Horror e humor em “O animal cordial”

Numa noite, num único ambiente, personagens de diversas classes transbordam violência, em lances que seguem uma lógica dramática rigorosa. Um filme político como poucos

Por José Geraldo Couto

O animal cordial tem sido classificado como slasher movie, ou seja, um filme de violência explícita, sangue em profusão, corpos esquartejados – o que antigamente se chamava de “filme de machadinha”. A qualificação é correta, grosso modo, mas não dá conta da força e do alcance do surpreendente longa-metragem de estreia de Gabriela Amaral Almeida, e corre o risco de encerrá-lo num nicho e limitar seu público.

Começa pela concentração espacial e temporal. Uma única noite, um único ambiente: um restaurante “despojado chique” onde uns poucos personagens de diversas classes e procedências interagem das mais variadas formas.

Atrito crescente

Há uma tensão inicial entre o dono do estabelecimento, Inácio (Murilo Benício), e seus funcionários, em especial o chefe de cozinha Djair (Irandhir Santos), com a gerente Sara (Luciana Paes) funcionando como figura pendular entre o patrão e os empregados. Nesse primeiro momento são dois os focos de atrito: o lixo, que precisa ser posto para fora sem passar pelo salão, e a visita que será feita no dia seguinte por um jornalista importante, “um crítico desses que dão estrelinhas”, nas palavras de Inácio.

A situação se tensiona ainda mais quando entra em cena um casal de clientes arrogantes, Verônica (Camila Morgado) e Bruno (Jiddu Pinheiro), e sofre uma reviravolta radical com a invasão de dois jovens assaltantes (Humberto Carrão e Ariclenes Barroso).

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Na transição entre as três situações (patrão e funcionários; patrão, funcionários e clientes; patrão, funcionários, clientes e assaltantes), complica-se o jogo de poder, deslocam-se as relações de força entre os personagens, formam-se novas lealdades e novas traições. Nesse contexto, os lances de violência podem ser abruptos, inesperados, mas nunca gratuitos ou arbitrários, obedecendo sempre a uma lógica dramática rigorosa, atenta ao perfil psicológico de cada indivíduo e à sua posição na configuração geral.

Mais do que um microcosmo da sociedade, temos aqui uma microfísica do poder. É um filme político como poucos. E agora cabe uma digressão sobre as referências cinematográficas mais evidentes. Filmes em que personagens são feitos reféns e aterrorizados por criminosos armados são frequentes na história do cinema. Falou-se com razão no clássico Horas de desespero (1955), de William Wyler, como caso paradigmático. A diferença, porém, é que em O animal cordial o terror não é o bandido que vem de fora, não é o psicopata à margem da sociedade estabelecida. O monstro sanguinário, aqui, é o “cidadão de bem” que estava dentro o tempo todo.

Soltando um pouco a imaginação, podem-se evocar outras conexões: com os aristocratas enclausurados que se entredevoram em O anjo exterminador, de Buñuel; com o humor negro do primeiro filme dos irmãos Coen, Gosto de sangue; com o sarcasmo social e o paroxismo de violência do Tarantino de Cães de aluguel e Os oito odiados.

Sociedade em negativo

Assim como em todos esses casos, em O animal cordial indivíduo e sociedade são como que virados do avesso, revelados em negativo, condensados em pesadelo. A proximidade de sexo e morte, eros e aniquilação, é exposta cruamente, remetendo, neste aspecto, a Matador, de Almodóvar (aliás, a extraordinária atriz Luciana Paes parece saída de um filme do espanhol).

A eficácia da estratégia dramática e narrativa do filme se baseia numa decupagem precisa, enxuta, em que nada entra em quadro por acaso, na relação sutil entre som e imagem e numa direção de atores que tira o máximo de cada um. A orquestração dos olhares, a coreografia dos corpos no ambiente, tudo significa.

Um exemplo singelo, entre muitos outros: ainda no começo, Inácio, o dono, ensaia diante do espelho oval do banheiro, como um ator canastrão, as coisas que dirá na entrevista ao “crítico que dá estrelinhas”. Mais adiante no filme, o mesmo espelho, como um retrato de Dorian Gray, mostrará o mesmo Inácio com o rosto ferido e transfigurado. Por fim, o próprio espelho será espatifado, devolvendo uma imagem fragmentada. A deterioração psicológica e moral do personagem traduzida num objeto de cena.

Humor e horror fazem um jogo de contrastes. Num dos ápices da sangreira, uma personagem retira os cílios postiços de uma morta e o transforma em bigodinho cômico. Entre cadáveres, patrão e empregada discutem qual o melhor piso para a reforma do restaurante: madeira ou porcelanato?

Um capítulo à parte são os líquidos corporais: urina, sangue, vômito, suor e (implícito) sêmen. Tudo o que há de mais humano emerge, transborda, inunda. A política está no orgânico, o espírito se faz carne.

No início deste texto chamei de “surpreendente” este longa de estreia de Gabriela Amaral Almeida, mas ele talvez não surpreenda tanto quem conhece seus curtas anteriores, que se concentram em poucos personagens e situações compactas, revelando uma diretora segura e original. Três desses curtas – Uma primavera, A mão que afaga e Estátua! – serão exibidos neste fim de semana pelo IMS em São Paulo e no Rio. Vale a pena conhecer a gênese dessa cineasta, que já tem um segundo longa pronto, A sombra do pai, selecionado para a competição do próximo festival de cinema de Brasília.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.

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