Photofagia: Em Tapajós, nem todos amam o rio-mar

banhoderio (5)

As águas dominam vida dos ribeirinhos. Menos Mateus, que se assusta com a superfície líquida e as histórias de botos, arraias e cobras d’água

Por Leticia Freire

A vida na Amazônia está intimamente ligada aos rios. Seja pela importância fundamental enquanto meio de sustento, via de transporte ou superfície sobre a qual se desenrolam as atividades cotidianas de parte da população, a rotina do caboclo ribeirinho estende-se sobre as águas. Desse encontro nascem outros tempos de deslocamento, outras dinâmicas e hábitos, reflexo dos próprios ciclos de cheias e vazantes. Na comunidade de Pini, situada na Floresta Nacional do Tapajós, é sempre possível observar o deslocamento de um barco ou canoa no horizonte.

banhoderio (7)

TEXTO-MEIO

***

Embora ligado à água do igarapé desde o nascimento, Mateus nunca gostou da hora do banho. Seus olhos lagrimejam sempre que sua mãe pega o sabonete e a toalha. Parece um castigo, contradizendo a felicidade que marca o mesmo momento das outras crianças.

Dessa vez entramos juntos na água. Imagino o que o ameaça: histórias sobre botos, arraias e cobras d´água sempre voltam àquela superfície líquida, assustadoras. A água fria arrepia seu pequeno corpo. Ele começa a chorar. A mãe conta que ele se sente desconfortável com a areia, um tanto lodosa. Também não gosta quando os passos deixam turvo o fundo das águas. Para amenizar o sofrimento do filho, “a chinela amarela fica no pé”.

banhoderio (6)

Ainda assim chora. Tenta voltar à terra firme. Cada mergulho é um suplício. A mãe o olha com afeto. “Não quer saber do Tapajós”, diz ela, que banha Mateus a contra gosto, habilidosamente.

banhoderio (2)

banhoderio (4)

banhoderio (3)

banhoderio (1)

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.

Leticia Freire

Pesquisadora, retratista e autora do blog Photofagia inaugura nova coluna em Outras Palavras. Nela, vai expor suas fotografias, textos, viagens, personagens, devaneios e afins.