Legitimidade e oportunismo

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Que querem? Passeatas de doutores, filósofos ou apenas militantes ativos? Um novo ator subiu ao palco e quer papel relevante

Por Celso Vicenzi

Apesar das tentativas de captura pela mídia, e das ações de grupos sectários e extremistas, o que se viu nas ruas, além da luta pelo passe livre ou pela diminuição do preço das passagens urbanas, foram reivindicações por melhores serviços públicos. Saúde e educação, especialmente. E críticas aos gastos com a Copa e brados contra a corrupção. Havia muitas outras, no entanto, mais difusas. Todas legítimas – à exceção de uma ou outra de cunho fascista.

Há quem tente desqualificar o que aconteceu, com teorias conspiratórias. Não faz sentido menosprezar a explosão de demandas reprimidas só porque não havia organicidade nas pautas ou porque a classe média aderiu em peso ou, ainda, porque os jovens não tinham suficiente consciência crítica. O que querem? Uma passeata de doutores, filósofos, só de intelectuais? Só pode se for militante ativo? O que se viu pertence àqueles raros fenômenos sociais, resultado quase de uma catarse, com motivações que podem ser listadas eventualmente, mas difícil explicar porque eclodiu num dado momento se os fatores intrínsecos sempre estiveram ali presentes.

A repressão ao movimento dos jovens pela redução da tarifa urbana, em São Paulo, pode ter sido a gota d’água, mas permanece o enigma de como, em questão de dias, 50 mil, 100 mil, 300 mil pessoas em uma única cidade – mais de 1 milhão no país – sentiram-se motivadas a ir às ruas protestar, antes que qualquer das tradicionais organização políticas viesse propor uma mobilização. As redes sociais são um dado novo, mas se já houve convocações semelhantes para ir às ruas, por que só agora, assim, de repente tudo toma um rumo surpreendente?

Apesar da criticada despolitização do movimento e das ameaças de manipulação e retrocesso político que vieram em seguida, o protesto serviu para oxigenar a democracia brasileira ao exigir, principalmente dos governos e parlamentos – sem esquecer do Judiciário – maior atenção às demandas populares. Não havia um alvo único na crítica à deterioração dos serviços públicos ou à corrupção no país. A queixa mirava todos os partidos e todos os governos (seria exigir demais que a massa fizesse a conexão também com Wall Street e descobrisse que o sistema econômico global é o principal responsável por sugar os recursos que deveriam ser desfrutados pela população).

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Em todas as passeatas, fez-se presente algo preocupante, mas compreensível: a descrença na representação política, que ficou clara na recusa às bandeiras de agremiações partidárias. Um gesto de alienação e de incompreensão sobre o que é e como funciona uma democracia. Vulnerável, portanto, ao assédio de uma direita raivosa que tem saudades da ditadura. Mas é preciso ir com calma, para separar ingênuos de militantes fascistas. Como não entender que há um enorme desencanto com a política e com os políticos? Se até entre alguns militantes politizados havia essa desilusão, por que não haveria também entre os mais alienados? Mais do que impor rótulos, é preciso compreender e dialogar com esse público. Porque, além de ir às ruas, irão às cabines de votação, escolher o destino político do país.

À medida que as manifestações aumentavam em tamanho, o que começou como uma festa democrática transformou-se rapidamente em pesadelo político, pela truculência de alguns setores e pelas tentativas de manipulação. Um grande teste para saber se o país amadureceu, para descobrir se suas instâncias democráticas, a despeito das divergências políticas, saberão se unir para enfrentar aqueles que tentam agir contra os legítimos interesses do povo brasileiro, e se, finalmente, haverá poder de pressão suficiente para levar adiante reformas substanciais. O maior risco é o de a juventude e a classe média que foram às ruas se transformarem numa versão mais moderna, repaginada tecnologicamente, daquela que em 1964 marchou com Deus e a família pela liberdade e apoiou um golpe de estado.

As variáveis, no entanto, são outras. Se a Igreja Católica já não é a mesma e, politicamente, tem feito a defesa das instituições democráticas, é certo que a mídia, que em 1964 apoiou o golpe, hoje tem ainda mais poder. Passado mais de meio século, não parece haver, pelo menos até o momento, nenhuma intenção de que o país volte a esse extremo. Os setores mais esclarecidos não têm dúvida do quanto isso custou à sociedade no passado, inclusive a própria mídia.

O que parece mais provável é que boa parte dos meios de comunicação e setores mais conservadores procurem canalizar os protestos em direção apenas ao Palácio do Planalto, na tentativa de causar o maior desgaste possível, com vistas às eleições de 2014. É uma aposta arriscada. Principalmente para a mídia, que perde cada vez mais credibilidade quando se comporta como partido político.

O resultado dessa intrincada equação dependerá muito de como irão agir as mais importantes organizações sociais do país e de como os membros do Judiciário, do Parlamento e do Executivo – municipal, estadual, federal – pretendem dar respostas consistentes ao que se viu e ouviu nas manifestações.

No cenário de dramas cotidianos, um novo ator subiu ao palco. E quer um papel de destaque no desfecho dessa trama.

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Celso Vicenzi

Celso Vicenzi é jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas/SC, Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia (1985). Atuou em rádio, TV, jornal, revista e assessoria de imprensa. Autor de "Gol é Orgasmo", editora Unisul - ilustrações de Paulo Caruso. Escreve humor no tuíter: @celso_vicenzi. Para contato: [email protected]