O trabalho do tempo

Dois filmes brasileiros registram, em costuras sensíveis e tocantes, a passagem do tempo sobre os personagens. “Alguma Coisa Assim”, no eixo São Paulo-Berlim; “Vinte anos”, em Cuba

Por José Geraldo Couto, no Blog do IMS

Filmes realizados em etapas, durante vários anos, procurando captar o trabalho do tempo sobre personagens e lugares ao longo do período, não são propriamente uma novidade. O procedimento se renova agora em dois novos filmes brasileiros, a ficção Alguma coisa assim, de Mariana Bastos e Esmir Filho, e o documentário Vinte anos, de Alice de Andrade. Vamos a eles.

Diante de Alguma coisa assim, muitos se lembraram de Boyhood (Richard Linklater, 2014), que registra doze anos da vida de um punhado de personagens ficcionais, em particular um menino que vemos passar da infância à idade adulta.

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Pode-se mencionar também Sorelle Mai (1910), em que Marco Bellocchio, misturando ficção e documento, filma durante dez anos pessoas de sua própria família. Mas o filme de Mariana Bastos e Esmir Filho me traz à mente com mais força a série de longas-metragens dedicados por François Truffaut ao personagem Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), uma espécie de alter ego do cineasta: de Os incompreendidos (1959) a O amor em fuga (1979), Antoine passa da adolescência à maturidade diante dos nossos olhos.

Referências à parte, Alguma coisa assim é uma experiência singular. Retrata de modo descontínuo dez anos da vida de dois amigos, Mari (Caroline Abras) e Caio (André Antunes), filmados em três momentos bem marcados: 2006, 2013 e 2016. Na primeira etapa, rodada em São Paulo, eles estão no final da adolescência; na última, são adultos formados e calejados que se reencontram em Berlim, onde Mari está morando.

Sexualidade e espanto

A gênese do longa é interessante. Em 2006, Esmir Filho realizou o curta Alguma coisa assim, mostrando um dia crucial na vida de Caio, aquele em que ele encara pela primeira vez sua homossexualidade na noite paulistana, com o amparo e o incentivo da amiga Mari. Já ali a relação entre os dois era um tanto ambígua, mas o centro do curta eram o espanto e os temores de Caio perante sua própria sexualidade. Para quem quiser conferir, esse curta inicial está disponível no Youtube.

Em 2013, tendo já Mariana Bastos como codiretora, Esmir filmou o curta Sete anos depois, de título autoexplicativo, em que a dupla se reencontra e Caio convida Mari para madrinha de seu casamento com um outro rapaz. A relação entre os amigos ganha ali um novo aprofundamento e uma nova torção. Depois de sete anos, eles já não são os mesmos, assim como São Paulo não é a mesma cidade.

O processo ganha mais uma volta do parafuso no novo filme. Agora Mari vive em Berlim e acolhe em seu apartamento (aliás, da imobiliária para a qual ela trabalha) o amigo Caio, que chega a Berlim para desenvolver uma pesquisa na área da embriologia – disciplina que será significativa para toda a história. A convivência entre eles se desenrola entre a harmonia e o atrito, até que um fato inesperado põe em crise essa amizade tão especial. Não convém entrar em detalhes.

Do ponto de vista cinematográfico, o que há de mais estimulante nesse “romance de formação” é a maneira como os diretores se serviram de material dos curtas anteriores para construir a evolução psicológica, afetiva e moral dos personagens. É uma construção ziguezagueante, cheia de desvãos, que mantém muita coisa em aberto, como se os dois protagonistas ainda escondessem de nós – e de si mesmos – vários aspectos da sua personalidade. Mari, principalmente, permanece uma incógnita, ao passo que Caio é, por assim dizer, mais transparente.

Costura e montagem

A costura dos três momentos distanciados no tempo, efetuada pela montadora Caroline Leone, é um primor de leveza e precisão. A primeira junção é feita sob o signo do contraste: das imagens esfuziantes, ruidosas e feéricas de uma balada LGBT da rua Augusta, onde tudo é instável, ao mesmo tempo atração irresistível e ameaça aos olhos do inseguro Caio, corta para uma tarde de verão em Berlim, dez anos depois, em que o mesmo Caio arrasta uma mala por uma rua e é quase atropelado por um ciclista. Dos planos noturnos fechados, com silhuetas que dançam freneticamente na penumbra, sob os flashes da luz estroboscópica, passamos para a plácida e luminosa tarde berlinense. Caio agora é um homem feito, e sua insegurança se manifesta de outros modos.

