As lições de uma China que se levantou

Depois de “século de humilhações”, país estava prostrado, até 1949. Em meio a múltiplas contradições, processo revolucionário venceu a pobreza e lançou um projeto de globalização não neoliberal. O que isso pode dizer ao Brasil

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Em esforço para compreender em profundidade a China, Outras Palavras publica série de textos do cientista político e geógrafo brasileiro Diego Pautasso, que estuda o país asiático há 15 anos. Uma entrevista com o autor pode ser vista aqui.
O artigo a seguir foi publicado originalmente no site Bonifácio.
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Há quase duas décadas, tenho dedicado minha atividade acadêmica, à investigação dos principais vetores da inserção internacional da China no século XXI. Não é de se estranhar que, nos dias de hoje, se multiplique o interesse geral sobre esse tipo de estudo, afinal, a China tem, nas últimas décadas, implementado acelerado processo de desenvolvimento nacional.

O constante crescimento econômico vem sendo acompanhado da manutenção das orientações políticas e estratégicas do Partido Comunista, o mesmo responsável por dirigir a Revolução de 1949. Mais do que uma vitória dos comunistas chineses, a Revolução representou um legítimo processo de reconstrução nacional, na medida em que pôs fim à submissão política às potências europeias, herança do chamado “século das humilhações” (1839-1949), assim conhecido pelas invasões e chantagens estrangeiras que resultaram na desarticulação completa da civilização chinesa.

Mao Tsé-Tung liderou a revolução que restaurou a independência da China e o pleno domínio do país sobre seu próprio território.

Sob a condução de Mao Tsé-Tung, os chineses garantiram a integridade do território nacional, que após décadas de guerra civil estava à beira da fragmentação e com soberania questionada em diversas regiões, bem como a consolidação dos alicerces da infraestrutura física e da indústria de base do país. Essa etapa inicial permitiu que, num segundo momento, o governo se voltasse à consecução de uma estratégia de longo prazo direcionada para a reestruturação de um país repleto de vulnerabilidades. Nesse sentido, uma segunda geração de lideranças, tendo Deng Xiaoping como membro destacado, implementou as diretrizes de Reforma e Abertura, apresentando uma reorganização das prioridades nacionais, de forma a atingir um acelerado processo de desenvolvimento, pautado pela internalização de tecnologias estrangeiras e a reorientação da inserção internacional do país. 

Ao tempo em que essa estratégia de abertura econômica sem abertura política deu maior dinamismo ao país, ingressando sem freios nos trilhos do crescimento econômico, também permitiu aos comunistas a manutenção de sua autoridade política, mesmo na década de 1990, contrastando com o panorama de colapso do campo soviético e de grande parte do socialismo real. Assim, a China passou a se integrar, progressivamente, às instituições multilaterais de âmbito regional e global, superando o anterior paradigma de relativo isolamento político, e recuperando sua capacidade de inserção internacional. Os dados do PIB ilustram a irrefreável ascensão da China, refletida também em sua presença global (Tabela 1).

Tabela 1

Fonte: Banco Mundial

No século XXI, essa potencialização do poderio chinês se faz evidente, com a plena inserção do país nas organizações multilaterais globais mesclando-se com a proatividade de uma política externa altiva, marcada pela assertividade e a liderança de diversas iniciativas em prol do redesenho da ordem internacional. Nessas se inscrevem, fundamentalmente, a formatação de uma nova arquitetura financeira global e a construção da Nova Rota da Seda. Assim, o desenvolvimento nacional chinês tem transbordado, redundando na reconfiguração de um sistema sinocêntrico e na crescente relevância chinesa para a ordem internacional. Inscrevem-se, portanto, nesse cenário, o ativismo da China em favor da reforma de organismos multilaterais, sua liderança na configuração de importantes arranjos de integração regional asiáticos e euroasiáticos, o apoio prestado a novos arranjos financeiros multilaterais, a participação em coalizões diplomáticas reformistas, dentre outras tantas movimentações diplomáticas relevantes.

