O desafio da Copa-2014

Multiplicação de manifestações contra megaevento sugere que problemas são reais. É preciso reabrir já diálogo com a sociedade

Por André Garcez Ghirardi

Impressionantes as manifestações de rua que desnudaram o caráter político inerente àquilo que seria, em aparência, apenas um torneio de futebol. Com os movimentos de rua vivemos momentos de alto risco de desagregação social, com aglomerações tão difundidas, multitudinárias e, muitas vezes, tão violentas como não se via desde a promulgação da Constituição de 1988. Escrevo em 23/6, e a situação parece ter se acalmado bastante. Acredito que a vitória do Brasil contra a Itália tenha contribuído para saciar, minimamente que seja, a sede por notícia boa, e acalmar os ânimos. Mas o potencial de risco permanece presente e, quem sabe, iminente. Não me atrevo a qualquer tipo de análise: estamos todos surpresos, ninguém conseguiu antever esse complexo movimento coletivo. Mas quero registrar, de maneira nada original, impressões sobre o que me pareceram dois momentos qualitativamente distintos nas manifestações e sobre as forças que nos levaram de uma a outra etapa. Houve dois momentos: a mobilização inicial, e a difusão do movimento. A transição de um momento ao outro, e a dimensão que assumiu o movimento me parecem indissociáveis da gigantesca amplitude que o quotidiano do Brasil passou a ter no jornalismo internacional a partir de 9 de junho, dia em que começou o torneio de futebol.

Na mobilização inicial repetiram-se tanto em porte quanto em natureza manifestações que vêm ocorrendo cronicamente nos principais centros urbanos. Pode ter sido coincidência; ou não. De toda forma não foi para nós um momento feliz. Postergada desde o início do ano (por apelo do governo federal), a realidade do aumento de preços acabou se impondo: aconteceu o aumento de tarifas de ônibus urbano. E aconteceu simultaneamente nas principais capitais do país.

TEXTO-MEIO

Não sei se nos faltou sorte ou virtude ou ambos. O fato é que se optou por conceder o aumento poucos dias antes do início do torneio de futebol que daria repercussão mundial a tudo noticiável que ocorresse no Brasil. A exposição midiática propiciou a passagem para o segundo momento, de difusão. A tomada de consciência do impacto na imprensa internacional acelerou de forma absolutamente imprevista a difusão dos movimentos locais de reivindicação por tarifa de transporte urbano. Movimentos que subitamente se transformaram num espetáculo em tempo real para o mundo todo. Em telinhas por toda parte, as ruas de São Paulo, Rio, Salvador, Brasília, e Belo Horizonte substituíram de uma hora para outra Istambul e a Praça Taksim; o mundo assistiu a um real (e não “reality”) Big Brother Brasil. Nas sucessivas convocações, a adesão aos movimentos passou dos milhares às dezenas de milhares e logo às centenas de milhares. Às reivindicações específicas por tarifas de transporte coletivo somou-se uma diversa mistura de pretensões que terminaram repercutindo um amplo sentimento (até então latente) de indignação com as evidências de corrupção no sistema de representação política e com os prejuízos materiais que essa disfunção política impõe a todos. A presença concentrada de câmeras do mundo todo produziu uma contagiante espetacularização do movimento que, ao se difundir tão amplamente, transformou-se em questão de Estado. Ficou escancarado o poder de pressão política de movimentos de rua (no Brasil como em qualquer lugar), com transmissão direta simultânea para todo o mundo.

A manifestação pela tarifa de transporte coletivo provavelmente existiria com ou sem a tal Copa. Mas creio que a reunião da imprensa em torno do futebol funcionou como caixa de ressonância: deu amplitude universal e fez acelerar a difusão de um movimento que seria ordinariamente de interesse local, e muito mais brando do que se tem visto desde 2009 em toda Europa. O espetáculo do futebol internacional mostrou entre nós uma cara política inesperada, gigantesca e ameaçadora. Ainda temos um fim-de-semana de jogos. O que ocorrer no Brasil durante essa Copa de futebol será fato internacional. E tem mais. Se neste momento estamos hospedando um torneio menor, com oito países concorrentes, daqui a doze meses teremos outro torneio, com exposição ainda maior, em condições políticas mais sensíveis. Serão trinta e dois países concorrentes, e estaremos a quatro meses das eleições federais e estaduais para Executivo e Legislativo. Se estiver ainda latente, o risco de desagregação poderá novamente transformar-se numa ação multitudinária de resultados imprevisíveis. A única alternativa para diluir esse risco é construir algum entendimento mais amplo do que temos hoje, e não há tempo a perder. Se há tanta gente querendo ser ouvida, algo não está funcionando na nossa conversa. Prefiro imaginar que estamos diante dos efeitos de um lapso de comunicação — que pode ser superado com sinceridade diligente — e não do esgotamento de nossos instrumentos de diálogo. Tomara.

TEXTO-FIM
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André Garcez Ghirardi

Professor licenciado da UFBa