Democracia sob o signo da Idade Neobarroca

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Eleições 2016 marcam a política reduzida ao estético e ao espetacular. Análise de dois casos: o ramake cearense e o simulacro paulistano

Por Fran Alavina | Imagem: Andrea Pozzo: Apoteose de Santo Inácio (1694)

Na obra A Idade Neobarroca, o pensador italiano Omar Calabrese aponta que os tempos atuais podem ser chamados de neobarrocos, mais precisamente pelo caráter do excesso e do desmedido que dão à forma em que as coisas são apresentadas e apreciadas, não importando suas diversidades e diferenças, de tal modo que estas diferenças, que seriam os limites entre âmbitos diferentes, são desfeitas. Tudo se torna “aparentado”, próximo, pois tudo é visto e sentido da mesma maneira: excessiva e desmedidamente. Ocorre um estado permanente de excitação, tal como se nos deparássemos com uma imensa pintura barroca, daquelas feitas nos tetos das igrejas, em que não sabemos bem onde terminam as colunas e onde começa a pintura. (Como exemplo, indicamos consultar as peças pictóricas de Andrea Pozzo e Pietro da Cortona). O excessivo, o desmedido, o espetacular, e o estado de excitação desenfreado que caracterizam as formas artísticas do barroco histórico, segundo Omar Calabrese, agora são os aspectos mais característicos de nossa sociedade. Aqui, nosso leitor pode perguntar: mas qual a relação entre as características do barroco histórico e a política, mais precisamente as campanhas do pleito municipal de 2016? A resposta desta indagação se fará neste texto e num próximo. Analisaremos dois casos distintos, mas aparentados. Aqui, trataremos do pleito de Fortaleza (o remake cearense). Em seguida, debateremos a eleição em São Paulo (o simulacro paulistano).

Antes de passarmos aos casos, tenhamos ante os olhos que o estético e o político se ligam por laços internos e fortes, que se estreitam cada vez mais. Não em virtude de uma politização do estético, mas sim de uma estetização do político. Objetos e esferas da vida se estetizam, não porque as coisas tornam-se artísticas, mas por estarem submetidas ao caráter especular e imagético criados pelas formas do entretenimento e dos simulacros midiáticos. Esta estetização que começou à direita, também passou à esquerda, sem que esta última fizesse uma crítica consistente dos riscos de assumir as novas formas de estetização do político. Como veremos, um destes efeitos será o avanço do derretimento das identidades de classe social, que permitem, que aos poucos, a classe trabalhadora vá desfazendo seus vínculos históricos com os partidos de esquerda. Ao ponto de hoje, identificarmos como núcleo forte dos partidos à esquerda, não a classe trabalhadora, mas sim a classe média, como demonstrou, por exemplo, o mapa dos votos na capital paulista.

Tal ocorre, pois, estes dois âmbitos, o estético e o político, comportam uma passionalidade não encontrada em outras esferas da vida. Ora, os teóricos do barroco histórico mostram que a busca pela suntuosidade e o excesso que criavam a espetacularização do desmedido eram respostas no campo artístico à crise política que se seguiu para a igreja católica após a reforma protestante. Com efeito, agora, tal como neste caso, os excessos e o turvamento dos limites também é uma resposta a uma crise de sentido mais ampla a que assistimos. Trata-se da crise da política, ou melhor, da sua negação como campo dotado de determinações próprias.

Uma falta de um lado é preenchida pelo excesso de outro. Ocorre que este estado excessivo, por ser, de fato, grandemente excessivo demanda o uso da repetição. Imitações, a visão contínua do mesmo. Isto é, o aparecimento de cópias que podem trafegar pelos mais diversos âmbitos: das artes às ciências; do esporte à política. É o jornalista esportivo que apresenta seu programa como se fosse um show de humor, ou o pastor que vende sua fé como o empreendedor que vende seu produto como a última marca do mercado. Um que imita outro; outro que imita um, sem sabermos em que momento a série repetitiva das cópias se iniciou. Estas cópias, estas imitações são aquilo que se pode denominar de forma remake: o mais do mesmo, em que a diferenciação entre a cópia e o original não conta mais como caráter qualitativo. No campo político esta forma remake apresenta-se sobre um duplo aspecto: i) trata-se da degeneração da política em sua imagem artificial mais imediata, ou seja, a cooptação da política pela publicidade; ii) a dificuldade de criar algo, de fato, novo que rompa com os modelos estabelecidos e já sucateados. Quando o novo não pode ser dado pelo conteúdo é assumido apenas como forma. Vejamos este duplo aspecto, primeiramente, no caso de Fortaleza.

