Vila Itororó: resistência incomum

Um dos muitos espaços do Canteiro Aberto. Entre outros usos, Clínica Pública de Psicanálise, oficinas de marcenaria e cozinha aberta

Prefeitura de SP ameaça, no emblemático Bixiga, espaço cultural aberto, autogestionado e múltiplo — ligado à reconstrução de conjunto arquitetônico visionário. Vigília marcará, nesta sexta, o “não!”

Por Inês Castilho

Um espaço público e democrático, usado livremente pela comunidade para ficar à toa ou fazer oficina de marcenaria, aula de yoga, defesa pessoal para mulheres, circo, dança de rua e de salão. Para cozinhar, se abrigar da chuva, suspender o tempo e silenciar, pegar um livro para ler. Pra ver criançada correr, dedilhar o piano. Frequentar a clínica pública de psicanálise, organizar um debate, ir ao banheiro (limpo). Um lugar aberto e livre, como uma praça. Pois esse espaço corre o risco de acabar neste sábado (10/3).

Estamos falando do galpão cultural Vila Itororó – Canteiro Aberto, ocupado por 1500 a 2000 pessoas, todos os meses, em usos espontâneos ou atividades agendadas. Por pessoas que moram e trabalham na Bela Vista, ex-moradores da Vila, gente que vem de longe ou que simplesmente passa por ali e entra, atraída por aquele salão de pé direito alto, amplo, com móveis de uma simplicidade instigante. O canteiro aberto em torno do qual fermenta esse centro cultural é um complexo arquitetônico surreal, erguido nos anos 1920 pelo visionário imigrante português Francisco de Castro, com onze edificações e uma área de lazer com piscina, na Bela Vista dos anos 1920 – que hoje pertence ao patrimônio histórico da cidade.

Esse espaço não pode acabar, nem pode haver melhor uso para ele, sustenta Lúcia Violet Sequerra, moradora do bairro, em resposta à afirmação da Secretaria da Cultura do município, responsável pelo patrimônio, de que o galpão não vai fechar, mas estão pensando sobre qual o melhor uso para ele.

“São Paulo tem espaços culturais de qualidade, como o Instituto Moreira Salles (onde um café custa 7 reais) e o Itaú Cultural, por exemplo. Mas a proposta da Itororó é diferente. É um espaço público, democrático, comunitário, e São Paulo carece desse tipo de lugar. As coisas raramente são de fato gratuitas na cidade, estão em geral vinculadas ao consumo. E ali não, é tudo gratuito mesmo, de verdadel”, argumenta Lúcia. “Lá eu faço yoga, uso a cozinha pública e participo do coletivo que sugere usos comunitários para a Vila. No fim do ano, com a chegada da cozinha pública, sonhamos coletivamente com um almoço aberto para a rua e para a comunidade, comida boa, gente bacana, tudo preparado pela gente e contando com a boa vontade de todos. Mesa farta, alegria contagiante e muita diversão tomaram conta do espaço e provaram que, de fato, todos juntos somos fortes!”

Palacete, em torno do qual foram construídas 37 casas aluguel, abrigou inclusive escritório do prefeito da época

Não passam de quatro as regras que harmonizam essas atividades: não é preciso marcar horário; não são aceitas atividades racistas, machistas, homofóbicas ou xenófobas; não são aceitas atividades comerciais; as atividades devem respeitar-se mutuamente, em especial quanto a barulho. “Tivemos em três anos apenas três conflitos, um por ano. A gente ouve falar que é preciso militarizar a segurança pra manter a ordem, mas não é o que vemos aqui”, diz Fábio Zuker, do Instituto Pedra, ONG cujo contrato com a secretaria municipal de Cultura acaba no final desta semana.

TEXTO-MEIO

“A verdade é que não existe preocupação com o comum nessa gestão municipal”, sustenta Lúcia. Mas, num recado claro de que a comunidade quer manter esse espaço como está, frequentadores da Vila se mobilizam: enviaram carta à Secretaria, pediram apoio ao ex-senador e ex-secretário municipal de Direitos Humanos da gestão Haddad, Eduardo Suplicy, e estão organizando uma vigília na madrugada de sábado para domingo (10 para 11).

