E as terapias psicodélicas podem funcionar…

Cristais de MDMA vistos ao microscópio

Cristais de MDMA (3,4-metilenodioxi-metil-anfetamina) vistos ao microscópio

Brasil pode estar entre primeiros países a tratar Estresse Pós-Traumático com MDMA, droga que deu origem ao Ecstasy. Benefícios clínicos da substância estão comprovados

Por Eduardo Ekman Schenberg


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Os neurocientistas que pesquisam o uso clínico do MDMA do Brasil estão em campanha. Precisam arrecadar, até o final desta semana, fundos para os últimos ensaios necessários à oficialização da terapia. Para contribuir, clique aqui

Vinte e dois suicídios por dia. Esta é a estatística sombria que persegue os quase 300 mil veteranos de guerra nos Estado Unidos. A maioria destas pessoas vive em um estado de sofrimento profundo e crônico conhecido na psiquiatria como Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Pacientes com TEPT sofrem de medo constante, ansiedade generalizada, têm pesadelos quase todas as noites, dificuldades para dormir, incapacidade de se relacionar afetuosamente e enfrentam as chamadas “revivências traumáticas”: quando encontram situações que os fazem lembram do trauma, revivem todo o ciclo de medo e pânico avassalador produzido pela experiência traumática original.

No Brasil, estudo da UNIFESP mostrou que 90% da população de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo já foi exposta a situações de violência impactante, como assaltos, roubos, violência sexual, abuso infantil, conflitos urbanos e guerras. E cerca de 10% destes desenvolvem TEPT. São, portanto, milhões de pessoas vítimas da violência e milhares de pacientes com Estresse Pós-Traumático, uma situação gravíssima (para mais informações sobre essa pesquisa, acesse aqui artigo científico de Wagner Silva Ribeiro e outros autores).

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Infelizmente os tratamentos disponíveis são pouco eficientes, incluindo a técnica de exposição prolongada, que requer que o paciente narre o trauma ao terapeuta toda semana, com a esperança de que assim vá se habituar aos horrores que vivenciou. Mas, em grande parte dos casos, isso não apenas não funciona como tende a piorar o quadro do paciente, que vai ficando mais e mais traumatizado com essas sequências de recordações pavorosas. Esses pacientes costumam recorrer a diversas medicações, para diminuir ansiedade, pra ajudar a dormir, para dor de cabeça, pra indigestão, etc. E ao longo do tempo os efeitos colaterais começam a surgir e agravar ainda mais a situação.

Esse quadro desalentador, entretanto, pode estar prestes a mudar. Avanços científicos estão trazendo um novo e revolucionário tratamento para o TEPT: a psicoterapia assistida com MDMA. Mas aqui preciso fazer uma pausa. Se você é versado no linguajar neuroquímico, já deve estar se perguntando: “mas, espere aí, MDMA não é o ecstasy?”. A resposta é sim… e não.

Substâncias, usos e contextos

MDMA é a sigla de uma substância psicoativa de nome 3,4-metilenodioxi-metil-anfetamina. Ecstasy é o nome popular de comprimidos que originalmente continham MDMA. Mas, ao longo dos anos, com a proibição, o ecstasy se tornou, provavelmente, a droga mais adulterada da história. Existem centenas de componentes químicos encontrados em comprimidos vendidos ilegalmente como ecstasy. E um estudo no Brasil mostrou que mais da metade dos comprimidos de ecstasy vendidos no mercado ilegal sequer continham MDMA.

Ou seja, originalmente, o MDMA ganhou o nome comercial “ecstasy”. Mas hoje, na prática, não podemos dizer que ecstasy é MDMA.

1 - Ecstasy x MDMA

Essa situação provoca uma confusão muito grande, porque muitos profissionais da saúde que veem casos de problemas em jovens que consomem ecstasy tendem a atribuir os efeitos adversos ao MDMA, mas a chance de estarem equivocados ao fazerem essa associação é muito grande.

No caso da utilização do MDMA em consultório, conforme estamos propondo, os efeitos são muito diferentes dos observados em festas, danceterias e raves, mesmo quando a substância é pura e idêntica.

Os principais riscos do consumo recreativo de MDMA são elevação da temperatura corporal e risco de desidratação. Esses riscos estão intimamente conectados ao contexto de uso, ou seja, ambientes fechados, mal ventilados, com dança contínua por muitas horas. No consultório, em ambiente ventilado e sem a atividade física exacerbada, esses riscos são praticamente inexistentes, em qualquer possível alteração desse tido que possa ser prejudicial ao paciente é fácil de detectar e controlar.

