A ditadura e o ovo da serpente

Jovens que enfrentaram comemorações da ditadura, no Clube Militar, estão utilizando suas liberdades democráticas. Onde está a Comissão da Verdade?

Por Arlindenor Pedro

Embora ainda não tenha sido instalada, a Comissão da Verdade já tem causado muita polêmica. Aguardada com ansiedade por expressivos setores da sociedade, ela pode fechar uma chaga que já se arrasta desde o início do processo de redemocratização do país.

Vivemos num compasso de espera, pois dezenas de famílias ainda não tiveram acesso à verdade, e muitas nem puderam enterrar seus mortos. Foi dentro desse espírito que dezenas de manifestantes se postaram no último dia 29 de março defronte ao Clube Militar, no Rio de Janeiro, para protestar contra a comemoração do aniversário do Golpe de 1964, convocada por militares reformados que tiveram algum papel nesse triste momento da nossa história.

Centenas de jovens e antigos militantes da luta contra a ditadura reuniram-se nesse ato de repúdio, convocados por um video postado nas redes sociais pelo cineasta Silvio Tendler. Como ficar calado com tal afronta? Na verdade, esta história ainda não se encerrou e democraticamente o protesto é uma medida válida.

Os manifestantes expuseram a necessidade de remendar o prejuízo causado à vida de parentes e amigos. Deixaram claro, também, que a sociedade não mais aceitaria a repetição do que houve: um golpe de mão, perpetrado em nome das Forças Armadas, por um minoria de militares que sujou a honra dessas instituições que pertencem ao povo brasileiro.

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Arvorar-se como porta voz dos nossos militares é um escárnio que tem que ser rechaçado. Os que tiveram algum papel no golpe de 1964 se colocaram frontalmente contra o povo, pois rasgaram a constituição vigente e instituíram um governo ilegal, sem o aval dos brasileiros. Se havia discordância em relação ao governo, cabia aos opositores se organizarem através das instituições democráticas e conquistar a maioria através do voto. Nossas instituições militares são formadas com os filhos do povo brasileiro e eles são democráticos na sua formação.

Nunca poderemos apoiar golpes de estado, e o movimento de 31 de março não passou disso — uma quartelada instigada e apoiada pelo goveno americano. Mais do que isso: após derrubar o governo, esses maus brasileiros instauraram um período de terror e sangue como nunca se tinha visto na nossa história, arrastando o nome de nossas Forças Armadas para situações de ilegalidade e afronta aos mais elementares direitos humanos, com assassinatos, torturas e sequestros.

Nesse sentido, a Presidente Dilma agiu corretamente ao impedir que o Golpe de 1964 fosse comemorado nos quartéis. Ele nada tem a ver com nossas Forças Armadas, que lutan para se reconciliar com o Brasil e o seu povo. Desta forma, aqueles jovens que protestavam não eram baderneiros e sim patriotas, vigilantes dos valores democráticos.

Seu protesto repercutiu amplamente, tanto nas redes sociais quanto na chamada grande midia, que, como sempre, desqualificou o ato e classificou-o como uma ação de baderneiros. Atitude, aliás, dentro das suas tradições, pois não podemos esquecer que esses jornais instigaram os militares para quem quebrassem a ordem democrática — coisa que lamentaram mais adiante quando eles invadiram suas redações com censores e policiais.

Nas redes sociais foi interessante ver alguns militares adeptos do regime ditadorial divulgarem nomes de colegas seus que estavam no Clube e que foram hostilizados pelos jovens. Usaram como argumento o fato alguns serem reconhecidos como heróis militares, obtendo inclusive comendas de bravura. Desta forma estariam acima dos que os criticavam.

Ora, o fato de ser um herói militar não coloca ninguém acima da cidadania. No caso, estamos falando da atitude política desse militar que apoiou e apoia um regime discricionário que envegonhou a nação brasileira. Como herói militar, ele tem todo o nosso reconhecimento e honra pelas atitudes que tomou na sua carreira. Porém, aqueles jovens o hostlizaram pelo papel que teve — e que quer continuar a ter — na defesa da Ditadura de 1964.

É preciso entender que o Regime Militar de 1964 foi derrotado politicamente pelo conjunto da nação brasileira após anos de resistência e luta em todos os níveis. Na história mundial existem muitos casos de heróis militares que acabaram envergonhando os seus países. O caso mais emblemático é o do Marechal Pentain, heroi do exército francês, que entregou a França nas mãos dos nazistas. O que prevaleceu na história? O herói ou o traidor?

Caberá à história julgar esses vultos. Esse é, portanto, o papel que esperamos da Comissão da Verdade. Nada existe de revanchismo nisso. Aguardamos sua nomeação e gostaríamos que sua composição não fruste os anseios de um povo que não quer esquecer e exige saber a verdade. Cada um deve ocupar seu verdadeiro papel na história. É preciso acabar com essa feia tradição de sempre colocar o lixo embaixo do tapete. A verdade tem quer vir à tona, doa a quem doer.

Sabemos que, quando esses maus militares tomam a ofensiva, é porque temem o alcance dessa Comissão. Chocam, então, o ovo da serpente, pois querem ressuscitar o dragão da ditadura. Tentam nos lançar em uma situação semelhante à que foi retratada por Ingmar Bergman no seu genial filme “O Ovo da Serpente”, lançado em 1977.

Para isso, escudam-se nas nossas instituições militares querendo fazer crer que seus integrantes pensam como eles. Mas tenho certeza que elas os rechaçarão, fazendo o reecontro dos militares com o nosso povo.

Ja vivemos a falta de liberdade e a tragédia da ditadura e, ao contrario do filme de Bergman, não precisamos antever pela fina membrana do ovo da serpente o que se vai passar adiante, pois, infelizmente, já passamos por isso. Vem daí a postura de não deixarmos espaço para que se articulem idéeias de que esse período possa ser revivido.


Arlindenor Pedro é professor de história e especialista em projetos educacionais. Anistiado por sua oposição ao regime militar, dedica-se atualmente à produção de flores tropicais na região das Agulhas Negras. Contato: [email protected]

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Arlindenor Pedro é professor de história, funcionário público e especialista em Projetos Educacionais. Anistiado por sua oposição ao Regime Militar, atualmente dedica-se à produção de flores tropicais na Região das Agulhas Negras.