A luta antifascista: um viés psíquico

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O que a prisão de quatro ativistas que lutam pelo direito dos imigrantes revela sobre a necessidade de enxergar e defender o outro, em tempos áridos

Por Christiana Paiva de Oliveira

Na noite da última terça, 2/5, em São Paulo, houve uma manifestação fascista contra a nova Lei do Migrante. Em contrapartida, um pequeno grupo que incluía brasileiros e estrangeiros foi ao local, no intuito de dar voz aos seus direitos, negados no ato feito pela extrema direita. O encontro entre os grupos causou diversos embates, e os envolvidos foram deslocados para o 78.º Distrito Policial (Jardins). Hasan Zarif (membro do movimento Palestina Para [email protected] e dono do restaurante Al Janiah, que acolhe refugiados), e os outros ativistas, que buscaram se opor aos fascistas, ficaram incomunicáveis por horas dentro do Distrito Policial, conforme o relato dos advogados Hugo Albuquerque e Rodrigo Saccomani, que acompanharam o caso de Hasan.

Por outra via, o grupo de manifestantes fascistas, mesmo tendo cometido agressões contra os palestinos e defendido abertamente práticas xenofóbicas, ambas condutas criminalizadas pela lei brasileira, recebeu todo o amparado das forças policiais, não sendo sujeitos a qualquer restrição ou acusação. Desse modo, como o fascismo encontra vias de se manifestar sem encontrar represálias, a luta antifascista visa resistir ao investimento violento e reassegurar as minorias atacadas, no intuito de garantir seus direitos. Afinal, a expressão higienista e xenofóbica do fascismo se manifesta através do ódio e mata, como fica claro quando se observam ações de grupos fascistas diversos, pelo Brasil e pelo mundo.

TEXTO-MEIO

Contextualizações:

O fascismo possui forte componente econômico e social. A desagregação de estruturas rígidas (família, patriarcado, religião) e a ascensão de novos protagonistas sociais fazem os antigos “donos” dessa sociedade partirem para um estágio de agressividade ainda maior, utilizando-se de todo o privilégio que desfrutam. Quando ele surge originalmente no contexto pós crise de 1929 é para reorganizar o capitalismo e as elites europeias sob um Estado autoritário, racista, higienista e especialmente anticomunista, ideologias pelas quais as classes dominantes brasileiras nunca esconderam sua atração.

É neste contexto que a luta antifascista se faz muito importante, porém, deve ser feita também sem ilusões. Ela muitas vezes pode soar como inglória e estará sempre na contramão do Estado, que, em uma sociedade capitalista, é instrumentalizado para servir a interesses da classe dominante, o que por sua vez, em momentos de crise aguda do capitalismo, assume moldes fascistas, agindo violentamente contra a população, retirando direitos, e utilizando a força do aparato policial para oprimir aqueles que se insurgem contra injustiças e desmandos.

80 years ago Historical pictures of the Battle of Cable Street – The fight against fascism. O fascismo, ao mesmo tempo que é um movimento de “massa”, também não é, pois é um movimento de elites, construído por elas e para elas. Por onde passou, Hitler governou por meio de golpes de estado e da usurpação das estruturas de poder, o que é feito com apoio e anuência das elites, as quais, não tendo força para fazê-lo por conta própria, necessitam de um mobilizador das massas, presente no fascismo para tal. Ao mesmo tempo que é importante não subestimarmos os fascistas, também o é não superestimá-los.

E a psicanálise, o que diz?

O ódio é uma paixão inerente ao ser. Nesse sentido, amor e ódio não são opostos, mas diferentes faces da mesma moeda, já que são movidos pelas paixões do ser. O oposto do amor é a indiferença, em que nada se liga ou se desliga. Por essa via, o ódio vem como paixão que ensaia uma elaboração para o desligamento através da destruição. No fascismo, há esse movimento através do aniquilamento das diferenças enxergadas somente no externo. Portanto, o fascismo é a expressão de ódio daquele que se apresenta como diferente, estranho ao eu.

Em 1919 Freud escreve sobre “o estranho”, que em algumas traduções pode ser compreendido como o estrangeiro – havendo dupla conotação nesse texto, tanto pelo que se refere ao diferente, quanto pelos imigrantes -, ligado a algo que vem de fora e afeta, um duplo que ameaça; é algo familiar que assusta. Ou seja, é enxergado no externo todo o mal que não pode ser identificado como pertencendo ao eu. Nesse sentido, o fascista projeta o que há de ruim em si nas minorias, auto afirmando-se como soberano. Por conta do medo que o estranho traz, há a hostilização ao invés da possibilidade de hospedagem daquilo que vem de fora, que fica identificado como ameaça. O ódio assume a forma de uma proteção, que ataca de maneira violenta a existência do diferente.

O ódio se liga ao desprazer, por isso é mais primitivo que o amor, já que este precisa primeiro reconhecer o externo, identificar as diferenças para, mesmo diante delas, implicar na importância da existência do outro para se assegurarn — diferentemente do ódio, que visa destruir porque o eu sente-se ameaçado. Com isso, o sentimento de ódio ganha palco através da atuação da violência. Ou seja, as raízes do fascismo atrelam-se aos estados mais primitivos do sujeito e são ampliadas pelos movimentos de massa – aqui é o momento em que a maioria se deleita.

Os movimentos de massa, visitados por autores como Freud e Reich alertam para as potências tanto construtivas quanto destrutivas que esses grupos podem gerar, via identificação. Um eu ameaçado pelo estrangeiro vira um eu fortalecido e protegido num grupo, principalmente quando esse grupo visa eliminar o diferente-assustador. Desse modo, abre-se espaço para identificações que cegam: o sujeito não pensa no outro porque o outro não pode existir se for diferente dele. Por isso é fundamental que a luta contra o fascismo se paute no pensamento, para dar contorno a uma luta bem estruturada. Pensar é o primeiro passo para combater o fascismo, pois a ausência do pensar é aquilo que mata.

Apesar de ser maioria em número, as minorias são assim denominadas por serem minorias políticas, oprimidas em suas expressões e necessidades. Em outras palavras, as minorias são vistas como desviantes do padrão “normal” – ser homossexual, negro, estrangeiro e etc. escapa à representação de maioria, identificada pelo ser homem, branco, hétero e nativo. Dessa forma, a supremacia identificada que regula as ações dos grupos fascistas se pauta numa maioria normativa, e, portanto, esvaziada, uma vez que envolve padrões que não dizem a respeito às particularidades do sujeito, só o representam como um todo-ninguém. Essa maioria vazia não encontra resistência na garantia de seus direitos nem represálias diante da exploração das minorias, sendo que estas, por outro lado, têm suas expressões subjetivas massacradas.

No fascismo, muitas vezes o medo que mobiliza o ódio transborda e atravessa o limite da vida do outro, não percebendo-o como alteridade, mas sim como um mal a ser combatido. Portanto, a consideração de opiniões diversas é fundamental para a estruturação de um diálogo que possa transformar a realidade, mas quando se trata de um discurso de ódio que viabiliza a violência e a eliminação do outro, abre-se espaço para o enrijecimento e a descaracterização das particularidades. Discurso que mata não é opinião, é opressão.

Assim, a luta antifascismo é uma luta que visa olhar para o sujeito e para as suas diferenças e reconhecer as potencialidades que habitam aí. É uma resistência frente a opressão e a violência, uma luta por pluralidades, de união de minorias.

Dessa forma, o lugar de fala nessa luta é uma farsa, pois visa o discurso individual sobre o coletivo. Ele opera de maneira similar à constituição de uma identidade majoritária, servindo à causa opressora. Isto é, ao propor-se como um instrumento para dar voz às minorias, reduz estas minorias às características comuns dos indivíduos que a compõem, achatando a concepção da coletividade. Muitas vezes tal postura silencia o outro pela vaidade, culminando no afastamento e dissipação do diverso. Essa soberania do eu sobre o outro é autoritária, já que obriga o outro a ouvir sem trocar, submetendo o grupo a quem detém o poder da palavra. A fala não é estática, ela circula, bem como o sentido das experiências. Por essa via, a luta coletiva necessita do contrário, que é a abertura ao diálogo e a possibilidade de trazer as próprias vivências para mobilizar o outro, enriquecer, para o outro se identificar por uma causa que não é sua, justamente por valorizar o diverso através da troca. A luta antifascista não é uma luta por identidade, e portanto estática, ela deve ser pautada nas potências transformadoras, no devir.

Desfecho:

Esse texto buscou caracterizar a luta antifascista como algo que viabiliza as ligações com o outro e com o pensar, no sentido de observar as divergências, incentivando e valorizando, dando importância à existência do outro.

Nesse sentido, a sensação de paralisia, revisitada muitas vezes por quem adere a essa luta, pode encontrar novos desfechos na possibilidade de transformar a impotência em garantias de direitos e ao asseguramento dos sujeitos, exemplos dados pelos advogados citados no início do texto. A luta antifacista se dá, principalmente, na atenção às necessidades e privações que são impostas às minorias, não na medida de uma identidade que as delimite, mas reconhecendo que estas necessidades e privações são reveladoras de nossas próprias vulnerabilidades – algo que Brecht descreve lindamente:

“Primeiro levaram os negros Mas não me importei com isso Eu não era negro Em seguida levaram alguns operários Mas não me importei com isso Eu também não era operário Depois prenderam os miseráveis Mas não me importei com isso Porque eu não sou miserável Depois agarraram uns desempregados Mas como tenho meu emprego Também não me importei Agora estão me levando Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém Ninguém se importa comigo.”

Há de se agir com força e resistência frente à opressão do Estado, que muitas vezes se une às milícias por se beneficiar de seu resultado violento e inibitório. Enquanto psicóloga, uma das maneiras de proporcionar a luta é dar voz ao estrangeiro, ao outro distinto que chega ao consultório e pede pela escuta, para que a fala ocupe mais do que só um “lugar”. Estes são exemplos de como a diferença pode se unir a uma causa comum. Lutar contra o fascismo é reconhecer o outro e dar voz à sua singularidade, viabilizando a transformação. A luta contra o fascismo é, também, fazer pequenas lutas diárias.

TEXTO-FIM
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Christiana Oliveira

Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP; Aperfeiçoamento em Sexualidade Humana pela USP​; Em Formação Psicanalítica pelo Instituto Sedes Sapientiae e ao Atendimento de Famílias Incestuosas pela USP. É Psicóloga Clínica e Acompanhante Terapêutica.