A primavera Ròzá e a poética da revolução hoje

151230-Roza3

Baseada em cartas de Rosa Luxemburgo, peça que reestreará em 2016 sugere: é possível reabrir a hipótese revolucionária, mas ela será tecida de corpos, afetos, intimidade e desejos

Por Alana Moraes e Jean Tible | Imagens: Marília Scharlach e Olívia Niculitcheff

“Eu não tenho medo. Eu não tenho medo dessa ficção,
dessa mistificação mal feita para me diabolizar,
eu não tenho medo da sentença
que vocês vão me dar porque a minha liberdade,

essa minha liberdade interior ninguém vai tirar.

Nós somos os rebeldes pedindo pela tempestade!
Vocês, desde sempre, tentaram me proibir mas eu estou aqui de volta.
e eu vou falar:
A Liberdade é sempre a liberdade de quem pensa de modo diferente!”

(Trecho da peça Rózà)

TEXTO-MEIO

É preciso reabrir a hipótese revolucionária. Fazer da energia da revolução uma experiência viva, circulante, capaz de transformar e afetar outros corpos. Rózà faz transbordar os limites do diagnóstico, da denúncia ou das explicações. Responde com uma experiência estética que luta contra os congelamentos dos grandes enunciados: escapa por debaixo das narrativas, percorre caminhos densos, grandes arbustos – o som da floresta é o mesmo som da revolução, povoada de espíritos, caminhos desconhecidos e Rózà dança assim sob um solo extremamente fértil.

A partir das cartas da Rosa de Luxemburgo, a peça produz uma potente “poética da revolução”. Um percurso sensorial entre afetos, intimidade, desejos. Descongelar as grandes narrativas dos processos revolucionários é fazer a sensação de desconforto habitar as fronteiras do que é dito e do que nunca poderá ser: os limites da linguagem nos impõem esse desafio perpétuo de produzir desejos. E também fabricar pensamento. É preciso que a esquerda pense, diria o filósofo Deleuze. E pensar é abrir novos campos do possível. Em Rózà, vemos a política confundida com a paixão, a convicção revolucionária permeada de desesperos, ansiedades, sensações. Pensar com o corpo. Resistir ao grande divisor que aparta a vida da política. A hipótese revolucionária nos surge para os dias de hoje.
ROZA_2

A poesia prisioneira é uma arma de guerra: como um corpo aprisionado ainda assim consegue fabricar a liberdade poética capaz de “fazer vazar” potentes sensibilidades insurgentes de dentro do enquadramento entorpecido da prisão ? As poesias produzidas pelos presos de Guantanamo, diz o Pentágono, “representam um risco especial” e são por isso cuidadosamente censuradas. A criação conduzida pela exploração afetiva traça um novo agenciamento espacial e temporal. Nas praças, primaveras, levantes. De Kobane, Tahir, os indígenas contra a máquina extrativista, os Junhos, as mulheres: somos o grito do descumprimento. E lá está Rosa: nos sinaliza, nos acompanha, nos provoca : o que fazer depois do grito? É preciso insistir nas composições de (novos) movimentos, falar “opressores“!, assustar o poder.

Uma Rosa amante. A paixão aparece como uma flecha que percorre toda sua existência. Não há “tomada de consciência” em Rosa, mas uma chamada ao que mobiliza os corpos, espíritos, a paixão como a possibilidade de não ter medo: o que nos permite pensar mesmo em uma paixão contra a história porque é capaz de suspender todos os “determinantes estruturais”, as leis de ferro. A paixão, assim como a política, é em Ròzá a possibilidade criadora: mesmo o ‘possivel’ precisa ser criado, ainda não está lá, e por isso a urgência das imaginações, a poesia do pensamento.

Rosa judia. O desejo de reconhecer no outro uma humanidade irredutível e inegociável — não há pátrias, guerras nacionais, honras masculinas. Rosa está onde não se vê mais fronteiras, onde é possível se fazer em comum e em movimento. Rózà nos permite também experimentar esse espaço do “entre”: estar lá mas sem nunca ter deixado de estranhar. “Ontem então pensava: como é estranho eu viver permanentemente numa alegre embriaguês, sem nenhuma razão particular”. Rosa sem pátria. Rosa incendiária. Rosa Palestina.

