Lincoln Péricles: Bacurau e o cinema

Entrevista 3/10/19, Capão Redondo

O cineasta (O Filme dos outros) questiona o fato de ser filmado pela playboizada (classe média)

JCB – Quando conversamos sobre Bacurau, cê levantou a questão da alegoria. Aparentemente cê não concordava com essa dramaturgia alegórica. É isto?
LP – Eu assisti o filme numa sala de cinema lá na Augusta, o Espaço Itaú. Tava lotado de gente branca que reagia ao filme de alguma forma. Era a primeira vez que estava vendo, tava reagindo ao filme de alguma forma também. Tentei não ficar tão atento nas pessoas ao redor e curtir o filme, a vibe, a fita toda que tava lá na tela e não me incomodar com as pessoas batendo palmas dos seus assentos confortáveis. O que me pegou logo de início e me deixou confuso quando saí, foi que, tipo, o filme cria uma narrativa intrigante, ele é muito cinematográfico e estratégico, tipo esquemático e tal, bom filme, interessante, falas em inglês, tem legenda, dá essa cara de filme mesmo. Eu lembro de um amigo que viu um filme meu e disse: nossa Likito – ele me chamava assim – nossa! Seu filme tá parecendo um filme mesmo! Foi um dos maiores elogios que eu tive, porque era um filme feito sem dinheiro nenhum e sem uma linguagem colonizada. E aí o Bacurau parece um filme, é um elogio que faço tá ligado?
E ao mesmo tempo, mano, o que me incomodou é o jeito que é mostrado o povo, tá ligado. Parece muito estratégico, tão estratégico quanto a construção narrativa que faz o filme parecer filme, parece premeditado, uma resistência premeditada. É isso que me pega porque toda a ideia de resistência e revolução que tenho na cabeça, que eu vi – vejo na quebrada todo dia – é algo espontâneo. Tem uma dose de espontaneidade, e isso não senti, não tá ali na tela. Logo após fiquei pensando, mas porque essa pessoa tá fazendo esse filme? Construiu o personagem dessa maneira, onde ele pesquisou isso? E aí é uma sensação horrível, deles pesquisando nóis, entende? E isso veio quase que ao mesmo tempo que percebi qualquer tipo de suposta qualidade do filme.
Os cara são espertão, entendem o que supostamente é uma boa representatividade, o que é a diversidade, o que é, sei lá, tipo, vê um cineasta preto fazendo filme sobre pessoas pretas e fala tipo: nossa que novo! e gosta daquilo, de alguma forma bem equivocada acha que aprendeu com o filme, ou segue umas pessoa no facebook, faz teste de elenco, põe um ou dois de nóis na equipe, e acha que aprendeu a representar, vê nossos filmes como uma aulinha, acha que aprende com nossa explanação sobre nossas vivências, tipo vai ver um filme de um cara feito na quebrada – Ah! da hora, legal isso, e estuda tipo cursinho pago pelo pai pra passar no vestibular. Apesar de nóis nunca estar no estágio que eles estão, tá ligado? E nosso filme para parecer um filme é um processo longo, inclusive financeiro. Se nóis quiser atingir esse patamar, como fazer? Se nóis não teve essa capacidade nem nos governos que passaram, com esse menos ainda.
Nóis ainda estamos ediscutindo acesso, no tempo fascista de hoje ou nos governos anteriores, a gente ainda tava discutindo acesso a várias fitas como: meio de produção, recursos financeiros pra viver da profissão ou grana no mesmo nível que os boy que fica fazendo filme sobre nóis e filme com suposta inserção numa indústria. O acesso já tava aí dado para essas pessoas que fez esse filme, e esse acesso permitiu que eles de alguma forma entendesse o que significa uma boa representação de nóis. Isso ficou na minha cabeça, várias piras. Por exemplo, o jeito que os moradores resistem ao ataque dos gringos, as armas mó antigas. Se vc fosse pensar como filme de ação mesmo como esses que nóis vê nas banquinha de DVD nas quebradas, cê vê que eles seriam massacrados, tá ligado, isso e outras diversas fitas, quem faz o filme não equipara pra além da simbologia de pessoa branca que idealiza o povo. Tem outras coisas que faz essa resistência, esses símbolos nossos do passado funcionar. Eu acho que os caras que fez Bacurau não sabem o que é essa outra coisa, tá ligado, porque nóis tá pensando ainda o que será essas outras coisas, essa coisa de resistir de fato, construir com que é do corre mesmo, não interessa pra nóis construir com esses tipo de pessoa que acha que tá contribuindo do seu alto lugarzinho de sucesso no cinema brasileiro. Nóis tá vivendo um tempo fascista e está o tempo inteiro pensando como que nóis sobrevive. Eu tenho essa impressão que no filme as coisas todas funciona como cenário e os personagens, aqueles rostos, aquelas atrizes e atores por mais que sejam talentosos e estejam só fazendo seu trampo, funcionam também como o próprio cenário. “Vou escolher filmar no sertão, vou filmar pessoas pretas, pessoas indígenas”… é curioso, cê vai sacando quando os boy acha…
JCB – Os?
