Baixou Oxóssi na clínica de psicanálise


Ou: o que aprendemos em dois anos de atendimento psicanalítico não mediado pelo dinheiro, nem pela “dádiva” – mas pelo axé

Por Daniel Guimarães (texto, desenhos e foto)

Há poucos dias completamos dois anos de Clínica Pública de Psicanálise na Vila Itororó Canteiro Aberto, em São Paulo. É um feito enorme e podemos falar assim sem nenhum constrangimento. De lá para cá o número de analistas, supervisores, artistas e analisandos aumentou um bocado. Criamos uma metodologia processual para a entrada de novos integrantes, ampliamos nossa relação com o espaço público que é este centro cultural e com a comunidade do bairro. Pudemos pensar com profundidade sobre questões estruturantes do trabalho e verificar se apostas que fazíamos se sustentaram ou se precisaram ficar para trás. Pudemos lutar para que o espaço do centro cultural sobrevivesse a mudanças de gestão e, assim, ganhamos tempo para, com calma, rever pontos e criar outras situações de trabalho analítico no espaço.

Acreditamos que fazemos parte da boa tradição da psicanálise: a tradição re-inventada constantemente a partir das situações que encontramos. E não aquela tradição menos cooperativa, em que médicos ou psicanalistas intelectuais decidem como vai ser a forma de o atendimento acontecer e os pacientes que se adaptem a ele.

Antes de continuar este texto e no espírito de compartilhar aqui no Outras Palavras o acúmulo de conhecimento que vamos experimentando, acúmulo coletivo que, ao ser permanentemente exposto, torna possível que essa construção envolva mais pessoas e continue, copio um post que fizemos nas páginas da Clínica e da Vila no Facebook:

TEXTO-MEIO

Quem faz parte da Clínica Pública de Psicanálise?

A palavra “pública” está em disputa. Cada pessoa em seu grupo social tem um entendimento, ou incertezas, sobre ela. Buscamos trabalhar uma noção de Público ampliada, mais democrática possível, na compreensão do que é direito de todos e todas. E, por consequência, na compreensão de que os direitos devem ser produzidos pelas próprias pessoas. Para isso é muito importante compartilhar os entendimentos sobre nosso próprio trabalho, organização, os métodos e suas transformações a partir da prática e assim por diante. Isso inclui contar quem faz parte da Clínica.

A Clínica é composta por psicanalistas e artistas. Ela é coordenada por Dafne Melo, Daniel Guimarães, Frederico Ventura e Graziela Kunsch. Integram também a clínica as e os psicanalistas Ana Carolina Vasarhelyi de Paula Santos, Camila Bassi, Camila Kfouri, Daniel Modós e Fernando Pena. Breno Zúnica, Manuela Ferreira e Veridiana Dirienzo são os recepcio-analistas em processo de entrada na Clínica, as pessoas que organizam o trabalho no plantão, de carne, osso e afetividade, que recebem as pessoas que nos procuram. Os acompanhamentos coletivos dos casos, também chamados de supervisões, são feitos por Heidi Tabacof, Maria Silvia Bolguese, Maria Marta Azzolini e Maurício Porto.

Nosso intuito é que o sofrimento psíquico individual e coletivo possa ser reconhecido, legitimado e que a psicanálise possa estar a serviço de todos e todas, como um direito. Não apenas como forma de terapia, mas também um conhecimento acessível para ser praticado pela ampla maioria da população hoje excluída desse saber tão pouco democratizado.

Clínica Pública de Psicanálise

#SaúdePsíquicaComoDireito #SaúdeNãoÉMercadoria

Saúde psíquica como um direito. A psicanálise como não-mercadoria. Pensar sobre os efeitos do dinheiro é uma longa empreitada num trabalho psicanalítico que se coloca como instrumento de transformação. O dinheiro é uma representação de valor incerto, abstrato. Não há uma medida adequada que estabeleça sua significação nem material, nem emocionalmente. É preciso falar, ou comunicar de outras formas, para compreender o que é atribuído a ele. Sabemos, no entanto, que é objeto e fonte de investimentos libidinais; é instrumento central na organização das relações sociais na qual cada novo indivíduo da espécie é inserido, de uma forma ou de outra; empresta seus muitos significados como metáforas da própria construção das relações de aproximação, distanciamento, controle ou apassivamento, com outras pessoas da espécie; serve de metáfora para dimensões do desenvolvimento sensorial-psicossexual do sujeito. Vale a leitura de Sándor Ferenczi, no texto Ontogênese do interesse pelo dinheiro e, claro, Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de Freud. O dinheiro, que representa simbolicamente toda uma construção social, coloniza nosso inconsciente e impõe limites variados nas perspectivas de sonhar. Ou instiga a sonhar. Mas de que sonho se trata? Impossível trabalhar essas questões quando naturalizamos a relação libidinal mediada pelo dinheiro. Corremos igualmente um risco se decidirmos não lidar com essa questão, se apenas tiramos o dinheiro da frente, quase como fingindo que não existe. Ou, se formos mais ingênuos, se pensarmos no dinheiro apenas como morbidez e não, também, como condutor de desejo, potência e qualidade de vida. A ausência de dinheiro é quase sempre, para não dizer sempre, fonte de sofrimento, isolamento, frustração e adoecimentos variados. Corremos sério risco se pensarmos no mercado apenas como lugar de alienação e não como feira de troca e encontros. Esta é uma questão delicada que nós, de esquerda, não podemos resolver com slogans.

Esta é a encruzilhada em nos situamos ao pensar a psicanálise não mediada diretamente pelo pagamento em dinheiro, sob o horizonte da construção de uma forma pública de vida coletiva, a partir de outras modalidades de troca. Como trabalhar os efeitos psíquicos do dinheiro na relação analítica em análises cuja medida de valor não está centralizada no dinheiro? Que fantasias são disparadas a partir disso? Qual o suporte do desejo do analista que oferece seu tempo, sua escuta e seu mundo interno? Qual a fantasia do analisando sobre o analista? Que outros gastos – transporte, por exemplo – estão inseridos nesse trabalho que ainda muito timidamente podemos chamar de público?

Nos parece que, aos poucos, poderemos contar o que descobrimos. Por ora, é muito cedo. Temos apenas a responsabilidade de justificar nossa aposta e, como dito desde o começo do texto, contar as boas e más experiências e seguir pensando a respeito. A respeito do nosso desejo político de produzir essa situação de psicanálise em que o dinheiro não é condição para que o trabalho se inicie logo será publicado aqui um texto de Dafne Melo, psicanalista da Clínica Pública de Psicanálise. Não é algo novo, como provam as experiências de clínicas gratuitas de psicanálise das décadas de 20 e 30, tema para outros textos. Embora estejamos sob uma diferença muito radical de conjuntura entre as clínicas da Europa pós-guerra dos anos 20 e 30. Naquele momento as clínicas públicas se beneficiaram, ou mesmo tiveram de existir para acompanhar a atmosfera política, cujo pano de fundo era o surgimento do Estado de Bem-Estar Social com socialistas e a social democracia no poder. Hoje nossa experiência surge em meio ao capitalismo financeiro mais do que avançado, fora da Europa, no Brasil selvagem pós-golpe e desmantelamento do pouco que se ergueu na já paupérrima vida pública. A prática de clínica pública psicanalítica aqui e agora adquire outro peso e forma: de resistência e proposição muito mais do que o acompanhamento do espírito geral da época.

Nossas diferenças culturais também devem ser levadas em consideração. Nas experiências populares de saúde comunitária, que trabalham com noções de cuidado psíquico há muito tempo, procuramos referência e inspiração.

Vejam o exemplo do Ilê Omolu Oxum, no Rio de Janeiro de Mãe Meninazinha, citado por Ricardo Oliveira de Freitas, no texto Quando o voluntariado é axé:

“O terreiro inicia o trabalho voluntário através da instalação de um consultório médico para atendimento da população do entorno. Mãe Meninazinha percebia a carência de hospitais e postos médicos na região. Na década de 1980, dois filhos-de-santo médicos iriam se integrar ao terreiro. Mãe Meninazinha pergunta-lhes se poderiam oferecer um dia por semana para o atendimento médico gratuito de seus filhos-de-santo e vizinhos. Eles aceitam. Assim, manda construir um pequeno consultório que funcionou até a primeira metade de 1990. (…) Por fim, com a ajuda de uma cliente (pessoa que tem estreita ligação com o terreiro, mas que não é iniciada) e de um filho-de-santo, psicólogos, cria o ‘trabalho de atendimento psicológico’. O Conselho Regional de Psicologia se opõe à ideia de atendimento psicológico dentro do espaço religioso e resolve interditar a continuidade do projeto – o que renderá muitas matérias em jornais e televisão sobre a legitmidade da oferta de tais serviços em instituições religiosas. Uma delas, sob o sugestivo título ‘Baixou Freud no terreiro’, ocupou página inteira do jornal O Dia, no ano de 1988. O terreiro, entretanto, conseguiu a legalização através do registro no Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro.”

