Urubus ao redor

urubusO que poderia significar a recente invasão de urubus numa Fatec? Acerto de contas do movimento secundarista, sombra da repressão policial ou percepção das aves de que a civilização é que é uma grande rapina?

Crônica de Priscila Figueiredo | Imagem: Jonathan Shaw, Cathartes aura (2013)
Das muitas notícias que li nos jornais hoje, passando pela fala de Henrique Meirelles na Igreja Sara Nossa Terra (apresentado não por um pastor-empresário, mas por um empresário-pastor, o presidente das Lojas Riachuelo, segundo o qual algo “profético” tinha acontecido, isto é, a suposta recuperação da economia, depois chamada de “milagre”, agora não só uma imagem, um termo emprestado da esfera mítico-religiosa, como na expressão “milagre econômico”, mas antes um enunciado emitido do interior mesmo desse mundo encantado, em associação com o qual a economia pode se realizar melhor e mais racionalmente), o que, pra dizer a verdade, mais me espantou foi a reportagem sobre os urubus na Fatec do Bom Retiro, que, sem tirar nem por muito, dava uma narrativa de realismo fantástico1. Os urubus flanando entre os prédios, bicando nas janelas, forçando a entrada nas salas, atrapalhando a concentração (na aula ou no celular), fazendo porcaria junto às carteiras… Conforme o depoimento de uma aluna, aquilo chegava a ser constrangedor, afinal, dizia ela mais ou menos, são bichos enormes e até um professor outro dia ficou desconcertado. A aluna percebeu algo importante, não tem dúvida — um desajuste fundamental, uma desmesura, ou ainda uma espécie de mudança na ordem das coisas. De fato, onde já se viu ou ouviu isso? Esses urubus ultrapassaram todos os limites e parecem inconscientes do seu tamanho e inadequação em certos lugares. Um aluno tinha visto um deles devorar um pombo vivo, e parece frequente que eles desçam voando pra atacar cachorros ou gatos. São inimigos não só dos homens como dos animais. Em certa altura, são comparados a uma versão “mais rústica” dos pássaros de Hitchcok — sem dúvida, mais pesada, mais desajeitada. Sempre achei estranha a forma como os urubus ficam parados no ar, e isso já me parecia efeito de feitiçaria. Agora ou esse efeito se esgotou ou estão entediados, e começam a sair do círculo do seu sabah. É curioso também que invadam uma Fatec, administrada pelo Centro Paula Souza, como se sabe briosamente ocupado durante dias por secundaristas em 2016 até a violenta reintegração de posse realizada pela PM.

Já assombrada pela história e cheia de palavras divinatórias na minha cabeça desde o caderno Mercado, minha imaginação também voou: seriam as aves uma espécie de preposto, ou melhor, posposto dos ativistas ( reprimidos de forma bruta e ameaçados pela justiça a pagar, caso continuassem a ocupação, uma multa de 30.000 reais por dia) ou quem sabe sua verdadeira alma? Contrariados, tinham retomado o curso de sua rotina, mas o faziam apenas mecanicamente, até que a alma se desprendeu deles e migrou para o corpo dos bichos, os animando para além da sua ousadia e ambição costumeira e fazendo até se meterem com coisas vivas que nunca foram pro seu bico. Por meio deles, voltavam a interromper as aulas, vinham avisar que não havia normalidade ainda possível e que insistir com ela é que seria absurdo. Tudo estava mesmo fora da ordem. A contrariedade e melancolia originada com a reintegração agora adquiria a forma dessas sombras esvoaçantes e absurdas. Ou, hipótese um tiquinho menos fantástica, talvez fossem apenas uma extensão do poder repressivo, uma metáfora atuante de que estão todos e todas sob o guarda-chuva ou a sombra do autoritarismo. Prova disso seriam alguns gestos estruturalmente similares: eram contra bichos, alunxs e professorxs, forçavam a entrada, atrapalhavam as aulas, devoravam pombos vivos, vinham pra desconcentrar. Talvez também não devesse ser descartada a possibilidade de as aves de rapina estarem se manifestando por conta própria, ideia que machuca nossa pretensão antropomorfizadora. Quem sabe estejam, como já aludi acima, entendiados ou mesmo insatisfeitos com a civilização, que sempre permitiu sua proximidade porque desempenhavam um papel considerável em seu equilíbrio. Agora finalmente se dariam conta de uma espécie de logro, pois é antes a civilização que lhes parece uma grande rapina.

O fato de que poucos alunos tenham querido se identificar me surpreendeu também — estavam com medo de represálias dos urubus? Ou seria da polícia do Alckmin? “Questão prenhe de questões”, que eu não saberia resolver.

1“Urubus invadem escola técnica, e gestão Alckmin recorre a repelente”, reportagem de Guilherme Neto, Folha de São Paulo, 6/01/2018.

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Priscila Figueiredo

Priscila Figueiredo é poeta e crítica, professora de Literatura Brasileira na USP, autora de "Em busca do inespecífico" (Nankin, 2001), sobre Mário de Andrade, e "Mateus" -- poemas (Bem-te-vi, 2011).

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