A possível transição para agricultura ecológica

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Abertura do III Encontro Nacional de Agroecologia em Juazeiro, Bahia | Foto Renato Cosentino

Casal de agricultores fluminenses revela como tornou-se produtivo e sustentável ao abandonar venenos químicos, adotar policultura e vender em feiras orgânicas

Por Juliana Dias, editora do site Malagueta

Por que interessa à sociedade apoiar a agroecologia? Essa foi a pergunta que norteou o terceiro Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), realizado em maio na cidade de Juazeiro, Bahia. A questão foi debatida com trabalhadores do campo, técnicos, professores, pesquisadores, extensionistas, estudantes e gestores públicos. O encontro resultou numa Carta Política com reflexões e proposições para implementar uma nova maneira de produzir, distribuir, divulgar e consumir alimentos. O atual sistema alimentar, baseado no princípio do alimento como mercadoria, não considera o território, a cultura e as pessoas do lugar, reforçando desigualdades e injustiças, no campo e na cidade. Com isso, as escolhas alimentares ficam restritas à produção agrícola comercial e industrializada.

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Callado: mudança de mentalidade e práticas

A perspectiva agroecológica incorpora não somente a dimensão tecnológica, mas questões sociais, culturais e econômicas. Para Miguel Altieri (1987), “a agroecologia fornece os princípios básicos ao estudo e tratamento dos ecossistemas, tanto produtivos quanto preservadores dos recursos naturais, e que sejam culturalmente sensíveis, socialmente justos e economicamente viáveis”. Nos últimos 30 anos, esse modelo vem se apresentando como opção estratégica por oferecer respostas concretas para a superação da miséria, a saúde coletiva, a conservação dos bens naturais e do patrimônio cultural. Assim como os anseios da sociedade por uma alimentação saudável. É importante destacar que o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos no mundo.

A pergunta que norteou o ENA encontra resposta na trajetória do casal de agricultores agroecológicos José Antônio Callado, de 45 anos, e Beth Diniz Faria, de 42 anos. Ele nasceu em Duque de Caxias; ela em Magé, municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Conheceram-se quando a mãe de Callado comprou um sítio em frente à casa da moça. Esse ano completarão 25 anos de casados, com uma longa jornada dedicada à agricultura, passando da convencional, com o uso de agrotóxicos, para a agroecologia. Callado ressalta que os benefícios obtidos com o uso de adubos químicos, tanto em produtividade como em lucro, são ultrapassados pelos prejuízos de uma plantação devastada por pragas. Foi o que aconteceu com ele numa área plantada com aipim, que foi totalmente perdida para uma praga chamada jacaré.

No entanto, Callado afirma que nasceu com o dom de agricultor, e sua experiência demonstra a valorização do saber tradicional ao fazer a transição para a agroecologia. “Sempre gostei de conviver com os mais velhos, aprender a sabedoria dos antigos. Minhas amizades eram com pessoas de mais idade. Sempre foi meu interesse, um instinto. Hoje em dia entendo que sou um agroecologista de nascença. Fui descobrindo aos poucos”, conta.

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Foi exatamente essa habilidade para ouvir que capacitou Callado a reter e valorizar o conhecimento popular sobre o cuidado com a terra, e mudar o rumo de sua colheita. Essa escuta atenta lhe permitiu criar intimidade com a natureza. “O agricultor tem que aprender a escutar a mãe natureza. Ela ensina a toda hora, a todo minuto, a todo segundo. O único problema é entender a língua dela, mais nada”, ensina Callado. Ele deve à avó de Beth, Dona Maria Irene, os ensinamentos sobre como cuidar da lavoura.

Essa descoberta contou com auxílio de algumas pessoas e instituições, como a Emater, empresa responsável pela assistência técnica e extensão rural no Estado do Rio de Janeiro. Outro momento importante para encontrar sua origem e conseguir se manter no campo foram os cursos de capacitação promovidos pela ONG italiana CISV, há cerca de 8 anos.

