Cildo Meireles, o pensamento e o sensível

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Pensar não é o mesmo que possuir ideias ou juízos. Os pensamentos são delimitações abertas, ao invés de sínteses prévias. Para Cildo, a arte deve seduzir o espectador, como verdadeiro estofo para uma reflexão encarnada e, portanto, viva e mutante

Por Graziela Marcheti | Imagem: Marcela Lordy, fotograma de Ouvir o Rio

 

O que se procura muito deliberadamente
não se encontra e, ao contrário, não faltam ideias e valores a quem soube,
em sua vida meditante, liberar a fonte
de onde jorram espontaneamente.”
(Merleau-Ponty)

[Este texto é a terceira parte de uma série sobre a obra de Cildo Meireles e suas implicações. Leia também as seções 1, 2 e 4]

TEXTO-MEIO

A insistência de Cildo Meireles em elementos sonoros revela uma investigação em torno dos sentidos considerados menores no domínio da arte, diante da supremacia da visão.

Neste ponto, retomamos a pergunta: de que forma um composto puramente sensorial pode se abrir para a esfera do pensamento? Cildo demonstra consciência em relação a essa mutação: “(…) o texto começa do material mais abstrato para chegar ao resultado mais concreto, mais objetual possível; em artes plásticas, você trabalha no sentido oposto, parte do elemento mais material, mais inanimado, e tenta transformá-lo em algo que seja o mais abstrato possível.” (MEIRELES apud SCOVINO, 2009, p. 127-129)

Com isso, podemos pensar que a sensorialidade não é uma gama de moléculas contínuas e presentes que formam uma massa sensível. Há, no sensível, uma presença insensível; no visível, a gestação do invisível. Merleau-Ponty insiste que o invisível não deve “ser tomado como o não-visível enquanto negativo-positivo do visível” (CHAUÍ, 2002, p. 115). O invisível é dimensão da visibilidade, pois o visível está prenhe de invisibilidade.

É a impercepção da percepção – o que nos faz ver mais do que vemos (como o odor ou o paladar de um visível, o som, a lembrança despertada por uma coisa, o fantasma em que, à noite, se torna uma árvore ressequida), ou também o que não vemos ao ver (o intervalo entre as árvores, o fundo de nossa retina, o pensamento de outrem cujo comportamento vemos). […] é imbricação de nossos sensíveis que, sem serem sobreponíveis, nos abrem ao mesmo mundo. […] O invisível não é uma ausência objetiva […]. É uma ausência que conta no mundo, uma lacuna que não é vazio, mas ponto de passagem. É poro. É o oco. A cavidade da abóbada. (CHAUÍ, 2002, p. 116)

Exatamente devido ao sensível não ser uma massa de moléculas justapostas, ou seja, o sensível é composto de poros, hiatos, pontos de passagem – contém nas suas entranhas o insensível -, é que é possível o fenômeno da percepção na sua complexidade. Quer dizer, “o invisível sustém a concordância entre as coisas, entre os sentidos, entre estes e aquelas, entre eles e as palavras e entre estas e as ideias” (CHAUÍ, 2002, p. 117). “O invisível banha o sensível (reunindo o mundo dos sentidos) e o promete, sem ruptura, à expressão e ao inteligível.” (CHAUÍ, 2002, p. 117).

É aí que se dá a abertura ao pensamento. Fosse o sensível pura massa de moléculas positivas e adjacentes, seria impossível, a partir da sensibilidade, ativar os poros do pensamento. Ao contrário da visão, que se atém ao dado positivo da realidade, “o olhar pensa, testemunha a visão como interrogação” (CARDOSO, 1988, p. 350). Nesse sentido, o olhar não vê com os olhos, assim como a obra de Cildo não se oferece à visão retiniana.

Como o invisível é o forro que atapeta o visível, também o insensível preenche e sustém o sensível, preenche-o de lacunas e brechas, em que é possível perscrutar, investigar, e por fim, refletir. É, portanto, da imanência da matéria que nos abrimos para a transcendência do Ser. “Passar de uma dimensão a outra é invasão de uma dimensão por outra, penetração nos poros. Passar a uma dimensão ‘superior’, como do visível à palavra e desta à ideia” leva a uma reorganização. “Cada dimensão antecipa aquela que irá retomá-la e reorganizá-la porque são secretamente aparentadas.” (CHAUÍ, 2002, p. 124-125).

