Papa condena a riqueza no interior da Igreja e artifícios para mantê-la

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Francisco: vida simples e exigência de pobreza exemplar para a Igreja

O Papa Francisco enviou neste sábado (26) uma carta contendo dura advertência aos 800 ecônomos participantes do Simpósio sobre Economia da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, que acontece em Roma: “A hipocrisia dos consagrados que vivem como ricos fere a consciência dos fiéis e prejudica a Igreja”. Ele fez igualmente uma crítica contundente ao uso dos padrões de mercado na gestão destas instituições. Ecônomos são os responsáveis pelas finanças nas organizações religiosas.

As pessoas consagradas, que podem ser leigos ou clérigos, homens ou mulheres, normalmente agrupam-se em institutos de vida religiosa (ordens religiosas e congregações) ou nos institutos de vida apostólica (sem votos religiosos), mas todos submetidos à Igreja. São institutos de vida religiosa, por exemplo, os agostinianos, beneditinos, franciscanos, dominicanos e outras comunidades de frades, freiras, monges e monjas. O conceito de vida consagrada alcança também as chamadas comunidades novas, associações privadas que igualmente se submetem à disciplina da Igreja, como a Renovação Carismática Católica e a Comunidade Canção Nova.

O Papa atacou os artifícios que muitos usam para encenar uma vida “pobre” enquanto suas instituições garantem a eles uma vida de opulência: “Não basta esconder-me atrás da afirmação de que ‘não possuo nada porque sou religioso, religiosa, se meu instituto me permite administrar ou desfrutar de todos os bens que desejo e controlar as fundações civis criadas para manter as próprias obras, evitando assim o controle da Igreja”.

O Papa, em sua carta, convocou não apenas os ecônomos, mas todos os membros destes institutos, sociedades e comunidades a terem uma vida “animada pela ‘charis’, pela lógica do dom, da gratuidade; somos chamados a criar fraternidade, comunhão e solidariedade com os mais pobres e carentes”. Para Francisco, a dimensão da humanidade dos cristãos e especialmente destes que tomaram decisão livre de se consagrarem ao aderirem a estas sociedades, institutos e comunidades mede-se pelo princípio da gratuidade: “Se quisermos ser realmente humanos, devemos dar espaço ao princípio de gratuidade como expressão de fraternidade”. Mais ainda, a gestão destas organizações (e de toda a Igreja) deve “escutar o sussurro de Deus e o grito dos pobres, dos pobres de sempre e dos novos pobres.”

O ataque à vida individual de “ricos” de muitos membros dos institutos, sociedades e comunidades não foi o único tema do Papa. Ele abordou também a questão dos princípios de gestão dessas organizações, afirmando enfaticamente que eles devem afastar-se dos modelos capitalistas e da ideia corrente de “maximização do benefício”. Francisco interrogou: “Quantas vezes a avaliação sobre uma reestruturação ou a venda de um imóvel é vista apenas com base na análise de custos-benefícios e do valor do mercado? Que Deus nos livre do espírito do funcionalismo e de cair na armadilha da avareza!”. O Papa decretou o fim de qualquer concepção de “neutralidade” na gestão das coisas:  “Nunca a economia e a sua gestão são ética e antropologicamente neutras. Ou concorrem para construir relações de justiça e de solidariedade, ou geram situações de exclusão e de rejeição.”

Francisco tem tomado seguidas atitudes no sentido do empobrecimento do papado: renunciou desde o primeiro dia a morar no Palácio Apostólico, no Vaticano, morando em um apartamento simples na Casa Santa Marta; nunca utilizou o palácio Castel Gandolfo como residência de verão, uma praxe dos papas desde o século XVII e, em outubro repassou a gestão do palácio aos Museus do Vaticano, para visitação pública de todas as suas instalações; continuou a usar a cruz simples de metal que usava ainda antes de ser bispo, recusou a cruz de ouro e o ouro para o anel pontifício, o “anel do pescador”; continuou a usar os mesmos sapatos pretos comuns que sempre usou, dispensou os tradicionais e caríssimos sapatos vermelhos dos papas; abriu mão do uso de carros e roupas luxuosas; aboliu gratificações de alto valor que eram recorrentes à burocracia do Vaticano; está impondo à Cúria romana um padrão de vida sem precedentes; e liderando um processo de reforma nas instituições financeiras do Vaticano.

Leia a seguir a íntegra da carta que o Papa enviou aos participantes do Simpósio. Ela foi publicada no site do Vaticano (aqui).