Transição para a agroecologia

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Foto Carolina Amorim/ASPTA

Hoje, Callado é proprietário do Sítio Esplendor. O nome, aliás, é sugestivo para um homem que já foi veneneiro (utilizava somente adubos químicos), como gosta de dizer; sacoleiro; e vendedor de areia para lojas de material de construção. Pensou em desistir do sítio para procurar outro emprego, mas acabou transformando a terra seca em terreno produtivo, praticando a agroecologia. “Passei de monocultor a agricultor agroecológico. Antes, só plantava milho e aipim.” Agora, suas terras férteis dão batata doce, abobrinha, banana (vinagre/São Thomé Roxa e prata), tomate, milho, aipim, limão, palmito, feijão de corda, vagem, limão siciliano, pepino doce e outros cultivos.

A mudança de trajetória não se resume à troca por insumos agrícolas menos agressivos, como ocorre, em parte, com a produção orgânica. É uma mudança de mentalidade e de práticas. Em entrevista, Callado mostrou como funciona esse processo. A conversa começou com um passeio pedagógico à plantação, onde mostrou cuidadosamente como conduz sua lavoura, onde as interações ecológicas e sinergias dos componentes biológicos criam a fertilidade do solo, a produtividade e a proteção das culturas. É um exercício de paciência, perseverança. O agricultor é um mediador do equilíbrio do ecossistema, onde coexistem plantas, solo, nutrientes, luz solar, umidade etc.

Ele cita o exemplo da joaninha. Quando o agricultor convencional aplica um inseticida na plantação, os mais frágeis são os que morrem primeiro. As pragas são mais resistentes. “Até as caldas naturais podem matar as joaninhas. Quando preciso aplicar uma calda faço uma análise bem feita. Já perdi uma roça para a praga, mas não matei as joaninhas. Para uns (perder a roça), é prejuízo, mas eu olho o futuro. Não estava perdendo, estava ganhando porque hoje as joaninhas são abundantes em meu sítio”, ensina. As joaninhas são predadoras vorazes de pulgões, alimentando-se tanto da forma adulta quanto da larva. Uma única joaninha pode comer mais de 50 pulgões por dia.

Por esse motivo, esse inseto é frequentemente utilizado para realizar o controle biológico desta praga em áreas de cultivo agrícola. “O agricultor que usa veneno não tem paciência de esperar, principalmente os que dependem cem por cento do que produzem”, explica.

A visita seguiu para a parte mais alta do terreno, que antes tinha a paisagem marcada apenas pela monocultura citrus (laranja, tangerina e limão). Callado mostra com orgulho as técnicas e estratégias empregadas para restabelecer o equilíbrio natural em seu sítio. No cenário de monocultura vai sendo plantado cajá, seriguela, carambola e manga, como culturas perenes; e diferentes tipos de abóbora, culturas anuais.

O objetivo é mudar a paisagem, aumentar a diversidade e a qualidade do solo. Assim, é possível fazer a transição agroecológica de forma harmoniosa e com geração de renda. Em 2016, o agricultor faz planos de abrir uma escola de agroecologia para compartilhar saberes com consumidores de todas as idades, do campo e da cidade. “Vivo mil vezes melhor do que quando era um monocultor”, declara.

Feiras e consumidores

De acordo com Renata Souto, assessora técnica da AS-PTA, o momento é estratégico para a agroecologia. Ela destaca a criação das feiras agroecológicas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. “A agroecologia tem relação com experimentação, observação e convívio”, explica Renata. Callado é um dos agricultores que comercializam direto numa feira, a do Bairro Peixoto, aos sábados, em Copacabana, integrante do Circuito Carioca de Feiras Orgânicas. A esposa Beth faz licores de acerola, banana e morango. Callado, que gosta de ouvir, está atento aos anseios de seus clientes.