L – os playboy, que vai falar sobre nóis, a gente sempre detecta eles falando sobre nóis, Isso em Bacurau pra mim fica extremamente perceptível que a representação ela é uma tentativa, por mais que fosse fiel. Pega Cidade de Deus, inclusive muita gente de quebrada gosta, “vamos fazer algo mais realista, vai ter preparação”, cê olha e tem um abismo entre o que é e a representação, tá ligado. A representação pra nóis é uma questão política, uma questão de ferramenta.
JCB – Como isso?
L – Se nóis se auto representar, se tem capacidade de estar fazendo um filme, se nóis ter forma de financiamento, essa forma nos levar a autonomia, a representação tá num outro lugar, tá no lugar de reivindicar algo, mesmo que nóis teja falando de qualquer outra coisa, falando sobre as borboletas no Capão Redondo. Porque a história foi construída dessa forma e esse lugar tá aqui dessa forma, isso se torna algo que tá reivindicando algo, tá se pondo contra alguma coisa, junto a alguém, nóis tudo junto. Eles querem a arte, essa arte bolacha cara com ervas finas e leite Vegan, querendo ou não, porque Bacurau no final das contas é isso, um biscoito fino, é algo que você compra no Pão de Açucar, tá ligado e não no Ricoy
JCB – Não no?
LP – Os mercadinhos que geralmente tem nas quebradas. No final das coisas, acaba que não me incomoda tanto assim, o Bacurau. Ele levanta discussão, mas não passa disso. E acho que talvez seja essa discussão na mesma mão que as práticas que me interessa.
JCB – Que discussão?
LP – Coisas bem genéricas sobre política, luta do bem contra o mal, da esquerda contra a direita, fascistas brancos contra o povo. Entra numa dicotomia bem onde acho que o filme quer referenciar pra um grupo seleto aplaudir, as ligações com algumas fitas do cinema americano, um cinema de ação, um filme de gênero. Acho inclusive que, sei lá, tipo se o cara que ocupa o cargo não fosse o presidente do Brasil, talvez o filme não teria essa publicidade toda, sei lá. Teria menos relevância em festivais, do que tem agora, ganharia menos dinheiro, tá ligado.
Um filme demora muito para ser feito e quando sai, ele já tá no passado. Isso sempre me dava agonia porque quero falar sobre o que é urgente agora pra nóis, mas não é mais a mesma fita na hora que tá na tela. Quando fiz o Aluguel, eu tava falando sobre falta d’água, que eu convivi minha vida inteira aqui na quebrada. E na época que saiu, tava faltando água nos bairro de boy, em São Paulo, e a esquerda bem alimentada usou isso para atacar o Alckmin, aí todo mundo achou que meu filme tava falando sobre isso. E eu falava: não! A água sempre faltou pra nóis, tá ligado. Mas daí percebi que essa urgência é antiga, vem dos que já tombaram e carregaram dores e alegrias urgentes com eles, que um processo de cura é necessário, que fazer filme pra nóis é urgente porque é uma ferramenta de continuidade da nossa existência, de antes e de agora, de adiante.
Porque nóis tem que olhar para São Paulo e falar assim: olha essa classe média paulistana? Eu quero que se foda. Não sou, nunca fui, nunca vou ser e não moro perto, tá ligado. Quando cê vai pra outros estados, é essa mesma fita. Uma galera branca de classe média e que produz cinema. Não é qualquer pessoa que produz cinema, mesmo no nordeste, norte. Quando eu vou pras quebradas de Fortaleza, vou encontrar minhas irmãs la, elas tão fazendo um tipo de cinema, tão trampando de uma forma, é o jeito que se filma, sabe. Quando cê vai pra outro lugar de lá, pros bairro de boy de lá, tá sendo feito outro tipo de cinema. Recife acredito que é a mesma fita.
JCB – A mesma fita de São Paulo?
LP – Isso. Não tô tentando tipo carimbar como se fosse : Ah! o cara não é de quebrada, é de classe média e filma de tal maneira e não pode fazer isso. Eu tô falando do tipo de cinema. Do respeito e sensibilidade com as coisa. Não adoram estudar nóis? Pois bem, nóis estuda eles constantemente agora. É uma estética de cinema autorreferencial, de cinema cinéfilo, de cinema de quem pode pagar pra ser cinema, de elevador. Pega O som ao redor, que é o filme anterior do Kleber, ele vai olhar para as empregadas daquela maneira, que tá ali posta naquele filme. Olha a representação, essa alegoria do povo, como tá posta, tá ligado?
JCB – Comente um pouco mais essa alegoria do povo.
LP – Tem uma cena no Som ao redor, que fico vendo e tentando refletir: acho que logo no início, mostra as empregadas no canto e as crianças brincando no parquinho. Mano, aquela empregada é minha mãe, a imagem que eles colocam na tela me traz a imagem da minha mãe. E aí beleza, entendo que o cara é hiper inteligente e falou: olha a situação das coisas, olha as empregadas postas de lado. Bota uma trilha sonora tal, mas a fita é que tá ali representado, grudado, tá ligado, teve a ousadia de colocar aquilo em tela.
JCB – Ousadia em que sentido?
LP – De alguma forma isso é agressivo pra mim. Eu me recuso a representar essas pessoas dessa maneira… é violento essa fita. Quer dizer então que o que tá reservado pra mim é eu olhar as pessoas ao meu redor, minha mãe, minhas irmãs e irmãos e não ter a memória afetiva, linda, de luta, que tenho deles? Eu só vou ter imagens delas representadas em cinema dessa forma ou com essa frieza representativa? Essa “realidade”? Mano isso é foda, me faz sempre pensar no que vamos ter na memória, tipo, “essas pessoas que são tão próximas a mim”… logo, “sou eu visto dessa maneira?”… “e isso foi jogado pro mundo e pro futuro de uma forma gritante?”. Muita gente viu e vai acreditar que essa é a realidade, que as crianças de fato estão brincando no parquinho e só, que essa imagem representa alguma coisa.
JCB – Essa imagem te gruda na pele?
LP – Mano, eu combato essa imagem, faço filme. Gravando ou vendo, pensando ou escrevendo, eu faço cinema. Faço filme. Hoje em dia eu aprendo, eu olho e falo: eu tenho um estudo sociológico sobre eles.
JCB – Sobre eles?
LP – Sobre a playboyzada toda. Porque se eles já produziram tanta imagem sobre nóis, agora que adquiri uma certa consciência, tipo, não acredito mais que a imagem sobre nóis é realmente o que nóis é. Vejo a imagem que eles representa sobre nóis como uma forma de estudo. Vejo como é esse pensamento branco colonizador, mesmo quando ele quer ser bonzinho. Não tem nada mais regulador do que um boy branco bonzinho. Cê aprende com isso e fala: da hora. Senta com os nossos e fala: vamos fazer assim, assado. É estratégico nesse sentido, tá ligado, tipo assalto. Porque a ousadia que eu falo é que um documentarista, aliás não precisa ser documentarista, se fosse ficção a mesma coisa. Um cara vai fazer um filme no Capão Redondo, estuda personagem, filma. Vai eu tentar no bairro do cara, não vou ter acesso a porra nenhuma, vou ser barrado.
Não passo da portaria, talvez eu possa trocar uma ideia com o porteiro, porque é uma proteção. Acho que a academia, a intelectualidade têm um pouco disso. Meu pensamento tem que ser protegido. Se você falou alguma coisa, Jean-Claude, e eu chego aqui na minha quebrada, instrumentalizo algo que você falou e tento colocar isso… Pá! Não! Tem uma proteção mesmo, tá ligado, uma barreira não só nas ideias, mas de práticas.
JCB – Meu pensamento enquanto intelectual?
LP – As ideias ficam numa redoma. Elas não chega num público maior ou no próprio sentido de público, acessível.
