Literatura Brasileira & Cachaça

Por Maurício Ayer

Encontros mensais de harmonização cultural para degustar as melhores aguardentes do país e refletir sobre seu papel na formação poética brasileira

> Degustar: As melhores cachaças do Brasil.

> Refletir: Sobre o seu papel na formação literária brasileira.

> Aprender: Sobre autores e obras fundamentais da literatura brasileira.

Um sábado por mês – das 16 às 19h – R$ 88 (cachaças especiais e tira-gostos incluídos).

Resumo

De Sul a Norte, cada região do Brasil gerou literatura e aguardente da melhor qualidade. A proposta dessa série de encontros é se colocar algumas perguntas: Como a cachaça aparece em autores e obras fundamentais da literatura brasileira? O que isso revela sobre nossa cultura e nossa história? E quais são os lugares simbólicos da caninha?

Por outro lado, será que ao conhecer melhor a cachaça a gente não entende melhor a cultura e a literatura também?

Este é um projeto fermentado e destilado por Maurício Ayer, pós-doutor em literatura (USP) e especialista em cachaça.

***

Próximo encontro: 

11 de agosto

> João Bosco e Aldir Blanc – Glória à Cachaça

Por Maurício Ayer

Da lírica mais louca à crônica engraçada, além da inspiração histórica, João Bosco e Aldir Blanc criaram peças musicais em que a cachaça é um ingrediente saboroso. São algumas das mais emblemáticas canções brasileiras dos anos 1970 e que serão o mote para as conversas e degustações do 7º Encontro de Literatura Brasileira & Cachaça. Sábado, 11 de agosto, às 16h, no Ateliê do Bixiga, em São Paulo.  

Em uma das mais conhecidas composições da dupla, um “bêbado de chapéu coco” faz par imagético com a “esperança equilibrista” – esperança de que a democracia volte a vigorar num país amordaçado pela ditadura militar e de que os exilados políticos possam retornar ao Brasil. Um bêbado a simbolizar uma (esperançosa) instabilidade, entretanto, é apenas uma das formas que a cangibrina aparece.

No Rancho da Goiabada, bastam umas biritas para que boias-frias comecem a sonhar com um bife à cavalo e terminem, inopinadamente, em delírios alegórico-carnavalescos de lírios pirados e faraós embalsamados. Em Siri Recheado e o Cacete, a mesma cachaça que garante a “maré cheia” vai ser o acompanhamento do final da saga desse casal que sai para pescar siris pro seu compadre Anescar. Será, no entanto, a canção histórica Mestre-Sala dos Mares, que reconta o episódio da Revolta da Chibata e seu líder nomeado na letra como o “Navegante Negro”, que saudará a branquinha com um sonoro “Glória à cachaça”!

Este é só um aperitivo, pois são muitas as canções que trazem a cachaça em seus versos, às vezes de maneira surpreendente, entretecendo cultura e história, humor e política. Neste encontro, vamos tocar e cantar ao vivo essa seleção de sambas e outros gêneros, conversar e degustar cachaças especialíssimas.

Leituras e audições: canções de João Bosco e Aldir Blanc.

Degustação: cachaças de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro.

 

***

Temporada 2018: 11 autores e mais de 25 cachaças

03 de março

José Lins do Rego: Por dentro do engenho

Memorialista da zona canavieira da Paraíba, José Lins do Rego nos faz imergir na paisagem cachaço-açucareira do Nordeste, principalmente no seu Ciclo da Cana-de-Açúcar, que vai de Menino de Engenho até Usina. Já no Ciclo do Cangaço, com Cangaceiros e Fogo Morto, por exemplo, surge uma figura especial: é o aguardenteiro – o contrabandista de aguardente. Junto com os barris de cachaça, ele faz circular informações, alimentos, roupas e outros produtos entre o engenho, a cidade e o sertão dominado pelos capitães do cangaço.

Leituras: Menino de Engenho; Banguê; Fogo Morto; Cangaceiros.

Degustação: Aguardentes da Paraíba.

25 de março

Graciliano Ramos: Em Busca da Aguardente Perdida

As figuras da cachaça em Memórias do Cárcere, livro em que Graciliano Ramos relata sua vivência como preso político do governo Vargas em Alagoas, Pernambuco, Rio de Janeiro e finalmente na Colônia Correcional da Ilha Grande, são realmente surpreendentes. A cachaça aparece logo no início, encharcando noites de escrita do autor. Depois ela ressurgirá, contrabandeada para dentro das prisões, e a cada momento proporciona ao escritor alagoano uma abertura para algum tipo de liberdade – da imaginação, da memória, dos comportamentos obsessivos. Como é isso?

Degustação: Cachaças de Alagoas e Rio de Janeiro.