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Foto Carolina Amorim/ASPTA

Ele considera que 90% dos fregueses que vão à sua barraca são consumidores agroecológicos. Entusiasmado, cita exemplos de saberes que tem compartilhado sobre a lavoura, e percebe o interesse dos consumidores da cidade em conhecer mais sobre os alimentos. Como na plantação, há aqui também sinergia propícia para uma mudança de mentalidade, como propõe esse modelo agrícola. Renata justifica que as feiras agroecológicas são uma forma de democratizar o acesso ao conhecimento e ao alimento saudável, com preço justo. “Olhar para o valor final é uma questão importante nas feiras agroecológicas”, diz a técnica. Esses pontos de comercialização, assim como em outros locais estratégicos, dão autonomia ao agricultor para comercializar e facilitam o acesso do consumidor ao alimento saudável.

Callado e Renata estão afinados com as intenções da Carta Política do Encontro Nacional de Agroecologia, ao evidenciar que “o fortalecimento de alianças entre essas forças sociais vem criando condições para que as práticas e atores responsáveis pela produção, distribuição e consumo de alimentos saudáveis tornem-se mais visíveis, rompendo progressivamente com o monopólio da comunicação, imposto pela aliança entre o agronegócio e a grande mídia”. Na agroecologia, os processos de produção e socialização do conhecimento são reconhecidos e valorizados.

Questão agrária, central no século XXI

De acordo com o documento do ENA, a questão agrária se mantém com centralidade no século XXI. O modelo agrário/agrícola, que se apresenta como o que há de mais moderno, sobretudo por sua capacidade produtiva, atualiza o que há de mais antigo e colonial em termos de padrão de poder ao estabelecer uma forte aliança oligárquica entre as grandes corporações financeiras internacionais; as grandes indústrias-laboratórios de adubo, fertilizantes, herbicidas e sementes; as grandes cadeias de comercialização ligadas aos supermercados; os grandes latifundiários exportadores de grãos (Porto-Gonçalves 2006, p.243).

A transição para a agroecologia demanda investimento e financiamento. Nesse sentido, destaca-se a conquista da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO) e a Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (CNAPO), com a participação de governo e sociedade civil. No entanto, a promoção e a transição agroecológica dependem de políticas públicas voltadas ao fomento e ao crédito. Callado sugere que, para esse planejamento, devem ser ouvidos, em primeiro lugar, os agricultores familiares. “Não há projeto que faça a Agricultura Familiar parar de comprar veneno, enriquecendo a Monsanto, e mudar para a agroecologia, sem escutar quem lavra a terra”, declara. Depois da visita ao sítio, Beth nos ofereceu gentilmente aipim frito, daquela modalidade “manteiga”, que derrete na boca, acompanhado de um cafezinho e mingau de milho, com sabor natural de milho – um aconchego. O passeio e a refeição somaram-se à conversa na mesma sintonia, produzindo também entendimento a respeito da relação entre o rural e o urbano.

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Foto Carolina Amorim/ASPTA

Referências bibliográficas:
Altieri, M. Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável. 4a edição, Série Estudo Rurais. Porto Alegre, Editora UFGRS, 2004.
____Carta Política. III Encontro Nacional de Agroecologia. Juazeiro, Bahia, 2014.
Porto-Gonçalves, C.W. A globalização da natureza e a natureza da globalização. 2ª edição. Editora Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 2006.

Reportagem publicada no site da AS-PTA – agricultura familiar e agroecologia.

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Juliana Dias

editora do site “Malagueta – palavras boas de se comer” (www.malaguetanews.com.br), mestre em Educação em Ciências e Saúde pelo NUTES/UFRJ, e doutoranda em História das Ciências, das Técnicas e Epistemologia, na UFRJ. Pesquisa sobre alimentação, cultura e sociedade, tendo como eixo as áreas da educação e comunicação. É co-líder da associação Slow Food, no Rio de Janeiro, e membro do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea-Rio).