Cartas da Guanabara: Parada complicada

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“Você se diz tudo bem, o próximo deve ônibus passar logo, mas descobre que ‘logo’, no Rio, é advérbio de tempo indefinido e pode significar tanto em 3 quanto em 300 minutos”

Por Daniel Cariello

Então você se muda para o Rio de Janeiro e decide que vai levar uma vida sem carro, essa praga da modernidade que nos fecha em casulos quase individuais, nos isola da realidade e nos afasta do convívio das pessoas nas ruas. Muito satisfeito da decisão, empina o peito e sai em direção ao Largo do Machado, enfrentando a turba que inunda a Rua das Laranjeiras, desviando de cachorros, gatos, bicheiros, bancas de revistas, vendedores ambulantes, seguranças das Lojas Americanas, crianças, adultos, velhos, estudantes, executivos, vagabundos, sonhadores, filósofos, escritores.

Você chega à parada de ônibus e até assovia uma canção, orgulhoso do seu papel de cidadão consciente. Vê passar um, dois, quatro, nove, quinze, vinte e oito coletivos e nenhum parece ir onde você quer, apesar de ser logo ali. Você aborda um senhor de bermuda, havaianas e bigode parado ao seu lado e pergunta se ele sabe que horas passa o transporte para tal lugar e ele responde que não faz a menor ideia porque na verdade ele não vai pegar nenhum, só está ali fazendo hora e aproveitando da sombra da árvore pois o sol está mesmo de rachar hoje. Questiona então um casal com um filho no colo e outro no carrinho se eles saberiam informar mas eles só conhecem o que vai para o Cosme Velho e essa informação não te serve de nada pois você não vai para o Cosme Velho. Você agradece e descobre com um certo espanto que no lugar do segundo filho, no carrinho, não há um bebê, mas um poodle. Decide então consultar um motorista que parou ali para pegar passageiros e ele te informa com um sorriso amplo que o seu carreto, meu filho, não vai passar ali nunca, pois o ponto dele é outro, virando à esquerda.

TEXTO-MEIO

Você espera o sinal abrir para atravessar a rua e ir à esquerda e vê um ônibus passando todo pimpão, quase flutuando sobre a rua, como em um anúncio de carro de luxo, um letreiro reluzente mostrando em destaque o bairro para onde você vai. Você quer atravessar correndo para chegar a tempo, mas vem um carro, você volta, espera ele passar e tenta novamente, mas uma moto em alta velocidade te desencoraja, você vê nova brecha, toma impulso e sai em disparada, com todo mundo te achando muito estranho porque o sinal já estava para pedestres e o pior é que apesar desse mico não consegue chegar a tempo de pegá-lo. Você se diz tudo bem, o próximo deve passar logo, mas descobre que logo, no Rio de Janeiro, é um advérbio de tempo indefinido e pode significar tanto em 3 quanto em 300 minutos.

Você vê passar coletivos que vão para bairros que nem imaginava existir, vê passar o 178, o 570, o 434, o 309, vê passar na sua cabeça combinações para a mega sena com esses números e vê passar direto o que você esperava, que não parou ali porque ninguém acenou, maluco, queria o quê, brother, te explica o marombado com quem você se queixou sem nem se dar conta.

Você se enche, promete que da próxima vez vai se informar melhor antes de sair de casa e acena para um táxi. De repente, percebe-se muito feliz de estar isolado da realidade naquele automóvel tinindo de novo. Uma praga da modernidade, mas com um ar condicionado funcionando que é uma beleza.

TEXTO-FIM

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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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