MTST: uma história das mulheres na periferia

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Livro recém lançado detalha como movimento articula os conceitos de feminismo popular para enfrentar as adversidades do país com maior número de empregadas domésticas do mundo e 6,8 milhões de pessoas sem moradia

Um texto das Mulheres da Coordenação Nacional do MTST


Prefácio do livro MTST 20 anos de história – Luta, organização e esperança nas periferias do Brasil lançado pela editora Autonomia Literária

A história do MTST é a história de mulheres e homens, rebeldes e radicais, que sobrevivem pela sua coragem, rompendo os tradicionais protocolos da política sustentada pelos podres poderes e reinventando, assim, suas histórias. Quem se arriscar a ler o livro “MTST 20 anos de história – Luta, organização e esperança nas periferias do Brasil” irá mergulhar nas histórias dos despossuídos de direitos e de bens e, ao mesmo tempo, possuidores de uma infinita fé que move corpos e mentes em busca da dignidade e da felicidade comum: a fé na luta.

O livro, escrito por um conjunto de militantes do movimento, retrata um pouco da imensa desigualdade que assola o país, da histórica e injusta concentração de riquezas que joga milhões de trabalhadores às margens da dignidade humana. A negação de um direito básico beira o absurdo: no Brasil, são aproximadamente 7,2 milhões de imóveis vazios e ociosos, e uma população de quase 6,8 milhões sem moradia, o que quer dizer que os sem-teto poderiam não existir se esses imóveis se transformassem em habitação. A sociedade brasileira é uma fábrica de fazer sem-tetos: eis a principal razão da existência do MTST.

A história do MTST também é a história de milhões de mulheres espalhadas pelo Brasil-periferia. Mulheres negras, pardas, brancas, jovens, mais velhas, mães, avós, tias, irmãs, filhas, esposas, amantes, amadas, companheiras e trabalhadoras pobres, oprimidas, violentadas, violadas, exploradas. Aliás, excessiva e continuamente exploradas. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, o Brasil é o país com maior número de trabalhadoras domésticas: são cerca de 6,7 milhões. Trata-se de uma das ocupações que as sem-teto mais exercem. Seria uma profissão como outra qualquer não fossem os abusos que elas enfrentam nas casas alheias, tais como a obrigação de trabalhar fora do período combinado, o exercício de outras tarefas – babás ou cuidadoras de idosos – , tudo encarado pelo patrão ou patroa como favores. Enfim, heranças do período escravocrata.

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Mulheres violentadas! O ciclo de violência é sistemático, perverso, difícil de sair, e são poucos os caminhos de acolhimento que o Estado oferece para nos libertarmos. Sofremos todo tipo de violência, muitas vezes dentro de nossas próprias casas. No ano de 2016, os dados da violência contra a mulher foram aterradores: a cada hora, 503 mulheres foram agredidas de alguma maneira, segundo estudo do Datafolha.

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Para se chegar a esse número, foram realizadas entrevistas presenciais em 130 municípios brasileiros com 4,4 milhões de mulheres, o que corresponde a 9% da população feminina acima de 16 anos. Do total de agressores, 61% eram conhecidos das vítimas, 19% eram namorados, companheiros ou cônjuges e 16% eram ex-companheiros. Em 43% dos casos, a violência foi cometida dentro da residência da vítima.

Além dessa violência que nos oprime, nos diminui, nos dilacera em todos os aspectos, ainda temos que encarar a falta de direitos. Quem não conhece uma mulher que não consegue trabalhar por falta de creche para os filhos? Diversos estudos demonstram que os salários das mulheres são menores e, muitas vezes, questiona-se a capacidade intelectual da mulher de cumprir as mesmas tarefas que os homens. Na política institucional, os dados também não são animadores: em um país onde as mulheres são 53% do eleitorado, o número de mulheres eleitas como prefeitas e vereadoras diminuiu entre 2012 e 2016. Mas não para por aí. Quem não conhece uma mulher que sofreu um abuso dentro de um ônibus, sem que nada acontecesse ao agressor? Quantos dos assédios que sofremos na rua são naturalizados?

Para mudar esse cenário, as mulheres ganham mais espaço na política, especialmente na política popular. No MTST, somos mulheres comuns, com alegrias e tristezas, encantos e desencantos, mãos calejadas, unhas feitas, batom vermelho e barro no pé. Também somos vítimas da sociedade machista, autoritária, patriarcal. Vítimas do fetichismo e do sexismo. E por isso lutamos! Somos Marias, Joanas, Luizas, somos todas que decidiram mudar seus destinos.

