Seriam os economistas imbecis?

Por que continuam a aplicar os mesmos “remédios”, após seguidos fracassos? A resposta está na “terapia de choque”. Quanto mais doente, menos a sociedade reagirá às “reformas” que tornam país ainda mais desigual

Por David Deccache, editor do Economia à Esquerda | Imagem: Keith Norval, Os idiotas estão dominando

Em 2015, se impôs ao Brasil um duro programa de “austeridade” fiscal a partir de um corte brutal nas despesas discricionárias do governo (basicamente, investimentos públicos) em paralelo a um choque de juros cavalar. Naquele momento, os economistas convencionais diziam que o choque de austeridade era necessário para controlar a trajetória da dívida pública e que isso traria de volta à confiança na economia. Era a chamada hipótese da contração fiscal expansionista, popularmente conhecida como “fadinha da confiança”. (obs.: percebam no gráfico 1 ao final do texto que, curiosamente, durante praticamente todo o período entre 2003 e 2013, que eles apresentam como um momento de “gastança”, a dívida pública estava em trajetória estável, explodindo, justamente, após a “austeridade” fiscal).

Pois bem, o que se viu nos últimos quatro anos de “austeridade” fiscal foi justamente o oposto do prometido: explosão da dívida pública e a maior recessão da história brasileira em um biênio. E qual é a solução dos defensores da “austeridade” fiscal para a crise social que eles criaram? Ainda mais “austeridade” fiscal.

A pergunta que fica é: seriam estes economistas um bando de imbecis que não enxergam que esta política econômica insana está destruindo o nosso tecido social?

Não, definitivamente não são imbecis. A crise que eles criaram é funcional.

Com a austeridade fiscal, eles esperavam obter dois resultados:

(i) com o desemprego explosivo, planejavam um rebaixamento brutal do custo do trabalho. O desemprego muda a correlação de forças entre trabalhadores e patrões: o medo do desemprego é “disciplinador” (gráfico 2 ao final)

(ii) A “austeridade” fiscal, cristalizada através do teto dos gastos (EC 95/2016) e o consequente esmagamento da capacidade do Estado em financiar seu funcionamento básico, visava um processo massivo de mercantilização de uma série de bens e serviços públicos, como educação, saúde e previdência social.

Obtiveram êxito nestes dois objetivos.

A partir da crise funcional, abriu-se a possibilidade de uma “reforma” neoliberal estrutural do Estado brasileiro como nunca antes na história deste país. Os salários despencaram, os direitos trabalhistas foram atacados e o nosso sistema previdenciário de repartição está prestes a ser destruído em doses homeopáticas, com a criação de um sistema de capitalização alternativo.

Aqui chego no último ponto deste texto: “reformas” neoliberais estruturais, por definição, são impopulares. O povo, em um estado psicológico normal, não aceitaria a destruição de seus direitos passivamente. Contudo, dado o amplo choque de desemprego – com consequências sociais desastrosas como, por exemplo, um surto de violência urbana sem precedentes — a população ficou totalmente apática e imobilizada diante da destruição de uma série de direitos sociais.

Esta é “a doutrina do choque”, uma filosofia de poder que tem como alicerce a hipótese de que a melhor maneira para o capital impor as ideias radicais do livre-mercado é no período subsequente ao de um grande choque. Essas crises, auto impostas através de choques brutais, desorientam sociedades inteiras e, a partir disso, abrem-se janelas para que seja introduzida a “terapia do choque econômico”, que seria uma espécie de cirurgia social radical. Não se trata de reformas pontuais, mas sim de uma brusca mudança de caráter estrutural. Essa é uma descrição perfeita da conjuntura brasileira atual.

O pior é que a cada rodada de destruição, o pensamento ideológico dominante sugere que a dose do veneno seja dobrada, perpetuando o choque até que não se tenha mais nada para destruir.

Os dados citados no texto estão representados nos gráficos em anexo:

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2 comentários para "Seriam os economistas imbecis?"

