Para conhecer a complexa estratégia dos Xavante


Em julho, aldeia Etenhiritipá, em MT, volta a receber não-índios. Nesta quinta, filme e debate apresentam, em SP, notáveis ações de resistência adotadas há décadas pelos índios guerreiros

Por Inês Castilho
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AGENDA
> Exibição do filme Estratégia Xavante,
Debate com Angela Pappiani (escritora), Alceu Castilho (jornalista) e Israel Waligora (Ambiental Viagens e Turismo)
Quinta, 21 de junho, às 19h (grátis)
No Ateliê do Bixiga: R. Conselheiro Ramalho, 945 – Bixiga – S.Paulo (metrô S.Joaquim ou Brigadeiro)

> Vivência na aldeia Xavante Etenhiritipá
De 6 a 12 de Julho
Para Informações detalhadas, leia nosso texto

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Estratégia Xavante narra uma história vivida a partir de 1976 por oito meninos da etnia Xavante – os A’uwe uptabi, povo verdadeiro. Foram escolhidos pelo lendário cacique Ahopoen (Apoena) e outras lideranças da Terra Indígena (TI) Pimentel Barbosa, no Mato Grosso, para viver com famílias de Ribeirão Preto (SP) com a missão de entender a cultura dos brancos, os warazu, e ajudá-los a proteger-se da violência dessa mesma cultura.

O filme (de Belisário Franca, com produção executiva de Angela Pappiani, Belisário Franca, Jurandir Siridiwê Xavante e Luís Antônio Silveira) conta como essas crianças, com cerca de 8 anos, conseguiram viver num ambiente totalmente estranho ao seu meio de origem e aprender a língua e costumes não-índios, vindo a considerar-se filhos e irmãos daquelas famílias. E os conflitos que sentiram, mais de uma década depois, ao separar-se desse novo mundo para retornar à vida com seu povo.

TEXTO-MEIO

“Quando chegamos na rodoviária de Ribeirão tinha muita gente, era muito barulho, as avenidas, as ruas, tudo muito estranho. E a gente tinha medo. Medo mesmo. Era um mundo desconhecido”, conta Jurandir Siridiwê, um daqueles meninos, hoje formado em relações internacionais e líder de sua comunidade.

Esse foi apenas o primeiro choque cultural vivido por essas crianças e relatado no filme. Paulo Cipassé Xavante conta como, no primeiro dia de escola, viu-se cercado por muitas crianças, “acho que a escola toda”, que queriam vê-lo e tocá-lo, e como isso lhe causou medo. Tem ainda a história de quando José Paulo Serewarã Xavante arrancou os cílios das bonecas das irmãs de criação, e os cílios das próprias irmãs, por ser essa uma tradição cultural de seu povo.

O retorno à própria cultura foi também penoso. Com o passar dos anos Tsetetó esqueceu a língua materna e teve de reaprendê-la. Houve ainda a dificuldade de acostumar-se novamente com a comida tradicional, quando de volta à aldeia, ou a vergonha por não conseguir fazer as longas caminhadas para caçar, por falta de preparo físico. Grandes desafios para esses guerreiros.

“Hoje estão todos à frente de suas comunidades, trabalhando pela recuperação de seus hábitos alimentares tradicionais, o reflorestamento do cerrado, o manejo da caça, os direitos indígenas”, observa a jornalista Angela Pappiani, uma das principais responsáveis pela realização do filme. “Foi uma estratégia bem-sucedida”, diz ela, que registrou a saga desses meninos no livro Entre dois Mundos (Ed. Nova Alexandria).

Mas esta não foi a primeira estratégia de sobrevivência física e cultural dos Xavante. A primeira, do mesmo cacique Apoena, foi “amansar” os brancos e permitir o contato pacífico, realizado nos anos 1940, depois de décadas de resistência às suas investidas.

“O branco chegou pressionando o povo xavante. Era barulho, muito sobrevoo rasante, nossos ancestrais pegavam os filhos e corriam, tinham grande medo. Até que os velhos começaram a pensar como fazer pra haver um encontro pacífico. Essa foi a estratégia do meu avô Apoena, e foi assim que teve um encontro de paz”, conta o cacique Jurandir Siridiwê.

“[Apoena] foi o único e último líder. Ele deu início a tudo. Foi no tempo da pureza. Sua metodologia era que não houvesse divergência, que se preservasse a paz”, diz o guerreiro Cidancri.

Visitas à aldeia

Outras estratégias se seguiram. Angela conta que, em parceria com o Núcleo de Cultura Indígena, onde trabalhava sob a direção de Ailton Krenak, e o Ideti – Instituto de Tradição Indigena, os Xavante propuseram algumas iniciativas para divulgar sua cultura. Primeiro escolheram mostrar ao mundo seus cantos, com a gravação de um CD; depois relatar sua história em livros e gravar sua vida em imagens; em seguida sairam da aldeia para apresentações de canto e dança ritual em várias capitais brasileiras e outros países. “Sempre com estratégia, propósito, foco.” Agora estão levando visitantes pra dentro da aldeia.

O projeto de levar visitantes à aldeia é uma ideia que data ainda dos anos 90, mas que só agora está sendo levada adiante com sucesso. Depois de um ano de estudos minuciosos para a implantação do turismo cultural e ambiental com essa área do Senac, grupos de alunos do 3º ano do Ensino Médio do Colégio Santa Cruz começaram a ser levados, em parceria com uma agência de turismo especializada, para vivências na aldeia Etenhiritipá, na TI Pimentel Barbosa, sob a liderança do cacique Siridiwê. O programa está agora sendo estendido também a outros públicos.

“A experiência está dando certo”, diz Angela, que participou da preparação dos jovens para a viagem. “Os adolescentes estão gostando, os indígenas também. Eles fortalecem sua cultura, de que têm grande orgulho, e conquistam aliados para manter sua tradição e território para as futuras gerações. Além de gerar recursos para sua sobrevivência, já que hoje é grande a dependência de dinheiro entre eles, e tudo o que têm são o salário dos professores e a aposentadoria dos velhos.”

Assim nasceu o Projeto Wazu’ri’wá, nome dado ao programa de visitação. Wazu’ri’wá significa o desbravador, guerreiro que vai à frente para reconhecer o terreno, definir os caminhos, aprender com a natureza e com as novas culturas que encontrar pela frente, para levar o aprendizado para casa e preparar o caminho para o restante da aldeia.

“É um projeto delicado, que precisa ser feito com muito cuidado. Mas que, quando é pensado com a participação efetiva da aldeia, pode ser muito bom tanto para os indígenas como para nós, não-índios”, diz Angela.

Desafios

Não são poucos os desafios enfrentados hoje pelos Xavante, como de resto pela maioria dos povos indígenas no Brasil, para manter a tradição e proteger seu território que, mesmo demarcado desde o final da década de 70, segue sofrendo ameaças de todo tipo.

A chegada da luz elétrica e de água encanada, da escola com a merenda escolar, dos veículos automotivos levou a uma dramática mudança de hábitos alimentares e da vida cotidiana, acarretando, em algumas aldeias, altos índices de diabetes e obesidade. A televisão, o álcool, as drogas pressionam os hábitos dos jovens. As religiões evangélicas, com seu individualismo e consumismo, corroem os valores comunitários tradicionais.

“Quando fizemos o filme, em 2017, eles viviam em sete aldeias; dez anos depois, são aproximadamente o dobro”, diz Angela. “É natural que, quando uma aldeia chega a cerca de 600 pessoas, ela se divida – o ideal são cerca de 400 pessoas. Mas hoje, se alguém não aceita a atitude do chefe, já se muda com a família e forma uma nova comunidade. O senso de coletividade, tão forte nesse povo, está se perdendo. As velhas lideranças, muito rigorosas na manutenção das tradições, estão hoje idosas, e a condução dos Xavante está nas mãos dos jovens, mais permissivos.”

A estratégia que agora se delineia é tentar a união política do povo Xavante, hoje muito fragmentado. A ver se os meninos de Ribeirão Preto, fortes lideranças em suas comunidades, ajudarão a reconquistar um equilíbrio favorável à tradição.

TEXTO-FIM
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Inês Castilho

Jornalista, cineasta e pesquisadora, integra o corpo editorial de Outras Palavras, foi editora do jornal Mulherio, realizadora dos filmes de curta-metragem "Mulheres da Boca" e "Histerias" e cofundadora do Nós Mulheres, primeiro jornal feminista de São Paulo.