Sobre a marcha dos sem-teto e projeto interrompido

O protesto, às 19h: contra segregação hídrica, propostas certeiras e um possível caminho para tirar esquerda das cordas

O protesto, às 19h: contra segregação hídrica, propostas certeiras e um possível caminho para tirar esquerda das cordas

Protesto convocado pelo MTST para hoje diz muito sobre gestão da crise hídrica em SP – mas, também, sobre “apagão” da esquerda brasileira

Por Antonio Martins | Foto: Mídia Ninja

Nada como a experiência para dirimir grandes dúvidas, pessoais ou políticas. Milhares de trabalhadores sem-teto, mobilizados pelo MTST, marcharão esta tarde até o Palácio do Governo de São Paulo, em protesto contra a falta d’água – já gravíssima na periferia da capital e em seu entorno. Ao fazê-lo, colocarão a nu a política segregadora adotada pelo governador Geraldo Alckmin (com a cumplicidade da velha mídia) para lidar com a estiagem e o esvaziamento das represas do Estado. Mas revelarão também que há um caminho viável para enfrentar a paralisia e o caos em que mergulharam setores da esquerda, desde a reeleição de Dilma Roussef. As duas questões estão imbricadas.

“O racionamento na periferia já começou faz tempo”, diz o MTST na convocação para a marcha de hoje. O alerta contradiz o discurso oficial e midiático sobre o tema, além de jogar luz sobre certa política. Ao dizer que tentará poupar a população do enorme desconforto provocado pelo corte de água, o governador mente. A política que a Sabesp, empresa estadual de abastecimento, adota desde o final de 2014 já significa privação e sofrimento para a grande maioria dos moradores da Grande São Paulo – aqueles cuja dor não sai no jornal.

Para evitar o esvaziamento completo dos dois principais sistemas de represas da região (Cantareira e Alto Tietê), a Sabesp reduziu a vazão, em ambos, à metade do normal – de 31 para 16 metros cúbicos por segundo. Para fazê-lo, rebaixou a um décimo do recomendado a pressão com que a água é bombeada na rede de encanamentos. A medida poupa os sempre privilegiados. Ricos e boa parte da classe média possuem, em prédios ou casas, fartas caixas d’água (em certos bairros, usam-se mesmo piscinas, ou se constroem, às pressas, novos tanques sob os estacionamentos…). A queda de pressão passa totalmente despercebida, pois o reservatório privado é reabastecido por completo, no momento em que a água volta aos canos públicos.

Na periferia, não. Multiplicam-se os relatos sobre bairros que passam cinco ou mais dias inteiramente à seca. Mesmo quando isso não ocorre, a queda de pressão é manejada pela Sabesp de modo que a água chegue nas torneiras apenas tarde da noite, quando se dorme após trabalho exaustivo. Mas, como de praxe numa sociedade cindida, o drama suburbano não tem destaque algum nos jornais e na TV.

O MTST construiu, para a marcha de hoje, uma pauta que toca no fulcro do problema. Quer distribuição de caixas d’água e construção de poços artesianos nas periferias. Reivindica o rompimento dos contratos “de demanda firme”, por meio dos quais a Sabesp estimula grandes empresas a consumirem mais água, “premiando-os” com preços muito abaixo dos normais. Exige “isonomia no rodízio”. Espera-se que ao menos dez mil pessoas participem do protesto. Não serão apenas sem-teto. Além de outros movimentos sociais, a convocação sensibilizou gente como a cartunista Laerte, a ex-candidata a presidente Luciana Genro, os deputados Adriano Diogo e Jean Wyllys. O significado político é óbvio. Assim como no Paraná, onde avança a mobilização social contra o “ajuste fiscal” do governador Beto Richa, está surgindo em São Paulo uma trilha para enfrentar a turbulência política criando sentidos de luta contra as injustiças e desigualdades.

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TEXTO-MEIO

Na série de contradições e incoerências que marca o início do segundo governo Dilma, uma se destaca – tanto por bloquear qualquer correção de rumos quanto por comprometer politicamente as ações de toda a esquerda, dentro ou fora do poder. Diante de um cenário econômico adverso, a presidente optou por um “ajuste fiscal” que impede um possível passo adiante do chamado “lulismo” e – muito pior – alimenta os setores das elites que sempre desejaram sufocar as mudanças dos últimos doze anos.

Dilma nomeou Joaquim Levy ministro da Fazenda e deu-lhe ampla liberdade para cortar despesas públicas e abrir espaço, no Orçamento, para mais transferências aos rentistas. Imaginou que, assim, serenaria a aristocracia financeira, ala mais poderosa e barulhenta dos que se opunham a seu primeiro mandato. Ao contrário: os super-ricos embolsaram três altas seguidas das taxas de juros, mas a mídia associada a eles joga sobre as costas do governo – e da esquerda – as consequências do “ajuste”: restrições ao seguro-desemprego, veto à correção da tabela do Imposto de Renda, cortes na Educação. Projeta-se como heróis personagens como o deputado Jair Bolsonaro – que ontem, a pretexto de defender a “greve” dos caminhoneiros, discursou na Câmara Federal em favor do golpe de 1964 e comparou seu contexto à situação atual do Brasil.

A espiral de fatos negativos e de erros bizarros acelerou-se, esta semana. Como havia, no Congresso, sinais de resistência ao “ajuste fiscal”, o governo optou por colocar Joaquim Levy em negociação direta com as bancadas do PMDB. No primeiro momento, esse partido apoiou o ministro — e pediu ainda mais espaço no governo… Agora, já fala que só defenderá as medidas impopulares se o PT também as apoiar. O próprio Lula já teria se comprometido com o enquadramento da esquerda institucional. Nesta quarta (25/5), circula a informação de que Dilma teria decidido apertar ainda mais o corte de gastos públicos – cujas proporções governo e imprensa encarregam-se de manter desconhecidas. Além disso, pressionada pelo sistema financeiro internacional, com o rebaixamento de sua “nota”, a Petrobras teria sido orientada pelo governo a pedir apoio às próprias instituições que a atingem para vender parte de seus ativos…

Num debate recente, Guilherme Boulos, integrante da coordenação nacional do MTST, afirmou, enfático: “para ser defendido, o governo precisa tornar-se defensável”. Aparentemente, nem Dilma nem Lula deram-se conta da necessidade deste passo. Talvez a marcha de hoje os ajude a enxergar um caminho – ou indique que eles, no momento, buscam outro rumo…

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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras