São Paulo, (Anti-)Educação e protestos

Estudantes do ensino médio de São Paulo ocupam o vão do MASP, em 21/4. Parte deles protestava contra o corte de verbas e também contra o risco de golpe parlamentar-midiático

Estudantes do ensino médio de São Paulo ocupam o vão do MASP, em 21/4. Parte deles protestava contra o corte de verbas e também contra o risco de golpe parlamentar-midiático

Num momento de golpe e tensão, a luta dos estudantes paulistas recomeçou. O secretário tucano revela que, para ele, ensino precisa rimar com lucro…

Por Erick Quintas Corrêa

Em um artigo publicado em 1° de dezembro de 2015,1 eu havia estabelecido uma analogia entre o regime sociopolítico reinante em São Paulo há duas décadas, conhecido por aqui como Tucanistão, e o regime totalitário descrito por George Orwell no romance distópico 1984 (escrito em 1948 e publicado em Londres no ano seguinte). Ali me referia especificamente às técnicas totalitárias de controle da comunicação e do pensamento social, como a “novilíngua” e o “duplipensar”, que na ocasião foram associadas às técnicas governamentais manejadas pelo tucanato paulista contra o movimento autônomo de ocupações de escolas, detonado em novembro do ano passado por secundaristas em uma escola de Diadema. Em janeiro deste ano, Alckmin tentou reorientar sua tática, substituindo as peças dirigentes na Secretaria da Educação do Estado. Contudo, o objetivo do governador parece ser reconfigurar as peças do jogo sem alterar as suas regras. Pois, de lá pra cá, as técnicas de governo empregadas pelo tucanato paulista na defesa de seu projeto de “reorganização escolar” o aproximou ainda mais daquela analogia com a distopia orwelliana.

Assim como no regime totalitário descrito por Orwell em 1984, o ministério da Verdade era responsável pelo oposto daquilo que representava – seu objetivo era precisamente o de falsificar a história baseado em um tipo de mentira metodológica. O ministério da Paz era, por sua vez, responsável pela condução da guerra. No regime paulista do Tucanistão, o secretário de Educação do Estado é fundamentalmente contrário à educação público-estatal! No dia 5 de abril de 2016, usou a própria página eletrônica da instituição, na condição de chefe da pasta e, portanto, a soldo do Estado de SP, para finalmente revelar o que o tucanato não assume: sua gestão não vê a Educação como uma atribuição do Estado:

“Muito ajuda o Estado que não atrapalha. Que permite o desenvolvimento pleno da iniciativa privada. Apenas controlando excessos, garantindo igualdade de oportunidades e só respondendo por missões elementares e básicas. Segurança e Justiça, como emblemáticas. Tudo o mais, deveria ser providenciado pelos particulares”2.

Etimologicamente, o substantivo “secretário” deriva do latim secretarius: aquele a quem se confidenciam segredos. Um bom secretário de Estado deveria zelar pelos segredos do Estado, de acordo com a própria razão de Estado. Mas o Tucanistão é um regime sociopolítico desvairado. O atual secretário de Educação, José Renato Nalini, apesar de ter feito carreira como juiz, não demonstra ter muito juízo e constantemente “dá com a língua entre os dentes”. Nalini é, nesse sentido, um excelente Antissecretário!

Desconhecedor dos requintes da simulação-dissimulação, Nalini costuma defender, sob os holofotes do espetáculo midiático, suas mais obscuras convicções. Primeiro, declarou na televisão que “admira” e “inveja” o “idealismo” dos terroristas do Estado Islâmico3, revelando pornograficamente a concepção antidemocrática – para não dizer terrorista – de poder que representa. Em outra aparição televisiva, revelaria as reais motivações, dissimuladas pelo aumento do “auxílio-moradia” concedido aos juízes do Tucanistão, quando presidia o Tribunal de Justiça de São Paulo, em outubro de 2014:

TEXTO-MEIO

Esse auxílio-moradia na verdade disfarça um aumento do subsídio que está defasado há muito tempo. Hoje, aparentemente o juiz brasileiro ganha bem, mas ele tem 27% de desconto de Imposto de Renda, ele tem que pagar plano de saúde, ele tem que comprar terno, não dá para ir toda hora a Miami comprar terno, que cada dia da semana ele tem que usar um terno diferente, ele tem que usar uma camisa razoável, um sapato decente, ele tem que ter um carro4.

