Mapini e o inferno dos Paiter Suruí

Como, em quarenta anos de contato com a “civilização”, índios de Rondônia perderam suas ocas, seus costumes, seu mundo. De que forma ele resiste em quem me mostrou a estupidez da vida branca

Por Angela Pappiani

“Histórias do começo e do fim do mundo – o contato do povo Paiter Suruí” – para ler, clique aqui


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Escritora e jornalista, Ângela Pappiani passou as últimas décadas conhecendo e convivendo com povos indígenas brasileiros. Agora, ela conta parte do que viveu, em uma nova coluna de Outras Palavras.

Textos anteriores da autora e as histórias dos povos ancestrais que ela recolheu e publicou podem ser encontrados em diversos livros, e em dois sites:
Histórias da Tradição e Ikoré.

TEXTO-MEIO

A história de Mapini, se inicia quando o mundo do povo indígena Paiter Suruí começa a desmoronar. Quando os Yara, “os brancos”, começam a fechar o cerco sobre os povos guerreiros e fortes das florestas de Rondônia, em plena ditadura.

Mapini nasceu e passou a infância numa grande maloca de arquitetura tradicional, aprendendo com os mais velhos todo o conhecimento que lhes permitia viver com saúde, muitas festas e alimento,  em total autonomia com a floresta, sem depender de quase nada do mundo dos invasores. Os machados e facões sim, ferramentas muito valiosas que facilitavam a vida, eram cobiçados e motivavam incursões em sua busca.

Por causa dos facões, muita gente morreu, tanto indígenas quanto brancos. O pai de Mapini, um pajé poderoso e muito respeitado, foi uma das vítimas dessa busca. Foi baleado por um seringueiro quando se aproximou do acampamento, junto com outros guerreiros, para pegar facões. Ele ainda sobreviveu por alguns anos, “com chumbo no corpo e a mão deformada”, como diz Mapini. Ele sabia que ia morrer logo e por isso tratou de preparar outro pajé para substitui-lo e orientou sua esposa e filhos sobre como seria a vida dali para frente, com as doenças dos brancos chegando, o território cada vez menor, muitos perigos e desafios. Perpera, o grande pajé dos anos 70 e 80, foi preparado pelo pai de Mapini.

Mapini ficou reclusa em sua primeira menstruação, participou das festas e cerimônias e se casou dentro da tradição. A primeira vez que ela saiu de sua aldeia, já estava casada e com uma filha pequena. Seu marido, Anine, apesar de muito jovem, já era um grande líder do povo Paiter. Ele também perdera quase toda a família na época do contado, final dos anos 60, começo dos anos 70. As epidemias de sarampo e gripe e as balas dos inimigos dizimaram cerca de dois terços da população, num tempo que eles dizem ter sido “o fim do mundo”.  A ocupação de Rondônia é um dos exemplos mais trágicos de como o governo militar se relacionava com a floresta e seus habitantes originários.  Mas isso fica para uma outra conversa…

Voltando à história de Mapini,  essa primeira viagem longa, em meados dos anos 80, foi acompanhando o esposo até São Paulo, com seu bebê e Artemira, a segunda esposa de Anine. Ele já era um amigo querido, que eu admirava muito pela coragem, clareza e determinação na sua luta pela demarcação do território, mas era meu primeiro contato com as mulheres. Os homens seguiram para Brasilia e fiquei por alguns dias em casa com minhas filhas pequenas e as duas, que quase não falavam português. Mapini me seguia por onde eu fosse, acompanhava atenta todos os meus movimentos. Era como minha sombra. Eu olhava para o lado, e lá estava ela na cozinha, no quintal, na arrumação dos quartos, nos cuidados com minhas filhas, nos telefonemas de trabalho.

Mapini não falava comigo. Seus olhos curiosos mapeavam tudo, ela em silêncio. Com sua companheira Artemira, ela falava, gesticulava e dava boas gargalhadas. Eu, querendo saber sobre o que falavam, do que riam. No segundo dia eu confesso que já estava um pouco irritada, pois não conseguia avançar na comunicação com as duas mulheres. Na verdade, eu não conseguia parar para dar atenção a elas, tantas as tarefas do dia a dia. Mas teve um momento em que Mapini me pegou pela mão e indicou a cadeira para que eu me sentasse. Sentou-se na minha frente e falou, do seu jeito, com as poucas palavras que sabia do português, misturando palavras na sua língua e muitos gestos. Ela era bem mais nova do que eu, mas se dirigia a mim, com autoridade e sabedoria. “Casa… muito, roupa… muito, comida… muito, trabalho… muito. Cadê pintura? Cadê colar, enfeite? Cadê festa? Cadê música? Branca buuuuurrrra!” Esse “buuurrra”, lento e enfático,  realmente me desmontou. Não esperava! E ela continuou: “Pára!  Você velha logo!” Depois, tomou a minha mão, com carinho e sorriu.