Em outros casos, a passagem se faz de modo mais fluido e sutil. Em Berlim, os amigos percorrem barracas de um mercado de pulgas ao ar livre. O veterano cabeludo que lhes vende uma pequena escultura se afasta alguns passos e volta ao seu trabalho como barbeiro, numa cadeira sob as árvores. Corta para outra cena ao ar livre, na São Paulo de 2013, em que, também sob as árvores, acontece o festivo casamento de Caio.

Uma das façanhas da dupla de diretores e de sua equipe é dar unidade e coesão a um material tão heterogêneo em seu modo de captação, mesmo no interior de cada período. De tomadas quase documentais, com câmera na mão, como nos preparativos da parada gay de Berlim, a cenas altamente estilizadas, com luz azulada, câmera lenta, rotação vertical da imagem etc., o filme tudo integra numa unidade narrativa e estética em que as tensões e fricções condizem com as oscilações dos personagens. Afinal, é uma história de inseguranças que se conta ali.

Tudo isso só é possível graças ao talento e à entrega da dupla central de atores, que se evidencia num plano-sequência de vários minutos em que os dois personagens lavam a roupa suja da sua relação numa discussão no apartamento berlinense, cercados por uma câmera inquieta que ora perscruta um dos corpos, ora o outro, ora os envolve num laço invisível. É um belo momento de atuação para o cinema.

Vinte anos

O processo de realização do documentário Vinte anos também é tão interessante quanto o belo resultado final. Em 1992, a diretora Alice de Andrade filmou em Cuba quarenta novos casais, registrando suas histórias e suas aspirações para o curta Luna de miel (1993). Era o chamado “período especial”, em que o país passava por uma grave penúria, depois do fim da União Soviética e de sua ajuda econômica.

Depois disso, a cineasta voltou à ilha em três outras oportunidades (2008, 2011 e 2015) e escolheu três daqueles casais para observar as mudanças acontecidas em duas décadas em suas vidas e na vida de Cuba. Em Vinte anos vemos imagens dessas famílias (um dos casais já tem netos) nos vários momentos, sob a costura de uma narração em voice over da própria Alice de Andrade.

A escolha dos casais foi engenhosa, por revelar vários dos dilemas que se apresentam aos cubanos. Um casal, por exemplo, mudou-se para Miami com um filho, deixando a filha mais velha em Cuba. Ela trabalha como camareira de hotel, ele como motorista e segurança. Nenhum dos dois fala inglês, mas o filho já se move quase como um cidadão norte-americano. O filme registra a volta do casal a Cuba para visitar a filha e a neta depois de vários anos de ausência.

Outro casal teve filhas gêmeas, ambas instrumentistas, mas com destinos distintos: Karla, cantora e clarinetista, ficou em Cuba, Camila, violinista, emigrou para a Costa Rica, onde toca na orquestra sinfônica nacional.

Ao mesclar cenas do cotidiano dos personagens nos vários momentos, bem como seus depoimentos antes e agora, o filme traça um painel muito vívido da sociedade cubana, uma sociedade que, apesar das diferenças óbvias, parece tão semelhante à nossa nas cores de pele, na música envolvente, no sincretismo religioso, na habilidade para se virar em situações adversas, no humor, na sensualidade.

Riqueza humana

O olhar de Alice de Andrade a essa realidade pulsante, contraditória é ao mesmo tempo crítico e solidário. Transborda da tela a afetividade dos personagens e da diretora em relação a eles. Há um desejo evidente de comunhão, um realce da riqueza humana que sobrevive à carência material e à deterioração arquitetônica.

Um sinal de que a intenção é mais poética do que documental é a utilização da música que, mesmo quando produzida em cena, “vaza” para outras imagens e situações, gerando pequenas epifanias. O magnífico allegretto da sétima sinfonia de Beethoven, executado pela orquestra da Costa Rica, tinge de uma dolorosa poesia cenas banais num conjunto habitacional popular, entre escadas, baldes e varais. Em outra passagem, é a igualmente batida Carmina Burana que intensifica a beleza do Malecón de Havana à noite.

O ápice dessa transfusão entre música e imagem, quase uma síntese do filme e de suas propostas, é o dueto final, com a tela dividida ao meio, das duas irmãs Karla e Camila, cada uma com seu instrumento, cada uma num país, tocando a música-tema, Veinte años, a clássica habanera de María Teresa Vera. Outra canção famosa, que não está no filme, o tango Volver, de Gardel e Le Pera, diz que “es un soplo la vida, veinte años no es nada”. O filme de Alice de Andrade mostra, porém, que vinte anos podem ser, sim, muita coisa.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.