Após um “intensivão” de marcenaria para recuperação de móveis domésticos que acontece sexta e sábado (9 e 10) das 9h às 17h (leve o seu e participe!), ao invés de cerrar as portas a Vila receberá quem chegar com uma aula de yoga (21h) seguida de meditação, uma sopa preparada na cozinha pública para ser saboreada também coletivamente e outras atividades madrugada afora.

Já os psicanalistas na Clínica Pública de Psicanálise, que fazem cerca de 430 atendimentos mensais na Itororó, enviaram carta aberta à Secretaria de Cultura posicionando-se contra a descontinuidade da Vila em nome da saúde psíquica da população (leia ao final deste texto). Defendendo a psicanálise como prática a ser inserida na cultura, lembram que “desde o final da década de 1910 e começo da década de 1920 Freud escreveu sobre a importância de, no futuro, a psicanálise ser incluída entre as demais formas de tratamento para adoecimento da alma e do corpo sob responsabilidade do poder público e ofertada às camadas sociais mais pobres, incluindo aí a classe média”. Ao falar da enorme perda que significaria para eles e os pacientes o fechamento, ainda que temporário, desse galpão, lembram: “Vivemos em uma cidade que concentra os maiores números de adoecimento psíquico do mundo, e os tratamentos psicoterapêuticos são praticamente inacessíveis para a ampla maioria da população.” E reforçam o pedido de que “o galpão (canteiro) permaneça aberto, com toda a vida cultural que tem hoje.”

Além das oficinas culturais, espaço para repousar ou simplemente brincar (Foto: Graziela Kunsch)

Fechar por que?

A história é longa e complexa, mas pode ser resumida em poucas palavras: falta de vontade política da Secretaria de Cultura municipal de São Paulo. O projeto foi concebido na gestão de Fernando Haddad, com o urbanista Nabil Bonduki à frente da secretaria de Cultura. Foi aberto ao público em 2015 sob a administração do Instituto Pedra, vencedor da chamada pública para restauração, por meio de captação de recursos pela Lei Rouanet.

A proposta concebida para a Vila pelo Instituto Pedra, associação sem fins lucrativos que trabalha com a valorização do patrimônio público em suas dimensões simbólica, material e territorial, é incomum. O canteiro de obras foi aberto ao público desde o início, e assim deveria permanecer em todo o decorrer dos trabalhos. Isso permitiu compartilhar o conhecimento gerado no local e debater coletivamente seus usos. É o oposto do método tradicional: obrigar a população a esperar pelo levantamento arquitetônico, projetos complementares e restauração do conjunto de edificações – cujo destino ainda está em disputa por governantes, estudiosos e ativistas.

Nasce assim a ideia do galpão cultural e suas variadas atividades, com visita guiada ao canteiro aberto do conjunto arquitetônico em obras. O projeto foi fermentado pela equipe do Pedra durante dois anos, até o final de 2016, quando terminou sua gestão. A ONG vencedora de novo edital, a Novo Olhar, não coseguiu levar o barco e desistiu do projeto. Então, o Instituto Pedra foi chamado para assinar com a Prefeitura um termo de colaboração em caráter emergencial de 6 meses – cujo prazo termina neste sábado, 10 de março.

“Estava previsto novo edital para que outra associação assumisse a continuidade dos trabalhos a partir dessa data. Mas o edital não foi lançado e não sabemos se de fato existirá”, lamenta Fábio, curador do projeto.

Conversa ampliada na Clínica Pública de Psicanálise (Foto: Camila Picolo)

A proposta

A ideia de canteiro aberto, que inverte a lógica usual de esperar que a obra fique pronta para abri-la ao uso do público, está no cerne da criação do centro cultural. Foi a razão de uma oficina de marcenaria ser a primeira atividade a ser desenvolvida, a partir da construção do mobiliário do galpão. “Todo canteiro de obras precisa de uma marcenaria. Por que não fazer dela uma atividade aberta ao público?”, pergunta.

O antropólogo traça um paralelo desse conceito com o de agrofloresta, contrário ao de monocultura extensiva (de solos e mentes). O conceito de mutualismo versus o de predação. “Ao invés de recuperar o solo com insumos químicos — o solo exaurido pelos elementos consumidos por uma única cultura — queremos plantar diversas culturas que atuam em mutualismo umas com as outras, repondo assim a diversidade de elementos necessários à saúde do territórios”, explica Fábio. Outra metáfora, lembrada pela gestora do galpão, Helena Ramos, inspira seu funcionamento: a da fermentação natural, usada numa oficina de pães realizada esses dias na cozinha pública. “O fermento natural é repartido, mas cada pedaço cresce novamente e pode ser repartido de novo, indefinidamente.”

Como parte da resistência, população está convidada, na sexta e sábado (9 e 10/3) a uma oficina de restauração de móveis domésticos. Na imagem, algumas das criações em mobiliário feitas no espaço (Foto: Daniel Guimarães)

Assim, os móveis do galpão, que tanto me fascinaram, foram feitos na oficina do coletivo franco-alemão de construção colaborativa ConstructLab, com as sobras da instalação da Bienal de 2014. “Pagamos só o carreto”, lembra Fábio, questionando assim os argumentos de que sustentar um centro cultural é caro para os cofres públicos. “Trazer do exterior um grupo de dança, música ou teatro é mesmo caro. Uma Bienal pode ser cara. Mas nós pensamos cultura de forma mais abrangente, como uma dimensão da vida. E se centros culturais podem ter restaurantes, por que razão não podem abrigar uma cozinha coletiva?”

Em sua proposta, o Instituto Pedra incluiu também a produção de conhecimento, na forma do livro Vila Itororó, uma história em três atos, de Sarah Feldman e Ana Castro; um arquivo sonoro e um filme de média metragem, abrigados no site da Vila – onde podem ser conhecidas a história desse palacete assobradado com carrancas e colunatas originárias do desmonte do Teatro São José e a primeira piscina particular da cidade, alimentada pelas águas até hoje puras da nascente que brota no terreno e inspirou seu nome. E a de seus ex-moradores, que depois de sete anos de resistência foram realocados para habitações sociais no centro da cidade mas persistem, alguns deles, e integram o Coletivo Riacho, que se reúne no canteiro para debater usos futuros da Vila Itororó.

 

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:: Carta da Clínica Pública de Psicanálise
à Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo ::

“Nós, da Clínica Pública de Psicanálise, soubemos há alguns dias da notícia de encerramento do projeto Vila Itororó Canteiro Aberto tal como acontece hoje, com possível fechamento do galpão para atividades culturais. Somos parceiros do projeto e por isso nos preocupamos com o andamento do nosso trabalho.

“Somos um grupo formado por psicanalistas e artistas que acreditam na importância de compartilhar a psicanálise como saber e de proporcionar este tipo de tratamento para populações que, de outra forma, teriam muita dificuldade em acessá-lo. São muitas as razões que dificultam o acesso à psicanálise: o valor regularmente cobrado pelos atendimentos; a pouca presença da psicanálise na rede pública de saúde e nos convênios particulares; e, tão importante quanto as razões anteriores, o desconhecimento mesmo sobre a especificidade da psicanálise nas camadas sociais mais empobrecidas, ou melhor, a lacuna da noção de psicanálise na cultura ampliada. Acreditamos, portanto, ser um trabalho importante inserir a psicanálise na cultura.

“Este entendimento não é original. Desde o final da década de 1910 e começo da década de 1920, Freud escreveu sobre a importância de, no futuro, a psicanálise ser incluída entre as demais formas de tratamento para adoecimentos da alma e do corpo sob responsabilidade do poder público e ofertadas às camadas sociais mais pobres, incluindo aí a classe média. A partir dessa noção foi criada a Policlínica de Berlim, experiência responsável não apenas pelo tratamento das pessoas que a procuraram, mas também pelo desenvolvimento original de uma formação dos psicanalistas e da transmissão de seu conhecimento. Numa prática inserida na cultura, enriquecida pela ampla variedade social de pacientes, a psicanálise deu grandes saltos, institucionais e científicos. De lá surgiu, por exemplo, a prática que chamamos de supervisão, na qual analistas mais experientes ajudam outros a pensar os casos que estão atendendo, no lugar e nas circunstâncias em que estão atendendo.