Na fidelidade ao carisma, repensar a economia

Queridos irmãos e irmãs,

Agradeço-lhes pela sua disposição a se encontrarem juntos para refletir e rezar sobre uma temática tão vital para a vida consagrada como a gestão econômica das suas obras. Agradeço a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica pela preparação deste segundo simpósio; e, ao me dirigir a vocês, deixo-me guiar pelas palavras que formam o título do seu encontro: carisma, fidelidade, repensar a economia.

Carisma

Os carismas na Igreja não são algo de estático e de rígido, não são “peças de museu”. São, ao contrário, rios de água viva (cf. Jo 7, 37-39) que correm no solo da história para irrigá-la e fazer germinar sementes de Bem. Em certos momentos, por causa de uma certa nostalgia estéril, podemos ser tentados a fazer “arqueologia carismáticas”. Que não aconteça de cedermos a essa tentação! O carisma é sempre uma realidade viva e, justamente por isso, é chamado a frutificar, como nos indica a parábola das moedas de ouro que o rei entrega aos seus servos (cf. Lc 19, 11-26), para se desenvolver em fidelidade criativa, como continuamente a Igreja nos recorda (cf. João Paulo II, Exort. Ap. Pós-Sin. Vita consecrata, 37).

A vida consagrada, por sua natureza, é sinal e profecia do reino de Deus. Portanto, essa sua dupla característica não pode faltar em nenhuma das suas formas, desde que nós, consagrados, permaneçamos vigilantes e atentos para perscrutar os horizontes da nossa vida e do momento atual. Essa atitude faz com que os carismas, dados pelo Senhor à sua Igreja através dos nossos fundadores e fundadoras, se mantenham vitais e possam responder às situações concretas dos lugares e dos tempos nos quais somos chamados a compartilhar e a testemunhar a beleza da sequela Christi.

Falar de carisma significa falar de dom, de gratuidade e de graça; significa mover-se em uma área de significado iluminada pela raiz charis. Eu sei muito bem que para muitos que operam no campo econômico essas parecem ser palavras irrelevantes, a serem relegadas à esfera privada e religiosa. Em vez disso, sabe-se muito bem, até mesmo entre os economistas, que uma sociedade sem charis não pode funcionar bem e acaba se desumanizando. Nunca a economia e a sua gestão são ética e antropologicamente neutras. Ou concorrem para construir relações de justiça e de solidariedade, ou geram situações de exclusão e de rejeição.

Como consagrados, somos chamados a nos tornarmos profecia a partir da nossa vida animada pela charis, pela lógica do dom, da gratuidade; somos chamados a criar fraternidade, comunhão, solidariedade com os mais pobres e necessitados. Como bem lembrava o Papa Bento XVI, se quisermos ser verdadeiramente humanos, devemos “dar espaço ao princípio da gratuidade como expressão de fraternidade” (Enc. Caritas in veritate, 34).

Mas a lógica evangélica do dom pede para ser acompanhada por uma atitude interior de abertura à realidade e de escuta a Deus que nela nos fala. Devemos nos perguntar se estamos dispostos a “sujar as mãos” trabalhando na história de hoje; se os nossos olhos sabem perscrutar os sinais do reino de Deus entre as dobras de eventos certamente complexos e contrastantes, mas que Deus quer abençoar e salvar; se somos realmente companheiros de estrada dos homens e das mulheres do nosso tempo, particularmente de tantos que jazem feridos ao longo das nossas estradas, porque com eles compartilhamos as expectativas, os medos, as esperanças e também aquilo que recebemos e que pertence a todos; se nos deixamos dominar pela lógica diabólica do lucro (o diabo, muitas vezes, entra pela carteira ou pelo cartão de crédito); se nos defendemos daquilo que não entendemos, fugindo disso, ou se sabemos ficar dentro disso por força da promessa do Senhor, com o Seu olhar de benevolência e as Suas entranhas de misericórdia, tornando-nos bons samaritanos para os pobres e os excluídos.

Ler as perguntas para responder, escutar o pranto para consolar, reconhecer as injustiças para compartilhar também a nossa economia, discernir as inseguranças para oferecer paz, olhar para os medos para tranquilizar: essas são diversas faces do poliédrico tesouro que é a vida consagrada. Aceitando não ter todas as respostas e, às vezes, ficar em silêncio, talvez até mesmo nós, incertos, mas nunca, nunca sem esperança.

Fidelidade

Ser fiéis significa se perguntar o que hoje, nesta situação, o Senhor nos pede para ser e fazer. Ser fiéis nos compromete a um trabalho assíduo de discernimento para que as obras, coerentes com os carismas, continuem sendo instrumentos eficazes para fazer com que a ternura de Deus chegue a muitos.