15 de abril

João Cabral de Mello Neto: A Lição do Canavial

João Cabral encontra aprendizados nas coisas. No canavial também. São vários os momentos de sua poesia em que ele observa o canavial, seu comportamento, seu movimento, sua metafísica, e coloca seus aprendizados em palavras pontiagudas como pedras. O sentido dessas destilações será nosso objeto de leitura e reflexão neste encontro.

Degustação: cachaças de Pernambuco e Paraíba.

19 de maio

Chico Buarque: Falando Alto Pelos Botecos
A canção popular é um dos mais sofisticados campos de expressão da literatura brasileira. Chico Buarque, além de ser um camisa 10 do time de compositores, também escreveu peças de teatro e, nas últimas décadas, cinco romances. A cachaça sempre esteve presente, a cada momento com um sentido.
Da “cachaça de graça que a gente tem que engolir” de Deus lhe Pague ao lenitivo da dureza no samba-missiva Meu Caro Amigo, a polivalente aguardente revela a cada momento um sentido ligado à cultura brasileira, uma cena social, um uso específico e especial, um pathos, um ethos.
Caso emblemático é a abertura da Ópera do Malandro, versão de Chico Buarque para a canção de Bertolt Brecht e Kurt Weill. A cachaça é o mote para uma análise, inteligente e bem-humorada, da “cadeia alimentar” do poder global e da construção ideológica em torno da figura do malandro.
A cachaça está no desenho mágico de Construção, no serviço da Feijoada Completa e na sedução do amante de Joana Francesa, e até, como não lembrar?, na introdução que fez com Tom Jobim para a célebre marchinha de carnaval Turma do Funil – para citar alguns entre muitos exemplos. A bebida também povoa a prosa dos romances, de Estorvo ao O Irmão Alemão.
Chico talvez seja um dos artistas brasileiros que mais doses de cachaça serviu aos seus ouvintes e leitores, e é sobre isso que vamos conversar, com interpretações musicais ao vivo e acompanhado das melhores cachaças do Rio de Janeiro.

Leituras e audições: Canções, peças de teatro e romances de Chico Buarque.

Degustação: Cachaças do Rio de Janeiro e São Paulo. 16 de junho

16 de junho 

Cecília Meireles: Cachaças Inconfidentes

Os inconfidentes tomavam cachaça como símbolo de sua rebeldia republicana – contra o imperial vinho português: mito ou verdade histórica? O andarilho Tiradentes, em meio às suas intermináveis caminhadas, reservava o tempo de tomar uma cachaça no alambique de sua família, perto do rio do Mosquito, onde hoje fica Coronel Xavier Chaves: verdade? Perguntas como essas dão uma pequena amostra de como a Inconfidência Mineira, primeira insurreição de caráter independentista e republicano no Brasil, é cercada de lendas, cultivadas tanto nos altos meios literários quanto nas bodegas populares. Cecília Meireles, com o seu monumental Romanceiro da Inconfidência, participa desse trânsito entre a história e a lenda.

Cecília foi visitar Ouro Preto, pelo ano de 1940, e voltou de lá habitada pela Vila Rica das Minas Gerais. Conta a poeta: “Vim [a Ouro Preto] com o modesto propósito jornalístico de descrever as comemorações de uma Semana Santa; porém os homens de outrora misturaram-se às figuras eternas dos andores; nas vozes dos cânticos e nas palavras sacras, insinuaram-se conversas […]”. A partir dessa escuta, entre a pesquisa e a imaginação, Cecília escreveu seu Romanceiro, com o tom elevado das grandes épicas populares, como os romanceiros ibéricos do final da Idade Média.  

Claro que a aguardente está presente no texto de Cecília, em meio à recriação das histórias dos inconfidentes; mas as conexões que vamos reconstituir neste 5º Encontro de Literatura Brasileira & Cachaça vão além dessa obra. Afinal, os alambiques brotaram nas serras e chapadões de Minas junto com a febre do ouro, sendo a cachaça essencial na dieta dos escravos e, também, dos homens livres. Os tropeiros levavam nas mulas as ancoretas de aguardente e comercializavam nos pontos mais distantes. As vendas, tabernas, bodegas e prostíbulos são espaços de grande importância na vida social da província.

Uma outra escritora dedicou-se a contar histórias e reconstituir muitas dessas conexões. E não por acaso. Cida Chaves, paulista de Bauru radicada em Minas Gerais, deparou-se em sua vida com uma encruzilhada dos tempos. Seu esposo, Rubens Chaves, adquiriu de um primo o alambique mais antigo do Brasil ainda em funcionamento, em Coronel Xavier Chaves, na região de São João del Rei. Essa destilaria pertenceu a uma irmã mais nova do Alferes (e bisavó do avô de Rubens); contam – e isso é perfeitamente verossímil – que o próprio Tiradentes gostava de se apoiar junto à janela do alambique para tomar uma caninha apreciando a paisagem e conversando, como fazia incessantemente, sobre os sonhos de que as Minas Gerais se tornassem uma república independente.   

