Literatura Brasileira & Cachaça

Primeiro encontro | José Lins do Rego: Por dentro do engenho

Por Maurício Ayer

Encontros mensais de harmonização cultural para degustar as melhores aguardentes do país e refletir sobre seu papel na formação poética brasileira

> Degustar: As melhores cachaças do Brasil.

> Refletir: Sobre o seu papel na formação literária brasileira.

> Aprender: Sobre autores e obras fundamentais da literatura brasileira.

Um sábado por mês – das 16 às 19h – R$ 88 (cachaças especiais e tira-gostos incluídos).

Resumo

De Sul a Norte, cada região do Brasil gerou literatura e aguardente da melhor qualidade. A proposta dessa série de encontros é se colocar algumas perguntas: Como a cachaça aparece em autores e obras fundamentais da literatura brasileira? O que isso revela sobre nossa cultura e nossa história? E quais são os lugares simbólicos da caninha?

Por outro lado, será que ao conhecer melhor a cachaça a gente não entende melhor a cultura e a literatura também?

Este é um projeto fermentado e destilado por Maurício Ayer, pós-doutor em literatura (USP) e especialista em cachaça.

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Temporada 2018: 11 autores e mais de 25 cachaças

03 de março

José Lins do Rego: Por dentro do engenho

Memorialista da zona canavieira da Paraíba, José Lins do Rego nos faz imergir na paisagem cachaço-açucareira do Nordeste, principalmente no seu Ciclo da Cana-de-Açúcar, que vai de Menino de Engenho até Usina. Já no Ciclo do Cangaço, com Cangaceiros Fogo Morto, por exemplo, surge uma figura especial: é o aguardenteiro – o contrabandista de aguardente. Junto com os barris de cachaça, ele faz circular informações, alimentos, roupas e outros produtos entre o engenho, a cidade e o sertão dominado pelos capitães do cangaço.

Leituras: Menino de Engenho; Banguê; Fogo Morto; Cangaceiros.

Degustação: Aguardentes da Paraíba.

 

24 de março

João Cabral de Mello Neto: A Lição do Canavial

João Cabral encontra aprendizados nas coisas. No canavial também. São vários os momentos de sua poesia em que ele observa o canavial, seu comportamento, seu movimento, sua metafísica, e coloca seus aprendizados em palavras pontiagudas como pedras. O sentido dessas destilações será nosso objeto de leitura e reflexão neste encontro.

Degustação: cachaças de Pernambuco e Paraíba.

 

14 de abril 

Jorge de Lima: Corpos e Poderes no Engenho

Poeta branco de inspiração preta, Jorge de Lima evocou cenas dos engenhos e inquiriu os sentidos da sociedade do açúcar em sua transição do bangüê à usina. O seu famoso poema “Essa Negra Fulô” é um retrato do violento jogo de poder em que se vê enredada a negra escravizada, um ambiente de relações tão minuciosamente descrito por Gilberto Freyre, principalmente, em Casa Grande e Senzala. Os corpos, a sexualidade, a opressão e a reversão dos poderes são temas profundamente entranhados nessa sociedade do açúcar e da cachaça. Mas é possível que alguns desses sentidos tenham envelhecido e hoje seja possível ler de outra forma.

Degustação: Cachaças de Pernambuco e Alagoas.

 

12 de maio

Graciliano Ramos: Em Busca da Aguardente Perdida

As figuras da cachaça em Memórias do Cárcere, livro em que Graciliano Ramos relata sua vivência como preso político do governo Vargas em Alagoas, Pernambuco, Rio de Janeiro e finalmente na Colônia Correcional da Ilha Grande, são realmente surpreendentes. A cachaça aparece logo no início, encharcando noites de escrita do autor. Depois ela ressurgirá, contrabandeada para dentro das prisões, e a cada momento proporciona ao escritor alagoano uma abertura para algum tipo de liberdade – da imaginação, da memória, dos comportamentos obsessivos. Como é isso?

Degustação: Cachaças de Alagoas e Rio de Janeiro.

