Polêmica: nota crítica sobre o #queroprevias

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Esquerda institucional burocratizou-se e deixou de fazer debate de projetos. Mas criticar tais erros não combina com concentrar as forças na disputa eleitoral

Por Gabriel Sollero, Maria Mello e Thiago Duarte*

Há cerca de duas semanas, foi lançado na internet um movimento chamado #queroprevias, uma iniciativa de um grupo de intelectuais progressistas, em sua maioria professores que não têm militância partidária, mas que se identificam com lideranças que atuam em partidos como PT, PSOL e PCdoB.

A proposta é realizar prévias em 2017 que escolham um candidato unificado da esquerda nas eleições presidenciais. Ainda não foi definido quem votaria nestas prévias, mas a proposta dá a entender que não seria necessária filiação partidária.

A movimentação desse grupo tem lastro em um sentimento de frustração, incompreensão e até indignação com a divisão da esquerda nas eleições municipais. No Rio de Janeiro, Marcelo Freixo e Jandira Feghali saíram separados, assim como em São Paulo, onde Luiza Erundina enfrentou Fernando Haddad. Tem lastro também na falência do sistema político brasileiro, sacramentado pelo golpe sofrido pela democracia brasileira em 2016.

Além do golpe, o resultado das eleições municipais parece justificar iniciativas que busquem fomentar a unidade da esquerda e estimular um processo de reorganização. Para além das alternativas que se lançam, há questões de fundamental importância nesta conjuntura: quais são os reais problemas por nós enfrentados e quais são suas origens?

TEXTO-MEIO

A proposta anunciada pelo grupo, que se articula em plataformas digitais e começou a promover reuniões presenciais frequentes, é criar um movimento de fora para dentro dos partidos para contribuir na construção da unidade. Portanto, além da ausência de unidade, este movimento chama a atenção para os limites que a forma de organização partidária tem demonstrado. Da perspectiva das forças progressistas, é genuína a insatisfação com o cenário político. Entretanto, a raiz em causa é mais profunda do que as aparentemente detectadas pelos proponentes das prévias. Trata-se de uma derrota de caráter estratégico da esquerda brasileira. Esse diagnóstico é fundamental para qualquer proposta que surja neste momento.

A insuficiência da ferramenta Partido

Nas últimas décadas, sofremos mudanças políticas em escala mundial, como a Queda do Muro de Berlim (1989) e o fim da retaguarda estratégica que a União Soviética representava para as organizações de esquerda no mundo todo, a implementação do neoliberalismo, as mudanças no modo de produção capitalista (seja a organização do trabalho, com a superprecarização e a fragmentação da classe, seja com hegemonia do capital financeiro na economia mundial) e o descenso do movimento de massas. Esta ofensiva, somada à burocratização dos instrumentos, resultou em:

a) As organizações partidárias deixaram de ser organismos vivos e dinâmicos, incapazes de envolver a militância;

b) Houve um afastamento dos militantes partidários – que dispensam muito tempo nas questões internas – das expressões mais candentes de luta e das bases da sociedade brasileira;

c) O debate político ficou confinado dentro dos partidos (pela consolidação de maiorias estanques, pela disputa entre correntes ou pela falta de debate aberto);

d) Muitos destes problemas se acentuaram na medida em que a luta social entrou em descenso e a atuação partidária ficou limitada à ação institucional, em parlamentos e governos, transformando os meios em fins e engessando os processos orgânicos e sociais.

Se os partidos de esquerda passaram por transformações profundas nos últimos anos, a militância das pessoas que se identificam com as forças populares mudou substancialmente. Antes, ser militante pressupunha atuar em uma organização coletiva, sendo as formas mais comuns em partidos, sindicatos, movimentos e fóruns da igreja progressista.

Nos últimos anos, diversas maneiras de se expressar politicamente também passaram a ser consideradas como militância: compor coletivos segmentados de mulheres, negros, jovens, defensores do passe-livre, LGBTs, hackers, economistas e de pessoas com interesses afins no Whatsapp. Emitir opiniões em um Blog, no Facebook, no Twitter ou em outras plataformas da internet, que se tornou lócus comum para demonstração de posições políticas. Geralmente, atividades sem nenhuma ligação mais orgânica com qualquer instrumento político que tenha como perspectiva um projeto de poder e um programa de transformação social com perspectiva universal.

Essa forma de militância se expandiu nos setores médios, tem muitas vezes uma forte perspectiva individual pós-moderna, pouco contato com processos coletivos mais complexos e uma visão principista da política, que passa ao largo do debate de tática e estratégia. É tudo ou nada. Daí vem uma certa rejeição, mais ou menos consciente, às formas históricas de organização construídas pela classe trabalhadora. O #queroprevias é expressão também das críticas feitas pelos militantes dessas novas formas de expressão política ao método de tomada de decisões dos partidos.

As insuficiências da proposta das prévias, ao dar centralidade à crítica do método e construir uma proposta para tal, ficam em segundo plano os objetivos políticos. A pergunta que se coloca é “quem?”, mas o que se ignora é o “para quê?”(programa), “como?” (tática) e “com qual objetivo final?” (estratégia). A criação de um método mais amplo e aberto para a escolha de um nome não vai à raiz de nenhum dos limites dos partidos. Inclusive, a centralidade eleitoral é um dos principais problemas dos partidos progressistas, que essa proposta parece reforçar e aprofundar. Assim, o debate sobre o método requer uma definição anterior sobre o programa, as táticas e a estratégia.

O #queroprevias afirma ter no horizonte um debate sobre o programa, que os proponentes colocam em pé de igualdade com a questão da escolha do nome do candidato nesse processo aberto de discussão. O problema é que a porta de entrada para essa movimentação são as prévias, o que confere centralidade ao nome independentemente da vontade dos organizadores – reforçando o culto à personalidade e fortalecendo inevitavelmente a ideia equivocada de que força, na política, é resultado da vontade de uma pessoa.

Assim, o problema central, nos parece, é que não está proposto o enfrentamento de fato a nenhum dos problemas vividos pelos partidos, nem colocada em um patamar superior à própria atuação dessa militância e desses coletivos. Essa iniciativa reforça, em certa medida, alguns limites da atuação política hoje:

a) Indisposição para participar de partidos: a opção por atuar fora de um instrumento político formalizado tem vários motivos, como a falta de perspectiva de vencer a burocratização, a rejeição ao instrumento partidário e/ou uma visão idealista de organização (que rejeita o que existe e cultiva um horizontalismo ingênuo distante da vida real);

b) Rejeição à luta pela conquista do poder do Estado: os partidos são instrumentos próprios para a disputa por espaços de poder, tanto nos embates eleitorais para avançar na institucionalidade como por meio da luta de massas para a construção de um projeto de sociedade. A perspectiva da tomada do poder pela classe trabalhadora foi obscurecida pela concepção burguesa de democracia.

Nos últimos anos, as organizações de esquerda abandonaram essa dimensão. Com isso, eleger parlamentares e governos se transformou em um fim em si mesmo, identificado como oportunismo e aparelhismo. Uma parte dos adeptos do #queroprevias critica, de forma difusa, a falta de perspectiva política dos partidos, mas não identifica (ou até rejeita) a necessidade da tomada do poder.

Como a proposta é bastante genérica, dentro da iniciativa convivem:

a) Militantes de organizações/correntes partidárias minoritárias, que apoiam a iniciativa tendo como perspectiva cacifar seus partidos/correntes para as disputas internas e/ou disputas pela hegemonia no campo da esquerda, reproduzindo a lógica burocratizada dos partidos;

b) Pessoas que rejeitam a atuação em partidos políticos, fazem críticas que acabam por reproduzir argumentos da campanha da direita e defendem um conceito difuso de “nova política”, colocando peso excessivo nas questões morais – inclusive com certo fetiche pelas manifestações de junho de 2013, em que uma das marcas foi o repúdio a todos os partidos de esquerda;

c) Ainda, a supervalorização de questões identitárias ou específicas sem recorte de classe, postas como pré-requisitos para um “candidato de unidade da esquerda”, propondo como critério, inclusive, que esse candidato seja um representante desses movimentos identitários sem recorte de classe. Ou seja, estabelece a sua particularidade como critério para uma unidade universalizante.

A escolha de um candidato por um partido ou por um bloco de partidos não se dá por conta de necessidades ou conveniências, mas por expressão de força política. É difícil imaginar que um movimento desse caráter, aparentemente restrito a uma parcela dos setores médios, tenha força para construir consenso em relação a um candidato em 2018. Além disso, muitas forças não buscarão a unidade, mas o contrário: terão como objetivo a autoconstrução, o que é legítimo, mas deveria ser explicitado.

Os limites estratégicos da esquerda brasileira não serão resolvidos sem um amplo movimento de massas da sociedade sob direção dos setores mais avançados da classe trabalhadora, com a capacidade de canalizar as diversas energias pulsantes em nosso país. Sem a retomada do trabalho de base para fazer a disputa de mentes e corações e um novo ascenso do movimento de massas, a centralidade na disputa presidencial de 2018 pouco contribuirá para a construção de um novo ciclo político, com um novo programa, uma nova vanguarda e um novo instrumento para dar a direção às forças populares.

*Militantes da Consulta Popular.

TEXTO-FIM
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