Para resgatar o Grande Sertão que está em toda parte

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Inspirados em Guimarães Rosa, movimentos e ativistas encontram-se em Minas e descobrem que nova relação com natureza tornou-se aspiração universal

Entrevista com Alvaro Malaguti | Imagem Lidyane Ponciano

Em pouquíssimo tempo – nos últimos cinquenta anos – o sertão do Rosa foi alcançado e incorporado pela cidade, tornando-se uma extensão do mundo urbano, ou melhor, uma extensão de sua periferia – tornando-se, pois, o sertão, a periferia da periferia. Tal incorporação evidencia a problematização da relação cidade/campo – cada vez mais imbricada.

É interessante observar (adotando a reflexão proposta por Adriana Ferreira de Melo em “Sertões do mundo, uma epistemologia”) que as noções clássicas de sertão como lugar bárbaro, desconhecido, perigoso porque não civilizado, para além do espaço-sertão do interior do país, onde ainda são tênues os processos de modernização, passam a ser aplicadas aos espaços hipermodernizados da sociedade contemporânea, como as favelas das grandes cidades.

Monoculturas dementes transformaram rapidamente a paisagem e a ecologia do sertão. O cerrado foi devastado para produzir carvão para a indústria siderúrgica – seguido pelas florestas do deserto verde (eucaliptos), da pecuária intensiva e do agronegócio. Tal investida estimulou o êxodo rural e o consequente adensamento das periferias das cidades, acentuando o caráter precário, instável e marginal deste amplo segmento da população.

O “desenvolvimento” predador, invasivo e excludente revela-se na crescente produção e exportação de commodities do setor agropecuário, bem como na profunda crise hídrica que afeta a “caixa d’água do Brasil”, assoreando e escasseando as águas do rio São Francisco, nordeste adentro, e comprometendo o abastecimento de água à população da cidade de São Paulo. Vale registrar que, paralelo a este processo e, como resistência ao mesmo, organizou-se e avançou a luta pela terra na região noroeste de Minas, que hoje concentra a grande maioria dos assentamentos de reforma agrária no estado.

TEXTO-MEIO

A região, parte substantiva do sertão roseano, é considerada pelo governo do estado como a última fronteira agrícola; e foi nesta paisagem e neste contexto que foi realizado o “Caminho do Sertão – de Sagarana ao Grande Sertão Veredas.”

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O que anima uma caminhada pelo sertão? Quais os objetivos da iniciativa?
A princípio, vemos o “Caminho do Sertão”, realizado no final de julho, como um desdobramento do esforço de desenvolvimento sustentável, iniciado na década passada, nos polos que se traduzem, hoje, em partida e chegada do mesmo. O “Encontro dos parceiros pelo desenvolvimento sustentável do Vale do Rio Urucuia”, posteriormente transformado em “Festival Sagarana: feito Rosa para o Sertão”, realizado em Sagarana, no Distrito de Arinos; e o “Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas”, em Chapada Gaúcha, podem, facilmente, ser identificados como precursores desse evento, que agora vem unificar uma e outra iniciativa. Tendo em comum, além da agenda de desenvolvimento socioeconômico e ambiental regional, fortes referências à obra de João Guimarães Rosa como motivação e pontos de alinhamento.

O Caminho do Sertão visa chamar a atenção das três esferas públicas para a necessidade de integrar o esforço de organização e mobilização social em curso no território desde a virada do milênio, no intento de promover o desenvolvimento sustentável regional, bem como difundir a obra de Guimarães Rosa como elemento dinamizador da identidade cultural e da noção de pertencimento à região. Objetiva, também, atrair e seduzir novos agentes/atores – ativistas sociais, ambientais, acadêmicos e culturais, amantes da obra do Rosa e/ou do sertão, para a articulação de novas parcerias e intervenções no território.

Os parceiros do “Caminho” sentimo-nos animados, ainda, pela atmosfera de desafio e superação, por denotar esforço continuado, processo coletivo, horizonte comum, solidariedade e respeito às particularidades e aos ritmos distintos dos envolvidos. A proposta tem um quê de provocação, pois, para passar sete dias caminhando com um grupo de pessoas desconhecidas no sertão mineiro é preciso, ao caminhante, permitir-se um tempo a si mesmo, um intervalo, um hiato, uma pausa na correria, na tensão, no automatismo que nos envolve em nosso atribulado cotidiano.

Por que o sertão?
O Caminho propõe, entre outras coisas, uma revisitação ao imaginário do sertão brasileiro e suas diversas dimensões. Vale lembrar que Sertão é uma ideia-força profundamente arraigada na cultura brasileira, tanto no imaginário popular, quanto no pensamento social. Historicamente o sertão se constituiu como uma referência espacial e mítica essencial para os debates sobre a identidade e o futuro do Brasil que permearam o país desde o final do século XIX e ao longo de todo século XX.