O candidato de Fortaleza: chefe de família, homem da lei

TEXTO-MEIO

O primeiro turno do pleito municipal de Fortaleza, talvez, tenha nos mostrado as maiores expressões de como as formas remakes oriundas da cultura pop podem ser assumidas pela parafernália da publicidade política: sem maiores constrangimentos e por aqueles que são apoiados pelas velhas oligarquias que comandam o estado do Ceará desde a redemocratização do país.

O candidato que mais assumiu as formas remakes foi o Capitão Wagner, que agora no segundo turno pelejará com Roberto Claudio, este último candidato à reeleição. Em segundo plano, os dois nomes são expressões de como a política no Ceará parou no tempo, oscilando como um pêndulo entre os dois maiores grupos políticos do estado: Jereissati e Ferreira Gomes. Ambos, a despeito do papel que o maior nome dos Ferreira Gomes desempenha nacionalmente neste momento contra o golpe, agem com táticas oligárquicas e práticas coronelistas.

A imagem propalada aos quatro ventos da terra do humor encoberta, como cortina de fumaça, uma sociedade que ainda não conseguiu se desfazer de suas velhas e arcaicas formas de sociabilidade. Regida pelo autoritarismo, pois violenta e desigual, dirigida pelo arbítrio da parcela populacional que habita a Aldeota e seus arredores; e, que sempre alijou da política a periferia da cidade. Tais aspectos são disfarçados pela cumplicidade dos apadrinhamentos. Ela cria a ilusão, particularmente no pleito municipal, que independentemente da posição e da classe social todos são próximos: tanto que podem rir juntos e das mesmas coisas. Um simulacro potente que transforma o riso em forma do discurso social acobertador das diferenças de classe e das violências simbólicas, e que por princípio transforma a revolta social em um natimorto, pois poderia haver maior diferença entre o estado passional do sorridente e aquele do revoltado? Tal é a singularidade do discurso ideológico cearense que se produz e se reproduz na busca de uma identidade local. Deixar que as coisas se apresentem sempre na forma da comédia, no Ceará, tornou-se um instrumento de poder difuso para não encarar de frente suas próprias tragédias.

Talvez por isso, pela potência desta imagem vendida como a mercadoria de ponta do setor turístico, os remakes do Capitão Wagner foram encarados mais sob a forma do riso, do que pela seriedade que demandam. Com efeito, o capitão sempre que possível, aproveitando a piada pronta do seu “nome fantasia”, apareceu nos atos públicos da sua campanha vestindo uma camisa com o símbolo do personagem capitão América. Visual descolado, que ao mesmo tempo em que o deixa “moderninho”, também deixa transparecer aos seus eleitores a figura do herói.

O remake cearense do herói norte-americano, embora cafona, é poderoso. Uma vez que não se trata de um “herói” distante da realidade, pois, neste caso, a fantasia e a imaginação são chamadas a operar sem distinção entre o real e o fantástico. Trata-se de um heroísmo “próximo do povo”, pois o signo da vestimenta faz dupla publicitária com o discurso do pai de família exemplar, ou como ele mesmo se definia: “o pai da (…) e do (…)”. Atrás destes signos escondem-se velhos mecanismos. Seus superpoderes estão ao alcance de todos que já estejam inseridos no ideal patriarcal das células sociais: ser bom marido, prover a casa e educar bem os filhos. Ademais, a isto se adere as “virtudes militares” da disciplina e da coragem. Supostas virtudes privadas, qualidades pessoais, que o candidato levará para o comando da cidade, instaurando a ordem e estabelecendo a lei. Pode haver algo mais consonante com o coronelismo do que estes aspectos? A instauração do “bom ajustamento social” não por força e vitalidade das instituições democráticas, mas pelas qualidades pessoais. Personalismo neste caso é apenas mais um adjetivo para coronelismo. Esta forma social só tem espaço onde a vida democrática é baixa, exaurida apenas na forma eleitoral, uma vez que se trata da suposição de que o indivíduo está acima das instituições, e que essas só são bem reguladas pelas qualidades e forças de um só.

