Paz e Bem # 61 – Jesus: um homem do povo batizado por subversivos

Por Mauro Lopes

No Paz e Bem deste domingo (13). uma reflexão sobre a festa do Batismo do Senhor, com a qual cristãos de diversas denominações encerram o Tempo do Natal.

O texto litúrgico do dia, do Evangelho de Lucas, merece um olhar atento de cristãos, budistas, judeus, muçulmanos, espíritas, gente do candomblé, de todos os caminhos de espiritualidade, além de ateus/ateias e agnó[email protected]

O trecho de Lucas comporta muita reflexão, recolhemos três delas:

1) Jesus era um homem do povo e foi batizado com seu povo, não numa celebração especial, como as elites fazem questão;

2) A caminhada de Jesus era profundamente inserida na história de seu povo, como indica a citação do segundo salmo (“Tu és meu filho, hoje eu te gerei”);

3) A pomba que desce sobre Jesus para anunciar sua filiação é símbolo de que sua mensagem, para além de ser de fraternidade entre homens e mulheres, abraça todos os seres vivos, numa dimensão planetária.

Finalmente, o que o texto selecionado para a liturgia não relata é que Jesus foi batizado pelos discípulos de João Batista e não pelo próprio, que havia sido aprisionado por Herodes e pela elite política econômica e religiosa, temerosa da mensagem subversiva do profeta (veja no próprio capítulo 3 de Lucas).

O que o texto lucano indica? Quem deseja seguir os ensinamentos de Jesus deve estar mergulhado no meio do povo, inserido na sua história e inspirar-se por uma espiritualidade planetária -e deve estar pronto e pronta para ser -e deve estar pronto e pronta para ser tido como subversivo(a) pelas elites.

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Paz e Bem 54 – Jesus: alegria para as periferias, preocupação para Herodes-Bolsonaro

Por Mauro Lopes

O Paz e Bem desde domingo (6) volta-se para a solenidade da Epifania (palavra de origem grega que significa manifestar, aparecer de maneira radiosa).

Para isso, mergulhamos num dos textos mais bonitos da Bíblia, o da visita dos magos a Jesus (Mt 2, 1-12).

A Bíblia é um tesouro universal, que as religiões institucionais tentam manter trancada a sete chaves e este texto, folclorizado com a versão dos “reis magos” é exemplar e magnífico.

Ele releva que Jesus é admirado por uns tipos suspeitos (os magos, gente como os artistas e os “vagabundos” todos de todos os tempos, na visão fundamentalista-bolsonarista).

O aparecimento-nascimento de Jesus é motivo de preocupação e medo para o rei nomeado por Roma, Herodes (o rei nomeado pelos EUA de Trump, Bolsonaro) e grande alegria para os pobres.

Ao final do texto, segue-se a passagem que simboliza a reação dos ricos e poderosos ao surgimento do anúncio do tempo de um reino de justiça e paz: repressão violenta, com o massacre dos meninos em Belém ordenado por Herodes, representação dos massacres sucessivos que as elites perpetram contra o povo.

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Paz e Bem 47 – Jesus nunca sacralizou a família

Por Mauro Lopes

O Paz e Bem deste domingo, 30 de dezembro, reflete sobre a realista abordagem que os Evangelhos fazem do tema da família. Neste domingo, os católico, anglicanos e cristãos de outras denominações celebram a festa da Sagrada Família, mas Jesus nunca sacralizou a família; ao contrário, os textos dos quatro Evangelhos indicam um olhar crítico dele sobre as relações familiares.

A reflexão é importante em si mesma pela relevância do tema, pela instrumentalização que dele foi feita pelas igrejas institucionais com objetivo de controle e pela guerra cultural atual no Brasil ao redor do projeto Escola Sem Partido, que sacraliza a família e demoniza a escola -quando o quadro real existente é o da escola como ambiente de proteção às crianças diante de relações traumáticas e muitas vezes violentas no âmbito familiar.

As estatísticas mostram que 80% dos estupros de crianças e adolescentes no país quando cometidos por conhecidos acontecem nas famílias e apenas 2% no ambiente escolar.

Referências: Evangelho de Lucas prescrito na festa da Sagrada Família deste domingo, Lc 2,41-52 e outro texto sobre família que está em Lc 8,19-21

Imagem da “capa” deste Paz e Bem: um visitante observa o quadro “Retrato de família com narizes vermelhos, de Hans-Peter Feldmann, durante a International Contemporary Art Fair (FIAC) em Paris, 22 de outubro de 2014; foto de Charles Platiau

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Uma bonita coleção de votos de Natal

Por Mauro Lopes

Os votos de Natal ou desejos de Natal são uma tradição. Somos inundados por “Feliz Natal”, “Boas festas”, qualquer que seja nosso caminho de espiritualidade. Nas véspera do Natal, circulam pelas redes sociais votos de Natal em texto e vídeo, às centenas e centenas. No programa Paz e Bem deste dia 25 recolhemos alguns desses votos, que nos pareceram marcantes, expressivos.

