Francis Vogner: minha formação pela pornochanchada

Enquanto trabalhávamos na reedição de O AUTOR NO CINEMA, Francis me mandou um email narrando como ele começou a se relacionar com filmes brasileiros. O texto foi ligeiramente editado.

Eu nasci em 1979, cresci nos anos 1980 e atingi a adolescência nos anos 1990. Morando em São Bernardo em bairro de classe média baixa, o cinema que eu tinha acesso era o americano na TV e no pequeno circuito de salas da cidade. O cinema brasileiro pra mim era Os Trapalhões e, entre o final dos anos 1980 até a metade dos anos 1990, as pornochanchadas no fim de noite em faixas de programação na Gazeta, Record, SBT e Bandeirantes. Os filmes brasileiros que tinha o sexo como apelo de público (as pornochanchadas, os melodramas eróticos, thrillers de sexo) não eram programados sempre, por isso quando algum canal inventava de passar esses filmes era no fim de noite eu não perdia a oportunidade. Era a possibilidade de ver mulheres sem roupa e um pouco de sexo.
Esse interesse sexual veio acompanhado, involuntariamente, de uma familiaridade: as pessoas falavam como se falava na rua, falavam palavrões, contavam piadas de mau gosto, os tipos dos filmes eram bastante reconhecíveis no cotidiano, os cenários me eram comuns, sejam os de subúrbio com seus interiores e mobílias pobres, sejam algumas ruas do centro de São Paulo. Até então, acostumado ao naturalismo da Globo e ao cinema americano, aquilo foi uma revelação. Achava a maior parte dos filmes toscos, alguns eram muito mal feitos, mas aquela familiaridade me era muito reveladora não só como retrato e espelho, mas como formulação de mundo, porque carregava-se na caracterização dos personagens, caprichava-se (até nos maus filmes) na frases lapidares, muita vezes implicava-se uma perspectiva moral ou terrivelmente moralista. Era um cinema muito expressivo. Desse encontro, veio, posteriormente, o gosto. Assim, eu e alguns amigos sabíamos o nome de alguns filmes, reproduzíamos no dia a dia algumas das falas dos filmes que achávamos engraçadas e etc. Não sabíamos o nome de diretores e nem das atrizes e dos atores, mas nos conectamos com aquilo tudo.
À exceção dos filmes dos Trapalhões na infância, esses filmes foram minha porta de entrada para o cinema brasileiro. Na época dizíamos “cinema nacional”, pois as chamadas na TV usavam o “nacional”, não o “brasileiro”.
Depois, na adolescência, tive contato com os “autores”, com o cinema novo, a Vera Cruz, o marginal e a retomada, por meio da TV e do videocassete, sobretudo.
O que eu quero dizer com isso, é que considero importante na minha relação com o cinema brasileiro ter conhecido o cinema feito no país como espectador comum das pornochanchadas na TV. Claro que isso estava a um passo do fetichismo pueril, mas a relação de prazer, reconhecimento e também o de entender que o precário desses filmes tinha algo a ver comigo, foi fundamental. Com o tempo, de muitas histórias dos filmes eu nem me lembrava mais, mas me lembrava de imagens, de diálogos, de alguns planos.
Revi muitos desses filmes. Uns eu adoro, outros gosto menos, alguns eu detesto. Mas algo na caracterização suburbana de O GOSTO DO PECADO, de Claudio Cunha me parecia mais verdadeiro que o mesmo esforço de representação social do baixo lumpesinato de A FALECIDA, de Leon Hirszman. Gosto de A FALECIDA assim como gosto de O GOSTO DO PECADO, mas algo no filme de Claudio Cunha me é mais íntimo, mais verdadeiro, porque mais direto, com outros tipos de mediação. O GOSTO DO PECADO também tem uma formulação estética do subúrbio, mas de outra ordem, distinta da de Hirszman, aparentemente mais falsa (sem o efeito do realismo do Hirszman), mas esse “artificial” (digo isso com muitas aspas) é uma concepção criativa também do espaço, das relações, de um temperamento dos personagens e etc. A Falecida nos mostra uma vida suburbana em decomposição, O GOSTO DO PECADO nos joga nos desejos – que podemos ver como arbitrários, mesquinhos, legítimos, iludidos – e o poder que os atravessa, nas relações de trabalho e no âmbito doméstico, atravessadas pelo sexual e afetivo. O filme de Claudio Cunha é um novelo de nós contraditórios, muita coisa criticável em termos de representação? Talvez, mas é um belo filme, de uma sensibilidade longe de idealizações e cheio de máculas e impuro, mas também cheio de emoções, um pouco como são todas as coisas, né? Não quero dizer que ele é “mais autêntico”. Ese tipo de valoração é horrível. Mas que ele criou uma forma para tudo isso. No entanto é preciso saber como se aproximar disso. Pra mim não é um grande esforço, embarco fácil, ao passo que para outros, por motivos mais ou menos compreensíveis, talvez o seja.
Um abraço, Francis

ps. Me veio à mente nessa relação com o repertório popular, A MARVADA CARNE, de André Klotzel. O filme se aproxima do popular, da imagem do caipira, por intermédio dos quadros do Almeida jr (a quem faz referência direta) e, ainda que tenha Geny Prado que fez os filmes de Mazzaropi, não há no filme traço do chamado “cinema caipira”. É a alta cultura, tentando ilustrar um tema popular.
Nesse sentido acho que A ESTRADA DA VIDA é um gesto oposto ao de A MARVADA CARNE. Nelson Pereira dos Santos fez um filme muito próximo do sentido e sensibilidade de um SERTÃO EM FESTA, do Osvaldo de Oliveira.