 

16 de junho 

Jorge Amado: Cachaça, Água da Vida e da Morte

No cais do porto da Bahia de Todos os Santos circula muita cachaça. É até estranho que nas canções praieiras de Dorival Caymmi a aguardente não apareça – talvez ele não quisesse desviar o foco de suas sínteses arquetípicas, construídas no embate do homem com o mar, com trivialidades cotidianas. Jorge Amado, porém, conseguiu encontrar o lugar em que a cachaça se eleva à posição mítica das canções de seu amigo. Em A morte e a morte de Quincas Berro D’água, a cachaça adquire plenamente o estatuto de “água da vida”: ela cria um mundo de trânsito entre a vida e a morte, no qual o protagonista faz valer suas escolhas essenciais.

Degustação: Cachaças da Bahia e Espírito Santo.

 

14 de julho

João Guimarães Rosa: A Cachaça e o Labirinto da Língua-Fera

Se a presença da cachaça perpassa toda a obra de Guimarães Rosa, há uma de suas estórias que tem a cachaça como um elemento central. É “Meu tio, o Iauaretê”, publicada no livro póstumo Estas Estórias. A cachaça é a “abrideira” do labirinto da linguagem e torna as personagens suscetíveis a revelações e metamorfoses as mais surpreendentes. A estória é descrita por Haroldo de Campos como aquela em que Guimarães levou mais longe a aventura da linguagem, e é justamente neste ponto que a cachaça age, pontuando ritmicamente o textos e provocando uma crescente liberação da fala até o rugido da onça.

Degustação: Cachaças do norte de Minas Gerais.

 

11 de agosto

Cecília Meireles: Cachaças Inconfidentes

No Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles canta em versos a Inconfidência Mineira. Sabe-se que a cachaça foi assumida pelos inconfidentes como um símbolo nacional – em oposição ao vinho português. Acontece que a cachaça que o alferes Tiradentes tomava ainda hoje é produzida, no mesmo alambique, em Coronel Xavier Chaves.

Degustação: Cachaças das cidades históricas de Minas Gerais.

 

15 de setembro

Mário de Andrade: Interessantíssimas Cachaças no Macunaíma

Em forma de rapsódia, Mário de Andrade compôs Macunaíma com materiais diversos da cultura brasileira, como estórias, lendas, personagens e cenas típicas. A cachaça surge como elemento importante em dois episódios bem brasileiros – como bebida ritual e companheira do matuto. E o que é que isso diz dessa obra tão multifacetada?

Degustação: Cachaças do interior de São Paulo.

 

20 de outubro

Manoel Bandeira: Modernista… até o Segundo Copo

Os versos livres, os temas originais, a visão do Brasil e sua gente, estes são alguns dos elementos que fazem de Manoel Bandeira um dos grandes poetas modernistas. Mas quando o assunto é bebida, Bandeira dá um salto atrás, e se estrutura a partir das referências báquicas ao vinho – ou ao carnaval, a evocar antigas tradições gregas e latinas. De maneira que a manguaça, paradoxalmente, revela um lado mais clássico do poeta de Libertinagem e Estrela da Manhã.

Degustação: Cachaças de Pernambuco e Rio de Janeiro.

 

10 de novembro

Antonio Callado: De Palcos e Pileques

Em cena, um dramaturgo é cobrado quanto a um velho compromisso: escrever um texto que retrate o evento histórico da Revolta da Cachaça, que teve como herói um negro, para que seu velho amigo, um ator negro, possa finalmente encenar o papel principal da peça. A cachaça e sua história dão ensejo, portanto, à discussão do lugar do artista negro no teatro e cinema nacionais. Vamos ver como isso acontece e que cena é essa imaginada com um grande barril no centro do palco. O texto de A Revolta da Cachaça é dedicado ao ator Grande Otelo.

Degustação: Cachaças do interior do Rio de Janeiro e sul de Minas.

 

8 de dezembro

Carlos Drummond de Andrade: Concessões Etílicas

Drummond não é muito da cachaça, e cultiva sua lucidez e sua melancolia. Mas não é imune aos efeitos do álcool, tampouco ao bar como lugar de aprender o Brasil e sua gente.

Degustação: Cachaças de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná.

TEXTO-FIM
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Gabriela Leite

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