JCB –As ideias dos intelectuais não chegam ao Capão Redondo?
LP – Não chega. E se chega, cê tem que creditar fazendo concessão pra mostrar de onde elas são, e aí eu não me sinto à vontade de usá-las. Elas não são minhas e não foram me permitido a instrumentalizar e botar na minha vivência. […] Muitos intelectuais que se aproximam de militância, tá ligado, é pra dizer que são militantes e só, eles não são militantes de fato, são militantes só, sozinhos, eles recebem mais dinheiro do que quem é militantes, de quem tá memo no movimento, não dividem o que recebem e acham que “dividindo conhecimento” estão mudando a realidade concreta das pessoa. Gostam de ver suas ideias sendo praticadas ou pelo menos algo que se aproxime de suas ideias. De alguma forma ele tem que tá ali usufruindo enquanto …
JCB – Usufruindo o que?
LP – Usufruindo tipo pegando em troca alguma coisa.
JCB – E o que eles pegam em troca?
LP – Não sei de tudo. Tem milhões de estudos sobre nóis. Estudo não material também. Essas pessoas ganham dinheiro, tipo, ganham mais do que nóis, tá ligado.
JCB – Quais são as ideias dos intelectuais que você poderia instrumentalizar. Dá um exemplo.
LP – A gente tá falando de cinema, da intelectualidade, sobre o cinema que aponta a câmera pra nóis. Isso faz algumas pessoas ganharem dinheiro. Os trabalhador da cultura nunca falam quem ganha mais ou quem ganha menos, tá ligado. Quanto ganha o motorista que leva as pessoas até o set e porque, aquela pessoa que se chama pra cobrir e carregar equipamentos. Nunca se pensa nessa divisão salarial na estrutura de filmagem. Mas se consegue propagar a ideia de que tem uma certa igualdade, que várias pessoas foram empregadas na produção. […] Imagino, para as pessoas que fizeram o Bacurau por exemplo, deve ser tipo sonho quase erótico deles: “nossa, o povo tá vendo nosso filme!”, “olha aí a ocupação ta vendo nosso filme” “olha ai tem meme na internet”– cê vê que não é orgânico, não foi a ocupação que produziu o filme. Mas foi outras pessoas, que têm um desejo de passar na ocupação porque acredita muito que fazer um filme vai fazer revolução, enfim, não, né! Se fosse …
JCB – Cê acha que os cineastas pensam que vão fazer a revolução com seus filmes?
LP – Os cineastas é muita gente, não sei, mas que tem algum que deve acreditar, ah se tem. Seja lá qual revolução for, a estética, que cineasta não quer falar: Nossa! Olha o que eu fiz de inovador, tá ligado. […] Pra mim, essa distância é absurda, entre quem filma e quem está sendo filmado, entre quem cria e quem tá sendo criado, os patrões filmando seus empregados. Eu uso o cinema como instrumento mesmo. Os filmes precisam ser feitos porque a gente consegue de alguma forma ter na mão o poder que nossos antepassados não tiveram, tombaram sem ter esse poder.
JCB – Você usa o cinema como instrumento, pra fazer o quê?
LP – Hoje em dia ferramenta pro trabalho, pra me sustentar financeiramente também. E como uma forma de me comunicar intimamente, ter um diálogo decolonizado com os meus, de exercitar a sensibilidade. Não vou conseguir colocar tudo aqui. É isso, expandir para uma possibilidade de autonomia sobre qualquer coisa da vida, não só sobre o cinema, tá ligado. Se isso vai fazer revolução ou não, não dá pra saber. Só que eu não tenho essa pretensão de fazer uma revolução com os filmes que estamos fazendo. É algo muito particular e por ser particular é muito coletivo, porque nada nosso é só de uma pessoa. Ah! Sobre essa distancia absurda… Eu estava numa ocupação um tempo atrás, eu tava ocupando e a gente gravava muita coisa pra comunicação interna de como nóis nos comunicava com o mundo, via internet ou qualquer coisa. Gravava num dia, limpava banheiro no outro, era a rotina de vários que estavam ali. Aí eu percebia sempre equipes de TV, pessoas querendo filmar, fazer filme sobre, querendo entrevistar, querendo alguma coisa. Eu fiquei refletindo muito sobre como o cinema sempre chega depois, tá ligado. Aconteceu algo, daqui a pouco tá lá o cinema.

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