Quantas barreiras uma mulher periférica precisa ultrapassar para estar na luta? Além das dificuldades em ser mãe, trabalhadora e marginalizada, o que a mulher enfrenta para entrar na política, lugar tradicionalmente ocupado por homens? Não fossem as mulheres sujeitas, queimadas na fábrica, donas do ventre, queimando sutiãs, comandantes revolucionárias, duras e doces, com fuzil e flores, bravura e delicadeza… Não fossem as Dandaras do quilombo, as Marias do sertão, as Rosas da revolução, as Dorothys da Missão…

Não fossem as guerreiras que sustentam o dia a dia das ocupações e tantas outras esquecidas, estaríamos ainda saindo das costelas dos nossos amados.

No MTST, nossa prática política pretende apontar não para o “empoderamento”, que tende a ser uma descoberta individual para aumentar a autoestima, mas para a libertação, que é um descobrimento coletivo, a percepção de si no outro e na outra, com a compreensão de que mudanças só se perpetuam no tempo se forem estruturais, a partir dos nossos interesses enquanto classe, e tendo clareza de quem são realmente nossos inimigos. A prática política libertadora requer atenção à construção histórica, mas também às transformações no cotidiano. Ademais, a libertação das mulheres só é possível com luta social e envolvimento de mulheres e homens.

Por tudo isso, a luta por moradia tem um imenso potencial libertador para as mulheres. Somos a maioria: não temos direitos iguais, mas temos os mesmo deveres legais e, além disso, os deveres socialmente construídos.

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O livro também acompanha uma séria de quadrinhos sobre o movimento.

Dados do IBGE revelam que, em 2016, as mulheres eram referência familiar para 39,8% dos lares brasileiros. Esse número fala de mulheres que sustentam sozinhas todo um aparato para que suas famílias funcionem. Muitas vezes abandonadas por seus “companheiros”, essas mulheres trabalham em jornada dupla ou tripla, fora e dentro do lar, e ainda cuidam dos filhos e de parentes idosos. No caso das sem- teto, depois de tudo isso, elas ainda vão para o acampamento, onde assumem tarefas e responsabilidades dentro do projeto coletivo que é a ocupação: reuniões de coordenação e grupos, cozinhas coletivas, mutirões, entre outras atividades.

A luta por moradia é mobilizadora para as mulheres, pois é a luta pela sobrevivência e pela autonomia afetiva. Para nós mulheres, o lar não é um teto, uma renda, uma propriedade; o lar é a possibilidade de uma vida mais feliz. Felicidade não é luxo, não é uma compra de altas cifras. Para nós, trabalhadoras sem teto, a felicidade é prover e usufruir de um espaço agradável, digno, com a família que estabelecemos na vida, que pode ser com homem ou com mulher, com filhos ou com cachorros e gatos, ou simplesmente com nossa alma.

Enquanto a vida cotidiana na cidade é de sofrimento, a luta é a busca por essa felicidade. E mesmo quando a vida política destrói afetividades, a presença da mulher as reinventa. Nós, mulheres sem teto, encontramos em nossas ocupações significados maiores para nossas vidas, conseguimos compatibilizar o compromisso afetivo com o político.

Assim, a luta para nós no MTST é incrivelmente mágica e desafiadora. O feminismo popular que praticamos dialoga com os nossos camaradas, homens, companheiros de luta. Esse feminismo popular não é o que rotula, mas o que tenta quebrar rótulos. Não busca conceitos academicistas para explicar os efeitos das práticas machistas, mas soluções coletivas e reais. Constrói espaços e busca refletir sobre nossas práticas, por vezes machistas, tentando romper com a disputa feminina e alcançar espaço para todas. O feminismo que praticamos não é o que anula nossas qualidades femininas, mas o que reconhece nossas diferenças para com os homens e carrega para o mundo da política qualidades, instintos e aprendizagens femininas. Ser mulher, militante do MTST e ajudar a construir essa história é um desafio e um prazer imenso, pois através da inserção na luta, entendemos o quanto é maravilhoso e único ser mulher e o quanto as mulheres ajudam, mesmo em condições precárias de vida, a construir um mundo novo.

TEXTO-FIM

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