  1. Christian disse:

    Na verdade o que tu não vê na economia talvez seja imbecilidade, ou seja, aumento do dólar, bolhas globais causados pelos estados por não controlarem dívidas e juros, consequentemente o dólar sobe, e quem tem dividas como o Brasil que é dívida estrangeira, acaba sendo oscilado pelo preço do dólar, onde subiu vertiginosamente em 2015. Isso é teu desconhecimento da economia, ou simplismente não quis incluir pra não desmentir a tua tese ? Outra o Brasil tem um gasto com previdência de quase um trilhão, basicamente é todo o orçamento para os programas sociais a outra metade é custo de manter os políticos e seus assessores e seus gastos, se não fizer o controle de gasto da dívida, o país quebra, isso é contabilidade, e nao ideologia. Se não fizer essas reformas, teriam de aumentar impostos, só que o que a tua ideologia idiota não fala, é que quem paga os aumentos de impostos são os pobres, por que os ricos simplismente fecham as empresas onde os pobres trabalham e vão embora. E também tem um outro pequeno detalhe sobre essa dívida, ela foi feita entre 2003 e 2010. Era óbvio que ela iria estourar, ou seja os vencimentos dela iriam chegar em 2015/16. Por que quando se faz dívida, ela não é cobrado no mesmo dia, ela é cobrado no longo prazo. Esse teu total desconhecimento de economia, e também uma ideologia forte está te cegando para os fatos, e levando a fazer pessoas com menos conhecimento, sejam manipuladas com mentiras. Por favor estude, te deixo dicas de leitura, Murray Rothbard, todos os livros que poder ler dele leia. Hans Hermann Hoppe todos se poder támbem. E lê Mises, só lendo o livro ‘a ação humana’ tu já vai sacar a economia. E outra, economia é uma ciência, se deve entender como ela funciona ou melhor como a relação das pessoas funcionam, e não criar teses de como vocês acham que a economia a sociedade deveriam ser. Ideologia cega a verdade, e nos transforma e meros imbecis, ignorantes que não buscam todas as fontes, análises, e teorias sobre um determinado assunto. Considere leituras novas pra ampliar a sua tese, se tornar mais analítico.

  2. Parabéns pela análise que, de uma maneira geral, me parece correta. Apenas como economista com uma certa idade, gostaria de ponderar alguns aspectos.Em primeiro lugar, em se falando de “economistas” não se deve e não se pode generalizar. Existe uma categoria, outrora denominada “monetarista” e modernamente com este título que não esclarece nada, “liberais”, que aliás não são liberais em coisa alguma.Esta última categoria é a que sistematicamente se acha, no Brasil e acredito por toda parte, assessorando o Poder com seu sábio receituário. Receituário que, como diz o autor, já deu provas exaustivas de seu fracasso onde quer que foi aplicado, mas tudo isso é devidamente blindado por nossa brava Imprensa (escrita, irradiada, televisionada) para que possa ser reintroduzido mais uma vez, onde os únicos beneficiários são os integrantes dos altos extratos da sociedade (ou seja, maior concentração de renda, monopólio ou oligopólio em diversas atividades essenciais e a atual divindade entronizada pelos organismos financeiros internacionais, a privatização, vale dizer, o avanço na Coisa Pública – Res Publica). Finalmente, é preciso que se proclame da melhor maneira possível, ao menos nos limites de nosso (ainda) território que nós, os economistas outrora conhecidos como “estruturalistas”, modernamente chamados também indevidamente de “progressistas” que igualmente não diz muita coisa, nunca ou rara e episodicamente fizemos parte de qualquer governo estável ,pois simplesmente dificilmente somos requisitados.E discordo do autor em apenas um ponto. Os festejados economistas que se encontram permanentemente no Poder, desde o senhor Pedro Álvares, são incontestavelmente, pelos malefícios, aberrações e desordem que sistematicamente introduzem no ordenamento social,positivamente Imbecis.

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