Uso terapêutico do MDMA

A psicoterapia assistida com MDMA é um modelo inovador que inclui muitas horas de psicoterapia com uma dupla de terapeutas e três sessões de oito horas com música instrumental evocativa, para facilitar emoções profundas, e os efeitos “empatogênicos” do MDMA.

2 - TEPT e MDMA

A terapia com MDMA funciona porque essa substância peculiar tem o efeito de diminuir ansiedade e medo enquanto aumenta empatia e confiança. Assim, o MDMA coloca os pacientes em um estado muito propício para a psicoterapia, pois, ao reduzir o medo e aumentar a confiança, encoraja os pacientes a irem fundo no processo de seus traumas e do seu significado emocional em suas vidas.

No cérebro, o MDMA diminui ativação da amígdala, região relacionada com o medo, e aumenta ativação do hipocampo e do córtex frontal, áreas relacionadas com memória e raciocínio. Assim, o MDMA facilita a evocação das memórias do trauma, diminui fortemente o medo e o receio de abordar o assunto faz com que os pacientes possam ressignificar a memória do trauma, desassociando-a do medo pavoroso que antes sentiam a cada vez que se lembravam ou narravam o trauma.

É um tipo de tratamento que, além de mais eficaz, implica menores riscos de efeitos colaterais comparado com os métodos tradicionais, que em geral incluem uso contínuo e prolongado de psicoativos, enquanto a utilização do MDMA se limita a apenas três sessões.

Os dois primeiros estudos científicos publicados mostraram que 83% dos pacientes de TEPT até então considerados intratáveis não preenchiam mais os critérios do transtorno no final do tratamento com MDMA, contra 25% no grupo placebo, que passou pela a mesma terapia, mas sem a substância. E a melhora no grupo que tomou MDMA continuava nos mesmos patamares quando eles voltaram a ser avaliados quatro anos depois de passarem pela terapia. Esse potencial de cura para o TEPT foi considerado “espetacular” pela revista científica mais importante do mundo, a britânica Nature.

3 - cronologia MDMA

Chance de trazer para o Brasil

Com o intuito de ajudar a começar a curar os traumas que assolam nossa sociedade e produzem grande sofrimento em milhões de pessoas, fiz parceria com a MAPS para trazer esta pesquisa ao Brasil. Juntamente com um grupo qualificado de colegas pesquisadores que se prontificaram a participar do trabalho – entre eles, Sidarta Ribeiro, (UFRN), Luís Fernando Tófoli (Unicamp) e Dartiu Xavier da Silveira (Unifesp) –, tenho como objetivo regulamentar a psicoterapia assistida com MDMA até 2021. Quando chegarmos lá, teremos regulamentado não somente a primeira terapia psicodélica do mundo, mas o primeiro medicamento da história feito por entidades sem-fins lucrativos.

A MAPS já tem cerca de 20 milhões de dólares para investir no que se chama estudo clínico fase III, a última etapa na sequência de pesquisa que leva à regulamentação de um medicamento farmacêutico. E esta etapa vai começar em 2017 nos EUA, Canadá, Suíça, Israel e – se tivermos sucesso no nosso esforço – também no Brasil.

Mas para que isto aconteça por aqui, precisamos primeiro fazer em 2016 o que chamamos “estudo piloto”: um pequeno ensaio com quatro pacientes. Para isso já temos aprovação da CONEP, órgão do ministério da Saúde que autoriza e controla estudos clínicos no Brasil. Para viabilizar o estudo piloto precisamos de 100 mil reais, e a MAPS nos ofereceu 15 mil dólares caso levantemos o resto dos recursos no Brasil.

Por isso lançamos uma campanha de financiamento coletivo (crowdfunding) para arrecadar 50 mil reais até dia 21 de dezembro. Quando atingirmos a meta de R$50 mil teremos nosso orçamento dobrado pela doação da MAPS, que ainda vai nos doar o MDMA para o estudo.

É uma oportunidade de ouro, e convido todos os interessados a visitarem o site de nossa campanha, fazerem suas contribuições e divulgarem para todos os conhecidos que também possam se interessar: catarse.me/mdma

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Eduardo Ekman Schenberg

Eduardo Ekman Schenberg é neurocientista com mestrado na UNIFESP e doutorado na USP trabalha com novas possibilidades terapêuticas em psiquiatria, incluindo o uso da ibogaína no tratamento da dependência química. Fez pós-doutorado no Imperial College London.

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