O PROCESSO: dois planos

Maria Augusta Ramos propõe a seguinte montagem nas alegações finais do julgamento do impeachment: primeiro fala a acusação e Janaína Paschoal diz que fez o que fez porque precisava, que ela sabe que fez “sofrer a senhora”, mas que é para o bem dela e de seus netos. Segue a defesa e Cardoso lembra que Dilma foi torturada, e é como se lhe dissessem: fazemos sofrer a senhora, mas é para seu bem e o bem de seus netos. Paschoal e Cardoso falaram muito mais, mas é isso que foi editado.

Cada plano capta um momento da situação, mas a articulação dos dois cria nova significação: ao retomar a fala de Janaína de forma paródica e crítica, Cardoso atua dentro do território criado por ela.
E dentro desse território balizado pela acusação e pela direita, ele tem um posicionamento reativo.

Essa mmontagem aponta para um comportamento característico do PT que, assim, acaba se aprisionando. Nesse sentido a esquerda fica atrelada à direita. Por isso, vi O PROCESSO como uma tragédia que sutilmente apresenta o desmoronamento de um partido. Com a conivência dele, daí a tragédia.

Toda vez que Lula se diz inocente, ele entra no território delimitado pela acusação e reage invertendo o sinal. Esse é um dos aspectos do “legalismo do Lula” e o custo social e político é gigantesco.

Essa significação política surge da montagem, ou seja, de um recurso da linguagem cinematográfica sem recorrer a comentários verbais.

Não divulguei essas observações no lançamento do filme por causa do momento político que atravessávamos. Faço isso agora após uma conversa com Maria Augusta.

Maria Augusta e Petra Costa: enquadramento e política

Várias câmeras filmaram o processo de Dilma no senado, entre as quais a de Maria Augusta Ramos, para o filme O PROCESSO, e as de Petra Costa para DEMORACIA EM VERTIGEM.

Soube que Petra ou seu fotógrafo entravam com frequência no quadro dela, o que a dificultava de filmar. Acabaram chegando a um acordo.

O que é relevante aí não é a eventual tensão entre duas diretoras que documentam a mesma situação, mas o conflito entre duas estéticas. E duas políticas.

Petra se aproxima muito das pessoas que filma, filma cara a cara. A pessoa e até sua pele, suas rugas são matéria prima dessa linguagem. Um exemplo entre outros, o brilhante material de Lula no sindicato dos metalúrgicos do ABC em na noite em que se entregou à PF. É emocionante, dramático.

Maria Augusta não filma tanto a pessoa como o ritual da instituição. É o que vimos em cenas notáveis de seus filmes JUSTIÇA e JUIZO. Para isso, ela precisa de um quadro mais aberto. Além do agente, ela tem que enquadrar elementos do entorno (posição espacial do agente, cenografia etc.). Qualquer intrusão no quadro perturba a leitura do ritual institucional e da ação do agente.