Hoje, no século XXI, o conceito de sertão se amplia e passa a incorporar novas categorias sociológicas e de pensamento, para a abordagem de questões socioespaciais e filosófico-existenciais. O sertão se mantém nos espaços que estão à margem dos processos de modernização e se revela presente também naqueles espaços hipermodernizados como as periferias dos grandes centros urbanos – confirma-se o dizer do Rosa/Riobaldo: “o sertão está em toda parte”, “o sertão é do tamanho do mundo”.

A noção de sertão adotada pelo caminho (Sertões do mundo, uma epistemologia, de Adriana Ferreira de Melo) permite, ainda, tratar da invisibilidade, do silêncio, da marginalização e da exclusão impostos aos saberes e fazeres populares e suas respectivas comunidades e modos de vida peculiares. Abordagem que se estende aos demais segmentos sociais que resistem à submissão e aos imperativos do pensamento único hegemônico. Questões que nos levam da ecologia – strictu senso – à ecologia dos saberes (conceito do Boaventura Souza Santos), da padronização/massificação ao direito à alteridade, revelando todo o potencial contestatório associado à palavra sertão.

Qual o tecido sociopolítico da região atravessada pelo caminho?
Há diversos conflitos e disputas instalados no território: terra, água, diversidade sociocultural, biodiversidade. A estrutura fundiária é injusta e fonte do contraditório social instalado na região. De um lado temos a indústria exportadora de commodities do agronegócio ocupando vastas extensões e monopolizando o uso da água nas irrigações; de outro, a maior concentração de assentamentos de reforma agrária do estado de Minas Gerais em regime de subsistência ou com baixa produção de excedentes comercializáveis.

Na dimensão ambiental, a devastação do cerrado e o consequente comprometimento das veredas e da biodiversidade revelam um quadro preocupante com mudança no regime de chuvas e o consequente desabastecimento, insegurança e conflitos hídricos, aridez e ameaça de desertificação.

A população nativa do sertão que não migrou para as cidades foi expulsa para os grotões, seja pela grilagem de suas terras, seja pela expansão do agronegócio. Tal população vem resistindo, a duras penas, com suas práticas socioculturais que lhes conferem identidade e lhes garantem o sustento. Mas o apelo da vida urbana tem atraído a juventude rural que, gradativamente, se desvincula das práticas tradicionais.

Quais os grupos que apoiam o Caminho?
São várias entidades. Todas aquelas nascidas do esforço de desenvolvimento sustentável e inclusivo no território e que trabalham com as questões de defesa ambiental, de cultura, identidade, produção e comercialização em bases solidárias e sustentáveis. As principais são a ADSVRU – Agência de Desenvolvimento Integrado e Sustentável do Vale do Rio Urucuia; a Copabase – Cooperativa de Agricultores Familiares em Bases Solidárias; o Cresertão – Centro de Referência em Tecnologias Sociais do Sertão; a Central Veredas de Produção e Comercialização do Artesanato, o movimento nativista baiangoneiro/UNIFAM, a Fundação Pró-Natureza – FUNATURA – associada à luta pela criação e implantação do Parque Nacional Grande Sertão Veredas desde 1989 pelo IBAMA e o Instituto Rosa e Sertão que, criado em 2007 no Município de Chapada Gaúcha/MG por iniciativa de professoras municipais de educação infantil e fundamental e de moradores de comunidades tradicionais e agentes culturais, busca a valorização do território em que atua, um lugar rico por sua multiplicidade cultural e ambiental, e trabalha o sertão roseano visto como um grande mosaico turístico-cultural, sob a perspectiva do desenvolvimento regional sustentável. Contamos também com a cobertura colaborativa da rede Fora do Eixo.

Qual é o perfil dos caminhantes selecionados para o “Caminho”?
Ativistas culturais (literatura, artes plásticas e cênicas, fotografia, circense, músicos e compositores, produtores culturais), ambientais, militantes do desenvolvimento territorial sustentável, economia popular solidária, amantes do “Brasil Profundo” e estudiosos e pesquisadores da obra de Guimarães Rosa; lideranças populares dos movimentos e organizações não-governamentais e moradores do entorno do caminho, totalizando 70 caminhantes.

Teria o Caminho também uma dimensão espiritual?
A iniciativa tem, inegavelmente, um conteúdo político, mas também uma dimensão cultural e filosófico-existencial, na medida em que propõe o caminhar como forma de acesso a nova percepções, em um momento em que as instituições políticas, as formas de representação e o próprio modelo de organização da sociedade encontram-se profundamente desgastados.

