Teatro Oficina: Silvio Santos ataca de novo

A grande janela do teatro, essencial para o contato com o entorno, pode ser bloqueada por duas torres imobiliárias

Dois espigões de cem metros podem descaracterizar terreno histórico do teatro e emparedar construção projetada por Lina Bo Bardi. Zé Celso prepara arraial e maratona de resistência

Por Cafira Zoé*

Na última sexta-feira (25), o IPHAN-SP, deu parecer favorável ao projeto de Edifício da RBV, Residencial Bela Vista Emprendimentos Imobiliários Ltda., aprovando as últimas alterações feitas pela Sisan Empreendimentos Imobiliários — braço imobiliário do grupo Silvio Santos, para a construção de dois mastodontes de concreto de 100m de altura — além dos andares de estacionamento subterrâneo — no último chão de terra livre do centro de São Paulo, entre as ruas Jaceguai, Abolição e Japurá, no Bixiga, onde vive e respira o Teatro Oficina.

O processo para a construção do empreendimento imobiliário, que havia sido encaminhado pelo IPHAN em Brasília, para análise e posterior decisão para a Superintendência do IPHAN em São Paulo, teve o parecer favorável do relator Marcos Carillho.

O Teatro Oficina foi tombado em 1983 pelo Condephaat, quando o órgão era presidido pelo geógrafo Aziz Ab’Saber. Depois vieram os tombamentos nas instâncias municipal, Conpresp, e federal, Iphan. Continuar lendo

TEXTO-FIM

Revolta Lilith, a rebelião das mulheres

Depois de Rózà, Martha Kiss Perrone e Lowri Evans criam espetáculo que celebra mito feminino pouco conhecido, transitando pelo Gênesis, as acusações de bruxaria e as revoltas de secundaristas, lideradas por garotas

Por Redação


MAIS
Revolta Lilith
De 15 de março a 1º de abril (de quinta a domingo, exceto em 22/3)
Casa do Povo – Rua Três Rios, 252 – Bom Retiro – São Paulo

R$ 30 | R$ 15 | R$ 10 (moradores do Bom Retiro
Reservas: [email protected] – duração: 1h20 – classificação: 12 anos

Revolta Lilith é um espetáculo que celebra a desobediência das mulheres em diferentes tempos e espaços. A peça parte do mito pouco conhecido de Lilith, considerada a primeira mulher que viveu no Paraíso. Para alguns, ela teria sido expulsa e se tornado uma “demônia”. Nessa peça, Lilith foge do Paraíso, parte em exílio e organiza uma revolta.

Fruto do encontro entre 15 mulheres multi-artistas de diferentes áreas, a peça se concentra na fronteira entre a performance, o teatro e o cinema. O espetáculo se constrói em diálogo com a Gênesis, com debates religiosos, com documentos dos interrogatórios de acusação de bruxaria dos séculos XV e XVI, com os relatos das curdas em sublevação hoje, com o movimento de ocupações dos secundaristas em São Paulo e com as experiências de revolta das próprias performers em cena.

Mia Couto sugere costurar sonhos em terra devastada

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“Os Cadernos de Kindzu” são encenados em clima de mágico realismo, no Rio. Só um mergulho na fantasia pode salvar a vida, após terror das guerras civis

Por Wagner Correa de Araújo

Os Cadernos de Kindzu
De quarta a domingo, às 19:30h, até 18/12
Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Primeiro de Março, 66, Rio de Janeiro – Fone: (21) 3808.2020
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“O que andas a fazer com um caderno?
Nem sei, pai. Escrevo conforme vou sonhando.
E alguém vai ler isto?
Talvez. É bom ensinar alguém a sonhar…”

É assim, a partir da segunda parte do romance Terra Sonâmbula, do celebrado escritor moçambicano Mia Couto, que se estrutura a narrativa teatralizada pelo Amok Teatro na sua última concepção, titulada como Os Cadernos de Kindzu.

Escrito em 1992, o livro mostra uma terra devastada por uma década (1965/75) de guerras civis, capazes de tornar todos, vítimas ou carrascos, uma massa humana informe e desmemoriada. E onde, na tragicidade da inexorável predestinação de efeitos “sonambulizantes”, a única perspectiva de “futuros e felicidades” seria o visceral mergulho nos sonhos. Continuar lendo

Teatro Oficina propõe encontros Seminais

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Começam, em São Paulo, seminários da Universidade Antropófaga. Abertos ao público, apresentam e debatem linguagem desenvolvida em cada área de atuação do grupo

Estão sendo realizados no Teatro Oficina os encontros rituais “Seminais”, oito seminários abertos ao público para transmissão e troca de conhecimentos dos saberes da arte teat(r)al inspirada pela Antropofagia: direção de cena; audiovisual; iluminação; arquitetura e urbanismo cênico; comunicação antropófaga y mídia tática, atuação; desenho e engenharia de som e sonoplastia; música. Os seminários, já realizados nos dias 7 e 8, e ainda nos dias 13, 14 e 15 de dezembro, são resultado do trabalhos e pesquisas da 3ª Dentição da universidade Antropófaga, vinculados ao pragmatismo poético da preparação, montagem e dramaturgia de Bacantes, espetáculo que segue em cartaz no Teat(r)o Oficina.

A 3ª Dentição da Universidade Antropófaga tem o objetivo de refinar técnicas de atuação, dança, canto, artes visuais, vídeo, figurino, direção, arquitetura e urbanismo cênico, política, comunicação e filosofia com a antropofagia, como uma das linhas condutoras de pensamento e sua atuação concreta nas catástrofes do antropoceno. O projeto da Companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona em 2016, em parceria com a Petrobras, é a manutenção de sua sede e do núcleo transdisciplinar que atua neste espaço, num trabalho entre arquitetura e atuação.

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Teatro e dança para questionar os “produtivos”

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Foto: Raphael Poesia

Encenada na periferia de SP, após dois anos de pesquisa, peça vê na loucura uma das formas de rebeldia contra o controle e sujeição dos corpos, em nome de certa concepção de trabalho


“Sociedade dos Improdutivos”, da Companha Sansacroma
Até 10 de dezembro
Quinta à sábado 20h
Casa de Cultura M´Boi Mirim — Av. Inácio Dias da Silva, s/n, Piraporinha, São Paulo
(mapa) (11) 5514-3408
Entrada grátis (retire ingressos na bilheteria meia hora antes do espetáculo)

Apresentado agora na Casa de Cultura M’Boi Mirim, depois de circular por outros espaços públicos de São Paulo, o espetáculo Sociedade dos Improdutivos, da Cia. Sansacroma tem direção de Gal Martins e é o resultado de dois anos de pesquisa teórica e de campo sobre a loucura.

O questionamento central do espetáculo contrapõe o corpo que é socialmente invalidado ao corpo que é socialmente produtivo. O primeiro é marginal, portador de algum tipo de loucura. O segundo é medicado, incluído e sujeitado ao modo de vida capitalístico – corpo explorado até o esgotamento das suas capacidades produtivas.

Trata-se da invalidez da reprodução. Força invisível chamada de loucura, transcender coletivo. A não-adequação social produtiva. É solidão. É a história, um itinerário da loucura em fusão para um embate contra o capital. O controle ocidental contrapondo a corporeidade do imaginário africano. São vozes potentes, negras, de territórios e seus povoamentos. Um cotidiano dos que estão à margem e dos que não estão.  São vozes da “Sociedade dos Improdutivos”. Continuar lendo

S.Paulo: o Teatro tem uma proposta para o Centro

Um dos projetos para o Teatro-Estádio Oficina. Aqui, no Bixiga estaria um dos pólos do corredor, que se estenderia até a Praça Roosevelt

Um dos projetos para o Teatro-Estádio Oficina. Aqui, no Bixiga estaria um dos pólos do corredor, que se estenderia até a Praça Roosevelt

Em alternativa à especulação imobiliária, grupos articulados pelo Oficina, de Zé Celso, propõem um corredor-Teato, unindo Bixiga e Praça Roosevelt, fluxo de circulação de cultura, arte e política transformadora

No dia 8 de março de 2016, atuadores do Teat(r)o Oficina, da SP Escola de Teatro, dos Satyros e dos Parlapatões, Terreyro Coreográfico, conectando diferentes perspectivas culturais sobre a cidade de São Paulo, reuniram-se na sede do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona para pensar, juntos, a relação latente entre cultura, teatro e cidade — instigadas em grande parte pela licitação de ocupação onerosa/ edital de concorrência pública, proposta para os baixios do viaduto Júlio de Mesquita Filho.

Desse encontro emergiu a ideia de um grande Teato, nossa cobra-grande em escala urbana, que aconteceu no dia 19 de março. Tratou-se de uma ação de acupuntura urbana, para um espaço que precisa ser olhado a partir de sua diversidade como qualidades a serem consideradas em ações de empreendedorismo pela cidade. Habitantes e atuadores da cidade se conectaram, na potência de uma experiência estético-afetiva coletiva, para traçar um território cultural, que, acreditamos, se dê entre dois pólos magnéticos de São Paulo: o bairro histórico do Bixiga (Bela Vista), e a praça Roosevelt — fortalecendo nesse gesto a criação do Anhangabaú da Felizcidade.

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Zé Celso convida: “dar um Golpe no Golpe”!

Zé Celso, sobre a peça e sua repercussão: "Poucas vezes vi o Teatro Político tão Arte, tão vivo, tão revelador do Poder, até então reprimido, da Cultura"

Zé Celso, sobre a peça e sua repercussão: “Poucas vezes vi o Teatro Político tão Arte, tão vivo, tão revelador do Poder, até então reprimido, da Cultura”

Diretor reencena este fim de semana, em S.Paulo, peça de Antonin Artaud. Quer transformá-la em “Carnaval delicioso”, em “festa de justiça teatral somada a outras Milhares de Manifestações”

Por José Celso Martinez Correa


“PARA DAR UM FIM NO JUÍZO DE DEUS”
De Antonin Artaud e Teatro Oficina

Duas apresentações em São Paulo
Dias 30/4 (sábado) às 21h e 1º/5 (domingo)
Rua Jaceguai, 520 – Bixiga (mapa)

Retorna a SamPã neste fim de semana, depois de passar as duas últimas semanas em Brasília, com o ineditismo de uma peça que re-existe no quente da hora, sintonizada com os acontecimentos tragicômicos da Farsa Política do Golpe.

Nos meus 58 anos de Teatro, raramente viví o Poder Político Cultural do Teat®o tão intenso no prazer de Chanchar a Trágédia Golpista.

Um Público inspiradíssimo, ligado aos acontecimentos de cada dia, que lotava o Teatro da Caixa Econômica, nos fez virar a peça de Artaud, agora com as Máscaras dos Protagonistas armando o Golpe em nome de deus, num Carnaval delicioso.

Nem nos anos 60, com “Rei da Vela”, “Roda Viva”, sentí o Poder do Teat®o revelar uma peça como “pra dar um FIM NO JUIZO de deus” do Momo, do Palhaço de deus: Antonin Artaud, como um Jogo Tão desmistificador da Farsa que estamos vivendo no Brasíl.

Poucas vezes vi o Teatro Político tão Arte, tão vivo, tão revelador do Poder, até então reprimido, da Cultura.

Queremos fazer neste fim de Semana a peça no Teat®o Oficina, pois nosso desejo de justiça teatral é correr agora todo o Brasil enquanto o Golpe não se consolida, por termos a humilde pretensão de que “pra dar um Fim no Juizo de deus” pode, pelas Gragalhadas, ser um dos pontos somados a todas as outras Milhares de Manifestações.

dar um Golpe no Golpe!