Rosa-feiticeira. Em Rózà também experimentamos pensar a política através daquilo que não é humano. Os animais, plantas, odores — resgatar a dignidade daquilo que nos cerca, pensar com o mundo todo em suas diversas manifestações de vida. “Concedo-lhe todas as verdadeiras alegrias dos sentidos”. Alegria dos sentidos. Não perder de vista a potência do que é belo: pelo direito ao belo! O comunismo em Rosa é vermelho-encarnado, a experimentação de viver e lutar pela liberdade, um rio revolto que não cessa de correr, arrastando todas as formas de vida para a transformação do movimento contínuo. “Eu quero movimento, não um curso calmo da existência. Eu quero emoção e perigo e a oportunidade de sacrificar-me por meu amor” – nos fala Tolstoi.

Rosa Punk: “Não se apaixonem pelo poder!” A luta é o que produz o ritmo da revolução : poucos acordes, distorções. Rosa em Pussy Riot, no grito Punk contra as cristalizações da forma. Contra os dogmas e bíblias. A desobediência como possibilidade estética. “Estar dentro” e por isso: contra! Contra as vanguardas iluministas que descansam do lado de fora, no sossego de todas as suas certezas. Contra as burocracias, os homens do poder e suas planilhas. Rosa também é o grito contra todos os fascismos pedagógicos, contra as estruturas de domesticação dos nossos corpos. Como escapar?

Heiner Müller dizia que usar Brecht sem o criticar é trai-lo. Amor. Como compartilhar Rosa-luta em nossos tempos? Rózà é Rosa Luxemburgo. Rosa pop, Rosa contemporânea, Rosa comunista, Rosa mulher, Rosa judia, Rosa amante. São três rózàs em cena, porque Rosa é múltipla. Rosa que não cabe. Rosa nos permite pensar a revolução a partir das relações — destas relações que nos fazem. O sujeito revolucionário não é uma entidade pronta em busca de lugares seguros, mas é, ao contrário, uma composição de relações, desejos, afetos. Estamos nos fazendo, insiste Ròzá, e nossa feitura cotidiana é o que temos de mais potente.

Como sabemos, Rosa foi brutal e covardemente assassinada pelo fascismo então ascendente e seus cúmplices, mas vemos Rosa-rózà viva por toda parte. No êxodo dos migrantes-refugiados não vítimas mas heróis bíblicos em Mahamadou Cissé e sua poesia-luta
nas curdas que se armam e repelem o Estado Islâmico
na cantora yazidi Xate Shingali
organizando a brigada “Sun Girls”
em Helly Luv cantando a revolução
no Junho que se retraiu
mas continua nas lutas cotidianas, produzindo vibrações
nas “mulheres que são elas” e a emergência contínua de suas primaveras . A palavra tomada. As ruas nos são como rios!
nas Mães de Maio e outras tantas
denunciando nosso continuum genocida
em várias intensidades e em
suas desobedientes sensibilidades políticas
em suas rebeldias insubmissas
dos amores que se fazem existir – apesar das prisões, cercas, catracas.
Esse desejo de (r)existência que nos torna insistentemente livres.

“Nem que para isso a gente tenha que ir para a cadeia, que nos chamem de puta, vândala, vagabunda, cigana, judia, imigrante, comunista. Nada disso importa.
nós somos fluxos de desejos
no meio da tempestade
eu fui eu sou eu serei
E por isso eu digo.
eu fui eu sou eu serei
Eu não tenho medo desses infelizes!
Eu não tenho medo!” (trecho da peça)

http://rozaespetaculo.tumblr.com/

vídeo com refugiado Mahamadou Cissé colado

Helly Luv -revolution [colado]

Helly Luv – risk it all [colado]


Rózà
é um espetáculo multimídia construído a partir das cartas de Rosa Luxemburgo escritas, em sua maioria, nas prisões alemãs do início do século 20. Suas cartas são interpretadas por três atrizes diferentes e trazidas ao público por meio da palavra, do vídeo, do canto e da música na busca de uma relação sutil e particular entre o momento histórico e o contemporâneo. O público de Rozà é convidado a entrar em um espaço-instalação que reproduz ora uma casa, ora uma prisão, e acompanhar a trajetória desta personagem, compartilhando suas caminhadas e lutas. Rózà estreou no Festival de Curitiba em 2014 e esteve em cartaz na cidade de São Paulo na Casa do Povo. Em 2015 participou do Tempo Festival no Rio de Janeiro. Rózà entrará em cartaz novamente no primeiro semestre de 2016.

Rózà, direção de Martha Kiss Perrone, Joana Levi; Dramaturgia: Martha Kiss Perrone e Roberto Taddei; Atrizes : Lowri Evans, Lúcia Bronstein e Martha Kiss Perrone, Instalação Cenográfica: Renato Bolelli Rebouça

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.