As obras próprias, das quais este simpósio se ocupa, não são apenas um meio para assegurar a sustentabilidade do próprio instituto, mas pertencem à fecundidade do carisma. Isso envolve se perguntar se as nossas obras manifestam ou não o carisma que professamos, se respondem ou não à missão que nos foi confiada pela Igreja. O critério principal de avaliação das obras não é a sua rentabilidade, mas se correspondem ao carisma e à missão que o instituto é chamado a realizar.

Ser fiéis ao carisma, muitas vezes, requer um ato de coragem: não se trata de vender tudo ou de se desfazer de todas as obras, mas de fazer um sério discernimento, mantendo o olhar bem dirigido para Cristo, os nossos ouvidos atentos à sua Palavra e à voz dos pobres. Desse modo, as nossas obras podem, ao mesmo tempo, ser fecundas para o caminho do instituto e expressar a predileção de Deus pelos pobres.

Repensar a economia

Tudo isso implica repensar a economia, através de uma atenta leitura da Palavra de Deus e da história. Escutar o sussurro de Deus e o grito dos pobres, dos pobres de sempre e dos novos pobres; compreender o que o Senhor pede hoje e, depois de tê-lo compreendido, agir, com aquela confiança corajosa na providência do Pai (cf. Mt 6, 19ss) que tiveram os nossos fundadores e fundadoras. Em certos casos, o discernimento poderá sugerir que se mantenha viva uma obra que produz perdas – ficando bem atentos para que estas não sejam geradas por incapacidade ou por imperícia –, mas restaura dignidade a pessoas vítimas do descarte, fracas e frágeis: os nascituros, os mais pobres, os idosos, os doentes, as pessoas com deficiência grave. É verdade que existem problemas decorrentes da idade avançada de muitos consagrados e da complexidade da gestão de algumas obras, mas a disponibilidade a Deus nos fará encontrar soluções.

Pode ser que o discernimento sugira que se repense uma obra, que, talvez, se tornou grande e complexa demais, mas podemos, então, encontrar formas de colaboração com outros institutos ou, talvez, transformar a própria obra, de modo que ela continue, embora com outras modalidades, como obra da Igreja. Também por isso é importante a comunicação e a colaboração dentro dos institutos, com os outros institutos e com a Igreja local. Dentro dos institutos, as várias províncias não podem ser concebidas de maneira autorreferencial, como se cada uma vivesse para si mesma, nem os governos gerais podem ignorar as diversas peculiaridades.

A lógica do individualismo também pode afetar as nossas comunidades. A tensão entre realidade local e geral, que existe em nível de inculturação do carisma, existe também em nível econômico, mas não deve dar medo, deve ser vivida e enfrentada. É preciso fazer crescer a comunhão entre os diversos institutos; e também conhecer bem os instrumentos legislativos, jurídicos e econômicos que permitem hoje fazer rede, identificar novas respostas, unir as forças, as profissionalidades e as capacidades dos institutos a serviço do Reino e da humanidade. Também é muito importante dialogar com a Igreja local, para que, sempre que possível, os bens eclesiásticos permaneçam como bens da Igreja.

Repensar a economia quer expressar o discernimento que, neste contexto, olha para a direção, para os objetivos, para o significado e para as implicações sociais e eclesiais das escolhas econômicas dos institutos de vida consagrada. Discernimento que parte da avaliação das possibilidades econômicas decorrentes dos recursos financeiros e pessoais; que se vale da obra de especialistas para a utilização de instrumentos que permitam uma gestão prudente e um controle da gestão não improvisados; que opera no respeito às leis e se põe a serviço de uma ecologia integral. Um discernimento que, sobretudo, se coloca contra a corrente, porque se serve do dinheiro e não serve ao dinheiro por motivo algum, nem mesmo o mais justo e santo. Nesse caso, seria esterco do diabo, como diziam os santos Padres.

Repensar a economia requer competências e capacidades específicas, mas é uma dinâmica que diz respeito à vida de todos e de cada um. Não é uma tarefa que pode ser delegada a alguém, mas investe sobre a responsabilidade plena de cada pessoa. Aqui também estamos diante de um desafio educativo, que não pode deixar os consagrados de fora. Um desafio que, certamente, em primeiro lugar, cabe aos ecônomos e àqueles que estão envolvidos em primeira pessoa nas escolhas do instituto. A eles é exigida a capacidade de ser astutos como as serpentes e simples como as pombas (cf. Mt 10, 16). E a astúcia cristã permite distinguir entre um lobo e uma ovelha, porque muitos são os lobos travestidos de ovelhas, sobretudo quando há dinheiro em jogo!

