O curioso anticapitalismo de Os últimos Jedi

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Denúncia do “livre” comércio, da democracia sequestrada, dos impérios. Protagonismo de mulheres e negros. Que explica tantas concessões da Disney? Não diziam que o público havia se tornado decididamente conservador?

Por Gustavo Freire Barbosa

Uma pequena nação acossada por um embargo comercial promovido por uma grande entidade representativa de interesses empresariais que não apenas possui vasta influência na política local, mas tem à sua disposição um formidável exército para impor pela força o que não consegue pelas vias institucionais e diplomáticas.

O que aparenta ser a transcrição de alguma situação específica da geopolítica internacional dos séculos XX ou XXI é na verdade o pano de fundo onde se desenvolve o enredo de A Ameaça Fantasma, episódio da franquia Star Wars lançado em 1999. Nele, a Federação do Comércio, insatisfeita com a cobrança de tributos, promove um embargo comercial contra Naboo, pequeno planeta governado pela Rainha Amidala. O impasse passa a ser discutido no Senado, onde a Federação promove o seu lobby por meio de parlamentares comprados a peso de ouro – ou burocratas leais aos seus interesses pouco republicanos, conforme define um dos personagens.

Ao tomar conhecimento de que os embaixadores enviados para negociar uma saída pacífica fazem parte da Ordem Jedi, o vice-rei Nute Gunray, uma espécie de presidente da Federação, recebe do Lorde Sith Darth Sidious a ordem de enviar tropas militares a Naboo, causando uma crise na República. Em determinado momento, Gunray, em um lampejo de republicanismo, pergunta a Sidious se uma invasão militar seria legal. “Eu faço com que seja”, responde o Sith, que mais à frente afirma ter pleno controle do Senado, onde a própria Federação, embora seja uma organização privada (ou melhor: não seja um país, planeta ou nação), tem sua respectiva representação parlamentar.

Mesmo diante dos apelos de Amidala, em razão do sofrimento pelo qual vem passando o seu povo, a Federação resiste em levantar o embargo (será coincidência a semelhança com a situação de uma certa ilha caribenha?), aproveitando-se da fragilidade do planeta para propor um acordo oficializando a ocupação militar na certeza de que o Senado não se oporia a ratificar um tratado bilateral assinado sob a “livre” e soberana vontade de Naboo (atente-se aqui para o conceito de liberdade apenas em seu sentido formal, um dogma onde se encerram as democracias liberais). Se a invasão fora ilegal, com a assinatura do acordo e sua ratificação esta passaria a adentrar nos meandros da legalidade, conforme articulara Sidious. Amidala, contudo, recusa-se a assiná-lo, ouvindo de Gunray a chantagem de que “o sofrimento do povo fará com que mude ideia”.

TEXTO-MEIO

É impossível fechar os olhos para a proximidade com questões atuais como a desumana narrativa do mercado financeiro principalmente em relação a países periféricos, onde crises fiscais e endividamentos tornam-se verdadeiros álibis para a extorsão por meio de medidas que comprometem a realização de direitos essenciais de suas populações, enquanto o andar de cima permanece protegido pela bolha plutocrática das democracias modernas. Convém observar que, uma vez que se tratam de álibis, os propósitos não declarados – porém indisfarçáveis – destas medidas costumam dizer respeito à asseguração da rapina exploratória, seja pelo uso de forças militares (vide guerras do Golfo, Vietnã, Iraque e Síria), seja por meio da violência simbólica de artifícios coercitivos e institucionais (vide dívida pública, políticas de austeridade e juros).

