As novas Citações de Airton Paschoa

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Faço saber, a quantos interessar possa desse povo marchista, posadista e demais sem-chão, que andam perdendo praia. Outro mundo é possível, mas é bem pouco provável

Por Airton Paschoa


Citações, de Airton Paschoa
Lançado em 8/12, a partir das 19h, no espaço de Outras Palavras.
Rua Conselheiro Ramalho, 945 – Bixiga – S.Paulo (veja mapa)
O autor, que já publicou Contos Tortos, Dárlin, Ver Navios, Banho-Maria e Poemitos oferece antecipadamente, em Outras Palavras, trechos da obra. Esta é a quarta parte. Leia também a primeira, a segunda e a terceira partes.

Senhor presidente, onde desovar o sêmen sedento hoje o homem honesto e devoto da rês pública? Freqüentar república de amigos duvidosos se prova temerário. Comparecer a churrascarias humanas fere os mais elementares princípios do decoro republicano. Descer a palhoças, suspeitamos que não o fazem nem as autoridades sanitárias.

O remoçamento geral, senhor presidente, o remoçamento dos homens, dos costumes, da Nação, não se logra, via de regra, senão cutucando, perdão, cultivando a boa tradição da terra. Noutras palavras, globalização tem limite, presidente, e quem no-lo dá é a casa de tolerância!

Em vista do exposto, apelamos para Vossa Excelência no sentido de envidar esforços totais, orçamentários e totalitários, a fim de prover o corpo social, de cabo a rabo, desta bela estância que um dia possuiu o pau-brasil — BORDÉIS DECENTES, logradouros apropriados ao livre e suserano (sem prejuízo do suberânus, Excelência, outrossim gostoso) exercício do poder com ph, senhor presidente, prática esta que se deve pautar pelo respeito à mais primeva e veneranda instituição do copulismo nacional, a saber, a insinuação… arte de tocar os sinos, se me é lícita a licenciosidade poética, sem escancarar a capela. Isto porque o nu e a ação em si, Excelência, podem ficar perfeitamente bem, trancada a porta e destrancada a pauta, por conta de nossos valorosos compatriotas.

TEXTO-MEIO

Faço saber, a quem interessar possa, que atos contínuos fui chamado a Brasília pra assumir a pasta de Relações Interiores, a fim de disseminar fundão adentro, até chegarmos na renda mínima, o programa de distribuição de rendas.

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Faço saber, a quantos interessar possa correção ou corre-corre, que longe está de inexaurível o Fundo Monetário Nacional. Dizemo-lo porque assombra o desperdício de capital humano no Brasil. Este mesmo moço que desce o morro num carrinho de pedreiro improvisado de esquife, conduzido pelo fiel agente da Lei, 16 anos, A. P., pardo claro, não teria sido um grande monetarista? não estaria ajudando o País a sair da crise? Impaciente com a reencarnação em cenário mais promissor, queria tudo aqui e agora, rio de dinheiro correndo-lhe debaixo dos olhos. Não assim debruçado sobre si mesmo, mas de cabeça erguida, peito estufado, à altura dos flashes. Pegou em armas pra defender seu ponto de droga, como teria pegado em dados pra defender seu ponto de vista. Grande, sim, porque são os melhores. Os outros, sem demérito, formam com o povo ordeiro e cordato — o corpo da Nação. De que serve, porém, o corpo decapitado? A evasão de cérebros, posto literal, não será mal menor que a evasão de divisas. Tenho dito.

Cumpre oficiar ao ministro da Fazenda.

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Faço saber, a quem interessar possa, que ao contrário do que judica o leitor liberalão somos também par seu de ponderação, ou parceiro, senão mesmo companheiro de estrada… a pé, mas que fazer? Tome o tomé a prova viva do que predico — a encíclica de centro, a qual donativei misericordioso em portas de igreja, à moda de óbolo espiritual, a fim de ressuscitar a Democracia Cristã. Aspas:

Com sua demonologia do homem novo e mundo novo, (como se algo de novo existir pudera debaixo do sol) as ditaduras de esquerda massacram indiscriminadamente, ao passo que as de direita, mais seletivas, por amor dos humanos direitos, — ao Criador restituem exclusivamente os que se lhes opõem, os comunistas, pouco importando, a quem cultua a imortal alma, quão desfigurado, na remota hipótese de achá-lo, pode achar-se o corpo. Dado que não restam argumentos contra a divina Aritmética, cuja infalibilidade a de Sua Santidade emula, deduz-se não só a intrínseca superioridade moral das ditaduras de direita, senão, mormente, sua necessidade cíclica e encíclica.

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Faço saber, a quem interessar possa urna funeretrônica, que tem limite desbunde: tem gente que chega a votar!

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Faço saber, a quem interessar choça, que o que não dá mais pé é toda eleição topar na teleca de tv aquele filha-da-puta daquele barquinho do ca — do caronte subindo o último bracinho do Amazonas pra caçar o voto do último ribeirinho!

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Faço saber, a quantos interessar inda possa, que perdemos a traquitana da história e é de hoje não, faz tempo, foi no Oitocentos, quando tivemos chance de imitar nossas irmãs vizinhas, cissiparindo republiqueta sobre republiqueta. Quem que ia se importar conosco? quem que ia querer saber de findemúndio? A gente ia viver confortosamente lagartada em nossa monarqueteta de mãe. Mas não, quisemos crescer, ser grandes e ó no que deu, uma baita republiqueta marquetona a nos vexar no mapa-múndi, uma vergonha continental, incontinental!

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Faço saber, a quantos interessar possa desse povo marchista, posadista e demais sem-chão, que andam perdendo praia. Outro mundo é possível, mas é bem pouco provável.

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Faço saber, a quem interessar possa Redenção, que, socialista científico que somos, após anos e anos de acurado estudo e contensão, concebemos a sociedade ideal, sociedade em que — não o dólar, fosse a glória a moeda corrente. E não a vanglória de ser o maior do mundo, o mundo não existe, senão a glória de ser o maior da redondeza. Assim conviveriam perfeitamente bem tanto o maior plantador de arroz da redondeza quanto o maior calígrafo da redondeza. Talvez não contassem igual raio as redondezas… E é justamente aí onde mora o segredo do sucesso, ou o mistério da santíssima sociedade: a redondeza é imaginária, ou adnominal, filologicamente arrotando. Assim conviveriam perfeitamente bem os dois maiores plantadores de arroz da redondeza com os dois maiores calígrafos da redondeza. Ambos os dois, os três, os quatro, os quintos que fossem, tangenciariam um ao outro sorrindo à larga, a mão passando ao largo da própria redondeza, adnominal e abdominal.

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Faço saber, a quem interessar poço, que o homem, de fato ou sem fato, é um animal social — ou político, como gostam de cantar em coro os helenistas, ou os alienistas que sonham o fim da loucura humana numa futura Utópolis. Mas o homem carrega tanto igual do fardo oposto. Quantas vezes o antissocial, o antipolítico não quer saber de nada, de sociedade anônima, sociedade limitada, ilimitada! a família que vá plantar batatas, ou pior, vá comer fritas no McTolald’s! Quantas vezes o animal não quer tão-só se emburacar, quando não se esburacar a si e às demais toupeiras que se lhe apontam à boca do buraco!

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Faço saber, a quantos interessar possa, que dentro em pouco estará aberta a temporada de confraternizações. Espero que este ano facultem o uso de armas pesadas.

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Faço saber, a quem interessar possa, que decidi, duela a quem duela, criar nossa CPI — Comissão Pessoal de Inquérito, a fim de apurar farta denúncia de contravenções poéticas e pirotécnicas: 1.ª) prevaricação, mal dando ouvido ao pai-dos-burros; 2.ª) corrupção ativa, passiva e intempestiva, ornando e subornando tudo que é tipo de subordinada; 3.ª) enriquecimento ilícito, surrupiando pérolas ao pecúlio comum do mais que sagrado, consagrado e dessacralizado tesouro ocidental; 4.ª) falsidade ideológica, fingindo tola e visivelmente o que não é, e 5.ª) e última, a mais deletéria de quantas irregularidades comete o bacharéu, formação de esquadrilha — levantando fumaça onde não há fogo.

TEXTO-FIM
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Airton Paschoa

"Airton Paschoa publicou "Contos tortos" (1999), "Dárlin" (2003), "Ver navios" (2007), "Banho-maria" (2009), "A vida do pinguins" (2014), "Sonetos em prosa & Poemicos" (2015), todos pela Nankin, e "Poemitos (juvenília)", em 2013, pela Dobra."