As Boas Maneiras: Licantropia sertaneja

Filme de Juliana Rojas e Marco Dutra atualiza mito do Lobisomem, no contexto das tensões sociais de hoje. Ao fazê-lo, diretores encontram beleza no hediondo, poesia no horror, delicadeza na brutalidade e amor na selvageria

Por José Geraldo Couto, no Blog do IMS

O título acima eu peguei emprestado de um belo ensaio de Luís da Câmara Cascudo sobre o mito do lobisomem em várias civilizações, das suas origens na antiguidade até as ricas ramificações na cultura popular brasileira. O filme As boas maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra, em cartaz no IMS Paulista e no IMS Rio, é uma singular atualização desse mito, ou antes uma releitura moderna, no contexto das tensões sociais de hoje.

A palavra “sertaneja” não deve iludir aqui. Com exceção de um breve flashback, engenhosamente construído em forma de quadrinhos ou storyboard, o filme se passa todo em São Paulo – ou num misto da cidade real com uma metrópole imaginária, um lugar de fantasia.

E este é o primeiro acerto dos realizadores: a construção de um mundo à parte, com um pé no real e outro na fábula. É isso que propiciará, de certa maneira, a desenvoltura com que a narrativa trafegará entre os gêneros e os tons dramáticos, do musical ao terror, da crônica social à tragédia, do suspense ao filme de amor.

Alicerces realistas

No começo pensamos estar diante de um realismo social estrito: Clara (a extraordinária Izabél Zuaa), jovem negra da periferia, vai a um apartamento na parte rica e modernosa da cidade em busca de um emprego de babá. O apartamento é de Ana (Marjorie Estiano), instável e fútil agrogirl vinda do interior de Goiás, que está nos últimos meses de gravidez e mora sozinha.

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Tudo, nesse início, é filmado de acordo com um verismo rigoroso, da entrada de Clara no prédio (interfone, portão automático, momento de espera, outro portão automático) à entrevista de outra candidata ao emprego, que Clara escuta da sala ao lado; da checagem de suas referências à descrição do funcionamento da casa e das tarefas necessárias.

Configura-se assim um quadro social concreto, em que sutilmente se delineiam as fricções de classe, raça e gênero, bem como as relações entre campo e cidade, consumo urbano e cultura rural, tradição e modernidade. Ao mesmo tempo, as duas protagonistas vão se tornando personagens concretos, verossímeis, multidimensionais, e o afeto entre elas passa a permear tudo.

Nessa configuração realista (em termos sociais e psicológicos) vão se insinuando grãos de estranheza, brechas de mistério, vazios inquietantes. De início isso se dá pela mera decupagem e mise-en-scène, sem necessidade de recorrer ao sobrenatural. Exemplo: Ana fala a Clara sobre a caixa de música que herdou da avó, as duas saem de quadro e a câmera se aproxima lentamente da caixinha, instaurando uma atmosfera sinistra por força unicamente do ritmo, da trilha musical, da composição visual. O suspense pela sugestão, à maneira de um Jacques Tourneur, extraindo o máximo de um mínimo de recursos.

Se me estendi demais sobre essa primeira quarta parte do filme, é porque ela estabelece os alicerces para os seus voos posteriores. Outro exemplo eloquente: Clara descobre um revólver entre as coisas de Ana; corta do close da arma para a prateleira da geladeira onde são colocadas grandes postas de carne vermelha sangrenta. Mais adiante veremos variadas conjugações desses elementos (arma, carne, sangue), como se elas estivessem contidas em potência naquela primeira justaposição.

Poética da metamorfose

Quanto ao que vem depois, é difícil falar qualquer coisa sem estragar o prazer da surpresa e da descoberta. Serei vago. Basta dizer que o espectador cinéfilo será tentado a lembrar de filmes tão díspares como O bebê de Rosemary, It’s alive (de Larry Cohen) e O lobisomem americano em Londres, entre muitos outros, sem que haja nisso o menor vestígio de colagem exibicionista de referências. A fortuna cinematográfica foi absorvida naturalmente pela dupla de cineastas e incorporada em seus meios de expressão.

Metamorfose é a palavra que define tanto o entrecho do filme como sua forma. Se, na primeira parte, passa-se de um gênero a outro, de um tom a outro, por meio de transições sutis, da metade para a frente é como se todas as instâncias se integrassem de um modo quase mágico: suspense, horror, musical, romance, tragédia, tudo organicamente integrado formando uma coisa única, nova e sem nome.

Olhando retrospectivamente a filmografia da dupla de diretores – Trabalhar cansa, dos dois; Quando eu era vivo, de Marco Dutra; Sinfonia da necrópole, de Juliana Rojas –, é possível vê-la como uma exploração progressiva, sempre original e cada vez mais ousada, do território do sobrenatural. Aqui, eles se sentem seguros para mergulhar no horror explícito, no gore, na animatrônica e nos efeitos digitais, sem recuar diante do escabroso e de um eventual mau gosto.

O prodígio maior dos realizadores está justamente em encontrar beleza no hediondo, poesia no horror, delicadeza na brutalidade, amor na selvageria. Pois sim, o verdadeiro spoiler é este: contra todas as evidências, As boas maneiras é um baita filme de amor.

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