César Benjamim, dinheiro e mercados

Em sua primeira coluna quinzenal na Folha, o rigor, a erudição e capacidade de instigar dos bons tempos

O texto com que o economista e editor César Benjamin inaugurou, neste sábado (23/2), sua coluna regular no jornal de maior circulação do país contrasta com a frivolidade à qual a mídia se entrega um pouco mais, a cada dia. Disposto a debater os solavancos recentes das finanças mundiais, César propõe duas hipóteses de longo alcance: a) um sistema monetário internacional baseado na hegemonia de uma única moeda, controlada por um único Estado-Nação, será crescentemente inviável. A instabilidade do dólar só tende a se agravar; b) a existência da moeda, do comércio e da própria economia como um terreno autônomo é algo datado historicamente — que pode (e deve) ser revertido. Durante milênios, os atos de “produzir, trocar e adquirir (…) existiam apenas embutidos em uma ampla rede de instituições e compromissos, sociais e políticos, que lhes conferiam sentido e lhes impunham limite”. A “libertação” da economia, ocorrida há poucos séculos, e a partir da Europa, deu-lhe (à economia) poder para impor sua lógica sobre todos os demais domínios da atividade humana.

A segunda hipótese inspira-se, evidentemente, na teoria de alienação de Marx. Mas em seu breve artigo, César parece sugerir que a existência de uma esfera econômica autônoma é algo intrinsecamente mau — o que coincidiria com as idéias de certo catolicismo de esquerda. É como se o surgimento dos “indivíduos livres”, que marca o início da modernidade, não fosse algo positivo; ou como se devêssemos lamentar o fato de tais indivíduos poderem produzir, criar e trocar sem se submeter a poderes como os do senhor feudal, da Igreja, do clã, da família ou da comuna primitiva.

O tema é importantíssimo não tanto para discutir o passado, mas principalmente para a tarefa que o próprio César enuncia, com brilhantismo, ao final de seu texto: encontrar uma forma para “religar a economia ao mundo da vida” — ou, em outras palavras, para superar o capitalismo. A pergunta é: por que caminhos? Reinstituir a submissão dos indivíduos a estruturas hierárquicas (por, exemplo, o partido ou o plenejamento econômico controlado por ele, na experiência do “socialismo real”)? Ou superar os limites do indivíduo oferecendo-lhe a possibilidade de estabelecer múltiplas redes de solidariedade, por meio das quais ele se torna capaz de compreender e transformar cada vez mais profundamente o mundo?

O texto de César está em nosso clip de hoje.

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.

Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras