Licença poética

160525-Globo

— Quanto tá o biscoito?. — Seis temers. — Como subiu tanto? — Explico: licença poética. Este presidente aí não é poeta? Curte: “Embarquei na tua nau sem rumo. Eu e tu”…

Por Daniel Cariello

– Ô, biscoito.
– Aê!
– Quanto tá?
– Seis temers.
– Não tô perguntando o preço do lote, só de um pacotinho.
– É isso aí, seiszão, tá fresquinho, vai?
– Mas como isso aconteceu?
– Os maluco da fábrica fizeram o biscoito ontem e eu comprei hoje. Tá cocrante.
– Não, o preço, como ele subiu tanto?
– Licença poética.
– É o quê?
– Licença poética. Explico. Esse presidente aí, não é poeta?
– Parece que é.
– É, sim, curte o que ele escreveu: “Embarquei na tua nau sem rumo. Eu e tu…”
– Calma, calma, acredito em você. Pode pular essa parte de recitar.
– Então, acompanha. O artista chegou à presidência tocando o terror, mudando as regras, passando por cima de tudo e o diabo.
– Verdade.
– Quer dizer que as leis agora tão de licença, concorda?
– É.
– É a licença do poeta. Poética. Sacou?
– Boa lógica.
– Então, se o cara faz isso, tô só embarcando na sua nau.
– Na minha?
– Não, maluco, na dele!
– Mas esse seu barco vai afundar. Todo mundo na praia vende a quatro reais, ninguém vai comprar sua bolacha de seis.
– É biscoito. Mas aí entra a malandragem. Se o cliente dá aquela choradinha, baixo pra três, mais barato que a concorrência. Aí a notícia espalha e eu monto a clientela.
– Três reais?
– Se for brasileiro. Gringo, três obamas, pra compensar o preju do outro lado.
– Mas isso é desonestidade!
– Não, é a licença poética, tu não entendeu nada, né? Essa foi até prevista em poema. Escuta: “Quando eu nascer, Senhor, daqui a quatro horas, pela sexuagésima segunda vez, fazei com que eu nasça outro homem (…). Que eu seja honesto, Senhor…”
– Ele escreveu isso?
– Escreveu. Não é perfeito?
– Ele tá dizendo que a culpa de não ser honesto é do Senhor.
– E não é? O maluco fez esse poemoração, tá assumindo a fraqueza. O cara lá de cima tinha que dar uma força, né não? O mínimo…
– Mas aí é fácil.
– Fácil, o quê, doido, eu não consigo escrever bonito assim.
– Melhor assim. Basta um desses aí! Boas vendas pra você.
– Pô, vai levar nada, doido?
– Tá bom, dá um pacote dessa bolacha.
– Biscoito. Pra tu faço a três, sem precisar derramar lágrima.
– Tá aqui, cinco.
– E aqui o troco.
– Peraí, isso é balinha. Cadê meus dois reais? Tá achando que sou otário?
– Não tenho os dois, comecei agora. Mas tenho um novo versinho do poeta: “Somos todos palhaços, choramos no camarim…”.

TEXTO-FIM

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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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