Em quadrinhos, fragmentos da ditadura militar

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HQ jornalística surpreende por riqueza narrativa, abordagem profunda de tema complexo e esforço para resgatar militâncias pouco conhecidas à época, como a indígena e negra

Por Fabio Akira Shishito

Notas de um tempo silenciado (Edições BesouroBox: Porto Alegre, 2015) de Robson Vilalba apresenta em treze capítulos de histórias em quadrinho uma narrativa não-linear e fragmentada que é, ao mesmo tempo, envolvente e perturbadora, de uma perspectiva estética e altamente instigante, de um ponto de vista histórico ou sociológico. “É tortuoso ler a história de dentro” (p. 9), se lê logo na primeira página. O caráter arqueológico da investigação jornalística que dá origem aos quadrinhos proporciona essa espécie de imersão na história. Mas é exatamente isso que o torna perturbador. O caráter fragmentário da realidade sócio-histórica se apresenta a cada traço de cada um dos treze episódios relatados e desenhados pelo autor. A história, por isso, exige constante retorno; literalmente é preciso voltar a página e ler (e interpretar) novamente, tal como a história.

150804-notas4“Onde? Já? Civil?” (p. 12). Afinal, era golpe ou revolução? As incertezas típicas de momentos de instabilidade social ganham vozes e faces nos dois primeiros capítulos do livro. Vilalba apresenta aí em quais bases se assentam o apoio dado por parte do segmento civil ao projeto dos militares. Apoio este que ganhou expressão manifesta na conhecida “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, no encerramento da qual, narra o autor, “discursaram na praça da Sé Ademar de Barros e o carismático governador e comunicador Carlos Lacerda. Antonio Carlos Ferreira [estudante] estava orgulhoso. Tinha certeza de que lutava pela democracia” (p. 17).

Militar? Sim, era preciso militar. Mas também era perigoso. Esse é o pano de fundo de quase metade dos capítulos. As muitas dimensões da militância contra o regime de 1964 são contadas por ângulos diversos, dando centralidade a personagens diversos: o de Sonia, guerrilheira que atuou intrépida nos anos mais duros do regime; o de Osvaldão, militante na Guerrilha do Araguaia, “temido por seus inimigos” (p. 45), nos conta Vilalba, embora temesse “o inimigo invisível: o racismo” (p. 46). Ou ainda do ângulo das várias pessoas mortas e desaparecidas no interior do Brasil, representadas em uma das histórias por Antonio Oliveira, jovem de Apucarana, Paraná, morto por uma das maiores operações militares no estado e cujo corpo até hoje não foi localizado. “O que mais não sabemos sobre os anos da ditadura?” (p.67).

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Não sabemos muito, me parece, sobre o impacto que sofreram comunidades específicas, como os povos indígenas ou a população negra, cujas histórias e trajetórias em terras brasileiras são atravessadas por violências desde tempos já remotos e que, portanto, em conjunturas como a do regime militar fica(ra)m vulneráveis a uma dupla aflição. Esse certamente é um capítulo a parte (em sentido metafórico, porque o autor dedicou algumas partes a ele) das histórias do livro e, certamente, uma das grandes contribuições do projeto de Vilalba, uma vez que ainda parece senão escassas insuficientemente divulgadas as informações sobre os impactos sofridos por tais setores da sociedade brasileira ao longo dos anos de ditadura. “Para quem conviveu com o ‘preconceito civil’ desde antes da repressão militar, não foi difícil achar uma solução para afastar os ‘milicos’…” (p. 76). O movimento negro encontrava formas de resistência que passavam, antes, pela dimensão identitária. Afinal, sua luta começara alguns séculos antes.

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Ademais, histórias como a do Reformatório Krenak, espaço usado pela ditadura para prender e torturar índios em Minas Gerais, são profundamente desconhecidas. Haja vista o relato de Andre Campos no caderno suplementar. Na busca por informações sobre o presídio, diz o jornalista: “Constatei, quase sempre, que eu era o primeiro jornalista com quem ex-presos e familiares dividiam histórias de mortos, desaparecidos, torturas, trabalhos forçados, fome, prisões políticas e repressão cultural no cotidiano do presídio criado clandestinamente pela Funai” (s/n).

“Notas”, logo, tem muito a contribuir, quer para o estudo e a análise da história do Brasil, para as investigações das chamadas ciências sociais (embora a ciência, de um modo geral, se desinteresse pelas formas estéticas não usuais). Afora seu enorme potencial como material didático. Trata-se, cumpre lembrar, de uma HQ. E, se bem não seja conhecedor do formato me parece, de fato, fascinante a possibilidade de imprimir conteúdos complexos em uma única representação formal.

Vale destacar, finalmente, as páginas do caderno suplementar “Revelando o notas”. Ao final estão reunidas informações mais detalhadas a respeito de cada capítulo, suas fontes, seus tipos de pesquisa e, ainda, relatos do autor e de outras pessoas que de alguma maneira participaram do empreendimento, pesquisadores do tema, jornalistas, editores. Há, efetivamente, uma dimensão colaborativa na obra de Vilalba que o projeto (autor+editora) fez questão de trazer à tona.

Se não restam dúvidas acerca da importância da história como aprendizagem também não parece difícil assumir a dificuldade de organizar o passado (e o presente) em sua multidimensionalidade. Se essa é uma tarefa inescapavelmente arbitrária, que ela assuma a perspectiva dos oprimidos, dos asfixiados, dos dominados. É a isso que se propõe “Notas de um tempo silenciado”, afinal, as vezes parece preciso que nossas contradições sejam desenhadas.

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Fabio Akira Shishito

Fabio Akira Shishito é doutorando em Sociologia pela Universidade de São Paulo.

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