No nosso encontro, vamos percorrer algumas dessas múltiplas linhas que conectam literatura, história e cultura, degustando a cachaça que ainda hoje é produzida neste mesmo alambique: a premiada e admirada Século XVIII. Cecília Meireles, Cida Chaves, os poetas inconfidentes – Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa e Alvarenga Peixoto –, entre outros autores brasileiros, todos serão convocados a essa reunião de tempos que a cachaça promove melhor que ninguém.

Leituras: Romanceiro da Inconfidência (Cecília Meireles); 25 anos na Tribuna e Mulheres de Dois Andares (Cida Chaves); poemas escolhidos de Gonzaga, Costa e Alvarenga Peixoto.  

Degustação: Cachaças tradicionais de Minas Gerais

22 de julho

Antonio Callado: A Revolta da Cachaça

Em cena, um dramaturgo é cobrado quanto a um velho compromisso: escrever um texto que retrate o evento histórico da Revolta da Cachaça, que teve como herói um negro, para que seu velho amigo, um ator negro, possa finalmente encenar o papel principal da peça. A cachaça e sua história dão ensejo, portanto, à discussão do lugar do artista negro no teatro e cinema nacionais. Vamos ver como isso acontece e que cena é essa imaginada com um grande barril no centro do palco. O texto de A Revolta da Cachaça é dedicado ao ator Grande Otelo.

Degustação: Cachaças do interior do Rio de Janeiro e sul de Minas.

11 de agosto

João Bosco e Aldir Blanc – Glória à Cachaça

Da lírica mais louca à crônica mais pé no chão, incluindo peças inspiradas em episódios históricos, a dupla João Bosco e Aldir Blanc produziu (sobretudo) sambas em que a cachaça aparece com frequência, participando da construção de símbolos ou como elemento de humor na narrativa. Assim, de um bêbado simbolizando a “esperança equilibrista”, aos delírios alegórico-carnavalescos de boias-frias quando tomam umas biritas, da cachaça que ajuda na pescaria à sina de negros aquilombados, há todo um cancioneiro cachaceiro no repertório de uma das maiores duplas de compositores da MPB.

Degustação: cachaças de Minas Gerais e Rio de Janeiro.

15 de setembro

João Guimarães Rosa: A Cachaça e o Labirinto da Língua-Fera

Se a presença da cachaça perpassa toda a obra de Guimarães Rosa, há uma de suas estórias que tem a cachaça como um elemento central. É “Meu tio, o Iauaretê”, publicada no livro póstumo Estas Estórias. A cachaça é a “abrideira” do labirinto da linguagem e torna as personagens suscetíveis a revelações e metamorfoses as mais surpreendentes. A estória é descrita por Haroldo de Campos como aquela em que Guimarães levou mais longe a aventura da linguagem, e é justamente neste ponto que a cachaça age, pontuando ritmicamente o textos e provocando uma crescente liberação da fala até o rugido da onça.

Degustação: Cachaças do norte de Minas Gerais.

 

20 de outubro

Jorge Amado: Água da Vida e da Morte

No cais do porto da Bahia de Todos os Santos circula muita cachaça. É até estranho que nas canções praieiras de Dorival Caymmi a aguardente não apareça – talvez ele não quisesse desviar o foco de suas sínteses arquetípicas, construídas no embate do homem com o mar, com trivialidades cotidianas. Jorge Amado, porém, conseguiu encontrar o lugar em que a cachaça se eleva à posição mítica das canções de seu amigo. Em A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água, a cachaça adquire plenamente o estatuto de “água da vida”: ela cria um mundo de trânsito entre a vida e a morte, no qual o protagonista faz valer suas escolhas essenciais.

Degustação: Cachaças da Bahia e Espírito Santo.

10 de novembro

Mário de Andrade: Cachaças Interessantíssimas 

Em forma de rapsódia, Mário de Andrade compôs Macunaíma com materiais diversos da cultura brasileira, como estórias, lendas, personagens e cenas típicas. A cachaça surge como elemento importante em dois episódios bem brasileiros – como bebida ritual e companheira do matuto. E o que é que isso diz dessa obra tão multifacetada?

Degustação: Cachaças do interior de São Paulo.

8 de dezembro

Ary Barroso e amigos – Na Batucada da Vida

Além de seus mais famosos sambas exaltação ao Brasil e seu povo, como o quase hino nacional Aquarela do Brasil, Ary Barroso compôs canções em que a cachaça tem um papel especial. São densas descrições de personagens e situações, como em Na batucada da vida, Camisa listrada e Camisa amarela. Mas ele não está só: Assis Valente, Lupicínio Rodrigues e Noel Rosa, entre tantos outros compositores populares brasileiros, criaram um vasto cancioneiro cachaceiro, do qual vamos conhecer algumas doses.

Degustação: cachaças de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo.

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.

Gabriela Leite

Latest posts by Gabriela Leite (see all)

About the Author