“A Clínica Pública de Psicanálise opera no galpão da Vila Itororó Canteiro Aberto desde junho de 2016. Trabalhamos com alguns formatos de atendimento, individuais e de grupo, em dias de semana e aos sábados, neste último no formato de um plantão aberto. Todos os atendimentos são gratuitos. Somos hoje 9 psicanalistas, 3 supervisores e uma artista. Fazemos em média 430 atendimentos por mês, sendo aproximadamente 50 pacientes regulares, com continuidade no atendimento. Entre os pacientes estão pessoas do bairro, de regiões afastadas da cidade e ex-moradores da Vila, para quem a Clínica foi inicialmente imaginada. Além dos plantões, aos quais a população tem acesso pela comunicação da Vila Itororó Canteiro Aberto, também recebemos encaminhamentos de equipamentos públicos da rede de saúde e de instituições sociais que atuam no território (como o SASF Bela Vista, o CCA do Carmo e o Cisarte). Através da Clínica já foram organizados cursos de formação, grupos de estudo e estamos iniciando uma biblioteca pública que, além de livros de psicanálise, contempla estudos pós-coloniais, de raça e gênero e textos sobre experiências de artistas como Lygia Clark no campo ampliado da cultura.

“Nosso trabalho não acontece dentro do galpão por acaso. Apostamos conceitualmente em um trabalho terapêutico fora de ambientes hospitalares, ao lado de outros grupos que realizam suas práticas culturais, como o circo, a cozinha, a dança e outros diversos usos espontâneos, que se tornaram a marca do espaço. Acreditamos no potencial revitalizante de um espaço em que o adoecimento não é uma marca. Pelo contrário, além do trabalho analítico, as pessoas que frequentam a Clínica tomam contato com uma cidade viva.

“A noção de usos espontâneos e o convite para que a própria população produza, em processo, o Centro Cultural, é fortemente sintonizada com o trabalho analítico, em que é atribuído ao próprio paciente a responsabilidade de falar, encontrar respostas, e dar formas e expressões ao seu desejo. A própria forma do espaço contribui enormemente para o trabalho de análise. Um lugar aberto, colorido, vivo, como uma praça, reorganiza por si só a dimensão do sofrimento, do isolamento, da solidão. Não é um lugar onde as pessoas são doentes, como paradoxalmente pode ser uma clínica regular, ou mesmo um hospital. Ao conviver com outros grupos criativos que usam o galpão, os nossos pacientes criam laços, relações. Em tempos de crise, este projeto tem se mostrado vital para recuperarmos uma dimensão de espaço público.

“Esse trabalho nos possibilita entender e intervir terapeuticamente nos movimentos psíquicos do nosso tempo – o que não conseguiríamos atuando apenas em consultórios particulares. O cotidiano do projeto, sempre tão vivo, contribui para um alargamento da própria psicanálise, entendida e praticada de forma aberta.

“Por isso tornamos público o nosso desejo de permanecer trabalhando no galpão ativado culturalmente e de, num futuro próximo, migrar para uma das casas restauradas. A eficácia e montagem do nosso trabalho está vinculada com a história da Vila Itororó, do bairro e do Canteiro Aberto. O fechamento desse galpão, mesmo que temporário, seria uma enorme perda para nós e para os pacientes, que já nos perguntam, preocupados, sobre a continuação do nosso trabalho e de seus acompanhamentos terapêuticos. Vivemos em uma cidade que concentra os maiores números de adoecimento psíquico do mundo, e os tratamentos psicoterapêuticos são praticamente inacessíveis para a ampla maioria da população.

“Reforçamos, portanto, nesta comunicação endereçada para a secretaria de Cultura, e também para o público em geral, o pedido de que o galpão (canteiro) permaneça aberto, com toda a vida cultural que tem hoje, a favor da saúde psíquica da população.

Convidamos todos e todas as interessadas na continuidade do projeto a escrever pedindo esclarecimentos para a Secretaria através do e-mail [email protected] e [email protected]

Clínica Pública de Psicanálise
São Paulo, 27 fevereiro de 2018

TEXTO-FIM
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Inês Castilho

Jornalista, cineasta e pesquisadora, integra o corpo editorial de Outras Palavras, foi editora do jornal Mulherio, realizadora dos filmes de curta-metragem "Mulheres da Boca" e "Histerias" e cofundadora do Nós Mulheres, primeiro jornal feminista de São Paulo.