Imitar e simular um quadro de TV em que o capitão conversava com seus eleitores a quem dera carona no que carro em que ele mesmo dirigia foi apenas a “cereja do bolo” de seus remakes mais óbvios. Embora diversos, o expediente é sempre o mesmo: desfazer qualquer resquício de autoritarismo da sua figura, para apresentá-lo sob a figura do homem sério, porém não ranzinza. Afinal, em terras onde o riso é uma ideologia, ser ranzinza é o que de pior pode ser feito para manchar uma imagem pública. Trata-se de usar tais recursos para expor o capitão (América) Wagner como a figura do novo político. Neste prisma o capitão é um caso clássico do remake político hoje: novo nome, velhas práticas.

Além destas formas remake mais aparentes realizadas pelo marketing e a pela publicidade política há algo de histórico-social que se condensa nas figuras e candidaturas do segundo turno em Fortaleza. As contradições histórico-sociais de uma cidade parecem surgir sem precedentes nos pleitos municipais. Por isso, a indagação: estaríamos ante uma nova versão daquele secular coronelismo cearense que agora ressurge justamente quando se consolida a imagem de Fortaleza como metrópole? Isto é, trata-se de um choque entre o velho e o novo?

É preciso retroceder um pouco na história. Fortaleza, desde que se consolidou economicamente como porto de exportação da produção algodoeira – isto é, desde a segunda metade do século XIX – sempre buscou afirmar a imagem de cidade moderna, sem um passado colonial forte, fadada ao futuro e em sintonia com o mundo. Nesse período inicial, uma cidade aburguesada e cultivadora de hábitos franceses. Portanto, apartada e se concebendo como superior ao interior do estado, sempre considerado atrasado e de gente supersticiosa. Desse momento em diante, Fortaleza sempre esteve cindida entre a imagem que produz de si e propala para fora do estado e a imagem que se construiu a partir de sua relação interna com o restante do estado. Desse modo, o discurso moderno sempre esteve atrelado ao discurso da cidade insurgente e libertária que expulsou na bala a oligarquia dos Accioly.

Embora o discurso da cidade moderna enalteça este aspecto político insurgente, o processo modernizador da cidade, internamente, foi tão violento quanto as formas oligárquicas. Era a modernidade que não permitia pobres e pedintes nas ruas da cidade, e que mandava construir campos de concentração para os retirantes que chegavam do interior do estado tangidos pela seca.

Neste pleito de 2016, Fortaleza expressa seu excesso neobarroco ao juntar estas duas formas violentas que atravessam sua história: o coronelismo como forma de sociabilidade premente e a modernização como discurso identitário da cidade. Isto suporta uma contradição especular que de um lado traz a modernização e o ideal libertário e de outro o provincianismo e o autoritarismo. Esta talvez seja a contradição interna constituinte que mais caracteriza a cidade de Fortaleza em sua formação histórica. Todavia, estes pares opositivos apresentam, como já dissemos, algo de comum: a violência intrínseca. Se o coronelismo é violento, posto que deposita a solução dos conflitos na figura do chefe patriarcal e militar; o processo de modernização é tão autoritário quanto, pois sempre imposto de cima para baixo. Dirigido por aquela porção social que o escritor Jader de Carvalho desnudou no romance social Aldeota, a elite é o sujeito narrador deste discurso modernizador. Discurso modernizador que permanece na longa duração da história da cidade, e agora é encarnado pelo atual prefeito e candidato à reeleição, em seu projeto de cidade repleta de viadutos e túneis futuristas, avenidas longas e largas. Uma cidade que em sua imagem autorreferencial apaga a existência da periferia, pois toma como imagem decisiva a livre circulação entre os bairros da Aldeota e do Papicu.

De um lado a violência do autoritarismo de um coronelismo difuso, agora com ares de novo; do outro lado, a violência de uma modernização imposta, em que a população assiste à montagem de um simulacro de cidade. Assim, Fortaleza está diante de uma encruzilhada dolorosa, pois para qualquer um dos dois lados em que se mova nesta eleição cairá em um remake violento: remake de coronelismo, remake de modernização. Há de se perguntar: em que espelho de um passado recente ficou perdida a imagem da Fortaleza insurgente? Poderá a cidade forjar um novo discurso e uma nova imagem para repensar seu futuro depois da tragicidade das eleições de 2016? Quais serão os sujeitos capazes de forjar o novo discurso que faça frente aos discursos referenciais e violentos da modernização e do coronelismo? Por fim, por quais motivos este discurso não foi forjado, ou não ganhou corpo até hoje?

TEXTO-FIM
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Fran Alavina

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da USP. Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela Universidade Federal de Ouro Preto, UFOP.