Deng Xiaoping conduziu a abertura e o processo de modernização que deu à China a liderança no comércio global.

Evidentemente, a proatividade chinesa no âmbito internacional não responde a simples impulsos voluntaristas ou, como alguns fazem crer, a supostas posturas contestatórias, mas ao reflexo da complexa e dialética relação entre o interno e o externo, o global e o nacional, inerentes a uma sólida estratégia de desenvolvimento planejada e implementada durante décadas. Assim, não é trivial a observação de que, desde a adoção das políticas de Abertura e Reforma na década de 1970 – apenas possíveis devido à etapa anterior de unificação nacional – a China tenha retirado da pobreza mais de 750 milhões de seus habitantes, o que responde a nada menos do que cerca de 70% da redução da pobreza no mundo no mesmo período. E é nesse sentido que se estabelecem as metas de desenvolvimento impostas pelo país em programas como a comemoração dos Dois Centenários e o Made in China 2025[1].

A moderna Rota da Seda projetada pela China ampliará a influência econômica e geopolítica da potência asiática no mundo.

A Nova Rota da Seda representa, nesse cenário, a execução da etapa regional de um projeto chinês de globalização. Essa, por sua vez, dialoga com as necessidades nacionais de criação de demanda para a supercapacidade ociosa da indústria chinesa, o estabelecimento de alternativas para dilemas securitários do país – como a vulnerabilidade de suas fontes de suprimento energético e de matérias-primas vitais -, de fortalecimento dos processos de internacionalização das empresas chinesas e exportação de serviços nacionais, e de maior presença em redes de comércio internacional, ampliando o papel gravitacional da China. 

A ascensão e desenvolvimento da China não ocorrem em descompasso com a realidade de uma ordem internacional em transição. Caminhando junto das mudanças e reformas ensejadas pela proatividade chinesa, surgem contradições e novos desequilíbrios que redesenham os principais conflitos da arena global. Assim, ao tempo em que se acirram os laços de interdependência econômica da China com os EUA, também se gestam os germes de um confronto pela hegemonia internacional. Essa disputa se reflete nos âmbitos estratégicos, geopolíticos, comerciais, assumindo diferentes facetas nas várias regiões do mundo.

A Rota da Seda tem o objetivo de proteger o acesso de produtos e serviços chineses ao mercado mundial.

Sem compreender essa intrincada rede de relações, dificilmente um país que aspire, em pleno século XXI, a consecução de estratégias de desenvolvimento conseguirá se posicionar de forma adequada para responder a esses complexos desafios. Visando contribuir para esse debate, publico, ao longo das próximas semanas – e com o auxílio dos pesquisadores Gaio Doria, Tiago Nogara e Renato Ungaretti -, uma série de capítulos abordando a China e sua inserção internacional no século XXI.

Nessa série, serão tangenciadas questões como a Nova Rota da Seda, em suas dimensões marítima e terrestre; o caráter das relações da China com outros países e regiões da periferia do sistema mundial; os principais projetos de desenvolvimento correntes no país; os principais desafios decorrentes da proeminência chinesa; as razões e o sentido da guerra comercial com os Estados Unidos; os conflitos entre o poder central chinês e grupos separatistas em Xinjiang, Hong Kong e no Tibete; dentre outras questões.


[1] Ver artigo na íntegra o sobre este tema em DESENVOLVIMENTO E PODER GLOBAL DA CHINA: A POLÍTICA MADE IN CHINA 2025, publicado em Austral: Revista Brasileira de Estratégia e Relações Internacionais, v.8, n.16, Jul./Dez. 2019, p.183-198

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2 comentários para "As lições de uma China que se levantou"

  1. Joma disse:

    O Brasil não é asiático, então não pode ter as mesmas soluções que a China para resolver sua crise constante no caminho para o desenvolvimento.
    O Brasil tem que criar projetos próprios, adaptados à sua cultura ocidental, gênero de população e geografia. O Brasil tem que ser uma potência politicamente independente e socialmente desenvolvida, assim como são a China, os Estados Unidos e outros países desenvolvidos.

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