A aproximação dos fatos narrados em Star Wars com práticas imperialistas também é notória, a exemplo das mencionadas invasões norte-americanas, alvos declarados das críticas de George Lucas (1 2). No Brasil, medidas como as contrarreformas trabalhista e previdenciária e a emenda constitucional do teto de gastos, todas realizadas conforme a agenda do mercado financeiro, conferem à saga uma verossimilhança que se consolida com o lobby contrário à arrecadação tributária e a direitos trabalhistas protagonizado por entidades como a CNI (Confederação Nacional da Indústria) e a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), equivalentes à Federação do Comércio, e figuras degeneradas como Paulo Skaf, Robson Braga de Andrade e Flávio Rocha. No plano internacional, temos a troika, formada pela Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu, entusiastas da adoção de políticas de “austeridade” incompatíveis mesmo com a noção mais vulgar de democracia.

Em Os Últimos Jedi, novo filme da franquia, essa perspectiva crítica também possui espaço cativo no desenrolar do enredo. Pablo Villaça, crítico de cinema e editor do site Cinema em Cena, realça em sua análise a tradição da série em retratar alegorias políticas, a exemplo da representação de uma elite predatória que enriqueceu com a venda de armamentos e que não se constrange em superexplorar mão-de-obra na extração de recursos naturais e maltratar animais para servir ao seu entretenimento. O emprego de trabalho infantil e a apropriação de espaços públicos para realizar seus convescotes também são retratados na sequência.

A biópsia desta natureza predatória é feita com detalhes por Karl Marx, para quem o capital não apenas tem “boas razões” para negar os sofrimentos das gerações de trabalhadores e trabalhadoras que o circundam, como também é, em seu movimento prático, tão pouco condicionado pela perspectiva do apodrecimento futuro da humanidade e seu irrefreável despovoamento final quanto pela possível queda da Terra sobre o Sol1. Ainda, o completo desprezo pela soberania de Naboo e pela situação de seu povo demonstram não apenas a falta de humanidade desta tecnocracia globalitária – para utilizar uma expressão de Milton Santos – na perseguição do lucro e da acumulação, mas também o indiscutível desprezo pela democracia, alimentado pelo modo de produção capitalista principalmente em sua forma financeirizada.

Assim como invasões militares, financiamento de ditaduras, sabotagens econômicas e suspensão de direitos fundamentais são realizados em nome da acumulação, no contexto de subjugação de soberanias nacionais por forças externas, o consequente desprezo à democracia também se faz presente em vários e emblemáticos momentos da saga – a exemplo do golpe que derrubou a República em A Vingança dos Sith e fez surgir o Império Galáctico, fruto da aliança entre a Federação do Comércio e a Confederação dos Sistemas Independentes e seus grupos paramilitares separatistas. Em mais uma “coincidência” com o Brasil contemporâneo, o primeiro ato da queda do regime republicano se deu com o impeachment do Chanceler Valorum ainda em A Ameaça Fantasma, acusado de inabilidade política e administrativa pela mesma pessoa que, ao assumir seu lugar, sepultou a Ordem Jedi e pôs uma pá de cal nas liberdades democráticas.

Em uma das cenas do novo filme, um dos personagens se auto-intitula “escória rebelde” em resposta à ofensa de “escória” que lhe é dirigida por uma alta patente da Primeira Ordem. Star Wars, como toda e qualquer obra cinematográfica, não se encontra desgarrada de seu tempo, ainda que o déficit cognitivo e o conservadorismo de um punhado de fãs os façam inclusive ir na contramão da franquia, a exemplo de quando tentaram boicotar o episódio anterior por trazer uma mulher e um negro como protagonistas. A série também não se propõe a, na esteira de conhecidas fórmulas de entretenimento, promover críticas genéricas a tiranias de qualquer natureza, mas sim a uma tirania específica contra a qual não faltam exemplos reais de alianças rebeldes e representações em carne e osso de personagens tão transgressores quanto Finn, Rey, Leia Organa e Luke Skywalker. Basta olhar ao redor, identificá-las e, afora maniqueísmos ginasiais, escolher o seu lado da história.

1 Boitempo Editorial, 1ª edição, página 342

TEXTO-FIM
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Gustavo Henrique Freire Barbosa

Gustavo Henrique Freire Barbosa é advogado e professor substituto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte