Morte da Filosofia e retorno do pensamento mágico

Retirar a disciplina da grade escolar sugere vê-la como inferior à  Ciência. Tal discurso implica, paradoxalmente, reduzir Ciência a magia e religião

Por Fran Alavina | Imagem: Henry Fuseli, Três estranhas irmãs de Macbeth (detalhe), 1875

Desde meados do ano passado, a questão sobre a retirada da Filosofia como matéria obrigatória da grande curricular do Ensino Médio foi ganhando maiores dimensões no debate público. Pode-se afirmar que um dos pontos altos deste aumento de dimensão tenha sido as tentativas perpetradas, em particular pela Folha de S.Paulo, de desmerecer a Filosofia como saber.

Primeiro, a divulgação dos esdrúxulos resultados de uma pesquisa que apontava as aulas de Filosofia na carga horária discente como principal motivo da queda de desempenho em Matemática. Depois, uma entrevista, indecisa entre o reconhecimento e a bajulação, na qual traçava um suposto futuro inequívoco para a Filosofia: sua morte. Disse o pesquisador que o jornal bandeirante entrevistou: “o que é objetivo da filosofia vai ser resolvido pela ciência, e a filosofia vai passar a história”.

Neste caso, é preciso considerar alguns elementos que fazem da entrevista em seu respectivo contexto uma audaciosa, porém, enganosa peça de propaganda. Não obstante, o entrevistado seja apresentado como um pesquisador internacionalmente reconhecido, ou seja, como alguém portador da inovação, ele repete uma cantilena comum, que está na boca “de 9 entre 10 especialistas” das ditas ciências exatas, naturais ou duras (que podem ser adjetivadas conforme o gosto do cliente) que ousam falar além do conhecimento de suas especializações. De fato, o critério do entrevistado para definir a morte da Filosofia é o progresso e a novidade, contudo ele nos fala fundamentando-se em uma dupla repetição.

TEXTO-MEIO

Além da cantilena de que a Ciência seja superior à Filosofia, ele coloca seu saber no lugar em que ele mesmo diz não está, pois na sua boca: a ciência regride ao estágio da magia e da religião. Um paradoxo, já que, segundo ele, o índice de veracidade da ciência é o progresso. Sua segunda repetição, por conseguinte, trata de fazer uso de antigas estruturas de pensamento, ele faz com que a ciência repita as estruturas de um pensamento mágico-mítico, ou seja, molde-se nas formas em que se apresenta o pensamento religioso. Que progresso é esse, que traz em seu enunciado velhas formas? Contradições de um saber vaidoso e que não reconhece outras formas de conhecimento que não seja aquelas tuteladas dentro de seus limites. Todavia, já não se trata de simples diletantismo pessoal.

De fato, ao enunciar o futuro de um saber, ele se comporta como um agente de práticas divinatórias. Sua colocação é um tipo de adivinhação, uma vez que se lança abertamente sobre o futuro. Que a ciência tenha se tornado um tipo de oráculo sobre a posteridade não é algo inédito, tal pode ser atestado até mesmo em seriados como black mirror. Ainda que não estejamos no campo da ficção confessa, tudo ocorre como se estivéssemos dentro de uma dessas séries. Desse modo, a Folha anuncia: “na entrevista (…) ele [o pesquisador] fala sobre o método científico e como se produz pesquisa de ponta – pesquisa que abre novos horizontes, traz inovações e tecnologias que serão a base para a sociedade do amanhã; pesquisa que permite à sociedade decidir de forma autônoma seu futuro”.

Novos horizontes”, “amanhã”, “decidir (…) seu futuro”: poderiam ser enxertos de um horóscopo matinal. Ora, aqui é como se o leitor estivesse sendo preparado para se encontrar com uma cartomante: a leitura do futuro não nas linhas da mão, mas nas linhas do jornal. Logo, a enunciação feita sobre a Filosofia é também um tipo de sortilégio que se lança contra um inimigo. Não por outro motivo, antes de lançar o sortilégio, o mago que se esconde por trás do cientista deve fazer uma divisão clara, literalmente a típica divisão “nós” e “eles”: “eu tenho o maior respeito pelos filósofos porque o objetivo da filosofia é o mesmo da ciência: explicar o mundo e a nós próprios. Agora, nós temos um bom processo e eles não têm, portanto estão fadados a desaparecer”.

O grau de certeza que o pesquisador expressa é semelhante aquele que pode ser lido nos cartazes que se encontram aos montes em postes e muros das metrópoles mais incrédulas: “Amarração para o amor: traz o seu amor em três dias!”. Atente nosso leitor que este exemplo não é uma ironia, embora alguém possa ter esboçado um sorriso. Como o feiticeiro urbano que garante um fato novo em um futuro imediato, o pesquisador também garante algo novo em um tempo próximo. Os fatos são diferentes, mas típicos de serem moldados nas estruturas do pensamento mágico, pois acostumados às mitificações: o amor e a morte.

Há uma diferença, contudo, entre os dois discursos. O mago urbano quantifica o tempo de seu progresso: 3 dias; já o reconhecido pesquisador não: seu sortilégio científico é generalista, ele não esboça nenhum número, apenas enuncia e deixa que o tempo se encarregue de consumar um fato que já está a ocorrer, posto que enunciado. Uma vez que o oráculo enuncia algo, é como se isso passasse da possibilidade ao ato, ou seja, o enunciado é já fato que vai se consumando, o tempo é apenas um mero fiador. Afinal, já estava escrito…

Daí que o pesquisador nos coloca diante de um quadro do destino: “estão fadados a desaparecer”. Era de se esperar que o pesquisador quantificasse melhor seu prognóstico, nos desse melhores medidas de suas expectativas temporais, nos desse então dados para que fizéssemos aproximações: não é em função da previsibilidade detalhada e segura dos fatos que se assenta a confiabilidade da ciência? O que seria da ciência contemporânea sem quantificações: os números de suas pesquisas, dados, gráficos e tabelas? Em geral, não são dignos de desconfiança os pesquisadores que ao defenderem suas teses não nos apresentam dados, quantificações ou experimentos? Ora, nada disso nos oferece o egrégio pesquisador entrevistado no jornal paulistano: não há um dado objetivo, uma tabela que mostre uma mísera razão de causa e efeito, um gráfico que nos mostre proporcionalidade entre avanço da ciência e desaparecimento da Filosofia. Há apenas um enunciado resultante de um raciocínio rápido que não é explicado, e tampouco é auto evidente.

Estamos então diante de um argumento pouco confiável, posto que afirmado sem contraditório ou liame de verificação. Desse modo, a confiabilidade que devemos dar ao mago urbano que promete amor em 3 dias não é menor que àquela que devemos dar ao sortilégio fúnebre do pesquisador. Os dois se alicerçam na confiança devotada a duas técnicas de gestão da imprevisibilidade do futuro. Por que então daríamos mais crédito a um do que ao outro? Ademais, do mago citadino se espera apenas o resultado, do outro esperamos números, dados que fundamentem seus prognósticos, embate de argumentos, mas isto ele não nos oferece. Daí que o sortilégio da amarração para o amor seja mais digno de confiança do que o mortuário prognóstico do pesquisador. Se o amor não aparecer em 3 dias, se pode ao menos reclamar com quem nos enganou; quanto ao pesquisador, ele já não estará mais entre nós para prestar contas de seu vaticínio.

O cientista, neste caso, o pesquisador e a entrevista jogam o tempo todo com uma ideia tipicamente religiosa: a ideia de promessa. Os cientistas tornam-se então um tipo de casta sacerdotal, pois estariam de posse de um primado. Sentencia o entrevistado: “os cientistas são os únicos que resolvem problemas (…)”. Assim como no pensamento religioso, o mundo é dividido entre puros e impuros, entre o sacerdote e o fiel, o cientista é, portanto, aquele que pode executar algo que somete ele pode fazer (“os cientistas são os únicos …”), tal como só o padre pode oficiar a missa e o pastor o culto. Se avançou o passo que separava o prognóstico da pregação, que delimitava as formas do conhecimento e da crença. Neste ponto da entrevista, após o vaticínio, já está lançado todo o encantamento, e a magia está no ar. Tanto que do meio para o fim, o pesquisador não falará sobre o destino da ciência e da filosofia, pois ele é agora o bom gestor: o mago das finanças. Nada atípico para o jornal de uma cidade que mitificou um mau político para chamá-lo de bom gestor. Ou seja, ocorre mais uma das mitificações contemporâneas que confunde pesquisar e empreender. É justamente desta confusão que se tira a pretensa nulidade das ciências humanas: elas não empreendem, dirão eles.

O manejo de uma especialidade singular confere ao pesquisador um poder único, que sendo só seu, semelhante ao poder especial de um super-herói, o projetaria como única voz confiável no campo do saber. Como na fé, o índice de veracidade é dado pela autoridade que profere o discurso. O leitor que pensa emprestar ouvidos a um discurso de ciência é tratado como um fiel: deve aceitar resignado a promessa que lhe é dirigida. É preciso então apressar a morte dos velhos hábitos para que a conversão ocorra e o sortilégio se cumpra.

Entra então o contexto em que a disfarçada propagada da Folha se realiza: para que manter na grade curricular um saber que está em vias de desaparecer? O mito de que a Filosofia não deve ser ensinada porque não serve para nada, não possui utilidade imediata, é trocado por algo mais radical: sua morte.

Como já não é mais tão fácil condenar e matar filósofos, assim como ocorreu a Sócrates e Giordano Bruno, tenta-se matar o exercício do pensamento por meio de um sufocamento. A tentativa de escrever um obituário precoce para a Filosofia revela sempre mais os incômodos que ela pode causar. Se de fato, a Filosofia tornou-se um saber irrelevante e está fadada ao óbito, qual o motivo de anunciar uma obviedade? Ora, não se trata mesmo de uma morte, mas de uma tentativa de homicídio. Este tipo de crime não suja as mãos de sangue, porém deixa grandes vestígios, rastros fáceis de serem seguidos e efeitos que nunca cessam. O pensamento mágico está sempre em busca de novos bodes expiatórios e agora parece ter encontrado mais uma vítima de seus sacrifícios: deixaremos que matem o pensamento e que nos sufoquem?

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.

Fran Alavina

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da USP. Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela Universidade Federal de Ouro Preto, UFOP.