O lançamento do Waves e o papel do Google

Waves: Emêio, Wiki, comunicador instantâneo e rede social integrados

Waves: Emêio, Wiki, comunicador instantâneo e rede social integrados

Nova plataforma, construída em código aberto, pode multiplicar a força da colaboração  em rede. Mas o que é a empresa que o criou: um monopólio em construção? Um dínamo de relações pós-capitalistas? As duas coisas ao mesmo tempo?

O mundo da comunicação digital foi surpreendido, na terça-feira passada (26/5) pelo pré-lançamento do Google Waves, durante uma conferência entre a empresa e centenas de desenvolvedores autônomos, em San Francisco (EUA). Embora ainda não disponível ao público (fala-se que isso ocorrerá ainda este ano), seus criadores o apresentaram em funcionamento real. E o que se viu foi algo que pode revolucionar a comunicação — e principalmente a colaboração — pessoais via internet.

Waves agrega, numa única plataforma emêio, microblog (como o Twitter), rede social (como Facebook ou Orkut), wiki (para construção coletiva de documentos) e comunicador instantâneo (como jabber, gtalk ou msn). Reunidas, estas funções ganham enorme sinergia. Um grupo de pessoas trabalhando em torno de um projeto, em diferentes pontos de uma cidade ou do mundo, poderá trocar informações quase como se estivesse numa mesma sala. Além de estabelecer diálogos, será possível compartilhar documentos, apresentar projetos e mapas; redigir ou concluir textos planilhas em rede; convidar instantaneamente novos participantes. As comunicações podem ser instantâneas (como numa reunião) ou assincrônicas (para que cada participante contribua no momento que lher for mais favorável). Há tradução simultânea do que se tecla (padrão Google Translator). Ao contrário do que ocorre no emêio (ou no Twitter), as falas ou trocas que fazem parte de um mesmo diálogo aparecem agregadas, como numa conversa real. É possível, a qualquer momento, recuperar todo o histórico. Serve para que um grupo de amigos planeje uma viagem, ou para realizar um encontro multilíngue preparatório ao próximo Fórum Social Mundial.

CÓDIGO ABERTO E ROBÔS: Três características anunciadas no dia 26 tornaram o lançamento ainda mais atraente do ponto de vista, digamos, político. Tem a ver com a eterna promessa da Google, de trabalhar colaborativamente. 1) O Waves poderá ser embutido (como se faz com um vídeo do YouTube) num site, blog ou rede social qualquer. Os participantes de Outras Palavras poderiam criar, dentro do próprio blog, diálogos, trocas de documentos ou textos coletivos sobre os temas que desejarem. 2) O sistema estará aberto para incorporação de complementos produzidos por criadores independentes. Além dos já conhecidos “gadgets” (que permitem, or exemplo, informações sobre o tempo, no local em que um blog é produzidos), também robôs. Um robô instalado num determinado diálogo pode funcionar como um participante cibernético. Programado, por exemplo, para recolher todas as novas notícias sobre o tema debatido pelos demais membros da conversa… 3) A própria plataforma, anunciou-se, terá código aberto. Se confirmado, isso permitirá que desenvolvedores autônomos copiem o Waves, façam as modificações que desejarem, instalem num servidor qualquer e ofereçam o novo sistema a suas próprias redes.

O pré-lançamento do Waves convida a uma discussão cada vez mais necessária. Quais os papéis representados pela Google, num mundo em que a internet é e será cada vez mais onipresente. Em geral, as opiniões são polarizadas. Algumas destacam o enorme risco de concentrar tantas informações numa única empresa, candidata natural a Big Brother. Outras ressaltam que (ao contrário da Microsoft e do paradigma que prevalecia na internet durante a fase “pontocom”) o modelo de negócios da Google (um dos potores da etapa 2.0) a obriga a tornar tudo grátis (ou seja, desmercantilizar) para ganhar dinheiro.

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Uma discussão em profundidade permitiria, inclusive, projetar cenários e pensar em alternativas. Sérgio Amadeu, um dos grandes batalhadores pela internet livre no Brasil, costuma lembrar que “estruturas geram lógicas”. Ele provoca: “Pense na hipótese da Google adquirida na bolsa por uma corporação maior, interessada em privatizar a net”. Qual seria uma resposta preventiva? Seria possível pensar, como sugere André Stangl, da Eletrocooperativa, numa “Google tombada” — uma empresa pública não-estatal, que funcionasse ainda mais como rede sinérgica de desenvolvedores autônomos?

MAIS:

No clip de hoje, dois excelentes textos (em inglês), publicados nas revistas eletrônicas Mashable e ZDNet apresentam, em detalhes, o Waves.

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