Foi um choque cultural. Ela tinha toda a razão! Que vida dura eu levava, me equilibrando entre tantas tarefas domésticas e o trabalho para ganhar a vida, entre tantas obrigações e horários a cumprir, sem cuidar da beleza, da alegria, da convivência, do prazer.  Os dias que se seguiram foram bem mais leves, gostosos e bonitos, cheios de afeto. Rimos muito, brincamos, nos enfeitamos, falamos de coisas íntimas. Ela estava feliz por seu marido ter arrumado uma esposa mais jovem porque assim ela teria ajuda nas tarefas da casa e poderia ter mais tempo para ela mesma, inclusive para namorar outra pessoa, quando quisesse. Ela sugeriu que eu também arrumasse uma outra esposa para o meu. Um jeito diferente de estar no mundo.

Primeiro contato dos Pater Suruí com os brancos, em 1969. Missionários aliaram-se ao governo militar para impor às tribos cultura hegemônica (Foto: Jesko von Putkammer/ IGPA)

Aprendi muito com Mapini e depois com outras mulheres indígenas maravilhosas com quem tive o prazer de conviver. Mulheres fortes, decididas, ativas e ao mesmo tempo tão femininas e alegres, apesar das dificuldades do cotidiano e das marcas que carregam.

Visitei a aldeia Paiter pela primeira vez em 1989, convivi ali com as mulheres, sempre enfeitadas e bonitas, sempre carinhosas e risonhas. Depois fiquei muitos anos sem encontrar minha amiga. Falei dela para outras pessoas, compartilhei o que havia aprendido sobre viver com menos, ser mais leve, valorizar o essencial, reverenciar a beleza. Mapini, do seu jeito, me falava sobre o bem viver, um conceito que não era moda na época.

Mais de 20 anos depois, voltei a encontrar minha amiga, desta vez na sua casa, na linha 12, Terra Indígena Sete de Setembro, em Rondônia. E sua casa já não é mais uma grande maloca tradicional, arejada e fresca, cheirosa e aconchegante. Ela vive numa casa de madeira com piso de cimento, igual à dos colonos da região, cheia de paredes divisórias, poucas janelas. Um forno durante o dia e a noite.

Mapini me recebeu com muito carinho e emoção, falando um pouco melhor o português. Ela perdeu alguns dentes, ganhou peso, está com problemas no quadril e joelhos, pressão alta e estressada. São mais de 20 pessoas na casa para alimentar. A compra no supermercado da cidade é cara e a comida acaba muito rápido. A família toda ajuda a cuidar da plantação de banana e café, produtos que vendem na cidade para conseguir algum dinheiro. Os Paiter retomaram terras que já estavam cultivadas pelos colonos e, com o estímulo da Funai, tentaram se transformar em fazendeiros também. As mulheres ainda fazem artesanato, lindos colares tradicionais e panelas de barro que são pura arte. Mas a roça tradicional, a comida saudável, os peixes e a caça praticamente desapareceram nessa nova configuração da aldeia. Tempo livre, também já não existe. É muita roupa e louça para lavar, muita comida para preparar, casa para limpar, horário de escola das crianças… Falamos sobre isso. E foi minha vez de comentar o que eu via.

O sábado é o dia santo e toda a população da aldeia se veste com suas melhores roupas e sapatos, seguindo a última moda de Cacoal e das novelas. Os rapazes usam muito gel para manter os topetes e as meninas cuidam dos cabelos com os produtos anunciados nos comerciais da TV. Tudo isso para o culto na igreja, única construção de alvenaria, com portas de vidro, construída logo na entrada da aldeia.