Partimos do pressuposto de que a grande crise que vivemos é uma crise de sentido, uma crise de narrativa. Para mobilizar corações, corpos e mentes num engajamento existencial, apoiamo-nos, novamente, no Rosa e associamos a palavra travessia, uma imagem constante em sua obra, à transitoriedade da vida, à impermanência que caracteriza e fundamenta nossa existência. O distanciamento de tal compreensão, ou a negação em incorporá-la e habitá-la revela a necessidade de reflexão e posicionamento pessoal e coletivo, avançando rumo à cidadania planetária, rumo à noção de comunidade de destino (proposto pelo pensador francês Edgard Morin), onde o futuro de todos está implicado e, portanto, de corresponsabilidade com o princípio vida que nos atravessa.

O filosófico-existencial assenta-se, também, na dimensão relacional da experiência do viver. Viver é interagir e realizar trocas com o mundo ao redor. Daí a proeminência do outro, o respeito à alteridade. Desenvolver a capacidade de escuta é o que proporciona a abertura incondicional para o verdadeiro diálogo e o que permitirá sair de si e peregrinar por percepções terceiras. O diálogo é, pois, o grande orientador das condutas e dos comportamentos.

Assim, propõe-se uma jornada existencial, na medida em que a travessia do sertão proporcione o encontro, a escuta e o diálogo com as estórias de Rosa, com as estórias e histórias do povo sertanejo de Minas Gerais e, ainda, com as trajetórias e visões pessoais dos caminhantes, levando-os a refletir sobre as próprias questões e as socioambientais. Propõem-se um grande diálogo a apontar para o autoencontro de toda verdadeira caminhada. Por tudo isso afirmamos: Ninguém atravessa o sertão impunemente: ao final revela-se e apura-se que o “sertão está dentro da gente”(JGR). A experiência proporcionada aos caminhantes transita por todas estas vertentes.

Como a obra de João Guimarães Rosa inspira o caminho?
A figura da viagem, do deslocamento, da travessia, é recorrente na obra do Rosa, que sugere “Viajar! – mas de outras maneiras: transportar o sim desses horizontes…” O “Caminho do sertão – de Sagarana ao Grande Sertão: Veredas” apresenta aos caminhantes a oportunidade de viajar sob a égide da mais autêntica simplicidade e autonomia – o seu próprio corpo. Convida-se a bastar-se de pouco, contentando-se com o necessário, compreendendo que a viagem é a percepção da vida como passagem, transitoriedade, travessia; é travar contato com a amplitude da realidade sertaneja, seus ritmos, temporalidades, saberes e fazeres. É educar o olhar para apreender e “transportar (consigo) o sim desses horizontes”, numa reflexão filosófico-existencial pródiga e marcante.

Em sua obra, Rosa deu voz aos excluídos ou desvalorizados pela sociedade (os loucos, os velhos, os bêbados, as mulheres, as crianças, o andarilho, os fora-da-lei, o sertanejo, etc….) e lhes conferiu a devida legitimidade para o verdadeiro diálogo. Daí a valorização da escuta e do diálogo. Entre visões distintas da realidade e entre os saberes e fazeres populares/tradicionais e o saber culto/acadêmico.

A dimensão existencial encontra-se na construção do sertão roseano que, para além da ambiência geográfica, é um convite à poética da imensidão e da universalidade. É humildade e reverência ante o mistério das dimensões físicas e metafísicas da realidade. O sertão que é “o mundo” e “está dentro da gente”, evoca a complexidade abissal da existência humana, seus sonhos, utopias e incertezas, suas angústias e dúvidas.

Qual o número de edições do caminho e como a proposta se financia?
Esta primeira edição foi um projeto piloto e foi apoiado pela Secretaria de Cultura do Estado de Minas Gerais. Pretendemos que seja a primeira de muitas até alcançar a dinâmica de se estabelecer como uma rota sócio-eco-literária de peregrinação permanente no sertão mineiro/roseano dos vales dos rios Urucuia e Carinhanha, com a implantação dos receptivos turísticos de base comunitária e, assim, alcançar a autossustentação.

Qual a avaliação do Caminho do Sertão?
Positiva e promissora. Ante o ineditismo e a logística complexa para a sua viabilização nos sentimos vitoriosos com a realização e com o grau de satisfação manifestado pelos caminhantes ao final do percurso. Confirmou-se o potencial da proposta para um possível e desejável circuito de turismo de base comunitária no sertão urucuiano inspirado e apoiado na grandiosa obra do Guimarães Rosa. Confirmou-se também o potencial de sensibilização para com a problemática do cerrado, do direito à terra e da cultura das comunidades tradicionais sertanejas. Os caminhantes passaram a conhecer melhor o sertão mineiro, suas peculiaridades, ameaças e possibilidades e, por conhecer podem então amá-lo e protegê-lo. Só se protege e cuida aquilo que se ama. Só se pode amar aquilo que se conhece.

TEXTO-FIM
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Inês Castilho

Jornalista, cineasta e pesquisadora, integra o corpo editorial de Outras Palavras, foi editora do jornal Mulherio, realizadora dos filmes de curta-metragem "Mulheres da Boca" e "Histerias" e cofundadora do Nós Mulheres, primeiro jornal feminista de São Paulo.