Como a estrutura sensível não pode ser compreendida a não ser através da sua relação com o corpo, com a carne, – a estrutura invisível não pode ser compreendida sem a relação com o logos, a palavra. O sentido invisível é a nervura da palavra […] o mundo das ideias invade a linguagem (pensamos a linguagem) que por sua vez invade as ideias (pensamos porque falamos, porque escrevemos). (MERLEAU-PONTY, 2000, p. 206-207)

Mas, não nos referimos aqui ao pensamento como atividade intelectual, desconectada da sensibilidade do corpo. Nesse sentido, “pensamentos não são enunciados, nem proposições ou juízos, mas afastamentos determinados no interior do Ser.” (CHAUÍ, 2002, p. 124). Pois o pensamento é tido como experiência, atividade encarnada. E “a experiência (aquilo a que nos dirigimos para que nos abra para o que não é nós) não é atividade intelectual” (Chauí, 2002, p. 138), ou cerebral. Abertura para o que não é nós é “o meio que me é dado de estar ausente de mim mesmo, de assistir de dentro a fissão do Ser.” (CHAUÍ, 2002, p. 138)

Há quiasma nas coisas: a superfície se enlaça e se cruza com as cores e os sons, que se enlaçam e se cruzam com os odores, todos se enlaçando e se cruzando em movimentos infindáveis, numa troca incessante em que cada qual é indiscernível e discernível porque pertence a famílias diferentes. O tecido do mundo das coisas é cerrado e poroso. A transitividade e reversibilidade das dimensões fazem as coisas profundas. Essa profundidade é sua Carne. […]

Os sentidos operam no quiasma: o olho apalpa, as mãos veem, os olhos se movem com o tato, o tato sustenta pelos olhos nossa imobilidade e mobilidade, compensando as das coisas. Para que haja visibilidade […] é preciso que o visível seja um transcendente ao qual só é possível chegar por uma experiência também transcendente, inteiramente fora de si sem sair de si. […] O visível não é um paradoxo humano, mas um mistério do Ser que o corpo não explica nem ilumina, apenas concentra. (CHAUÍ, 2002, p. 142)

Pensar não é o mesmo que possuir ideias ou juízos. Os pensamentos são delimitações abertas, ao invés de sínteses prévias. Encontram-se no registro da experiência, estão enraizados na Carne do corpo: “pensado-impensado, atividade-passividade, interioridade-exterioridade, saída de si que é entrada em si, pois é relação consigo, com outrem, com o mundo estético e com o mundo cultural” (CHAUÍ, 2002, p. 148). O pensamento sugere uma errância. Para pensar, é necessário desfazer a ideia do conhecimento como apropriação intelectual.

Assim, tal como o visível é prenhe de invisibilidade, o pensamento carrega consigo o impensado que sustenta misteriosamente o pensável como devir.

É assim que, para Cildo Meireles, a arte deve seduzir o espectador, como verdadeiro estofo para a reflexão, uma reflexão encarnada e, portanto, viva e mutante. Pois é no próprio mundo sensorial, assim como na experiência corporal de percepção desse mundo, que se encontra a chave para a reflexão. Uma experiência que emerge das brechas do mundo, das lacunas presentes no sensível e do impensado que impulsiona o pensar que se anuncia. O enigma da percepção é justamente o que ativa o nosso corpo como experiência de pensamento e linguagem.

Este é o motivo pelo qual não basta substituir a experiência estética por textos puramente intelectuais, ainda que haja no próprio texto escrito uma fina camada de sensorialidade. O conhecimento puramente intelectual perde de vista o mistério da percepção. Da mesma forma, a invasão de imagens excessivas que recebemos diariamente no universo das mídias de mercado e publicidade também não é capaz de traduzir o que ocorre na experiência estética. Nem toda imagem é capaz de fazer da visão interrogação. O universo plástico, em todas as dimensões do sentido, é extremamente potente se puder conter nas lacunas do invisível as brechas para a interrogação.

Nesse sentido, RIO OIR faz um convite generoso à reflexão: num balanço contínuo que vai do mesmo ao outro, de forma sutil e impactante; como na fita de Moebius, propõe chegarmos ao seu avesso deslizando pelo próprio verso da face.

TEXTO-FIM
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Graziela Marcheti

Mestre em Psicologia Social da Arte