A nova cegueira do que chamam democracia


Um estilhaço de bomba, lançada gratuitamente pela polícia, tirou a visão de Deborah. A relação da PM paulista com o governo golpista é tão clara e reluzente quanto a calva do ministro Alexandre de Moraes

Por Tadeu Breda | Vídeo: Artigo19 | Foto Mel Coelho / Mamana Foto Coletivo

Na noite de 31 de agosto de 2016, durante as primeiras horas do golpe, a jovem Deborah Fabri perdeu a visão do olho esquerdo. Foi atingida pelo estilhaço de uma bomba lançada pela Polícia Militar de São Paulo contra manifestantes que protestavam no centro da cidade contra a ascensão de Michel Temer à Presidência da República.

As notícias sobre a violência cometida contra Deborah começaram a correr quase que imediatamente. Uma foto sua com o rosto ensanguentado circulou em alta velocidade de curtidas e compartilhamentos. Mas foi apenas na manhã do dia 1º de setembro que a estudante da Universidade Federal do ABC confirmou a gravidade da lesão.
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“Estou saindo do hospital agora”, escreveu em sua página do Facebook por volta das 11h da manhã. “Sofri uma lesão e perdi a visão do olho esquerdo, mas estou bem.” Logo depois, membros do Levante Popular da Juventude – movimento que tem Deborah entre seus militantes – soltaram uma nota de solidariedade à colega.

“Não descansaremos até que os responsáveis sejam punidos e que ela disponha de todo a assistência necessária”, diz o texto. “Repudiamos veementemente a ação da Polícia Militar do governador Geraldo Alckmin. Exigimos apuração, identificação e punição dos responsáveis imediatamente.”

A polícia militarna Rua da Consolação. Foto: Rodrigo Zaim/ R.U.A. Foto Coletivo

A polícia militarna Rua da Consolação. Foto: Rodrigo Zaim/ R.U.A. Foto Coletivo

Além de Deborah Fabri, outro manifestante – Gustavo Chiesa – foi atingido no olho pelos instrumentos “não letais” da Polícia Militar de São Paulo, mas ainda não se sabe se por bala de borracha ou estilhaço de bomba. O rapaz passa bem e, de acordo com os primeiros diagnósticos médicos, que tomara se confirmem, não perdeu a visão.

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Deborah e Gustavo se somam ao crescente grupo de cidadãos feridos diretamente nos olhos pelos PMs paulistas enquanto participavam – como manifestantes ou jornalistas – de protestos na cidade. Os fotógrafos Alex Silveira, em 2000, e Sérgio Silva, em 2013, tiveram a visão seriamente prejudicada ao serem atingidos por balas de borracha: Alex perdeu oitenta por cento da visão esquerda e Sérgio ficou cego do mesmo olho.

cega mas nao cala

Também atingida por bala de borracha em 2013, a repórter Giuliana Vallone teve a visão salva pela lente dos óculos. Vitor Araújo participava de uma manifestação no Dia da Independência, também em 2013, quando teve a vista mutilada pelo fragmento de uma bomba disparada pela Polícia Militar no centro de São Paulo.

Este pequeno recorte analítico – vítimas “oculares” do Estado durante manifestações – já permite perceber que a lista é grande demais. Ela se agiganta se incluímos os manifestantes e jornalistas que tomaram tiro de chumbo, como Fabricio Proteus Chaves; os jovens de periferia que perderam o olho devido à repressão da PM em bailes funk, como Douglas Santana; e outros tipos de agressão “menos graves”, como ferimentos em partes do corpo que não são vitais, como pernas e braços, cacetadas, agressões sexuais e verbais, prisões ilegais, restrições à liberdade de imprensa etc.

O golpe aplicado por Michel Temer e seus inúmeros aliados no Congresso Nacional e na sociedade é revoltante. Mas é um erro considerar Deborah e Gabriel como as primeiras vítimas deste golpe. Mais correto seria dizer que são as mais novas vítimas da democracia. Antes do golpe parlamentar, institucional e constitucional, aquilo a que chamam – e continuarão chamando – democracia já permitia a cegueira e premiava os arrancadores de olhos com total impunidade.

Os processos judiciais movidos por Alex Silveira e Sérgio Silva – ambos considerados “culpados” pelo próprio destino, de acordo com sentenças do Tribunal de Justiça de São Paulo – são apenas algumas provas de que o golpe não começou agora: ela apenas concluiu uma de suas etapas. Para chegar até aqui, contou com a colaboração de um amplo espectro de forças políticas e partidárias que vai do PSTU à Fiesp, passando pela imprensa tradicional e pelos maiores líderes populares da história desse país.

A relação entre Polícia Militar de São Paulo e governo golpista de Michel Temer é tão clara e reluzente quanto a careca do ministro da Justiça: Alexandre de Moraes, ex-secretário de Segurança Pública de Geraldo Alckmin, foi alçado ao governo federal na cota da aliança golpista que pertence ao PSDB em reconhecimento à sua “bem sucedida” repressão aos movimentos sociais – sobretudo ao Passe Livre, em janeiro.

Os atentados contra a visão de Deborah e Gustavo, ontem, são uma mostra do golpe continuado à democracia, que, sim, se revela em governos corruptos em todos os níveis de poder e praticamente em todos os partidos, mas sobretudo na seletividade das forças de segurança e da justiça e na manipulação midiática.

Em uma democracia de 31 anos que teve quatro presidentes eleitos diretamente e três, indiretamente; que coaduna com a violência policial cotidiana contra negros nas periferias e manifestantes que contestam a ordem; que destrói territórios e populações tradicionais em nome do progresso; que coloca o lucro dos bancos acima de qualquer direito; nesta democracia é equivocado dizer que o golpe acabou de começar: ele apenas se consumou mais uma vez, e antes de que pudéssemos nos livrar da herança que nos deixaram os militares.

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Tadeu Breda

Tadeu Breda, jornalista, é autor de Memória Ocular (2016) e O Equador é verde: Rafael Correa e os paradigmas do desenvolvimento (2011), ambos publicados pela Editora Elefante.