Uma bela coleção de votos de Natal. Transcrevo a seguir o que foi declamado no Paz e Bem -recortes dos votos, trechos de cada um deles. Quem os formularam: Frei Betto,  padre Paulo Sérgio Bezerra, Leonardo Boff,  pastora Nancy Cardoso Pereira, Dora Incontri e padre Júlio Lancellotti. E, claro, não podia faltar o Papa Francisco.

Leia:

FREI BETTO

 Neste Natal, quero me despojar de todo visgo consumista e, de presentes, dar e receber apenas presenças. Haverei de partilhar o pão do espírito e a fome de beleza. Não permitirei que o sal da amargura roube a alegria da renascença solidária. (…)

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Paz e Bem 42 – O que desejar no Natal?

Por Mauro Lopes

No Paz e Bem deste 25 de dezembro, uma colheita de votos de Natal manifestados por diversos líderes espirituais. O que desejar no Natal? Que votos expressar? Como rejeitar o Natal comercial oferecido pelo sistema e recuperar o espírito do Natal. Ou ainda, como reconfigurar à luz do tempo que corre, a ideia-origem do Natal?

Alguns dos que respondem: Papa Francisco, Leonardo Boff, pastora Nancy Cardoso Pereira, Frei Betto, padre Paulo Sérgio Bezerra, Dora Incontri e padre Júlio Lancellotti.

Referências:

Todos os votos e desejos de Natal lidos no programa estão transcritos neste site Paz e Bem, aqui

Foto da “capa” de Paz e Bem: uma menina sem terra dorme em paz. Foto da Comissão Pastora da Terra – MG, sem autor e data conhecidos

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Jesus: um bebê pobre, visitado por pastores malcheirosos

Garota síria segura seu irmão, 2016, campo de refugiados de Indomeni, fronteira entre a Macedônia e Grécia, foto de Szymon Barylski

Por Mauro Lopes

A expectativa quanto ao nascimento de Jesus Cristo alimentada por séculos em Israel foi completamente frustrada. Esperava-se um Messias -título do rei ideal esperado, que seria Ungido no Templo pelo sumo sacerdote. Nasceu um bebê pobre, em solidão, saudado apenas por uns pastores mal-cheirosos e vistos como suspeitos pela sociedade.]

É isto, exatamente, o que nos informam as duas principais leituras das missas e celebrações da noite de Natal dos católicos, anglicanos e de outras denominações -trechos dos livros do profeta  Isaías e do evangelista Lucas.

O tema do nascimento de Jesus não diz respeito apenas à história ou à fé. Ele lança luz sobre as diferentes visões de Jesus na sociedade. Os fundamentalistas cristãos são vinculados à expectativa alimentada em Israel e não ao relato que nos fazem os Evangelhos. Outra corrente de aparência “piedosa” alimentou durante séculos uma versão higienizada de um Jesus loiro e de olhos azuis que recomendava benemerência em vez de amor.

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Paz e Bem 41 – Jesus: entre a expectativa e a realidade

Por Mauro Lopes

Paz e Bem de Natal. Que Messias era esperado pelos judeus quando nasceu Jesus? A palavra Messias era o título do rei ideal esperado, que seria Ungido no Templo pelo sumo sacerdote.

O programa passeia pelas leituras litúrgicas da Igreja Católica e de várias denominações cristãs para a noite de Natal e indica a enorme distância entre o Messias poderoso esperado (no texto de Isaías) e a realidade projetada pelo Evangelho de Lucas, de um menino pobre nascido em solidão e saudado apenas pelos mal-cheirosos pastores, contados entre os últimos na sociedade de Israel.

O programa visita também o Evangelho de Mateus, que capturou a reação dos ricos e poderosos ao nascimento de Jesus. E termina com o paradoxo entre a liturgia do nascimento de Jesus e as liturgias dos próximos dias, que não são de celebração, mas trágicas. Uma palestra de Edith Stein captou com grande vigor este paradoxo.

Referências:

Isais 9,1-6

Lucas 2, 1-14

Mateus 2, 1-18

Edith Stein, O Segredo do Natal, Editora da Universidade do Sagrado Coração, Bauru, 1999, p. 11.15

Imagem da capa deste programa: Jesus bebê dormindo sem autor e data identificados

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Uma poesia inédita de Dora Incontri – Para Jesus, no Natal

Do perfil do padre Júlio Lancellotti no Instagram e Facebook

Por Dora Incontri

A  educadora, jornalista, poetisa e escritora Dora Incontri, uma das mais importantes líderes espíritas progressistas do Brasil, foi uma das entrevistadas do Especial de Natal do programa Caminhos do Espiritismo, transmitido ao vivo pelo Paz e Bem neste sábado (22).