Pude começar a entender por que para mim foi superada a ideia de “dádiva”, na medida em que percebi que o princípio importante nesse trabalho é a troca. A “dádiva” surge como conceito a substituir o risco de uma análise não condicionada pelo pagamento dinheiro gerar uma “dívida” do paciente com seu generoso analista. Uma relação complicada, que não apontaria para a independência, mas uma sutil submissão. A “dádiva”, portanto, não é o suficiente para o que pensamos aqui na Clínica Pública de Psicanálise e assim chegamos ao princípio da troca que, nas palavras de Ricardo de Freitas, é “mesmo um estatuto de permanência nos terreiros. A troca do axé (energia, princípio vital) pode ser verificada com muita frequência no dia a dia dos terreiros — quer seja no plano ritual, quer seja no plano mundano (beijar a mão, bater a cabeça, receber o sangue dos sacrifícios, trocar a água dos vasilhames, realizar oferendas etc.). Essa ideia de princípio de trocas é, desse modo, simbólica. Porém, para que se verifique, utiliza-se também de bens materiais. E essa inclinação para as doações e recepções — tanto no plano espiritual quanto na vida material — foi o que fez dos terreiros pólos de oferta de trabalhos em prol do desenvolvimento social; que incluirá, entre outras propostas, o trabalho voluntariado.”

Sobre axé, podemos bem trazê-lo conceitualmente para algo próximo do que é a libido para a psicanálise. Nesse sentido, e falo sobre minhas próprias sensações ao atender na Clínica, há uma mutualidade nessa troca que produz algo novo para os participantes: um encontro engajado, baseado em solidariedade (e não caridade) num espaço público. “Sobre o sentido de solidariedade, Mãe Meninazinha”, do Ilê Omolu Oxum, no Rio de Janeiro, escreve Ricardo Oliveira de Freitas, “lembra que “egbé” (comunidade-terreiro) é sociedade, conjunto de filhos, integração dos filhos… É o nosso contexto. Espaço que nos integra. (…) Quando realiza obrigações para as divindades e fiéis, acredita que está fazendo um trabalho de ajuda mútua. Afinal, quando ela passe axé (energia) para alguém está recebendo axé também: “Me fortaleço, fortalecendo meus filhos-de-santo”.”

Troca de afetos em um espaço público e comunitário. Assim como o dinheiro e o arranjo de trabalho liberal não são neutros num trabalho analítico e em fantasias inconscientes, o espaço público também parece não ser. Além disso, não é incomum que analisandos da clínica ofereçam coisas aos analistas, em troca de sua escuta e presença. Batatas plantadas por uma analisanda, livros, chocolate, até mesmo a relação com o tempo. O compromisso com o horário combinado em comum, por exemplo. O tempo é um grande substituto do dinheiro nesse arranjo, no sentido de que revela muito das circunstâncias do envolvimento da pessoa com sua análise, da relação com o/a analista e mesmo a relação com a instituição. Coisas que às vezes o pagamento em dinheiro pode fazer calar surgem como conteúdos específicos daquela pessoa. Nenhum presente-troca é igual a outro, assim como não é igual a relação da criança e seu corpo, o que ele produz, e como ela oferece essas produções a seus cuidadores. O dinheiro também não o é, mas é mais comum não pensarmos sobre o valor específico daquele pagamento aparentemente igual a cada mês.

E nessas experiências cruzadas pude elaborar em mim a diferença muito grande do princípio da dádiva, que traz consigo a possibilidade delicada de o analista fazer de seu analisando uma espécie de pessoa em dívida com sua própria bondade, para esta outra posição de solidariedade e de troca, reconstrução do desejo de viver relações não colonizadas pelo dinheiro, seguir desejando outro mundo sem negar este que aqui existe. Pude perceber como é importante que as pessoas da classe trabalhadora possam, mais do que ser atendidas, se tornar analistas e ganhar sua vida com esse trabalho sem o fardo do idealismo. E, assim, é possível, neste momento histórico, fazer possível igualmente o arranjo da psicanálise em contextos públicos sem demonizar os consultórios particulares. No futuro próximo, quem sabe, poderemos disputar orçamentos para que psicanalistas sejam remunerados pelo conjunto da sociedade, sem que os analisandos paguem a análise diretamente. Psicanálise tarifa zero. Saúde é algo coletivo, não apenas individual.

Nas palavras de Mãe Beata d’Iyemanjá (Ilê Omi Ojuarô – casa da água dos olhos d’Oxóssi, Nova Iguaçu), ainda citando Ricardo Oliveira de Freitas, “ninguém merece caridade no terreiro”. “Não existe o plebeu, todos nós somos iguais e temos direitos adquiridos” para dar e receber ajuda (mútua). Seja pobre, seja rico. Solidariedade, segundo ela, é diferente. Por isso, diz que tem privilegiado criar redes de solidariedade e parceria, ao invés de somente dar, ofertar e distribuir bens’”.

TEXTO-FIM
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Daniel Guimarães

Integrante da Clínica Pública de Psicanálise, editor do site TarifaZero.org e ex-militante do Movimento Passe Livre. Nascido em Florianópolis, mora há dez anos em São Paulo