italiana Enel. Não podia faltar a tradicional “galeria da memória” na qual se expõem fotos e nomes de algumas das pessoas assassinadas ao longo do conflito.

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Uma colaboradora do Movice, que preferiu não se identificar, destaca que a Espanha é um dos países que mais recebe colombianos forçosamente exilados, e também sede de algumas das empresas que mais causam danos sociais e ambientais nos países da latino-americanos. Destacou a importância de mobilizações como a que ocorreu em Barcelona. Um dos manifestantes, o arquiteto colombiano Jairo Villegas, acredita na importância destes atos no exterior para dar visibilidade à luta em seu país. “Apoiei as manifestações quando vivi no México e agora também na Espanha. Me parece fundamental conseguir apoio e solidariedade em outros países para combater a impunidade que há dentro da Colombia”.

Espanhóis como a catalã Maria Antonia Arnau, que também é integrante da plataforma Repsol Mata, estiveram presentes para apoiar o protesto. Para ela, a atitude representa uma “obrigação moral” como espanhola, já que estas empresas, ainda que de maneira concentrada, trazem lucros para seu país. O coletivo mapuche-chileno Peuma Trawün também aproveitou o espaço para se solidarizar com os colombianos e denunciar as ações de Endesa na Patagônia, onde se planeja a construção de cinco mega-represas. “Estes empreendimentos não têm nem 50 anos de vida útil, mas a destruição e despojo que provocam são eternos e irreversíveis”, diz Paola Gonzalez, representante do coletivo.

Após o ato na sede de Endesa, foram realizados em outro espaço debates e projeção de documentários sobre temas relacionados ao conflito colombiano e a lei de restituição de terras. Ao longo da primeira semana de março, realizam-se atividades em diferentes cidades da Espanha como Madri, Bilbao, Valência e León.

Video:

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