Ao final, ela declamou a poesia inédita Para Jesus, no Natal. Um belo e tocante presente de Natal!

Leia a seguir Para Jesus, no Natal e ouça no Especial de Natal aos 54min14:

O Natal de novo se apronta
E já perdemos a conta
Dos humanos infortúnios…
Clamores de guerra soturnos
Crianças fugindo nos mares
Crianças sem sólidos lares
Que nem sabem chorar seus pesares…
Escravidões que se fazem
Sob o jugo do dinheiro
E o planeta, nossa casa
Sendo devastado inteiro…
Parece que tudo é sombrio
Sem nenhum clarão macio
E nem parece Natal…

Ainda te escondes, ausente
De alguns corações que te clamam…
E agem no mal!

Mas estás sempre presente
Entre aqueles que te amam
Nos irmãos que estão à parte!
Presente no presépio da rua
Onde mora o noia perdido,
Coberto do branco da lua…
Presente no negro apreendido
Encarcerado e atirado
Como foste assim um dia!
Presente no travesti
Que ergueste na pecadora
Sem uma pedra de juízo…
Presente na mãe que chora
O filho de estanque sorriso,
Na favela fuzilado,
Como tua mãe chorou
A morte do filho amado!

Estás presente em nós
Que ansiamos por justiça
Que sonhamos com a verdade
Que lançamos um fio de voz
Por mais alta humanidade!

Estás presente em minha poesia
Que invoca os lírios do campo
E todas as aves do céu
Para enfeitar essa prece
Sem nenhum Papai Noel…
Apenas tua presença
Luminosa, doce, intensa!
Com teu olhar que nos toma
Pelo mais fundo de nós
Para darmos já a forma
Ao Reino que nos legaste!

Presente, Jesus Cristinho,
Pois que há milênios chegaste
Nas mãos que cavam na terra
Mesmo sujas, ensanguentadas,
Para plantar as sementes
De um melhor caminho
Para iluminar as gentes
Em novas e boas estradas…

A esperança não esmorece
Teu olhar não se esmaece
Nossa luta é nossa prece
Até que sejamos no mundo
Como estrelas azuladas!

Paz e Bem 33 – Boff: a espiritualidade pode salvar o planeta

Por Mauro Lopes

No Paz e Bem deste domingo, no contexto da “Semana Paz e Boff 80 anos”, que iniciamos na última terça, em 11 de dezembro, um mergulho no capítulo 9 do livro recém-lançado e no qual ele apresenta um balanço de seus 80 anos devida.

O capítulo tem como título: “Espiritualidade, o profundo do ser humano”. Nele, Boff reflete sobre como a espiritualidade pode salvar o planeta e a humanidade.

Tomamos emprestado um trecho da entrevista dele ao IHU sobre seus 80 anos, sobre a mesma questão e que está publicada aqui.

Mostramos como Boff recolheu algo que está presente na própria origem do cristianismo, como o demonstra João Batista no Evangelho desde 3º Domingo do Advento, no qual ele convoca as pessoas à partilha em espiritualidade e não à adesão à religião.

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Paz e Bem 26 – Jesus: é hora de luta pelo Reino da Justiça

Por Mauro Lopes

No Paz e Bem deste domingo, uma leitura das Bem-Aventuranças com a escuta do discurso original de Jesus, em hebraico.

Uma convocação aos pobres e deserdados do sistema à marcha por um Reino de Justiça (Ashréi – “Em marcha”) e não uma congratulação ou felicitação passiva insinuada pelo texto na versão grega (Makarioi -“felizes” ou “bem aventurados”).

É o mesmo espírito que está no texto do 2º Domingo do Advento celebrado por cristãos católicos, anglicanos e outros.

Referências bíblicas: O início do Sermão da Montanha, as “Bem-aventuranças” em Mateus 5,1-12; O trecho de Lucas escutado nas missas deste domingo: Lucas 3,1-6

Obra de referência: A Bíblia – Matyah (O Evangelho Segundo Mateus), de André Chouraqui, Imago-Bereshit, Rio, 1996, especialmente as páginas 82-91

Texto de referência sobre a questão da tradução das “Bem-aventuranças” ou do discurso “Em Marcha”: leia aqui.

Foto da “capa” desta edição: Passeata de sem teto em São Bernardo do Campo. Por moradia e pela libertação de Lula. 2018, foto de Roberto Parizotti

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