Mapini no posto de saúde da aldeia: de alvenaria, assim como sua casa cheia de paredes divisórias, poucas janelas. Um forno durante o dia e a noite (Foto: Angela Pappini)

O povo guerreiro e orgulhoso que fazia cerimônias e festas com seus cocares elaborados, dezenas de colares, pinturas de jenipapo recriando as manchas da onça e de outros animais, esse povo agora anda com a bíblia sob o braço, mesmo os que não sabem ler, como Mapini, e só podem entoar os hinos aprendidos com o pastor. A pintura corporal, as festas, os cantos, as flautas, as bebidas e comidas… agora tudo é proibido, tudo é pecado. As curas, as pajelanças, as histórias antigas, são coisa do diabo. E eles têm muito medo do inferno.

Aos poucos, todo o povo foi se rendendo aos missionários evangélicos que estão presentes desde o tempo do contato.  Bill e Carolyn  (William e Carolyn Bontkes, do Instituto Linguistico de Verão -SIL) foram os primeiros a se instalar no posto da Funai que atraía muitos indígenas fragilizados pelas doenças e mortes. Mas os Paiter resistiram durante décadas à conversão. Sua cultura era muito forte e rica, os pajés poderosos.

Em 2016, quando voltei às aldeias para coletar depoimentos sobre o contato, já não existiam mais pajés, quase todas as aldeias tinham um templo evangélico, de várias seitas, e muitos velhos já não queriam contar histórias tradicionais ou falar sobre o passado, aterrorizados pela visão do inferno.

Nesse mesmo ano, numa das aldeias que visitei, encontrei Carolyn, a missionária que viveu entre eles por muito tempo na época do contato. Ela hoje é uma senhora frágil de mais de 80 anos, cabelos brancos, rosto vermelho. O esposo Bill faleceu há algum tempo. Ela mora nos Estados Unidos e mantem uma casa numa das aldeias para onde vem, de vez em quando, para terminar sua missão que é completar a tradução dos textos da bíblia. Ela se considera realizada, feliz em ver hoje o povo convertido ao cristianismo pois “assim se libertaram dos medos absurdos que tinham dos espíritos”. Sobre as mudanças drásticas no modo de vida e o novo medo, do inferno, ela se cala.

São poucas as pessoas que conseguem se manter fora das igrejas. A pressão da comunidade é muito grande e os que não se convertem sofrem isolamento e hostilidades. São poucos os Paiter que mantêm a tradição.

O trabalho que realizamos durou um ano inteiro de intensa convivência com as várias aldeias Paiter e os relatos foram reunidos no livro Histórias do começo e do fim do mundo – o contato do povo Paiter Surui,   (download gratuito aqui).  Um retrato do que foi e ainda é o encontro desastroso entre nossa “civilização” e os povos originários que vivem, por decisão própria, isolados em várias regiões do país. Um exemplo claro do que não deveria mais acontecer.

Para o evento de lançamento do livro, em 2017, no SESC Vila Mariana, Mapini voltou a São Paulo, à minha casa, e pudemos falar de novo sobre nossas trajetórias no mundo e sobre o que aprendemos, uma com a outra. Para minha surpresa e alegria, Mapini cantou, na sua língua, para o público que foi ao lançamento do livro, uma linda cantiga tradicional de seu povo, como há muito tempo já não cantava (veja e ouça Mapini cantando logo abaixo). E neste ano, completando as boas surpresas, Perpera, o grande pajé que sempre admirei, é o personagem do premiado documentário “Ex-pajé”, de Luis Bolognesi. O belo e sensível filme mostra bem a realidade da aldeia e os conflitos vividos por esse grande homem sábio, perdido entre a igreja e o chamado dos espíritos.

 

Parece que os espíritos, a sabedoria da floresta, a força das flautas e das cantigas tradicionais começam a clarear o mundo Paiter, mesmo nestes tempos de tantas trevas, quando as comunidades indígenas, assim como o restante dos cidadãos trabalhadores do país, sofrem com o retrocesso nos direitos conquistados com tanta luta.

Que Mapini continue cantando e possa ensinar aos netos e netas as cantigas e a sabedoria sobre viver no mundo com poucas coisas e muito afeto. Que nós possamos conviver com os povos originários deste país e aprender com eles sobre outras formas de estar no mundo. Que a gente consiga, juntos, mudar de novo o rumo dessa história.

TEXTO-FIM
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Angela Pappiani

Angela Pappiani

Jornalista, produtora cultural e escritora; diretora na IKORE, agência voltada à temática indígena
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