Zé Celso alerta: Oficina e Bixiga ameaçados em SP

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Grupo Silvio Santos tenta erguer torres de cimento no terreno do teatro; e prefeitura leiloa baixos do viaduto em frente. Todo Espaço Urbano será entregue ao Capital?

Por José Celso Martinez Corrêa

Há 58 anos o Teat(r)o Oficina cultiva a cultura no número 520 da rua Jaceguay, no Bairro do Bixiga y seu entorno. Há 34 anos lutamos contra o massacre predatório da especulação imobiliária no bairro, baixado, incorporado, no capital do grupo Sisan, empreendimento imobiliário – braço armado da especulação imobiliária do grupo Silvio Santos.

A partir de 2010, quando o Teat(r)o Oficina foi tombado pelo Iphan, o próprio Silvio Santos colocou francamente a questão: “Já que a partir de agora, não podemos construir mais nada em nosso terreno, eu não desejo empatar o trabalho de vocês, nem quero que vocês empatem o nosso, proponho a troca do terreno de propriedade do grupo por um terreno da União do mesmo valor”.  Continuar lendo

SP: Estéticas das Periferias começa hoje

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Em cinco dias, mais de 150 atrações, encontro quer ser travessia das várias culturas e linguagens da cidade. Outras Palavras vai participar de cobertura colaborativa

Da Redação

Elementos da mistura cultural da periferia de São Paulo estarão reunidos nos próximos dias, com entrada gratuita. Do Auditório do Ibirapuera à Cidade Tiradentes. Em sua terceira edição, o evento Estéticas das Periferias, idealizado pela Ação Educativa, curadoria de diversos artistas, produtores culturais da cidade e cada vez mais parceiros, começa já na tarde de hoje.

Serão 43 espaços culturais, 40 deles nas periferias e subúrbios. Destaque para os 16 CEUS, 8 Fábricas de Cultura, os roteiros do Ônibus- Biblioteca, CCJ,CFC de Cidade Tiradentes e CC da Penha. Consequentemente, as atividades também se multiplicaram: serão mais de 150 atrações espalhadas por toda a cidade. Hoje tem Treme Terra, Ilú Obá de Min, conversa com Toni C, Sarau do Binho, oficina de literatura com Allan da Rosa, entre outras. Baixe aqui o PDF da programação ou acesse o mapa das atrações no site.

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Na abertura, peça “Orfeu Mestiço”, do Treme Terra, vai interagir com outros grupos musicais

Outras Palavras vai participar da cobertura colaborativa das atividades, junto com outros coletivos de mídia – Periferia em Movimento, Revista Vaidapé, Coletivo Campana -, indivíduos independentes, além da equipe da comunicação da própria Ação. Qualquer um pode participar escrevendo para [email protected].

Em manifesto, o encontro se expressa:

“‘A vida é diferente da ponte pra cá’, diz os Racionais MC’s.

‘Nóis é ponte e atravessa qualquer rio’, desafia o poeta Marco Pezão.

A ponte é ao mesmo tempo metáfora do encontro e da separação. A Mostra Estéticas das Periferias quer a travessia, de lá para cá, de cá para lá, depende de onde se está.

Buscaremos o fluxo, o encontro, o diálogo. Queremos explorar conexões e conflitos, armas tramas urbanas. Artistas do Centro e da Periferia: Uni-vos!”

Caminhando com teatro pelas ruas de São Paulo

Peça “Barafonda”

Grupos apresentam espetáculos itinerantes nos diversos cantos cimentados da cidade, e engrossam movimento de ocupação das ruas e locais públicos

Por Bruna Bernacchio

Nem só de palcos vive o teatro. Há apresentações que ocorrem na própria rua – como um passeio atento a uma cena, a uma paisagem -, e propõem alguma interação com a mesma. Seja na criação do espetáculo, utilizando o espaço real como cenário, abordando temas oriundos das regiões onde acontecem e relacionando-se com os moradores do entorno; seja na apresentação em si, que, espontaneamente, de improviso, conversa também com a cena real, única do momento em que ocorre aquela singular apresentação.

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