Além disso, não se deve silenciar que os próprios institutos de vida consagrada não são isentos de alguns riscos indicados na encíclica Laudato si’: “O princípio da maximização do lucro, que tende a isolar-se de todas as outras considerações, é uma distorção conceitual da economia” (n. 195). Quantos consagrados continuam ainda hoje pensando que as leis da economia são independentes de qualquer consideração ética? Quantas vezes a avaliação sobre a transformação de uma obra ou a venda de um imóvel é vista apenas com base em uma análise de custo-benefício e valor de mercado? Deus nos livre do espírito de funcionalismo e de cair na armadilha da avareza! Além disso, devemos nos educar a uma austeridade responsável. Não basta ter feito a profissão religiosa para ser pobre. Não basta me entrincheirar atrás da afirmação de que eu não possuo nada, porque sou religioso, religiosa, se o meu instituto me permite gerir ou gozar de todos os bens que eu desejo e controlar as fundações civis erigidas para sustentar as obras próprias, evitando assim os controles da Igreja. A hipocrisia dos consagrados que vivem como ricos fere as consciências dos fiéis e prejudica a Igreja.

Devemos começar pelas pequenas escolhas cotidianas. Cada um é chamado a fazer a sua parte, a usar os bens para fazer escolhas solidárias, a ter cuidado pela criação, a se deparar com a pobreza das famílias que seguramente vivem ao seu lado. Trata-se de adquirir um habitus, um estilo no sinal da justiça e da partilha, fazendo o esforço – porque, muitas vezes, seria mais cômodo fazer o contrário – de fazer escolhas de honestidade, sabendo que é simplesmente aquilo que devíamos fazer (cf. Lc 17, 10).

Irmãos e irmãs, voltam à minha mente dois textos bíblicos que eu gostaria de lhes deixar para a sua reflexão. João, na sua Primeira Carta, escreve: “Se alguém possui os bens deste mundo e, vendo o seu irmão em necessidade, fecha-lhe o coração, como pode o amor de Deus permanecer nele? Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras e de verdade” (3, 17-18). O outro texto é bem conhecido. Refiro-me Mateus 25, 31-46: “Tudo o que vocês fizerem a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram. […] Tudo o que vocês não fizeram isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizeram”. Na fidelidade ao carisma, repensem a economia de vocês.

Agradeço-lhes. Não se esqueçam de rezar por mim. Que o Senhor os abençoe, e a Virgem Santa cuide de vocês.

Do Vaticano, 25 de novembro de 2016.

Francisco

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[por Mauro Lopes, com informações do Instituto Humanitas UnisinosRádio Vaticano e Religion Digital]

9 respostas para “Papa condena a riqueza no interior da Igreja e artifícios para mantê-la”

  1. Quero crer que há muitos altos diganatarios na hierarquia eclesiastica que pensam como o papa, mas não tem a ousadia de expressar seu sentimento, com medo da mafia que insiste em manter o status quo, sua zona de conforto. Espero que os cristãos espalhados pelo mundo todo tomem a atitude de defesa deste papa, como muitos brasileiros fazem em relação ao juiz Sergio Moro. Gostaria de ver a reação clara e definida dos altos dignatarios eclesiasticos do Braisil, que ao que me parece resta silente( em cima co muro)

    1. É uma pena que me seja negado o livre e sagrado direito de expressao, submetendo minha resposta a aprovação. Parece-me incoerente com o espirito de abertura e clareza pregada por Francisco. é de se aplicar o velho ditato: “o uso do cachimbo faz a boca torta “. Espero merecer uma resposta a este questionamentol

    2. Caro João, não fique chateado. Nunca “censurei” comentário nenhum no blog. Mas, como é um blog pessoal, reservo-me o direito de não publicar eventuais comentários racistas, nazistas ou homofóbicos -não vejo razão para abrir espaço para comentários como estes que, apesar de disseminados nas redes sociais, são um ataque à humanidade e criminosos.

  2. Postura louvável do Papa Francisco em abominar as riquezas das Congtregações
    Sabemos que na sua maioria tem voto de pobreza mas que infelizmente fica só no juramento.
    Pois a maioria das Congregações vivem um padrão de vida bem acima de qualquer família.
    Outras infelizmente….dizem: nós vivemos da Providência Divina e ficam a espera de ganhar tudo do povo…quando deveriam trabalhar como todo ser humano faz para se sustentar…

    1. Obrigado por seu comentário, Shirley. Como você pode ver pelo próprio texto publicado, há uma série de iniciativas do Papa para o empobrecimento do Vaticano.

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