Sem muita intimidade com o real, logo que assumiu a secretaria de Educação do Tucanistão, em fevereiro de 2016, Nalini defendeu o impopular projeto governamental de “reorganização escolar” de Alckmin nos seguintes termos: “crianças são atropeladas na hora da merenda e há formação de grupos que praticam o bullying”5. Uma declaração que novamente revelaria uma concepção nem um pouco ética, pluralista e democrática, mas policial, de educação e sociedade. No lugar da argumentação pedagógica, a mais pura doutrina securitária, sempre ávida por fabricar figuras expiatórias que justifiquem suas políticas públicas altamente impopulares, como a “reorganização escolar” – na verdade, um eufemismo do tucanês (a novilíngua própria do Tucanistão) para o fechamento de escolas e o desinvestimento massivo de recursos na escola pública.

Guy Debord (1931–1994) dizia em 1988 que “um Estado em cuja gestão se instala por muito tempo um grande déficit de conhecimentos históricos já não pode ser conduzido estrategicamente”. Ele referia-se à falsificação da história pelos regimes democráticos de “exceção permanente” (Giorgio Agamben) que emergiram no final da década de 1980 (sobretudo na Itália e na França) e que doravante tenderiam a se impor mundialmente. Produção de documentos falsos, de falsas teorias, de falsos modelos de revolução: “Pensava-se que a história aparecera, na Grécia, com a democracia. Pode-se verificar que ela desaparece do mundo com esta”, comenta Debord. Falsificação da democracia, portanto. O conceito debordiano de regime “espetacular integrado” designa a época histórica que nos contém, dominada por regimes formalmente democráticos, mas substancialmente autoritários. Um poder que se move em uma zona de indistinção entre Guerra e Paz, Exceção e Direito, Ditadura e Democracia. Onde até mesmo as mais antigas especializações do poder também não resistem à falsificação de seu sentido histórico: “É tolice ficar lembrando o que foram outrora magistrados, médicos, historiadores, bem como as obrigações imperiosas que eles seguiam, muitas vezes, nos limites de sua competência” (Comentários sobre a sociedade do espetáculo, 1988, § VII).

O regime do tucanato paulista está muito próximo desse conceito. Na crise precipitada em novembro-dezembro de 2015 pela imposição da “reorganização escolar” e pela resistência dos secundaristas a ela, os dirigentes da secretaria da Educação falavam em “diálogo” na imprensa local, enquanto moviam nas ruas uma “guerra” contra o movimento de ocupações de escolas. Nalini veio para virar o jogo em favor do governo. Contudo, sua desvairada concepção de poder, de sociedade, de justiça e de educação, impede o Estado de conduzir estrategicamente uma guerra que, apesar de não ter sido declarada, seria, contudo, revelada por um vazamento – na era dos vazamentos – do coletivo Jornalistas Livres6. Uma “guerra” que agora já não conta mais com a gerência de um fiel Secretário, mas de um insólito Antissecretário de Estado.

Erick Quintas Corrêa é Professor de Sociologia da rede estadual de Educação Básica de São Paulo.

1Diálogo é guerra, guerra é diálogo: A novilíngua dos burocratas do Tucanistão contra o movimento de ocupações. Blog da Boitempo, 1/12/2015. Disponível em: <https://blogdaboitempo.com.br/2015/12/01/dialogo-e-guerra-guerra-e-dialogo-a-novilingua-dos-burocratas-do-tucanistao-contra-o-movimento-de-ocupacoes/>.

2A sociedade órfã, 5/4/2016. Disponível em: <http://www.educacao.sp.gov.br/noticias/a-sociedade-orfa>.

3Jornal da Cultura, 29/12/2015. Disponível em: <https://vimeo.com/154874665>.

4Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=AbrQc22CJE0>, grifos nossos.

5“Gestão Alckmin vai usar youtubers para defender reorganização escolar”, G1 Educação, 04/02/2016. Disponível em: <http://g1.globo.com/educacao/noticia/2016/02/gestao-alckmin-vai-usar-youtubers-para-defender-reorganizacao-escolar.html?utm_source=twitter&amp%3Butm_medium=social&amp%3Butm_campaign=g1>.

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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras